Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Presidentes e Presidenciáveis da República em Itacoatiara (IV)

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Presidente Getúlio Dornelles Vargas

Getúlio Dornelles Vargas. Advogado, nascido em São Boja/RS em 19 de abril de 1882. Iniciou na política como deputado estadual pelo Rio Grande do Sul (1909-1913 e 1917-1924) e a seguir foi eleito deputado federal (1924-1926). Com a posse do presidente Washington Luís, em 15 de novembro de 1926, assumiu o Ministério da Fazenda, permanecendo no cargo até dezembro de 1927. Foi presidente do Estado do Rio Grande do Sul (1928-1930). Em agosto de 1929 lançou-se candidato a presidente da República pela Aliança Liberal, tendo como vice-presidente João Pessoa. Derrotado nas urnas pelo candidato paulista Júlio Prestes, reassumiu o governo do Rio Grande do Sul, e articulou o movimento de deposição do presidente Washington Luís que culminaria com a Revolução de 1930. Após o exercício da junta governativa, Getúlio Vargas assumiu o Governo Provisório em 3 de novembro. Com a promulgação da Constituição de 1934, foi eleito presidente pela Assembleia Constituinte. Em 10 de novembro de 1937 dissolveu o Congresso e outorgou nova Carta Constitucional, dando início ao Estado Novo. Governou o País até ser deposto pelos militares, em 29 de outubro de 1945. Senador da República em 1946-1951, concorreu às eleições presidenciais de 1950, nelas recebeu 48,7% dos votos e assumiu em 31 de janeiro de 1951. Foi o presidente que mais tempo ficou no cargo em toda a história republicana do Brasil. Ou seja: o 14o no período 1930-1945; e o 17o presidente entre 1951 e 1954. Suicidou-se, no Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 1954

A ascensão de Getúlio Vargas à Presidência ocorreu pela implosão do modelo político que existia no Brasil durante a Primeira República, e concretizou-se efetivamente durante a eleição presidencial de 1930. A recusa do presidente Washington Luís em apontar um candidato mineiro para sucedê-lo, sinalizava o rompimento da política do Café com Leite. A indicação para presidente foi do paulista Júlio Prestes, o que desagradou profundamente os mineiros que passaram a conspirar contra o governo e, aliando-se às oligarquias da Paraíba e do Rio Grande do Sul, optaram por lançar a candidatura presidencial do gaúcho Getúlio Vargas.

A disputa eleitoral travada entre Júlio Prestes e Getúlio teve como desfecho a vitória do primeiro. No entanto, mesmo derrotados, membros da chapa eleitoral de Vargas (chamada Aliança Liberal) começaram a conspirar para destituir Washington Luís do poder, movimento que resultou na revolução iniciada em 3 de outubro de 1930 e concluída com a deposição do presidente no dia 24 de outubro. Uma junta militar governou o Brasil durante 10 dias e, em 3 de novembro de 1930, Getúlio assumiu o governo inaugurando a Era Vargas.

No início da Era Vargas (1930-1945) o Brasil contava aproximadamente 37 milhões de habitantes, dos quais 70% viviam na área rural. Nesse período, diversas leis trabalhistas mudaram o cenário social do trabalhador brasileiro, entre elas a jornada diária de oito horas de trabalho, a regulamentação do trabalho feminino e dos menores, a instituição da carteira profissional, do salário-mínimo e das comissões mistas de conciliação, além de outras sobre a organização sindical e patronal. Foram criados, também, os ministérios da Agricultura, da Educação e Saúde e do Trabalho, Indústria e Comércio. Outros órgãos, como o Departamento Nacional do Café, o Instituto do Açúcar e do Álcool e o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, são exemplos da reforma da administração pública que marcou a Era Vargas.

Os historiadores dividem a Era Vargas em três fases: Governo Provisório (1930-1934); Governo Constitucional (1934-1937) e Estado Novo (1937-1945).

No Governo Provisório, Vargas realizou as primeiras medidas de centralização do poder, ao dissolver o Congresso Nacional. Demais disso, a demora em realizar eleições e convocar uma Constituinte teve impactos em alguns locais do País, como São Paulo, que se rebelou contra o governo deflagrando a chamada Revolução Constitucionalista de 1932, que teve reflexos na Amazônia com o levante de Óbidos e a Batalha Naval de Itacoatiara.

O movimento foi sufocado pelas forças militares federais e, a seguir, Getúlio Vargas atendeu as demandas dos paulistas, nomeando para o Estado um interventor civil e natural de lá, além de garantir a realização de uma eleição em 1933 para compor a Constituinte, do que resultou a promulgação da Constituição Federal de 1934.

A nova Constituição trouxe novidades, como o sufrágio universal feminino. Junto da promulgação da nova Constituição, Getúlio Vargas foi reeleito indiretamente para ser presidente brasileiro entre 1934 e 1938. Na fase constitucional, o governo de Getúlio Vargas, em tese, estender-seia até 1938, pois o presidente não poderia concorrer à reeleição. No entanto, a radicalização política levada a efeito pela Ação Integralista Brasileira (AIB) e a Aliança Libertadora Nacional (ANL) motivou Getúlio a cancelar o pleito marcado para aquele ano. A AIB: grupo de extrema-direita surgida em São Paulo em 1932, inspirava-se no fascismo italiano e tinha como líder Plínio Salgado; e a ANL: grupo de orientação comunista que surgiu como frente de luta no Brasil e converteu-se em um movimento que buscava o poder pela via revolucionária, era liderada por Luís Carlos Prestes.

A Aliança Libertadora Nacional, inclusive, foi a responsável por uma tentativa de tomada do poder, em 1935, movimento que ficou conhecido como Intentona Comunista, deflagrado no Rio de Janeiro, Natal e Recife, mas foi um fracasso completo. Após a Intentona Comunista, Getúlio ampliou as medidas centralizadoras e autoritárias. A fase constitucional da Era Vargas estendeu-se até 10 de novembro de 1937, quando o presidente realizou um autogolpe e instalou um regime ditatorial no País.

O Estado Novo foi a fase ditatorial da Era Vargas e estendeu-se por oito anos. Nesse período, Vargas reforçou o seu poder, reduziu as liberdades civis e implantou a censura. Também foi o período de intensa propaganda política e um momento em que Vargas estabeleceu sua política de aproximação das massas.

No campo político, Vargas governou a partir de decretos-leis, ou seja, as determinações governamentais não precisavam de aprovação do Legislativo, pois já possuíam força de lei. Em seguida, o Congresso, as Assembleias Estaduais e Câmaras Municipais foram fechados. Todos os partidos políticos foram fechados e colocados na ilegalidade.

A censura instituída ficou a cargo do DIP, responsável por censurar as opiniões contrárias ao governo e produzir a propaganda que ressaltava o regime e seu líder. Para fazer a propaganda governamental, foi criado um jornal diário na rádio chamado A Hora do Brasil. Durante esse período, também se destacou a política trabalhista, ressaltando-se a criação do salário-mínimo (1940) e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1943. Os sindicatos passaram para o controle do Estado.

A partir da década de 1940, verificou-se um efetivo crescimento industrial com a entrada de capitais privados dos Estados Unidos no País. Em 31 de agosto de 1942, pressionado pelo governo americano e a opinião pública interna, o Brasil declarou guerra aos países do Eixo, enviando à Itália, em 1944, a FEB. A participação do Brasil no conflito, além de permitir o reequipamento das Forças Armadas brasileiras, contribuiu para a construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, com recursos dos Estados Unidos.

Todavia, a participação brasileira na Segunda Guerra e o desgaste desse projeto político autoritário enfraqueceram o Estado Novo perante a sociedade. Assim, demandas por novas eleições começaram a acontecer. Pressionado, Vargas decretou para o fim de 1945 a realização da eleição presidencial e, em 29 de outubro desse mesmo ano, foi deposto do poder pelos militares.

As eleições presidenciais de 1945 constaram com a participação do general Eurico Dutra, ex-ministro da Guerra do governo Vargas, concorrendo pelo PSD, do brigadeiro Eduardo Gomes, pela UDN, e do engenheiro Iedo Fiuza, pelo PCB. Eurico Dutra foi eleito graças às bases formadas por Getúlio Vargas. Empossado em 31 de janeiro de 1946, o general Dutra vivenciou as tensões e os problemas que marcaram o desenvolvimento da Guerra Fria, no cenário internacional. Internamente, teve como primeira grande ação, a convocação da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela edição de uma nova Carta Magna.

A nova Constituição brasileira foi promulgada em 18 de setembro de 1946. De caráter democrático, reafirmou as liberdades da Constituição de 1934 determinando a autonomia entre os três poderes e a realização de eleições diretas para os cargos executivos e legislativos estaduais, municipais e federais. Militares e analfabetos não poderiam votar, o voto feminino foi mantido e sua idade mínima reduzida para os 18 anos de idade, sendo que somente as mulheres que atuavam no funcionalismo público com cargos remunerados é que deveriam votar obrigatoriamente.

Chegando em 1950, os brasileiros preparavam-se para uma nova eleição para presidente da República, visto que o mandado do marechal Eurico Dutra terminaria no dia 31 de janeiro do ano seguinte. Mais uma vez, assim como em 1945, o cenário político nacional experimentava a carência de líderes políticos nacionais. De tal forma, o PSD ofereceu a candidatura do incógnito mineiro Cristiano Machado e a UDN apostou novamente no brigadeiro Eduardo Gomes. O PTB por sua vez, chegava à frente lançando o nome de Getúlio Vargas, que venceu com 48% dos votos válidos.

Reeleito, em 3 de outubro de 1950, Getúlio Vargas passou a governar um País que contava 53 milhões de habitantes. Esse segundo período presidencial foi marcado por uma política econômica de tendência nacionalista e que buscou conciliar as demandas populares com as exigências de aceleração do crescimento econômico.

No plano externo, o governo Getúlio Vargas recusou-se a participar da intervenção das Nações Unidas na Coréia do Norte e encontrou entraves à obtenção de recursos americanos em razão das críticas ao processo de remessa de lucros das empresas estrangeiras para o exterior, atitude reafirmada por meio do decreto de 4 de janeiro de 1952, que restringia essas remessas. No plano interno, sancionou uma nova lei do salário-mínimo e revogou a exigência de atestado ideológico para os sindicatos, que datava do governo Eurico Gaspar Dutra. Ainda foram criados importantes órgãos públicos, entre os quais: o IAPI, o BNDES e a PETROBRAS. Em 1954, Getúlio enfrentava a oposição da UDN, dos militares e da imprensa, representada em especial por Carlos Lacerda. Isolado politicamente, suicidou-se em 24 de agosto deixando o documento conhecido como Carta-Testamento.

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“Vim à Amazônia não por passeio. Vim para ver, para sentir, para compreender”.

Com essa frase, proferida aos 9 de outubro de 1940, o presidente Getúlio Vargas inaugurava uma viagem de três dias ao Amazonas gerando intensa expectativa no seio da comunidade estadual. Na véspera circularam notícias de que a Presidência da República encomendara estudos para um grande plano econômico capaz de operacionalizar o ressurgimento da Amazônia que, há muitos anos, desde a queda da borracha, vivia em situação de verdadeira penúria.

Havia a crença de que Getúlio

“[…] auscultaria as necessidades regionais e velaria por amparar os homens desprotegidos e abandonados do interior. […] A população confiava em que, da sua viagem ao Amazonas, adviriam dias melhores e mais felizes, com a concretização dos problemas regionais mais relevantes”.

A presença de Getúlio no território amazonense, por oportuna e intencional, ensejava-o a tornar factível seu compromisso com o progresso da região e o resgate da autoestima dos que nela viviam. Essa promessa ganharia foros de visibilidade a partir da segunda noite da visita do presidente, justo no jantar realizado em sua homenagem no Ideal Clube, em Manaus, quando, ao pronunciar o famoso Discurso do Rio Amazonas respondendo à saudação do interventor Álvaro Maia, relevou a importância da rede hidroviária no processo de desenvolvimento da Amazônia.

E falou nestes termos:

“[…] O Amazonas, sob o impulso fecundo da nossa vontade e do nosso trabalho, deixará de ser, afinal, um simples capítulo da história da terra e, equiparado aos outros grandes rios, tornar-se-á um capítulo da história da civilização”.

Mas, alertou ainda o presidente:

“[…] Tudo o que se fizera aqui, até então, constituía […] realização empírica [que] precisa transformar-se em exploração racional. O que a natureza oferece é uma dádiva magnífica a exigir o trato e o cultivo da mão do homem. Da colonização esparsa, ao sabor de interesses eventuais, consumidora de energias com escasso aproveitamento, devemos passar à concentração e fixação do potencial humano. A coragem empreendedora e a existência do homem brasileiro já se revelaram, admiravelmente, nas ‘entradas e bandeiras’ do ouro negro e da castanha, que consumiram tantas vidas preciosas. Com elementos de tamanha valia, não mais perdidos na floresta, mas concentrados e metodicamente localizados, será possível, por certo, retomar a cruzada desbravadora e vencer, pouco a pouco, o grande inimigo do progresso amazonense, que é o espaço imenso e despovoado”.

O discurso presidencial, longe de significar mera força de expressão, cedo passaria da palavra à ação. A “cruzada desbravadora” de Getúlio Vargas em prol desta região começaria efetivamente com a encampação da empresa de navegação inglesa Amazon River e a consequente incorporação de sua frota mercante ao patrimônio nacional, através dos SNAAPP – abrindo boas perspectivas à melhoria das vias de comunicação – e a criação do Banco da Borracha. Outros benefícios ainda adviriam da sua atuação governamental.

A viagem de Getúlio Vargas à Amazônia foi empreendida para cumprir uma antiga promessa. O presidente deixou o Rio de Janeiro na manhã de 5 de outubro, voando num avião Comodoro da Panair do Brasil, acompanhado do secretário da Presidência Luís Vergara, do ministro João Alberto Lins, do jornalista e servidor do DIP Hugo Mosca e dos membros do Gabinete Militar coronéis Benjamin Vargas e Jesuíno de Albuquerque e capitães Manoel dos Anjos e Flaviano Mattos Vanique. O avião presidencial, após várias paradas técnicas, à tardinha alcançou Belém.

Da capital paraense para Manaus a comitiva seguiu em dois aeroplanos. O principal, bimotor prefixo PP-PAG, trouxe o presidente, os demais nominados acima e o comandante da 8ª Região Militar, general Edgard Facó. O segundo, de menor porte, conduziu elementos da guarda presidencial; o publicista uruguaio Henrique Fabregati; o repórter norte-americano Hart Preston; e três servidores do DIP: o jornalista e redator Rivadávia de Souza, o cinematógrafo João Stonati e o fotógrafo Severino Nunes. As aeronaves escalaram em Belterra, onde Getúlio Vargas conheceu o projeto Fordlândia, do norte-americano Henry Ford, e a seguir Parintins e Itacoatiara.

Entre Gurupá e Santarém, o PP-PAG foi pilotado pelo próprio presidente Vargas, ladeado pelo piloto Coriolano Tenan. De lá até Itacoatiara, ele viajou sempre na nacele saboreando do alto o belo panorama da região percorrida. Em Parintins, enquanto a aeronave era abastecida, Getúlio Vargas desceu à cidade e, por quarenta minutos, atendeu inúmeras pessoas e recebeu cumprimentos de autoridades locais, à frente o prefeito Leopoldo Neves.

O hidroavião oficial aquatizou defronte ao porto de Itacoatiara e logo foi amarrado a uma boia cega instalada no meio do rio. O Presidente não desceu. Conduzidos pelo empresário Ilídio Ramos, gerente local da empresa aeroviária, foram a bordo cumprimentá-lo: o prefeito Alexandre Antunes; o vigário paroquial, padre Joaquim Pereira; o juiz de Direito Marcílio Dias de Vasconcelos; o promotor de Justiça Gaspar Guimarães Maia; o coletor federal Estácio Alencar; o presidente da Associação Comercial Néder Nassib Monassa; alguns políticos e os dirigentes do Núcleo 3 de Outubro.

A passagem de Getúlio Vargas por Itacoatiara, ali pelas 12:00 horas do dia 9 de outubro de 1940, foi anunciada por um demorado estalar de foguetões lançados de todos os pontos da cidade. Certamente, a não descida de Vargas à cidade decorreu de o presidente haver extrapolado sua permanência em Parintins, e então decidiu-se cumprir o protocolo priorizando Manaus. Cerca de uma hora depois, o PP-PAG subiu em direção à capital amazonense. Duas horas antes, lá aportara o avião precursor levando parte da comitiva presidencial e membros da imprensa.

O presidente e sua comitiva foram recebidos no porto de Manaus pelo interventor Álvaro Maia, pelo presidente do Conselho Administrativo Estadual Leopoldo Peres, pelo presidente do Tribunal de Justiça Hamilton Mourão, pelo comandante da guarnição federal e do 27º BC, coronel Joaquim Cardoso da Silveira, pelo capitão dos portos comandante Oldenato Moura, pelo prefeito Paulo da Grana Marinho, pelo bispo diocesano dom Basílio Pereira, outras autoridades e jornalistas credenciados.

Protegido por um grande aparato militar, ladeado por Álvaro Maia e pelo general Edgard Facó, Getúlio Vargas dirigiu-se para um palanque armado nas proximidades do Relógio Municipal, no início da Avenida Eduardo Ribeiro, onde foi saudado pelo prefeito. Dali, em automóvel, foi para a sede do governo estadual, e sempre acompanhado de “uma incontável multidão que o aclamava delirantemente”.

Em Palácio, Getúlio Vargas recebeu em audiência as principais autoridades federais, estaduais e municipais, inteirando-se dos problemas mais urgentes do Estado. Ainda, durante sua estadia em Manaus, recebeu várias homenagens; visitou repartições públicas e entidades cívicas e culturais; deu entrevista coletiva e recebeu os representantes do corpo consular; assistiu a desfiles cívicos e participou de almoços e jantares; dialogou com magistrados, com membros da OAB/Am e de associações operárias e esportivas. Porém, o ponto alto da programação foi o jantar de 212 talheres, na sede do Ideal Clube, na noite de 10 de outubro, quando proferiu o famoso discurso acima reportado.

Devido à agenda cheia, uma comissão de senhoras oriundas de Itacoatiara, liderada pela professora Luiza de Vasconcellos Dias, não conseguiu avistar-se com Getúlio Vargas, porém, fez entrega à assessoria presidencial de um abaixo-assinado rogando o apoio financeiro da União no sentido de que fosse construída uma estrada ligando esta cidade à capital do Estado. Apesar da simpatia com que o grupo foi recebido e do prometido encaminhamento do memorial, o projeto Estrada Manaus-Itacoatiara permaneceria esquecido e só década e meia depois retomado prá valer.

Sobre o assunto, escrevi em 1998:

“[…] em 1953, o fenômeno da enchente do rio Amazonas e seus afluentes fez ressuscitar o debate em torno da fixação do caboclo à terra firme: ratitificava-se, uma vez mais, a necessidade da abertura da floresta secular para fins de acesso e escoamento da produção agrícola. Um ano antes, o engenheiro José Edilson de Melo Távora [1921-1989], chefe do 1º Distrito Rodoviário Federal, em Manaus, havia levantado na IV Reunião das Administrações Rodoviárias, realizada em Recife/PE, a tese de que a estrada de rodagem era elemento indispensável à colonização do Amazonas. Depois dele, Cosme Ferreira Filho, um estudioso do setor primário e pioneiro em atividades de plantio de culturas permanentes suscetíveis de substituir o extrativismo, desencadeou uma campanha em prol da construção da rodovia. Em artigos que publicou em jornais e boletins da época, afirmou: ‘Necessitamos de caminhos terrestres de função recuperadora e imediata. E tais caminhos, para que tenham esse caráter e funcionem ativamente, precisam integrar algum sistema de comunicação […]. Sem que tenhamos atendido a esse imperativo, não nos parece razoável nem acertado correr em busca do desconhecido, ou agir na presunção de condições econômicas, cujo estabelecimento escapa à ação do governo e só se tornarão efetivas com o crescimento da população e sua expansão pioneira sobre regiões até agora desabitadas […] devemos cogitar do estabelecimento de uma ligação por terra entre os dois maiores centros urbanos do Estado: Manaus e Itacoatiara. Essa estrada, cuja construção será suficiente para incorporar uma administração e um homem do governo à história do Amazonas, como um de seus maiores nomes, teria extraordinária missão de dar consistência e seguro apoio à economia do Estado. Provocaria e determinaria uma concentração econômica no plano agrícola e industrial que serviria de sólido e definitivo alicerce ao nosso futuro […]. Para que o Amazonas possa adquirir consistência, conformação e configuração em qualquer plano, necessário seria unir esses membros isolados, essas partes funcionais do seu corpo por meio daquela espinha dorsal, cujo primeiro lance seria constituído pela rodovia Manaus Itacoatiara. Feitas essas considerações, não haverá porque deixarem as administrações amazonenses de tomar a iniciativa da construção [dessa] rodovia, para a qual seria aconselhável se fizesse um movimento de opinião pública nas duas cidades, movimento de caráter permanente e ativo, sob a forma de clubes, que tomassem aos seus cuidado impulsionar, sem desfalecimentos, a ação do governo com essa finalidade. Aqui deixamos essa sugestão aos responsáveis pelos destinos do Estado e às populações das duas cidades’. O Alerta de Cosme Ferreira Filho surtiu efeito: um clube foi fundado em Itacoatiara [em 7/05/1954] para manter acesa a chama da luta, panfletos foram distribuidos pelas casas residenciais e comercais; em Manaus amiudaram-se as publicações de artigos em jornais e as entrevistas através das rádios Baré e Difusora. [O clube itacoatiarense Pró-construção da rodovia dirigiu apelo ao então diretor-geral da SPVEA Arthur Cézar Ferreira Reis, ao ministro da Viação e Obras Públicas e aos membros da bancada do Amazonas no Congresso Nacional]. Afinal, em 1956, os trabalhos de construção da rodovia foram iniciados […], mercê dos vultosos recursos disponibilizados pelo FRN. A CERA tomou a dianteira dos serviços através de duas frentes: uma partindo de Manaus e outra de Itacoatiara”. Cf. SILVA (1965), LINS (1965), REIS (1967), SILVA (1998) e SILVA (2015).

Todavia, voltemos à descrição da viagem de Getúlio Vargas ao Amazonas…

Na sexta-feira, 11 de outubro de 1940, às sete da manhã, o avião presidencial decolou de Manaus rumo a Porto Velho, último roteiro da viagem ao interior amazônico. No caminho parou em Manicoré, à margem do Madeira. Cumprida a programação oficial previamente estabelecida, Getúlio Vargas regressou de Porto Velho no domingo, dia 13, fazendo pernoite em Manaus. E, na manhã do dia seguinte, seguiu com destino a Belém. Getúlio Vargas só retornaria a Manaus, em agosto de 1950, como candidato a presidente.

Segundo registros da imprensa, à época, no jantar do Ideal Clube Vargas assegurou que

“[…] o ingresso definitivo [do Estado do Amazonas] no corpo econômico da nação, como fator de prosperidade e de energia criadora, [ia] ser feito sem demora… Todos exultaram com as afirmativas de Getúlio, certos de que essas [palavras] seriam concretizadas muito em breve”.

Mas, para alcançar esse objetivo, ainda haveria sobressaltos. À época, o Amazonas devia mais de cem mil contos de réis, herança dos governos anteriores ao de Álvaro Maia. O presidente prometera ajudar a sanear esses débitos. Na capital federal, vozes agourentas afirmavam que essa quitação redundaria na transformação do Amazonas em território federal.

Por sorte, Getúlio jamais admitiu tal hipótese. Habilmente, presidiu a uma verdadeira revolução social, que transformou as estruturas republicanas e estendeu à Amazônia os benefícios de uma política pioneiramente integradora. Entre 1930 e 1945, conduziu as reformas de maneira lenta e gradual, o que atenuou choques e venceu resistências.

Em decorrência do programa de cooperação militar celebrado entre o Brasil e os Estados Unidos, a Amazônia recebeu vultosa ajuda financeira, possibilitando a restauração dos seringais e produção intensiva de borracha necessária à indústria bélica norte-americana.

Se, no período getulista, não ocorreu a “total redenção” do Amazonas, pelo menos seus setores de transporte, saúde pública e saneamento básico foram favoravelmente contemplados e a economia estadual como um todo ganhou novo alento, superando o colapso de décadas anteriores. São dessa época o SESP e o Aeroporto de Ponta Pelada, atual Base Aérea de Manaus. No campo administrativo, a volta de Getúlio Vargas ao governo do Brasil (1951-1954) assinalaria outros eventos importantes, particularmente favoráveis ao Amazonas, tais como: a ampliação da frota dos SNAAPP e a criação do INPA e da SPVEA. Primeiro governante a cuidar estrategicamente da Amazônia, suas muitas realizações em benefício dela credenciam-no ao título de grande, senão o maior, benemérito desta região em todos os tempos.

*Capítulo Quarto do livro Presidentes e Presidenciáveis da República em Itacoatiara, do Autor.

Obs. Este artigo teve suprimidas suas notas. A quem interessar a leitura do texto original, completo, pode acessar o link a seguir.

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