Manaus, 30 de junho de 2026

Trajetórias Escolares de jovens no interior do Amazonas: Significados de acesso, permanência e sucesso, em Itacoatiara

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*Meiry Jane Cavalcante Rattes

Continuação…

4 OS AGENTES DA PESQUISA: TRAJETÓRIAS ESCOLARES DE JOVENS NO CONTEXTO DA AMAZÔNIA

Sou da floresta. Sou caboclo da Amazônia. Sou comedor de bodó, jaraqui e mapará.

Tenho o dom da convivência em harmonia, o saber da poesia e da cultura popular.

Trago a marca da mistura em minhas veias e os traços que me fazem universal. Trago a história refletida em meu semblante, a expressão da minha herança cultural. Sou caa-boc do Tupi, bicho do mato, sou das entranhas da floresta tropical. Eu sou das águas do maior rio do planeta, águas sagradas do Amazonas colossal. […] Canto a canção da bem-aventurança, miscigenada, misturada de alegria. Canto pro mundo como canta uma criança, com a esperança do raiar de um novo dia. Eu sou caboclo, filho de nossa Senhora, sou cantador e canto em teu louvor. Filho de junho, da fauna, filho da flora, filho das águas, da ternura e do amor.
(O Caboco – Segredos do Coração -Boi Garantido- (2024) Compositores: Fred Goes / Alder Oliveira).

A toada83 “O Caboco”, dos compositores Fred Goes e Alder Oliveira, apresentada no ano de 2024, por ocasião do Festival Folclórico de Parintins84 pelo Boi-Bumbá Garantido, retrata um pouco da identidade, do modo de pensar, de agir e as crenças do homem amazônico, na sua interação com a natureza, e de forma especial, na relação vital que estabelece com os rios.

Na Amazônia, os rios são naturalmente as estradas, por onde passam todos os tipos e tamanhos de embarcações, e simbolizam o meio de transporte mais comum, cuja utilização pela população serve para a sua locomoção diária no percurso da comunidade para a cidade e vice-versa. É na travessia do Rio, que a vida acontece, no movimento de acesso para a realização das múltiplas atividades que envolvem a rotina ribeirinha, desde o trabalho, compra e venda de sua pequena produção de alimentos (frutas, verduras, plantas, queijo, leite, entre tantos outros) da pesca, do entretenimento, e para o foco desta pesquisa, a locomoção para a escola. Estes elementos compõem a população cabocla amazônica e contribui para a compreensão de seu modo de vida, seu conhecimento tradicional, imbricado com o seu ambiente e lugar de moradia. “Nesse sentido, é preciso […] decifrar a fala do ribeirinho presente no mundo do trabalho, no mundo da organização social, na sua vida política, etc., construindo conceitualmente as relações que lhes dão sentido na lógica da vida social” (Fraxe; Witkoski; Pereira, 2011, p. 7).

Diante da imensidão da área territorial amazônica, o desafio de acesso torna-se muito maior, desde o período colonial os relatos dão conta desses desafios, pois são inúmeras as localidades existentes, e em algumas, o acesso é possível por terra ou estradas, em outras por rios, lagos, igarapés. No caso da comunidade investigada, o acesso só é possível pela travessia do Rio Amazonas, cuja navegação é complexa por várias razões, como a quantidade de água e pela força da correnteza, sem contar a presença de grandes rochas e pedras nos leitos demandam um tipo de transporte adequado, com conhecimento dos trechos com características próprias do Rio, associados à habilidade de quem faz a condução, ou seja, dos transportadores.

Como não poderia ser diferente, em razão das singularidades do modo de vida amazônico, a pesquisa foi realizada no período de um dos ciclos das águas do Rio Amazonas – a seca, e a letra da música eleita para abrir o capítulo incide exatamente sobre essa articulação com os elementos amazônicos. Tendo em consideração o objetivo desta parte da tese, que consiste em compreender os processos de mobilização pessoal, as estratégias e os investimentos familiares para o acesso e a permanência na trajetória educacional das juventudes na Amazônia, estes constituem o grupo de sujeitos aos quais nos dedicamos a partir de agora.

O último capítulo da tese destina-se a apresentar a análise, a partir do corpus de estudo, advindo do Grupo Focal com os estudantes do 3º ano do Ensino Médio, da Escola Estadual Deputado Vital de Mendonça, com base nos roteiros para a realização dos quatro encontros, com os oito (8) jovens que concluíram a Educação Básica nessa escola, no ano letivo de 2024. É relevante dizer que, quando iniciamos o primeiro encontro do GF em 2023, os estudantes cursavam a segunda série do EM; ao finalizarmos os encontros previstos em 2024, eles estavam concluindo a terceira série. O ingresso dos agentes da pesquisa ao Ensino Médio foi marcado pela pandemia e pela implementação do NEM.

O movimento de construção do capítulo parte das categorias que orientam este estudo:
Acesso, Permanência e Sucesso. Para uma melhor compreensão: A primeira categoria – Acesso – tem o objetivo de analisar a trajetória dos jovens, revelando a insuficiência no papel do Estado; A segunda categoria – Permanência – tem o propósito de analisar as condições materiais para a permanência dos jovens nas escolas, assim como os significados dados pelos concluintes da Educação Básica ao seu processo de escolarização. A terceira – “Sucesso”85 – nos remete à reflexão de que é fundamental compreender que, no interior de uma trajetória específica, há um conjunto muito mais amplo e articulado de elementos que se relacionam. As noções de sucesso e de fracasso escolar encerram o capítulo, na tentativa de desvelar as trajetórias dos jovens, no contexto da comunidade São Sebastião da Costa do Siripá.

As análises realizadas no capítulo permitem ainda conhecer quais são as estratégias utilizadas pelas famílias para a escolarização dos jovens e, nesse sentido, conhecer também os principais desafios em torno de suas trajetórias e suas ligações com a ação do Estado. Para tanto, são debatidas questões sobre o lugar das famílias no seu percurso de escolarização. Além disso, direcionando as análises para o contexto da comunidade em que vivem com destaque aos anseios por políticas públicas que lhes permita se dedicar à preparação escolar para gozá-la na sua plenitude.

A Figura 11, a seguir, apresenta um esquema das três Categorias de Análise para auxiliar na compreensão dos conceitos de Acesso, Permanência e Sucesso que marcam as trajetórias escolares dos jovens pesquisados.

Figura – 11 – Categorias de Análise

Fonte: Organizado pela autora (2025).

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83 Uma espécie de cantiga, música que compõe o álbum composto por várias músicas dos Bois de Parintins, anualmente.

84 O Festival Folclórico de Parintins é realizado anualmente e os Bois Garantido e Caprichoso foram reconhecidos como manifestação da cultura nacional pela Lei 14.960/24, sancionada pelo presidente da República. Junho é o mês do festival, e Parintins se transforma, dividindo-se nas cores azul e vermelho dos bois bumbás. O festival acontece em três dias e é palco de uma das maiores manifestações culturais da região norte do Brasil.

85 O uso das aspas justifica-se porque entendemos a, partir de Lahire (2004, p. 14), “[…] e sobretudo questionar a prática – muito criticada nos estatísticos – que consiste em juntar, uma mesma categoria, realidades consideradas diferentes, e que, logicamente, implica sacrificar sua singularidade”.

Continua na próxima edição…

* Meiry Jane Cavalcante Rattes é Doutora em Educação pela UFAM, com foco em Educação, Estado e Sociedade na Amazônia, e Mestra em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela UFJF/MG. Pedagoga de formação com especialização em Metodologia do Ensino Superior, possui sólida trajetória na Educação Básica e na gestão escolar, tendo atuado como gestora do Colégio Vital de Mendonça e professora em Itacoatiara, além de integrar o corpo técnico da SEDUC/AM.
Como pesquisadora, integra o Grupo de Pesquisa em Sociologia Política da Educação e é associada à ANPEd, onde participa do GT de Sociologia da Educação. Sua produção intelectual concentra-se em políticas públicas educacionais, juventudes na Amazônia e Ensino Médio, investigando as interseções entre o Estado e a Educação Básica.

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