Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Os ‘novos’ nazistas

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Celebramos mais um dia dedicado à lembrança do Holocausto, quando 6 milhões de judeus, além de ciganos, comunistas, eslavos e homos sexuais foram trucidados pelos nazistas. A luta contra o esquecimento é permanente, pois a infecção foi debelada, mas a doença perdura. Há grupos neonazistas em atividade no sul do Brasil. Aqui mesmo em Manaus há manifestações antissemitas mal disfarçadas em combate ao sionismo, pregando a destruição do estado de Israel. Outro dia estava eu numa livraria quando um jovem, de biótipo indígena, pediu um exemplar do livro de Hitler. O livreiro respondeu que não tinha e ele passou a enaltecer a ideologia nazista e a atacar a comunidade judaica de Manaus. Não aguentei aquilo e perguntei ao livreiro se ele possuía na loja um espelho. Ele tinha e foi buscar, entregando-me a seguir. Chamei o rapaz e pedi que ele se olhasse naquele espelho e me respondesse se via ali alguém da “raça superior”. O rapaz não respondeu e saiu às pressas do recinto. A atitude do rapaz não me surpreendeu, pois o antissemitismo aqui é latente aliás, como o racismo em geral. Instituições insuspeitas, inclusive de ensino superior, toleram racistas em seus quadros. O próprio poder judiciário, quando não protege abertamente os racistas e antissemitas, faz pouco caso das ações que são movidas contra esses criminosos e inimigos da humanidade. Mas não precisamos ir longe ou recuar no tempo. Aqui mesmo nas nossas barbas as atrocidades de cunho racista são perpetradas contra os povos indígenas. O mesmo acontece em relação a grupos de imigrantes, como os haitianos. Fico indignado com a situação dos povos indígenas, ainda mais que a maioria desses povos vive no nosso estado. Grupos Isolados, que são aqueles povos que conseguiram escapar do contato com a sociedade envolvente, habitantes de regiões de acesso difícil, embora pouco numerosos, vivem plenamente o seu modo de produção, mas representam o elo mais frágil, já que um contato mínimo pode levá-los ao extermínio. Nos últimos anos temos assistido ao avanço do latifúndio e o cerco a esses povos. Já os grupos em contato intermitente, ou seja, aqueles que estabeleceram uma certa distância das frentes de penetração, mantém contatos esparsos, não comerciam ou dependem da sociedade envolvente e continuam a proceder segundo o modo de produção tribal, este estão sob ataque dos grileiros, ameaçados de perder suas reservas e, confesso, não tenho esperanças que sobrevivam. Nos últimos anos de governo petista, um partido que já teve no seu programa a defesa das sociedades tribais brasileiras, imprimiu uma política de conivência explícita com o agronegócio, ampliando a fronteira econômica para o interior da Amazônia.

Finalmente, temos o que chamam de integrados. Trata se de uma categoria discutível e um conceito cínico, que pretende representar aqueles povos que tiveram o seu modo de produção inteiramente quebrado e hoje vendem a sua força de trabalho como qualquer camponês ou operário. Esses povos vão rapidamente desaparecendo, não por estarem assimilados à sociedade envolvente, mas porque desapareceram literalmente enquanto nação, enquanto cultura e até enquanto criaturas humanas. Na verdade não existe integração possível, o que há é extermínio, genocídio, assassinatos em massa. É o nosso holocausto permanente.

*Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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