Manaus, 28 de fevereiro de 2026

Polo Industrial de Manaus: a política ambiental que o Brasil não enxergou

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“O que significaria demonstrar, com ciência e transparência, que o PIM neutraliza – por preservação indireta – o carbono que emite?”

Há um equívoco elegante – e perigoso – rondando o debate nacional: tratar o Polo Industrial de Manaus (PIM) como simples política de compensação regional, um arranjo fiscal para “reduzir desigualdades”. Sim, essa é uma de suas finalidades constitucionais e históricas. Mas ela não esgota o que o PIM é, nem explica o que o PIM faz, em silêncio, todos os dias, para o Brasil.

O PIM é, adicionalmente, uma política pública ambiental – extra, de valor inestimável – porque sustenta uma evidência intuitiva que o País ainda não teve coragem de medir com rigor: quando a economia legal se mantém de pé no coração da Amazônia, a floresta tende a permanecer de pé ao redor dela.

E é aqui que entra o mote que deve orientar a próxima etapa da inteligência institucional amazônica:

“O que significaria demonstrar cientificamente que as indústrias do Polo Industrial de Manaus, ao ajudar indiretamente a proteger a floresta, neutralizam o carbono emitido em suas instalações?”

Neutralizar não é “zerar fumaça”: é provar balanço climático

A palavra “neutralizam” é forte – e precisa ser tratada com honestidade científica.

Neutralização, neste contexto, não pode ser marketing, nem slogan. Ela só pode significar uma coisa: um balanço verificável, em que o carbono emitido pelas instalações industriais (escopos 1 e 2, e, quando possível, partes relevantes do escopo 3) seja compensado por emissões evitadas, atribuíveis de modo robusto à existência e ao efeito territorial do PIM.

Em português direto: se o PIM ajuda a evitar desmatamento que ocorreria sem ele, o carbono que deixamos de lançar na atmosfera por manter a floresta em pé pode ser comparado – com método – ao carbono que as fábricas emitem.

Não é magia. É contabilidade climática aplicada a um território.

Foto: Ministério Público do Amazonas.

A tese central: o PIM como “infraestrutura econômica de contenção”

O PIM opera como um tipo raro de infraestrutura: uma barreira econômica contra a fronteira predatória.

Ele faz isso por mecanismos que o Brasil conhece, mas raramente conecta:

Emprego urbano e formal reduz incentivo à economia de derrubada (onde a renda nasce do fogo e da grilagem). Cadeias produtivas e serviços geram alternativas ao “empreendedorismo” da ilegalidade. Arrecadação e massa salarial aumentam densidade institucional do Estado (presença fiscal, serviços, educação, tecnologia). Economia de cidade concentra demanda, reduzindo a dispersão populacional que empurra a ocupação desordenada.

Essa não é uma defesa romântica da indústria. É um argumento duro: sem uma economia robusta e lícita, a Amazônia vira contabilidade criminal.

Como demonstrar cientificamente: o caminho das “emissões evitadas atribuíveis”

Para sair da intuição e entrar na prova, é preciso encarar a pergunta que separa ciência de opinião:

Qual é o desmatamento que teria ocorrido na Amazônia Ocidental se o PIM não existisse?

Isso exige um desenho técnico em três camadas:

Camada A – O contrafactual (o “mundo sem o PIM”)

Criar cenários comparáveis usando:

  • modelos econométricos (diferenças-em-diferenças; controles sintéticos)
  • séries históricas de emprego, renda, migração, ocupação territorial
  • comparação com regiões semelhantes sem um polo industrial equivalente

Camada B – A evidência física (o que a floresta mostra do espaço)

Usar sensoriamento remoto (desmatamento, degradação, queimadas), integrando:

  • padrões temporais
  • pressão de estradas e ramais
  • dinâmica de expansão agropecuária e ocupação irregular

Camada C – A tradução climática (hectare → carbono)

Converter floresta preservada em CO₂ equivalente com metodologias reconhecidas, separando:

  • desmatamento evitado
  • degradação evitada
  • incêndios evitados (quando houver robustez)

O coração ético disso é a palavra que mais incomoda: atribuição.

Não basta dizer “a floresta ficou”. É preciso provar quanto ficou por causa de uma arquitetura econômica específica.

O encontro decisivo: emissões industriais vs. “crédito territorial” de preservação

Uma vez estimadas as emissões evitadas atribuíveis ao PIM, vem o confronto que muda o jogo:

  • Emissões do PIM (energia, combustíveis, processos) versus
  • Emissões evitadas pela floresta preservada por efeito indireto do PIM

Se – e somente se – as emissões evitadas superarem as emissões geradas, abre-se a hipótese pública:

o PIM não apenas “reduz desigualdade”: ele pode operar como um mecanismo líquido de proteção climática.

E isso tem uma consequência brutal para o debate nacional: o Polo Industrial deixaria de ser tratado como “custo fiscal” e passaria a ser reconhecido como ativo climático estratégico do Brasil.

(Foto: Divulgação / Suframa)

O antídoto contra o greenwashing: governança, auditoria e transparência

Se o PIM quiser falar em neutralização, precisa fazer do rigor sua linguagem. Isso implica:

  • um consórcio técnico independente (academia, institutos, auditorias climáticas)
  • protocolos públicos de cálculo e revisão
  • critérios explícitos de:
    • adicionalidade (só conta o que não ocorreria sem o PIM)
    • vazamento (se o desmatamento “migra”, o crédito diminui)
    • permanência (o que se preserva precisa permanecer)
    • incerteza (intervalos, margens, prudência)

O PIM não precisa de propaganda. Ele precisa de uma contabilidade moral e científica.

O horizonte: do “PIM econômico” ao “PIM climático”

Se o Amazonas – e suas entidades, universidades, centros de pesquisa, instituições de inovação – construírem essa demonstração, o Brasil ganhará algo que hoje não tem:

  • um caso real de industrialização amazônica com racionalidade climática
  • uma narrativa internacional baseada em método, não em retórica
  • um caminho para financiamento climático sério, com credibilidade e lastro

E, internamente, o País será obrigado a encarar a pergunta que sempre evitou: quanto custa desindustrializar a Amazônia – em desmatamento, carbono e violência econômica?

Em outras palavras: a pergunta que reorganiza o mapa mental do Brasil

O Brasil está acostumado a medir fábricas pelo que emitem.

Talvez esteja na hora – com coragem técnica – de medir fábricas também pelo que evitam.

Porque, no fundo, a Amazônia não precisa apenas de guardiões armados.

Ela precisa de alternativas econômicas lícitas tão fortes que tornem a derrubada um mau negócio.

E então o mote volta – não como provocação, mas como agenda nacional: o que significaria demonstrar, com ciência e transparência, que o PIM neutraliza – por preservação indireta – o carbono que emite?

Significaria que, no coração da floresta, o Brasil já possui uma política ambiental de alto impacto – e ainda não a tratou como tal.

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