Manaus, 4 de maio de 2026

Dia da Língua Portuguesa

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Portugal, Brasil e demais países lusófonos festejam o Dia Mundial da Língua Portuguesa, no dia 5 de maio. A data foi instituída pela ONU- Organização das Nações Unidas.

Olavo Bilac, poeta, jornalista e cronista, considerado o príncipe dos poetas brasileiros, tem entre seus sonetos mais famosos “ Língua Portuguesa” . Bilac é parnasiano por excelência. Seus sonetos são de extremo rigor técnico. Usa muitas figuras de linguagem, inclusive o paradoxo, como nesse poema em que faz loas a nossa língua. Vejamos:

Última flor do Lácio, inculta e bela,/És, a um tempo, esplendor e sepultura;/Ouro nativo, que, na ganga impura,/A bruta mina entre os cascalhos vela…/Amo-te assim, desconhecida e obscura,/Tuba de alto clangor, lira singela,/Que tens o trom e o silvo da procela,/E o arrolo da saudade e da ternura!/Amo o teu viço agreste e o teu aroma/De virgens selvas e de oceanos largos!/Amo-te, ó rude e doloroso idioma,/Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”/E em que Camões chorou, no exílio amargo,/O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

A Língua Portuguesa é, antes de tudo, um diálogo entre continentes, vozes e culturas diversas que se recusam a ficar quietas. Em cada canto lusófono, a língua revela-se inculta e bela, esplendor e sepultura, como se o poeta Olavo Bilac tivesse apontado não apenas paradoxos, mas a própria vida que se escreve com fonemas, sotaque diversos e batidas do coração.

A riqueza da língua está na sua capacidade de coexistir contradições e paradoxos tão bem delineados por Bilac.

Inculta, no sentido de viva, pulsante, que aprende com a fala do povo; bela, no sentido de criar, renovar, envolver o falante e o escritor com imagens que atravessam o tempo.

E preciso celebrar a língua portuguesa. É ao mesmo tempo prisma de um povo e ponte entre povos. Não é apenas um código. Ela é o fermento da fala cotidiana, do verso livre, do humor que desata a tensão do dia a dia, do repente nordestino que embala o canto de viola, das nossas toadas de boi. E ainda no improviso do cotidiano que transforma dor em sorriso.

Importante também é ressaltar a tradição filológica herdada de Portugal. Lá, onde a gramática tem sobriedade e a pronúncia tem música. A língua em Portugal é memória de descobrimentos, de história, de literatura que perscruta o mundo sem perder a cadência da sua própria voz.

Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor, Brasil. Cada país imprime o seu timbre, o seu modo de dizer, a sua tradição cultural que se torna universal pela proximidade que a língua oferece. Em cada país, o português se torna casa, escola, rua, poema.

A ideia exposta por Bilac “ Última flor do Lácio” traduz-se, hoje, não apenas como uma homenagem ao latim que foi, mas a verdade inquietante de que o português floresce de modo inculto e belo. E que se oferece aos neologismos, gírias, expressões populares, que se reinventa no palco da linguagem digital, nas redes, nos memes que carregam verdades simples como o afeto e o riso.

Bilac, ao falar do esplendor, podemos entender como o brilho que a língua joga ao se adaptar a novas ideias, ao incorporar palavras de outras culturas, ao transformar o modo de pensar com precisão e beleza. É o esplendor que o Português permite que a ciência, a literatura, o jornalismo, a música se complementar em pompa, fausto, riqueza e vida.

Ao usar a palavra sepultura, Bilac nos lembra nossas falhas e equívocos. Ao tempo em que entende que há no Português uma sepultura necessária. E preciso enterrar preconceitos que impedem o crescimento, de usos que desumanizam, de velhas hierarquias que não reconhecem a riqueza da diversidade linguística.

Nesse 5 de maio, não celebremos apenas uma norma ou uma norma única. Celebremos, antes, a capacidade da Língua Portuguesa de acolher o ontem, o hoje e o amanhã, sem perder a sua essência. Celebremos as vozes que viajam de Portugal, atravessam o Atlântico, chegam às praias do Brasil, às aldeias da África, às capitais da Ásia e ao interior da nossa imaginação. Celebremos o português que é abraço, debate, invenção, memória.

E, assim, com um brinde à língua que sempre nos surpreende, ao idioma que, em cada sotaque, em cada frase, em cada refrão, nos recorda que somos uma comunidade de falantes, que aprendemos uns com os outros, que escrevemos juntos a história que chamamos de lusofonia. Inculta e bela, esplendor e sepultura. Bilac nos lembra que o português é tudo isso. A Língua Portuguesa é a casa onde cabemos todos.

HAICAI DA SEMANA

Rosas são vermelhas
Violetas da cor azul
Porém não são rivais

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