Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Por Amor ao Cinema

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No próximo dia 4 de abril estreia no Rio de Janeiro o documentário “Por Amor ao Cinema”, do cineasta amazonense Aurélio Michiles. O tema deste documentário é a vida de outro amazonense, Cosme Alves Neto, fundador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e um dos grandes batalhadores pela memória do cinema brasileiro. Para mim, lembrar do Cosme, meu amigo, é algo que sempre farei com prazer e saudades, se é que estes sentimentos podem estar ao mesmo tempo em nossos corações. Em 1962, o Dr. Cosme Ferreira Filho, bem sucedido empresário de Manaus, proprietário da firma holding Companhia Industrial Amazonense, que atuava em exportação de borracha, industrialização de guaraná, comércio e imóveis, achou por bem trazer do Rio de Janeiro seu único filho, na perspectiva de que ele viesse a assumir a frente de seus negócios. O Dr. Cosme, economista, líder empresarial, secretário de estado, era um dos homens mais ricos do Amazonas.

O filho era Cosme Alves Neto, que chegou logo em Manaus com o propósito de organizar na cidade o CPC da UNE. Naquela época, o maestro Nivaldo Santiago mantinha um curso de música, em duas salas do Teatro Amazonas, mas tinha ambições e chamava o curso de Escola de Artes Cênicas e Musicais do Amazonas. Cosme procura Nivaldo, e com o apoio de Luiz Ruas, poeta e crítico, além de padre católico, abrem um curso de cinema. Eu estava com 16 anos, escrevia umas críticas de cinema muito pretensiosas no jornal “O Trabalhista”, e fui atraído pelo anúncio da abertura do curso. Tímido e introvertido, lembro que dei quase dez voltas em torno do Teatro Amazonas, até criar coragem e entrar para me matricular. O curso tinha uns dez alunos, a maioria de professoras querendo certificado. Como eu andara lendo uns livros sobre cinema e colecionava o “Cahiersdu Cinema”, logo comecei a encher o saco do Cosme e do Ruas, meus professores. Mais tarde, o Ruas me disse que evitava entrar em detalhes sobre o cinema americano, pois tinha pouca memória para elencos e fichas técnicas, com receio de sofrer um reparo ao vivo e na frente da classe, por aquele adolescente magro e petulante. Quanto ao Cosme, já na primeira semana ficamos amigos. Ele tinha programado a exibição de “O Encouraçado Poternkin”, mas a cópia estava com legendas em inglês. Cosme falava fluentemente o francês e o espanhol, mas seu inglês era elementar. Por isso, a projeção do filme de Eisenstein ele estava preocupado porque não havia ninguém que fizesse a tradução das legendas, e isso dificultaria a sua aula. Ao começar a projeção, e vendo que as pessoas não estavam acompanhando o filme, comecei a traduzir as legendas. No final da aula, Cosme me chamou e fomos tomar café no bar do Pina, onde os intelectuais se reuniam.

Começava ali uma amizade de quatro décadas. É claro que Cosme não tinha vocação para empresário, mas o pai levou três anos para compreender isso. O lucro acabou ficando para o Amazonas. Entre 1962 e 1964, Cosme podia ser encontrado num escritório da Companhia Industrial Amazonense, na rua Guilherme Moreira, no centro de Manaus.

Quem entrasse no escritório, encontrava um Cosme atarefadíssimo, só que não exatamente com os negócios paternos, mas com a rotina do Grupo de Estudos Cinematográficos do Amazonas (GEC), que ele fundara com Ivens Lima, Joaquim Marinho,José Gaspar, Randolfo Bittencourt, Luiz Ruas, Guanabara Araújo, Si Iene Caminha e Freidà Bittencourt. Em 1964, Cosme deixou Manaus e foi viver seu destino, deixando para trás a fortuna de sua família. Nós, que aqui ficamos, mantivemos uma ponte de celuloide e fantasia a unir nossa amizade com ele. O celuloide das películas são a prova de fogo, a fantasia é a prova de tempo, e talvez por isso Cosme continue vivo para todos nós.

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