Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Solenemente atrasada

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Em março próximo o cineasta Silvino Santos vai receber uma grande homenagem em sua terra natal, Cernache do Bom Jardim, em Portugal. Redescoberto em 1969, durante o I Festival Norte de Cinema Brasileiro, o cineasta Silvino Santos só começou a ser reconhecido pelos estudiosos na última década do século XX. Por que demorou tanto? Minha hipótese vale para toda a produção artística do Norte do Brasil, ignorada solenemente pelo eixo formado pelo Rio de Janeiro, a antiga Corte e São Paulo, a província rica. Embora o velho eixo ainda resista, o anacrônico arquipélago regionalista que acreditava que não havia vida inteligente nos sertões nortistas começa a se estilhaçar.

O cinema que se faz hoje no Brasil é emblemático. Enquanto o cinema do Rio de Janeiro é um derivativo grotesco da Rede Globo de Televisão, e o cinema paulista definham os filmes do nordeste surpreendem e marcam o que de melhor está sendo criado no país. Por isso não é nenhuma surpresa que os historiadores e pesquisadores do cinema brasileiro comecem a considerar o papel de Silvino Santos, até para contrabalançar o fato terem gastos muita tinta para engrossar o número de pioneiros sulistas com certos cineastas que não conseguiram rodar nenhum filme. Na verdade o fenômeno Silvino Santos ainda está para ser estudado em todos os seus aspectos, a despeito dos magníficos trabalhos de Selva Vale da Costa e Narciso Lobo. Silvino Santos é a parte visível de um momento da indústria cinematográfica brasileira, já que o seu cinema, como assim foi o cinema da América, está ligado a uma empresa industrial, teve investimentos massivos de recursos, opções pelas mais avançadas tecnologias da época e canais de comercialização inovadores como nenhum outro pioneiro no Brasil. A firma J.G Araújo e Silvino Santos são exemplos completos de pioneirismo, numa história cinematográfica subdesenvolvida e sem planejamento, mais próxima do teatro popular que da indústria cinematográfica que se consolidava nos centros mais desenvolvidos.

Em Manaus, quando o frenético boom econômico do látex mostrava sinais de esgotamento, o empresário JG. Araújo acreditou no talento de um homem e na potencialidade do negócio do cinema. Entre 1920 e 1950, manteve um setor de Cinematografia na sua empresa, oferecendo “stock-shots” para os estúdios de Hollywood e da Europa, além de uma intermitente produção de longas e curtas metragens. Em que outra cidade brasileira o negócio cinematográfico durou tanto tempo? Por trás de tudo isto estava o talento artístico de Silvino Santos e a larga visão empresarial de seu patrão. O primeiro foi buscar em Paris o “know-how” e o segundo investiu em câmeras, laboratórios de revelação, moviolas e aparelhos de redução de 35mm para 16mm, além de sua estratégia de comercialização. Isto em plena crise que atingiu o monopólio da borracha, atravessando a I Guerra Mundial e a grande recessão dos anos 30. Nenhum produtor de cinema, nem mesmo um produtor diferente como LG. Araújo, poderia imaginar o quanto “No Paiz das Amazonas” se tornaria mais e mais importante com o passar dos anos.

De grande surpresa cinematográfica de 1922, até se transformar em mito nos anos 70 do século passado, o documentário de Silvino Santos escapou da fatalidade de resvalar para o esquecimento, como ocorreu com tantos filmes produzidos nos centros periféricos, especialmente os do período do cinema silencioso. O investimento de aproximadamente meio milhão de dólares, uma quantia que faria ruborizar até mesmo um Mogul de Hollywood, não fora feito para se pagar com bilheteria. A verdadeira intenção do investimento era a propaganda institucional, ou seja, registrar indelevelmente o nome da J.G Araújo entre os visitantes da Exposição da Independência, no Rio de Janeiro, em 1922. E ficou para sempre.

*Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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