Manaus, 31 de março de 2026

Trajetórias Escolares de jovens no interior do Amazonas: Significados de acesso, permanência e sucesso, em Itacoatiara

Compartilhe nas redes:


*Meiry Jane Cavalcante Rattes

Continuação…

1.5.2 A cidade de Itacoatiara

Conforme os dados do IBGE (2023), Itacoatiara figura entre as principais cidades do estado do Amazonas, e é terra natal da pesquisadora. Do ponto de vista populacional, é a segunda cidade mais populosa do estado, com aproximadamente, 103. 598 habitantes, ficando atrás somente da capital Manaus. Do ponto de vista político-administrativo, tem sua importância como cidade que integra a zona metropolitana do estado, logo tem papel de destaque na Amazônia, a partir de sua situação geográfica favorável à produção de bens e serviços. Mas nem sempre foi assim, há uma trajetória histórica que envolve muitas lutas, para que esta localidade pudesse chegar ao estágio em que se encontra atualmente. Para conhecermos um pouco de sua história. Nesta seção, priorizamos alguns processos que consideramos importantes para a compreensão da formação deste lugar e como sua trajetória se articula com o tema desta tese.

 

Figura 4 – Itacoatiara minha origem

Fonte: Alfaia (2023).

A partir da segunda metade do século XX, um empenho maior de alguns escritores e historiadores tem sido notado para abordar sobre os acontecimentos históricos ligados à região onde está localizada a cidade de Itacoatiara. Entre estes autores, destacamos Claudemilson Nonato Santos de Oliveira (2007), professor de geografia da rede estadual do Amazonas, e Francisco Gomes da Silva (2013), advogado e historiador amazonense, que tem inúmeros trabalhos de pesquisa sobre a cronologia itacoatiarense, contribuindo não só para o debate em torno de datas fundadoras, como também para a compreensão de todo contexto histórico que envolve a fundação da cidade de Itacoatiara.

Muitos desses trabalhos construídos pelo historiador, que tem dedicado grande parte de seus estudos para construir informações mais aprofundadas sobre nossa cidade, integram o conteúdo dos 18 livros produzidos por ele, sobre Itacoatiara e estão reunidos nas postagens de seu blog pessoal21 cujas informações dispomos nesta pesquisa, para demonstrar a formação dos aspectos históricos, geográficos, econômicos e socioculturais deste município.

A partir de seus estudos, Silva (2013) concluiu terem sido os portugueses e espanhóis os primeiros europeus a se aproximarem desta região, que em 8 setembro de 1683, por meio da celebração de uma missa pelo missionário suíço Jódoco Perez, foi fundado o núcleo que originou a cidade Itacoatiara. O período remonta a época das grandes missões para a exploração da região e colonização dos povos amazônicos, por meio da conversão da população indígena pelos missionários jesuítas.

O objetivo era reconhecer e providenciar a conquista da região amazônica pela coroa portuguesa. Para facilitar a catequização dos povos originários e a utilização da mão-de- obra nativa, foi lhes ensinado nas aldeias o nheengatu – uma mistura de tupi e português- e determinado que a própria língua deveria ser abandonada. O contato com os indígenas Iruri- primeiros habitantes de Itacoatiara- deu a tônica do processo de colonização, e o que viria a seguir, deu início ao processo de destruição destes indígenas, hoje extintos.

Silva (2013, p. 64), a partir de documentos e estudos, trouxe um relato interessante sobre os primeiros habitantes de Itacoatiara, que muito condiz com as lendas inerentes a nossa identidade cultural: “corria a lenda que procediam de uma mulher que veio prenhe do céu e pariu cinco filhos: Iruri, Aripuanã, Onicoré, Torori e Paranapixana, que originaram as respectivas tribos”. Estes grupos indígenas eram agricultores, de fácil convívio, diferentes dos demais grupos, com muitas habilidades, entre elas a conservação dos peixes e a atividade de torrar farinha. Entre seus costumes, era concedida aos chefes da aldeia, a poliginia, como forma de poder e mando entre os demais e suas mulheres não podiam sair de casa e nem receber visitas.

A pequena missão jesuíta localizada à bacia do rio Madeira, cuja elevação à categoria de Vila de Nossa Senhora do Rosário de Serpa, ocorreu em 1759, representa atualmente o município mais populoso no território amazonense, depois de Manaus. Essa posição de grande visibilidade no âmbito urbano teve amparo nos fatores econômico e político que lhe conferiram o papel que esta cidade representa no contexto regional. Com sua elevação, o povoado ganhou a condição de Vila, passando a ser conhecida como Vila de Serpa e por meio desta condição, ocupou lugar na hierarquia político-administrativa, alcançando destaque no seu desenvolvimento perante as demais vilas.

Itacoatiara nasce nesse cenário de missões jesuítas, de aldeamentos dos indígenas que eram obrigados a abandonar seu modo de vida, adaptando seus costumes e rituais pelas cerimônias católicas, onde “os indígenas ‘mansos’ eram aliados dos portugueses, tidos como vassalos do rei, já os ‘bravos’ eram os inimigos, considerados estrangeiros, justificando as guerras justas” (Silva, 2013, p. 72). Nesse sentido:

 

O médio Amazonas, especialmente o perímetro da confluência dos rios Madeira/Amazonas, sempre foi visto como um ponto excepcional para execução da política de ocupação e domínio luso. A estratégia da geopolítica lusitana na Amazônia pretendia consolidar suas possessões pela organização da vida social em cada ponto estratégico que julgasse importante fortalecer, tendo em vista edificar construções públicas que resguardassem seus objetivos quanto à colonização. Para tal desígnio, era conveniente pensar na ocupação do espaço amazônico, sob o ponto de vista técnico. Ou seja, traçar a simetria que cada vila deveria ter, com as suas respectivas ruas, prédios públicos, residências, praças, cemitérios, que, por conseguinte, garantiria um planejamento inicial visando a reprodução da vida, acolhimento da população que deveria povoar esses novos espaços e a conquista definitiva da Região (Oliveira, 2007, p. 42).

 

A ocupação e o domínio da Amazônia consistiram em um processo longo para a colonização portuguesa e representou uma verdadeira destruição da cultura indígena. As grandes missões favoreciam o fortalecimento do controle político-militar e das atividades econômicas, que visavam a coleta e comércio de especiarias, isso tudo acontecia no período correspondente à metade do século XVII e culminou até o fim da primeira metade do século XVIII. A estratégia pensada pela Coroa Portuguesa para aquele momento foi a colonização da Amazônia por meio da construção de fortins e aldeias missionárias (Oliveira, 2007).

Com a aprovação da Lei n. 283, de 25.04.1874, conferiu à Vila de Serpa sua elevação à categoria de cidade, momento em que passa a ser denominada de Itacoatiara, o que lhe garantiu maior distinção política e com isso, alguns privilégios a partir desta condição, como o investimento público visando as benfeitorias urbanas o que cooperou ainda mais para o crescimento da cidade.

Contudo, Oliveira (2007) chama a atenção para o fato de que foi nos meados do século XX, por meio dos incentivos do governo, em prol da produção da juta (corchorus capisularis), que Itacoatiara destacou-se contribuindo para os avanços na economia da região do médio Amazonas. Inserida pelos imigrantes japoneses, em 1930, esta atividade econômica de cultivo da juta foi difundida na região, “a juta constituiu uma fonte de riquezas na Amazônia, de modo que a experiência do cultivo logo foi ampliada para os municípios de Manaus, Itacoatiara, Manacapuru, Santarém, Óbidos, entre outros” (Oliveira, 2007, p. 89).

Nessa perspectiva de avanços econômicos, muitas fábricas passaram a se instalar na cidade, o que foi fundamental para dar visibilidade econômica à Itacoatiara, perante as demais cidades da região. O momento econômico era próspero e movimentou o intercâmbio comercial com Manaus, ampliando as atividades do comércio, gerando emprego e renda, o que suscitou condições melhores de infraestrutura no interior da Amazônia, como a necessidade de interligação por via terrestre à capital amazonense, que se materializou em 1965, com a inauguração da Rodovia Estadual AM-010, entre Manaus e Itacoatiara. De lá para cá, esta estrada teve e tem papel crucial no crescimento de Itacoatiara, uma vez que facilitou concretamente o acesso não só à metrópole, como também aos municípios circunvizinhos.

Dentre as 5.570 cidades do território brasileiro, está Itacoatiara com a população aproximadamente de 103.598 habitantes (IBGE, 2022). Seu Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é 0,644, considerado médio22 para a região, ficando entre os cinco maiores do estado (IBGE, 2010). Itacoatiara situa-se na mesorregião do centro amazonense. Limita-se ao norte com Silves e Itapiranga, ao sul com Manaus, a Leste com Rio Preto da Eva e a Oeste com Maués e fica distante da capital do estado por 265km, com acesso pela Rodovia AM-010 e por via fluvial pelo Rio Amazonas. De acordo com os dados consolidados do eleitorado 2020 divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral (2020), o município possui 67.270 eleitores, ficando entre os quatro maiores colégios eleitorais do estado. Do total de sua população, 65% moram na cidade e 35% na zona rural, onde ficam localizadas 208 comunidades, aproximadamente.

De acordo com o Plano Municipal de Educação – PME (2015), a educação nas comunidades é organizada a partir de 6 (seis polos). As coordenações destes polos ficam situadas na Secretaria Municipal de Educação (SEMED). Sendo assim organizados: Polo 1 – com 17 escolas; Polo 2 – com 9 escolas; Polo 3 – com 8 escolas; Polo 4 – 39 escolas; Polo 5 com 36 escolas e Polo 6 com 13 escolas. Segundo as informações contidas no PME de Itacoatiara, todas as unidades de ensino funcionam de forma multisseriada, com a oferta de Educação Infantil, Ensino Fundamental Anos Iniciais e Finais e Educação de Jovens e Adultos (EJA), no total de 122 escolas, porém os dados do INEP (2022), dão conta de 100 escolas rurais e 16 escolas urbanas municipais (Quadro 3). Além de contar ainda com 8 (escolas) indígenas, que possuem anexos (2015).

A herança dos traços culturais de portugueses, espanhóis e holandeses marcam a história do povo de Itacoatiara, sem esquecer dos ameríndios e sua contribuição étnica, já que eles também foram responsáveis pela ocupação humana na Amazônia, cujos descendentes são os caboclos. Dessa forma, três principais etnias estão presentes no processo de miscigenação da população itacoatiarense, a saber: indígenas, europeus e negros, dando origem aos mestiços (conhecidos como caboclos em nossa região).

A locomoção da população na área urbana é realizada por meio de bicicletas, motos e carros. Não há transporte coletivo no perímetro urbano. No que se refere à zona rural, são utilizadas as rotas de ônibus para que as pessoas que moram na estrada cheguem até a cidade. As populações das comunidades ribeirinhas utilizam suas próprias canoas, rabetas e barcos para a travessia do Rio, e isso é um grande desafio para estes moradores, tanto no período da cheia, pois as águas do rio ficam revoltas, agravando-se com as chuvas, quanto no período da seca, o que dificulta a passagem de suas embarcações. Há transporte fluvial feito por frete, que fica no porto da cidade ou na área do trapicho, lugar do município de onde saem embarcações pequenas, como rabetas, pequenos barcos e lanchas de pequeno porte.

No que diz respeito à climatologia, suas características são do clima amazônico, sendo que no período de janeiro a junho as chuvas são mais intensas e frequentes, que chamamos de inverno. De julho a dezembro, é o período de verão, com menos chuva e temperaturas muito altas.

De acordo com os dados do Plano Plurianual da cidade para o período 2014/2017, a economia de Itacoatiara movimenta-se a partir dos três setores econômicos: Primário, Secundário e Terciário. No setor primário, o município conta com pequenos e médios proprietários que priorizam a criação de gado bovino de corte e suínos, cuja produção abastece a própria cidade, como também outros municípios. Neste setor, despontam ainda produtos derivados da extração vegetal como açaí, castanha do Pará e da madeira.

O setor secundário é formado por usinas de produção de tijolos, fábrica de gelo, guaraná, prensagem de juta, serralherias e padarias. Já o setor terciário é composto por diversos segmentos de comércio e de serviços, como a área de hotelaria, agências bancárias, comércio varejista e atacadista, entre outros. Em relação à geração de empregos, as principais atividades econômicas estão ligadas à Administração Pública (52,69%), Serviços (16,06%), Comércio (15,81%) e indústria de transformação com (12,48%) (Itacoatiara, 2013).

Quanto à educação, os dados do censo escolar (2022), revelam que Itacoatiara funcionou com 144 unidades escolares que ofertam a Educação Básica, sendo 38 situadas na cidade e 106 na zona rural. Em algumas comunidades, ainda funciona o Ensino Médio no meio rural, com o ensino mediado por tecnologia23, porém a população do campo, vem sofrendo com a política de fechamento das escolas existentes em seu meio. O Ensino Médio, em muitas localidades, foi extinto, funcionando com a modalidade de Educação à Distância. Alguns dados irão compor o desenvolvimento da tese para trazer a realidade das questões educacionais de Itacoatiara, mas as reflexões serão na Etapa do Ensino Médio.

Quadro 2 – Matrícula da Educação Básica, Itacoatiara 2022

Fonte: Adaptado pela autora com base nos dados do INEP (2022).

 

Os dados relativos às matrículas na Educação Básica em Itacoatiara revelam que a rede estadual oferece extensivamente o Ensino Fundamental 2 na zona urbana, explicando o quantitativo expressivo na área rural, na rede municipal de ensino. Isso porque funcionam nas comunidades rurais, e na maioria dos casos com salas onde só tem um professor para dar conta de crianças e adolescentes em idades e séries diferentes. Com relação ao quantitativo de matrículas na cidade, ambas as redes estadual e municipal apresentam números parecidos, embora haja uma procura maior pelas escolas do estado pelas condições de infraestrutura que as unidades de ensino apresentam.

No que diz respeito às matrículas do Instituto Federal do Amazonas (IFAM), elas fazem parte da área rural porque o prédio está situado na Rodovia AM 010, km 8.

 

Quadro 3 – Número de Instituições da Educação Básica, Itacoatiara 2022

Fonte: Adaptado pela autora com base nos dados do INEP (2022).

Do ponto de vista quantitativo, os dados apresentados compõem o cenário da educação em Itacoatiara, envolvendo todas as escolas da área urbana e rural, compreendendo as redes privada e pública nas esferas municipal, estadual e federal. No que diz respeito à oferta das escolas estaduais, são três escola de EF Anos Iniciais, seis EF Anos Finais, e a oferta do Ensino Médio se dá em cinco escolas, representando o maior quantitativo. Na rede municipal, são duas escolas que ofertam EF Anos Finais e EJA noturno, e quatorze ofertam a Educação Infantil e EF Anos

Iniciais.

O sistema privado oferta o Ensino Médio em duas escolas, sendo um colégio de filosofia católica e o SESI. Na esfera federal, a oferta acontece por meio do IFAM, com o Ensino Médio de formação técnica e profissional, dentro da carga horária do ensino regular, com processo seletivo para o ingresso, porém apesar de sua localização em área rural, os estudantes são em sua maioria moradores da cidade, ou seja, da zona urbana e utilizam o ônibus para ir à escola.

 

Quadro 4 – Número de Professores da Educação Básica, Itacoatiara 2022

Fonte: Adaptado pela autora com base nos dados do INEP (2022).

 

A partir do quadro acima, é possível perceber uma quantidade significativa de professores atuantes na rede municipal de ensino, com destaque a número de docentes que ainda não têm vínculo efetivo, ou seja, participam de processos seletivos e ficam contratados por um período de dois anos, com possibilidade de renovação ou não. Essa realidade também é semelhante na rede estadual, porém com mais docentes concursados. Sobre a oferta de concurso, a SEMED – Itacoatiara aplicou o último certame em 2014, já a SEDUC-AM tem realizado com um pouco mais de constância, pois o último concurso aconteceu em 2018.

 

Quadro 5 – Nível de Escolaridade dos Professores da Educação Básica, Itacoatiara 2022

Fonte: Adaptado pela autora com base nos dados do INEP (2022).

 

Os dados das trajetórias formativas dos docentes em Itacoatiara apresentam situações que merecem análise, por exemplo com professores cuja formação ainda é em nível de Ensino Fundamental, o que era de desconhecimento da pesquisadora, antes deste levantamento. Ainda é possível notar um número grande somente com o nível médio, mesmo com a oferta de algumas licenciaturas pelo Plano Nacional de Formação de Professores (PARFOR), que acontece nas férias, abrangendo um período no início e no meio do ano letivo. Contudo, há denúncias de certas arbitrariedades por parte da SEMED Itacoatiara, no sentido de dificultar a liberação dos professores, caso o curso se estenda em dias letivos, e quando acontece, eles são obrigados a pagar um substituto no período de ausência.

Situação parecida ocorre no âmbito da especialização, pois nem a SEDUC e tampouco a SEMED deferem os pedidos de liberação para estudos, tornando a formação continuada um processo desafiador, pois em alguns casos, os professores relatam que não se inserem para concorrer a alguma vaga de edital para a pós-graduação, devido a dificuldades desta natureza.

 

Quadro 6 – Rendimento por etapa da Educação Básica de Itacoatiara

Fonte: Adaptado pela autora com base nos dados do INEP (2022).

 

Os dados acima são gerais, relativos a todas as escolas públicas da cidade, compreendendo a área urbana e rural, porém os trouxemos no texto para chamar a atenção sobre a realidade do Ensino Médio brasileiro, pois as informações evidenciam que, apesar do número de aprovados ser bem maior no Ensino Fundamental, esses mesmos dados denunciam uma triste realidade que assola o Ensino Médio, tanto em Itacoatiara, quanto em todo o país: o crescimento acentuado dos índices de reprovação. Esses dados trazem informações importantes, contudo, para serem problematizados precisam de um conjunto maior de informações mais detalhadas para que seja construído um perfil educacional em nível de Ensino Médio, especialmente em relação ao município de Itacoatiara.

Para uma compreensão das situações apresentadas nos dados torna-se fundamental:

identificar quem são os estudantes que abandonaram a escola ou foram reprovados; se são estudantes residentes da cidade ou de outras localidades como estrada ou do outro lado rio, que precisam se deslocar para estudar; evidenciar se os estudantes já trabalham e se a evasão está ligada à condição de jovem trabalhador. Todas essas questões têm ligação com esta pesquisa, uma vez que os dados referentes à aprovação, reprovação e, especialmente ao abandono, revelam as dificuldades que as juventudes encontram para a construção de seus percursos educacionais sem interrupções.

Para aprofundar um pouco mais sobre a questão da evasão, Eliane Felisbino (2023), em sua tese intitulada “Infelizamente a Federal não é para todos”, assim como nosso estudo, também parte da percepção do estudante, no seu caso dos evadidos, com o objetivo de identificar e analisar as circunstâncias, aspectos relacionais e principais fatores institucionais que produzem a evasão nos cursos de graduação da UFPR, segundo a autora:

 

Além dessas articulações envoltas ao processo de evasão, observam-se poucos estudos (como será visto na revisão bibliográfica) dedicados à análise das variáveis a partir da perspectiva do estudante evadido, sujeito que sofre a maior perda como se, ao evadir, o indivíduo deixasse de existir, como se ao sair do campo de visão não existisse mais, ou ainda, como se a evasão não trouxesse consequências também e principalmente para ele (Felisbino, 2023, p. 24).

 

A autora apresenta os resultados da sua pesquisa, a partir dos relatos dos participantes, que confirmam a hipótese de que a evasão escolar é fundamentada em uma perspectiva meritocrática, reflete-se nas relações, dinâmicas e rotinas institucionais. Essa abordagem tende a responsabilizar o próprio estudante por sua condição, especialmente aqueles que pertencem a grupos menos favorecidos economicamente ou em situação de vulnerabilidade, como: estudantes com deficiência, indígenas, negros, migrantes humanitários ou refugiados, LGBTQIAPN+, trabalhadores, mães e oriundos do ensino médio público.

Consideramos importante a incorporação de trabalhos que dialogam com as questões ligadas ao nosso objeto de estudo, no sentido de contribuir para as reflexões e amparar as discussões ligadas à pesquisa, nesse caso a pesquisadora, além de também partir das falas dos estudantes, utilizou ainda a perspectiva bourdeusiana para suas análises.

Em continuidade à caracterização da cidade, no aspecto cultural são muitas as influências que fazem parte do modo de vida da comunidade itacoatiarense, mantidas no cotidiano da cidade. Visitantes em geral, qualificam Itacoatiara como uma cidade acolhedora e seu povo hospitaleiro, que consegue associar ao seu desenvolvimento econômico algumas tradições, especialmente no aspecto cultural e religioso, cujos hábitos, modos, costumes e a vida social de seus habitantes foram influenciados fortemente pela cultura europeia.

Por conta do processo de educação, em grande parte influenciado pela catequização jesuítica, promovendo a forte presença da Igreja Católica, a população da cidade de Itacoatiara, grosso modo, manteve seu modo de vida como um povo simples, com costumes provincianos. É comum no calendário anual da cidade, as festividades religiosas, com novenas e arraiais em várias igrejas católicas com as comemorações de seus Santos e, em especial, os ritos e eventos que envolvem a Festividade de Nossa Senhora do Rosário, padroeira da cidade. A festividade é caracterizada por rituais que envolvem a novena, em seguida o arraial com a apresentação de danças regionais, venda de comidas típicas, música e culmina com uma grande procissão pelas ruas do centro da cidade, onde os fiéis se envolvem expressando sua fé e sua identidade cultural que são acionadas a cada final do mês de outubro.

O município conta ainda com a realização do tradicional Festival da Canção de Itacoatiara (FECANI), evento que ocorre uma vez ao ano, tradicionalmente no mês de setembro, desde 1985, caminhando para sua 39ª edição, reunindo compositores de todos os lugares do Brasil, sendo considerado o maior festival de música do Norte e atribuiu ao município o título de Cidade da música.

A cidade abriga também, um de seus principais cartões postais: a Avenida Parque, projetada no início de 1928 em referência à famosa avenida parisiense Champs Elysées. O atrativo turístico perpassa a cidade ao meio, pois sua extensão é aproximadamente de 1.800 metros e 30 metros de largura. Chamada de túnel verde, a via é formada por cerca de 340 pés de oiti, espécie de árvore brasileira ideal para fornecer sombras de praças e jardins.

 

Figura 5 – Orla de Itacoatiara: local de encontro das juventudes

Fonte: Alfaia (2023).

 

Somado a esse rico patrimônio cultural e à sua beleza natural, Itacoatiara possui ainda diversos patrimônios históricos e pontos turísticos, como a Orla da cidade inaugurada em 2008, que proporciona uma bela visão panorâmica da cidade e do maior rio do mundo – o Amazonas – um lugar agradável para fotos, encontro de amigos, passeio das famílias no fim da tarde, além de ser o espaço privilegiado de concentração das juventudes, que optam por fazer caminhada neste espaço, que demarca a vida e a rotina dos itacoatiarenses. Os jovens de Itacoatiara representam uma parcela considerável da população do município, somando um total de 28.122 (vinte e oito mil, cento e vinte e duas) pessoas, mais de 25% dos habitantes.

 

Quadro 7 – Juventudes Itacoatiarenses

Fonte: IBGE (2022).

 

A maior parte dos jovens mora na área urbana, inserida no ambiente social de uma cidade com pouca oferta cultural, uma vez que não há museus, teatro, poucas bibliotecas organizadas que funcionam realmente nas escolas, problemáticas sérias quanto à relação trabalho x qualidade de vida, com alta taxa nos índices de acidentes e mortes ligados ao uso de álcool, consumo de drogas e ainda a gravidez na adolescência.

Assim, o segmento juvenil é formado de estudantes, mas também de muitos jovens que não trabalham nem estudam. Os estudantes de nível superior são, em grande medida, oriundos das escolas públicas e particulares, moradores de outros municípios e/ou de outras localidades da área urbana (muito por conta da presença da UFAM e UEA e do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM) e suas ofertas de cursos técnicos e superiores). Inclusive o IFAM, em 2020, ministrou o Curso da Roça para Casa, na comunidade São Sebastião da Costa do Siripá, para um grupo de jovens daquela localidade.

 

Quadro 8 – Matrícula dos estudantes do Ensino Médio da rede estadual de ensino de Itacoatiara

Fonte: Adaptado pela autora com base nos dados fornecidos pela Coordenadoria Regional.

 

O período de 2018 a 202224 demonstra, no quadro mais atual, a matrícula no Ensino Médio em Itacoatiara e uma característica que vem se revelando na educação nacional, com tendência à queda da matrícula nesta etapa de ensino, confirmando o que os dados do IBGE (2022) apresentam sobre o cenário nacional, são 10,9% milhões da população jovem que não estuda e não trabalha com idade entre 15 e 29 anos.

Nesse sentido, uma parcela dos jovens que estão inseridos nas escolas da cidade, vêm de uma realidade diferente da área urbana, de um espaço rural que não tem garantido as mínimas condições de um percurso educacional mais tranquilo e com oportunidades de inserção qualificada no mercado de trabalho e acesso às universidades públicas. Essas demandas são as mais sofríveis e necessitam de ações efetivas do Poder Público para que a estas juventudes seja assegurado o direito à educação.

A apresentação do território no qual a pesquisa doutoral toma lugar cumpre um papel crucial nesta tese: compreender os tempos, os espaços e os processos sociais e culturais nos quais as juventudes pesquisadas se colocam no caso de Itacoatiara. Desse modo, na perspectiva bourdieusiana, não é possível compreender tais juventudes de modo apriorístico ou apartado das complexas relações e organizações sociais nas quais os jovens se constroem cotidianamente neste território.

__________________________

21 Disponível em: https://www.franciscogomesdasilva.com.br/obras-literarias/.

22 “IDH baixo: reúne todos os países que apresentam IDH abaixo de 0,500; IDH médio: países com IDH entre 0,500 e 0,799; IDH alto: países com desenvolvimento humano entre 0,800 e 0,899 e IDH muito alto: países cujo índice encontra-se igual ou acima de 0,900. “Como é feito o cálculo do IDH? – Brasil Escola (uol.com.br)”.

23 Para Torres (2020, p. 110), “A tentativa de promover política de acesso ao Ensino Médio no interior do Estado, a partir de 2007, tendo como horizonte o atendimento as comunidades rurais e ribeirinhas localizadas em locais de difícil acesso do Estado, foi criado pelo Governo o Centro de Mídias de Educação do Amazonas (CEMEAM) com a modalidade Ensino Médio Presencial com Mediação Tecnológica aprovada pela Resolução nº. 27/2006- CEE/AM, para dar acesso à educação ao público do Ensino Médio”.

24 Pelo fato de a pesquisadora ter atuado na gestão da Escola Estadual Deputado Vital de Mendonça no período marcado, e por ter acompanhado as trajetórias estudantis desde o processo de matrícula até a conclusão do Ensino Médio, optou-se pela análise dos anos de 2018, 2019, 2020, 2021, 2022

Continua na próxima edição…

* Meiry Jane Cavalcante Rattes é Doutora em Educação pela UFAM, com foco em Educação, Estado e Sociedade na Amazônia, e Mestra em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela UFJF/MG. Pedagoga de formação com especialização em Metodologia do Ensino Superior, possui sólida trajetória na Educação Básica e na gestão escolar, tendo atuado como gestora do Colégio Vital de Mendonça e professora em Itacoatiara, além de integrar o corpo técnico da SEDUC/AM.
Como pesquisadora, integra o Grupo de Pesquisa em Sociologia Política da Educação e é associada à ANPEd, onde participa do GT de Sociologia da Educação. Sua produção intelectual concentra-se em políticas públicas educacionais, juventudes na Amazônia e Ensino Médio, investigando as interseções entre o Estado e a Educação Básica.

Views: 1

Compartilhe nas redes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *