A Academia Itacoatiarense de Letras (AIL) recebeu, entre os dias 23 e 27 de fevereiro de 2026, a 2ª. edição da exposição “Vapores da Borracha: Memória em Movimento” como um verdadeiro fórum de reflexão sobre a formação econômica, social e cultural da Amazônia. A mostra, coordenada pelo pesquisador Ricardo Nogueira, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, amplia o olhar sobre o ciclo da borracha ao deslocar o foco dos palacetes urbanos para os rios, protagonistas silenciosos da história regional.

A Geografia da Borracha e o Silêncio dos Vapores
A exposição parte de uma constatação historiográfica relevante: enquanto a riqueza produzida pelo ciclo da borracha ficou materializada na paisagem urbana, em teatros, casarões e edifícios suntuosos, a infraestrutura fluvial que sustentou esse processo permaneceu à margem da memória coletiva.
Conforme destacado no material da mostra, a chamada “geografia da borracha” foi composta por rios, portos, cidades e seringais interligados pela navegação fluvial, elemento estruturante do transporte de trabalhadores, suprimentos e da própria produção gomífera.
Os vapores, com seus apitos ouvidos ao longe, suas chaminés e colunas de fumaça, marcaram o cotidiano das populações ribeirinhas. No entanto, ao contrário das construções urbanas, essas embarcações desapareceram, naufragaram ou foram desmontadas. A exposição propõe, portanto, uma “emergência da memória”: trazer à superfície aquilo que enferrujou às margens dos rios.

O diálogo: ‘Navegação a vapor na Amazônia’ na Academia Itacoatiarense de Letras
Na noite do primeiro dia da exposição, 23 de fevereiro, a sede da AIL reuniu estudantes de Direito (Fametro) e Pedagogia (Ufam), acompanhados de seus professores, além de outros pesquisadores, agentes culturais, artistas, membros da comunidade e parte da equipe técnica da mostra a fim de discutirem o tema com os palestrantes, o Dr. Ricardo Nogueira e o Dr. Francisco Gomes da Silva.
O diálogo “Navegação a Vapor na Amazônia” debateu acerca da concepção histórica do período estudado e o papel estratégico do transporte fluvial na consolidação do território amazônico.
O coordenador geral da exposição, Dr. Ricardo José Batista Nogueira, professor do Departamento de Geografia da UFAM, é reconhecido por sua produção acadêmica voltada à compreensão do Amazonas como “Estado ribeirinho”, título inclusive de uma de suas obras de referência (NOGUEIRA, 1997).
Sua abordagem enfatiza a centralidade dos rios na organização econômica e política da região, defendendo que compreender a Amazônia exige compreender sua lógica hidrográfica.

Ao seu lado, o historiador Dr. Francisco Gomes da Silva, escritor renomado de Itacoatiara e referência na pesquisa da história regional, chamou a atenção com reflexões sobre a articulação entre navegação, comércio e formação urbana. Autor de obras dedicadas à memória histórica do município e do Médio Amazonas, Francisco Gomes alia-se ao papel fundamental de manutenção da historiografia local, dialogando com uma tradição que inclui autores como Samuel Benchimol e Antônio José Souto Loureiro, também presentes nas referências de ‘Vapores da Borracha’.
Ainda na noite do diálogo, Francisco Gomes contextualizou a implantação da navegação a vapor no Amazonas à luz do projeto modernizador do século XIX, destacando a atuação da figura de Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, responsável pela criação da Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas. A iniciativa de Mauá representou um marco na integração econômica da região, permitindo a circulação sistemática de mercadorias, trabalhadores e informações pelos rios amazônicos. Ao recuperar essa conexão histórica, o historiador reforçou como Itacoatiara e outras cidades ribeirinhas se desenvolveram inseridas nesse amplo processo de modernização.
O debate abordou também que a navegação a vapor não foi apenas um meio de transporte, mas um mecanismo de integração regional, circulação de ideias e mobilização de redes comerciais transnacionais que atravessavam fronteiras, particularmente no bojo da conhecida ‘Belle époque’ brasileira.

A Dimensão Acadêmica e Institucional do Projeto
A ficha técnica revela a robustez acadêmica da iniciativa. Além da coordenação de Ricardo Nogueira, a equipe reúne: Roberta Kelly Lima de Brito, historiadora e autora da obra Vapores de Mauá: a Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas (1852-1871) (2023), referência contemporânea sobre o tema; Pesquisadores vinculados à UFAM; Designer e técnica especializada; Apoio institucional da Prefeitura de Manaus, Manauscult e Governo do Estado do Amazonas.
A presença da historiadora Roberta Kelly na equipe reforça o diálogo entre pesquisa acadêmica recente e divulgação científica, ampliando a densidade historiográfica da exposição.

A Participação dos “Imortais” e o Compromisso Cultural
Entre os presentes no diálogo, estiveram os imortais da Academia Itacoatiarense de Letras: os professores Antonio Valdiney, Izidoria Amorim e Marusca Wisler, o poeta Edval Meireles, o pesquisador Dr. Claudemilson Nonato de Oliveira, o cientista social Eder Gama, o presidente da AIL, Salomão Barros e o seu vice, o escritor Floriano Ferreira.
Em declaração, representando a AIL, sintetizamos a relevância de ‘Vapores da Borracha’:
“Esse trabalho do Dr. Ricardo Nogueira, recuperando a memória da navegação em rios amazônicos, alia-se à política da AIL do campo histórico-cultural, e soma-se aos escritos de nosso historiador Francisco Gomes. Traz à tona inúmeros aspectos que merecem estudo e discussão. O público deve aproveitar essa experiência!”
Memória, Patrimônio e Formação de Consciência Histórica
Mais do que uma exposição documental, ‘Vapores da Borracha’ configura-se como intervenção historiográfica e pedagógica. Ao deslocar o olhar da arquitetura monumental para a infraestrutura fluvial, a mostra questiona as hierarquias tradicionais da memória.
A iniciativa também fortalece o vínculo entre universidade, poder público e sociedade civil, promovendo um espaço de formação crítica, especialmente relevante para estudantes que passam a compreender que o desenvolvimento amazônico foi construído sobre redes fluviais complexas e, muitas vezes, invisibilizadas.
Em um momento em que se debate sustentabilidade, identidade regional e políticas culturais, a exposição deixa claro que revisitar o passado é condição para compreender os desafios contemporâneos da Amazônia.

O emblemático local da exposição e o encerramento do evento
A sede da AIL, o antigo palacete do Coronel Lima Verde, herança da época áurea da Borracha, tinha que abrigar ‘Vapores da Borracha’ por razões evidentes de sua ligação com tal história. Do interior do palacete se absorve a atmosfera do tempo em que ali se reuniam os atores e o contexto dos séculos passados. Dali de dentro, de suas sacadas e janelões se vislumbra a capela de São Francisco, que fora erguida pelo mesmo proprietário primeiro da atual casa das letras. Durante os dias da exposição, a AIL recepcionou um público diverso de alunos da escola básica, discentes e docentes universitários, escritores, pesquisadores e populares. Aconteceu uma segunda roda de conversa com estudantes de enfermagem, comandada pelos imortais Marusca Wisler, Floriano Ferreira e Salomão Barros. E na tarde do último dia, 27, o evento foi concluído com a palestra do imortal Dr. Claudemilson Nonato de Oliveira, que discorreu, com alunos e professores da tradicional Escola Vital de Mendonça, acerca da relação de Itacoatiara com os vapores, perpassando pelo período regencial no Brasil, a política estadunidense, a memória da escravidão e a origem do bairro da Colônia de Itacoatiara.

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