Um homem subia o rio remando sua canoa. De repente, um bordejar. A sombra do caboclo refletida nas águas do rio, desaparece.
Inacreditavelmente, uma enorme sucuri comeu a sombra do homem. Desse dia em diante. o caboclo ficou conhecido como o homem sem sombra. Essa história está contada no livro de meu amigo Hélito de Souza – Guajará. Causos em prosa e verso.
Verdade ou não, fiquei matutando como teria sido o acontecido. A canoa balançando como quem dança uma toada de boi. E a sucuri atrás. E a sombra, que antes era companhia inseparável do ribeirinho, projetada no rio, vira história de pescador. Mas como seria para um homem da floresta viver sem sua sombra? Como acender o fogo sem o auxílio da sombra? O fósforo deve tremer. A fumaça possivelmente escreveria ruidosas figuras mitológicas que apavoram os povos da floresta. E o vento, curioso, passaria a sussurrar no ouvido do homem coisas surrealistas.
Estar sem sombra modificaria totalmente o cotidiano do caboclo. Sem sombra, o tempo parece tropeçar na rotina da floresta. O sol sobe, desce, sobe de novo, como se estivesse perdido. Entre o Passado, o Presente e o Perder-se-sombra. Ainda assim, o caboclo encontra maneiras de contornar a falta da sombra. Aprende a andar de cabeça erguida. Usa o peso da carga nas costas para lembrar que o corpo ainda tem presença, mesmo sem a sombra.
Pede aos espíritos da floresta, á mãe d’água, aos botos. Ao curupira, as onças e até aos macacos que lhe emprestem seus contornos de luz. Chega a noite, e a falta da sombra, que foi comida pela sucuri, é motivo para o caboclo meditar. Cochichando para a lua, pergunta: Se eu não tiver sombra, serei sombra do que fui? Ora, minha sombra pode ter ido, mas o meu jeito de caminhar ficou. Eu já aprendi a ouvir os passos do chão e sentir o chão sem a sombra.
E os macacos riem da situação. O vento também sorri e aplaude com folhas. A sucuri, quem sabe, mastiga a sombra discretamente no fundo do rio. O Curupira, guardião da floresta, convoca os animais para uma reunião de emergência. O macaco prego avisa que vai fazer um show de stand-up. E grita:-bem-vindo-vindo ao show. O Homem Sem Sombra. Mas não dá certo. A bicharada toda querendo tirar fotos. Montaram um grupo de whats app. “Amigos Antes, Depois e Sem Sombra”.
Todos da floresta dão risada da situação. Os macacos batucam em troncos como se fosse o Festival de Parintins. Enquanto isso, a sucuri lá no fundo do rio, continua mastigando a sombra do caboclo. Em doses homeopáticas. Num antropofágico e total silêncio.
O caboclo, sem sombra, parece estar conformado com sua sina. E termina por se ver um homem, mesmo sem sombra, mas um homem das águas, um homem de fogo, um homem inteiro, um homem da floresta. Só que sem sua sombra.
E a floresta, os bichos, o curupira e os botos, cúmplices da sucuri, lembram ao caboclo que a vida continua. Mesmo sem sombra, com mais risadas, menos reflexos e muita coragem de se adaptar ás surpresas e revezes que só acontecem na nossa fantástica, densa, pitoresca e perigosa floresta das chuvas.
*Bacharel em Direito. Membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.
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