
*José Lins
“Estrada Manaus Itacoatiara”, obra de José Lins, é aqui republicada em série com a devida autorização gratuita do Governo do Estado do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, Departamento de Gestão de Bibliotecas (DGB) e seu Centro de Documentação e Memória da Amazônia (CDMAM). A republicação tem fins exclusivamente históricos e culturais.
EDITADO PELO GOVÊRNO DO ESTADO DO AMAZONAS
Secretaria de Imprensa e Divulgação
Palácio Rio Negro
Continuação…
De 1953 1956
III
“Fiéis ao compromisso que assumimos, qual o de manter acesa a chama do interêsse coletivo pela construção da rodovia Manaus-ltacoatiara, aqui nos encontramos, de novo, armados do mesmo propósito de estimular as correntes de opinião pública a favor dêsse empreendimento.
Ao iniciarmos, porém, esta terceira investida, não o queremos fazer sem primeiro registrar nossos aplausos a oportuna sugestão apresentada pelo sr. Sebastião Mestrinho, na “A Gazeta” de 4 do corrente, quando esse esclarecido patrício lembra a fundação, nessa cidade, de uma sociedade ou clube, destinado a alimentar o movimento pela construção da referida rodovia, a exemplo de como procederam destacados elementos de tôdas as classes, na vizinha cidade de Itacoatiara. Nada mais acertado do que essa concentração de vontades e esforços, para emprestar maior vigor à campanha que visa, sobretudo, manter em excitação as esferas responsáveis pelo realização de obra de tal magnitude.
Embora interessando a rodovia Manaus-Itacoatiara à totalidade dos que residem ou empregam suas atividades no Amazonas, seria justo que a prioridade dessa iniciativa coubesse aos filhos da tradicional Serpa, que são aqui numerosos e sobremaneira destacados, tanto no plano econômico como no social e no político.
Que a idéia ganhe expressão e velocidade, fundando-se a sociedade ou clube de apoio à construção da rodovia Manaus-Itacoatiara.
Quando de nosso segundo artigo de preconício à construção da artéria rural ligando as duas principais cidades do Amazonas e beneficiando vasto área de terra agricultável, afirmamos que a idéia dêsse empreendimento não ero nova e já havia sido cogitação de outros estudiosos dos nossos problemas econômicos.
Em comprovação dessa assertiva, passamos o transcrever trechos de um estudo, sob o título “Colocação no Amazonas dos flagelados do Nordeste”, publicado nesta capital, em 1919, de autoria do então acadêmico de Direito da Universidade de Manaus, sr. Dornellas Câmara. São conceitos valiosos, através dos quais é feito um balanço das vantagens e, quiçá, da necessidade de se construir a rodovia Manaus-Itacootiara, como única forma de se emprestar consistência à economia do Estado. Assim se expressou, em 1 919, o sr. Dornellas Câmara.
“Pensemos numa estrada de rodagem de Manaus à cidade de Itacoatiara, aproximando-nos, através de terras de excepcionais qualidades para a agricultura, de uma população de doze mil almas, cuja valia, até hoje, em nado temos aproveitado, como se se tratasse da Mongólia ou do Tartária”.
“Depois de Manaus, é Itacoatiara a mois importante cidade do Estado e a mais próxima da Capital; encravada à margem esquerdo do Amazonas, em terreno alto, numa planície bela e vasta, de excelente clima, recomendável pela sua salubridade, podendo abastecer-se da mais fina água potável, captada do rio Urubu, que lhe fica próximo”.
“Fazem-se grandes plantações de diferentes cereais por quase todo o município pelas margens de seus piscosos lagos e igarapés, ressaltando aos olhos do menos observador universais requisitos para os maiores empreendimentos agrícolas, exibidos peia unanimidade da região e até para além das terras dos Autazes; mas, lavoura essa, ainda agora enfezada, raquitizada num constringido círculo-vicioso, sem escape nem respiradouro”.
“Porque é preciso convir com a impossibilidade de um intercâmbio ao menos satisfatório de agrupamentos humanos como esses, pelo simples meio da igarité retardatária e do custoso e raro gaiola”.
“Nessas condições acham-se todos os núcleos há sécu!os encravados pelas margens quebradiças dos grandes rios que formam o desmedido dédalo hidrógeno do vale amazônico, sem progresso nem dilatações, quando, antes, como nos afirma Euclides da Cunha, não “descaem de chofre, volvendo à bruteza original”.
“E deixem-me resumir: quase tôda a Amazônia reduz-se ainda hoje a um vasto oceano, apenas aqui e além eriçado de arrecifes vegetais”.
“Com as picadas remotamente feitas de Manaus à cidade de Itacoatiara, ora poro telégrafo, ora para estrada de ferro, pelos conscienciosos estudos técnicos nesse sentido elaborados, sabemos ser vantajosamente realizável ali uma via férrea”
“Dada, porém, o situação financeira do país, nos não permitindo pensar nessa grande obra, e atendendo-se às vantagens consideráveis do auto-caminhão nos longos e pesados transportes, “cogita-se duma estrada de rodagem” passo decisivo, de certo, para o futuro caminho de ferro”.
“Como ficou provado, a consecução da agricultura no Amazonas está indubitàvelmente e exclusivamente nessa estrada e em muitas outras, com as suas margens criteriosamente distribuídas em pequenos lotes e entregues aos braços vigorosos e hábeis dos imigrantes do nordeste”.
“Pelos trabalhos técnicos mais acima aludidos se verifica ser o percurso total dessa estrada, de 346 quilômetros, assim discriminados: o primeiro percurso de Manaus ao no Urubu, na parte que fico oitenta quilômetros acima da cachoeira Lindoia, com 154 quilômetros, e o segundo, dali à cidade de Itacoatiara, com 192 quilômetros”.
“Serão precisas apenas duas pontes de madeira de lei uma com a extensão de 155,5 ms. e outra com o de 68ms. além de inúmeros pontilhões e boeiros”.
“Os trabalhos hidráulicos, os mais temerosos dessas emprêsas, como se vê, desaparecem pela insignificância, tornando-se fácil a execução de uma estrada carroçável, com trânsito para pedestres, cavaleiros e auto-caminhões”.
“Tôda a região a ser atingida é composta de terras pretas, adaptáveis à lavoura ou a qualquer outra indústria campesina.
“Nos arredores da Pedro Chata, próximo ao rio Urubu, existem diversos campos, algumas fazendas prósperas e madeiras de construção em abundância, onde os construtores e as serrarias de Itacoatiara se vão abastecer”.
“As terras marginais ao canal das Pedras são, em grande parte, de aluvião, ótimas para os cereais, constando os primeiros quilômetros do igarapé Caru de vastos e ricos capinzais pelas suas margens; as cabeceiras dos igarapés, cobertas por espessas florestas de madeira de lei, copaibeiras, de fino e copioso óleo tamaris, castanheiras e seringueiros. E seguindo-se dessa região em busca das margens do rio Urubu, encontram-se com frequência a “hevea brasilienses” a castanha sapucaia (lecythis olaria), de larga valiosa exportação, o copaíba, cumaru, puxuri (netranda puchury), aromáticos e medicinais, e tantas outras árvores textis e oleaginosas, além do guajaraí (collophora utilis), do pequiá (caryocar brasiliensis) e de extensos sorvais (collophora utilis), fornecedores de excelente breu aplicável em diversas indústrias”.
Esse magnífico depoimento, escrito há mais de trinta e cinco anos, e cuja obtenção devemos ao sr. Isaias Limaverde, membro de tradicional família de Itacoatiara, é bem um testemunho vigoroso de que a construção da rodovia Manaus-Itacoatiara já, de longa data, preocupava e reclamava a atenção dos estudiosos dos nossos problemas, que viam na execução dessa obra o caminho mais certo para o fortalecimento da economia do Estado.
O que se faz, por conseguinte, neste momento, nado mais é do que reabrir e atualizar um movimento, que, por motivos que não nos cumpre investigar, foi abandonado, quando devia, por sua importância e valimento, ter constituido intransferível ponto de programa dos responsáveis pelos nossos destinos”.
Continua na próxima edição…
*O Professor Doutor José dos Santos Lins foi um importante educador e escritor amazonense, reconhecido por sua contribuição fundamental para o ensino e a literatura do Amazonas, especialmente na segunda metade do século XX.
Sua atuação se deu primariamente na docência, tendo sido consistentemente referido como Professor Doutor, indicando uma formação acadêmica de alto nível.
Sua obra mais notável é a “Seleta Literária do Amazonas”, publicada em 1966. Este livro se tornou um material didático essencial, servindo como uma importante compilação de textos para garantir que as novas gerações tivessem acesso e compreensão da história e da literatura regional do Amazonas.
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