Manaus, 10 de agosto de 2026

Epistemologia da Religiosidade nos Quilombos

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*Vinícius Alves da Rosa

Continuação…

1.1 O “mito de origem” da Comunidade do Barranco de São Benedito, em Manaus/Am

Fontes documentais revelam que, no século XIX, em meio à corrente migratória, desembarcou na capital amazonense o maranhense Felippe Nery Beckman. Trata-se de um personagem determinante para a compreensão daquilo que hoje se autodefine como quilombo do Barranco de São Benedito, localizado no bairro Praça 14 de Janeiro, na cidade de Manaus.

Tais fatos se expressam por meio de fontes documentais, pelas quais fica evidente ter sido o Sr. Beckman a pessoa responsável por receber o título definitivo das terras onde hoje está estabelecido o referido quilombo. A respeito desse título – pago e expedido em 1896 pelo governador do Estado, Eduardo Gonçalves Ribeiro -, em 19 de agosto de 1963, atendendo-se ao requerimento emitido pelo Sr. Raimundo Nascimento Fonseca, neto de Maria Severa, foi expedida certidão por meio do Cartório de Registro Especial, Títulos e Documentos do Estado do Amazonas, na Comarca de Manaus, conforme teor abaixo transcrito pelo escrivão:

Revendo neste Arquivo o registro do Título Definitivo, já recolhido, referente ao ano de mil oitocentos e noventa e seis (1896), encontrei o seguinte registro que passo a transcrever: Título Definitivo, de Felippe Beckman. O Governador do Estado do Amazonas. Faz saber aos que o presente título virem, que de acordo com o Regulamento que baixou o Decreto número trinta e sete (37), de oito (8) de Novembro de mil oitocentos e noventa e três (1893), foram aprovadas a medição e demarcação procedidas em um lote de terras adquirido por Felippe Beckman, de conformidade com as disposições do artigo cinquenta e seis (56) do citado Regulamento o qual está situado no Município d’esta Capital, verificando-se ter uma área trezentos e trinta e três metros quadrados (333 ms2), com um perímetro de noventa e dois metros lineares (92 ml), limitando-se ao Norte, com a Avenida Japurá, por uma linha de nove metros (9m) ao rumo de 90º; ao sul, com terras de Hildebrando Luiz Antony, por uma linha de igual extensão ao rumo de 270º; a Leste, com o terreno de Antão do Nascimento Fonseca, por uma linha de trinta e sete metros (37m) ao rumo de 180º e ao Oeste, com terreno de Geraldo José Ribeiro por uma linha de igual extensão ao rumo de 360º. E para constar passou-se este Titulo Definitivo, ficando por esta forma investido o mencionado Felippe Beckman, de todos os direitos e regalias por Leis conferidas, bem como sujeito as disposições consignadas no citado Regulamento de oito (8) de Novembro. Palacio do Governo do Estado do Amazonas, em Manaus, vinte e dois (22) de Maio de mil oitocentos e noventa e seis (1896). Eduardo G. Ribeiro, nº 542 (542). Pagou de Emolumentos sessenta e seis mil e seiscentos reis (66.600)10.

Por todo o grau de importância atribuído a Felippe Beckman, sobretudo quanto à conquista do Título Definitivo dessa terra que contemporaneamente deu lugar ao atual quilombo, o “mito de origem”, aqui considerado, se dá com base nas narrativas dos membros da comunidade. Sendo transmitido oralmente de geração a geração, não se trata, portanto, propriamente de um feito histórico. Não obstante se processe uma “historicidade” da comunidade, os mitos são narrativas utilizadas para explicar a realidade, ou seja, a origem dos fatos. Nos estudos antropológicos, busca-se compreender como os povos vivem, como os grupos humanos se organizam e a forma pela qual a cultura se desenvolve ao longo de um processo de construção identitária.

A propósito dos aspectos organizacionais, como se verifica a seguir, os agentes sociais, interlocutores da pesquisa, apresentam suas versões ao explicarem fatos que concorrem para a compreensão acerca da formação dos grupos étnicos a que pertencem. Por exemplo, sobre o quilombo abrigado na cidade de Manaus, a história se inicia a partir de 1890, com a chegada das famílias nos limites desse território, cujos quilombolas, hoje, fazem parte da 7ª geração dos descendentes de Maria Severa ou Vó Severa, fundadora desta unidade social e por todos identificada como o mito de origem do “Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito”, assim autodefinido, contemporaneamente.

A respeito do “mito de origem” da então comunidade, hoje autodefinida como Quilombo do Barranco de São Benedito na cidade de Manaus, em 2022, curiosamente — por meio de pesquisa junto ao Cartório do 1º Ofício de Registro Civil/Manaus -, deparamo-nos com um fato novo, algo importante para o processo de construção desta pesquisa. Trata-se de fonte cartorial inédita sobre a história de vida da fundadora desse quilombo. Explica-se: em pesquisa junto ao referido Cartório, não foram encontrados dados referentes à Sra. “Maria Severa Nascimento Fonseca”, a “Vó Severa”; ao contrário disso, os registros fazem referência ao casal Antão do Nascimento Fonseca e Lucia do Nascimento Fonseca, tida como fundadora. Portanto, trata-se do “mito de origem” desse quilombo e da linhagem de sua descendência. Trata-se de fato a respeito do qual se pode afirmar, com a devida lealdade investigativa, que aquela pessoa por todos carinhosamente referenciada sob a alcunha de “Vó Severa” é, ela mesma, a Sra. Lucia do Nascimento Fonseca.

A informação apresentada sobre o nome de Lucia do Nascimento Fonseca é um dado novo que fora obtido por meio de buscas junto aos cartórios em Manaus, pesquisa realizada pelo autor deste trabalho juntamente com a quilombola Rafaela Fonseca da Silva, mestra no Programa de Pós-Graduação em Ensino Profissional do Instituto Federal do Amazonas – IFAM. Assim, anteriormente a esta pesquisa no referido Cartório, Vovó Severa era por todos reconhecida como sendo a fundadora da comunidade quilombola e, de maneira mais formal, era referenciada nos trabalhos de pesquisa pelo nome de Maria Severa Nascimento Fonseca.

No decorrer da escrita do trabalho de pesquisa, foi-se construindo um verdadeiro enredo tecido pelo tempo e que, endossado pelas narrativas dos quilombolas, fez com que o trabalho de investigação ganhasse tessitura ao enveredar pelos caminhos das “descobertas documentais”. Assim, as narrativas dos agentes sociais, articuladas à pesquisa arquivística, permitiram consubstanciar o teor das análises e interpretações, possibilitando uma verdadeira “arqueologia da memória” sobre a especificidade histórica dos quilombos aqui estudados.

Sobre a precursora do quilombo (Figura 1, em anexo), foi possível obter informações por meio do Sr. Cláudio Fonseca, bisneto da Sra. Lucia do Nascimento Fonseca, que gentilmente prestou informações sobre dados adquiridos junto à administração do Cemitério São João Batista, em 2022, considerado o mais antigo e tradicional cemitério da cidade de Manaus. Esse fato informa as datas de nascimento e de falecimento de Dona Lucia, respectivamente, em 04/12/1839 e 16/10/1941.

A respeito do nome da fundadora da Comunidade Quilombola do Barranco de São Benedito, presume-se que a Sra. Lucia Nascimento Fonseca passou a ser chamada pelo codinome de “Maria Severa”, em decorrência da sua expressão facial. Como se observa no único registro fotográfico (Figura 1), o semblante carregado perpassa a ideia de uma pessoa séria e sisuda. Por outro lado, numa observação mais atenta, há que se notar certa melancolia estampada no olhar de Vovó Severa – a precursora -, provavelmente pelo fato de carregar como marca inconteste o estigma de mulher escravizada alforriada, mulher negra, viúva e praticante da religiosidade do terreiro, cujos traços certamente sugerem a expressão de um rosto carregado pela vida dura.

Aliás, na relação de pesquisa construída neste quilombo urbano, por ocasião de uma entrevista realizada com a Sra. Deusdete Fonseca, chamou atenção o relato da quilombola ao contar que seu pai, Antão do Nascimento Fonseca, não costumava sorrir. Ele manteve-se sério ao longo de toda a vida, de acordo com os registros fotográficos cedidos pelo Sr. Cláudio Fonseca, os quais foram realizados no Cemitério Municipal São João Batista, em Manaus. O Sr. Antão nasceu em 31 de dezembro de 1887 e faleceu em catorze de abril de 1968. Assim, é provável que essas marcas, fruto de circunstâncias similares, tenham impregnado a alma de gerações posteriores às de seus antepassados.

Na esteira das investigações acerca da linhagem de descendentes de Antão e Lucia do Nascimento, dados também podem ser ratificados mediante a Certidão de Nascimento do neto mais velho, datada de 1910, visto que, no referido documento, consta o nome de seus avós paternos: Antão do Nascimento e Lucia do Nascimento (Figura 2, em anexo). Conforme a Figura 3 (em anexo), também consta o registro de nascimento de Miguel do Nascimento Fonseca, filho de Raymundo do Nascimento Fonseca e Paula Maria do Nascimento.

Do ponto de vista do traçado urbanístico de Manaus, segundo Mário Ypiranga Monteiro (1990), a carência de mão de obra para trabalhar nas obras públicas em construção na cidade fez o governador do Estado, Eduardo Gonçalves Ribeiro –‘’’ ao longo de seus dois mandatos, nos anos de 1890 a 1896 – recrutar profissionais de áreas distintas e incentivar a vinda dos seus conterrâneos, os quais, ao chegar à cidade, fixaram-se no atual bairro Praça 14 de Janeiro.

A pesquisa sobre a figura de Beckman ainda carece de mais subsídios documentais, para que se obtenham dados acerca desse personagem importante e, assim, compreender a vinda de negros e negras maranhenses para a capital do Estado do Amazonas. Todavia, como registrado em fontes documentais disponíveis, há que considerar o Sr. Beckman como o primeiro proprietário das terras doadas em 1896 pelo governador Eduardo Gonçalves Ribeiro. Local este onde, até os dias de hoje, está situado o quilombo urbano do Barranco de São Benedito, cujos herdeiros, seguindo-se ao apelo cultural, são os principais incentivadores da festa religiosa em devoção a São Benedito.

São Benedito é um dos santos mais populares no âmbito da devoção da religiosidade católica popular no Brasil, cultuado inicialmente pelos negros tornados escravos, por causa da cor de sua pele e origem. Ele nasceu na Itália, mas tinha ascendência africana e negra; passou a ser reverenciado pelo povo como exemplo da humildade e da pobreza.

Em vida, recebera o apelido de “o Mouro”, um adjetivo italiano utilizado para todas as pessoas de pele escura e não apenas para as pessoas com origem no Oriente. Era filho de africanos vindos da Etiópia, vendidos e tornados escravos numa ilha da Itália, mas, no Brasil, ele é chamado de São Benedito, o Negro, ou apenas “o Santo Negro”.

Por ser o santo comunitário por excelência, a sua festa é feita pelo povo para seu santo. E em sendo o santo do povo, a festa é feita pelo povo, para o povo em seu santo, ao contrário da festa do Divino que é feita pelo santo para o povo (Bandeira, 1988, p. 229).

Aos vinte anos de idade, ingressou na Irmandade de São Francisco de Assis, instituição fundada por um frei franciscano, em Palermo, na Itália, onde se tornou um religioso exemplar, pois primava pela intensa devoção, pela humildade, pela obediência e pelo fervor espiritual. Na irmandade, exerceu a função de cozinheiro.

Benedito era um irmão leigo e analfabeto, mas a sabedoria e o discernimento que demonstrava fizeram com que os superiores o nomeassem mestre de noviços; posteriormente, foi eleito superior do convento onde vivia e, mais tarde, foi conviver com os integrantes da verdadeira Ordem de São Francisco de Assis.

As pessoas lhe obedeciam espontaneamente, e ele escolheu morar no convento de Santa Maria de Jesus, também em Palermo, na Itália, onde viveu ao longo de sua vida. Neste lugar, exerceu as funções de faxineiro e cozinheiro e ganhou notoriedade pela fama de santidade e pelos milagres ocorridos pela intercessão de suas orações.

Deste modo, os príncipes, nobres, sacerdotes, teólogos e leigos das diferentes classes sociais dirigiam-se a ele em busca de conselhos e à procura de orientação espiritual, por suas virtudes cristãs e dons carismáticos, legitimados pelas pessoas da época que recorriam ao frei Benedito para receber bênçãos e milagres.

Eles desejavam se aproximar de Benedito por causa de sua fama de santidade, de suas palavras e de suas orações. As pessoas escravizadas da época também simpatizavam com ele, por ser negro, pobre e possuir virtudes espirituais. Em torno do seu nome, surgiram inúmeras paróquias em diversos lugares do mundo, inspiradas em seu modelo de humildade e caridade.

São Benedito, o Santo Negro e dos negros, foi canonizado em 24 de maio de 1807 pelo Papa Pio VII, sendo reconhecido oficialmente pela Igreja Católica. É representado com o Menino Jesus nos braços porque muitas testemunhas afirmaram tê-lo visto, durante suas orações, com o Menino Jesus. Em outra iconografia, Benedito está segurando um ramalhete de flores, em alusão a um dos seus milagres, pois costumava doar alimentos aos pobres e escondia na barra do seu manto alguns pães. Porém, segundo a tradição, o frade franciscano superior do convento teria visto rosas vermelhas. No Brasil, por orientação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a festa de São Benedito é comemorada no dia 5 de outubro.

Cumpre nominar os santos negros e santas negras reconhecidos oficialmente pela Igreja Católica Romana, a exemplo de Santa Efigênia, São Elesbão, São Benedito, padroeiro da Comunidade Quilombola do Barranco em Manaus, e Nossa Senhora Aparecida, padroeira do quilombo Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, em Itacoatiara – AM.

Embora sejam restritas as fontes documentais sobre o Sr. Felippe Beckman, há dados disponíveis que informam sobre a viagem realizada na rota marítima entre Manaus e São Luís, no Maranhão, como noticiado no jornal maranhense “Pacotilha”, de 1889, ao qual tivemos acesso e em cuja reportagem se registra como passageiro o Sr. Felippe Beckman, entre os portos dessas duas cidades.

Para dar conta dessa trajetória histórica, dois elementos são fundamentais: de um lado, têm-se as fontes primárias relativas aos fatos narrados pelos agentes sociais que, uma vez registrados, se convertem em memória coletiva; por outro lado, os registros oriundos de fontes secundárias convergem para a compreensão acerca de fatos históricos legitimamente registrados face ao processo de construção de identidades étnicas. Tais elementos estão identificados nos trabalhos científicos desenvolvidos no Estado do Amazonas, mais especificamente no quilombo do Tambor, município de Novo Airão/AM, e na comunidade quilombola de Cachoeira Porteira, no município de Oriximiná/PA, estudos que permitiram ao pesquisador Farias Júnior (2013) assegurar que:

Apoiado nas análises de Acevedo Marin e Castro (2004) sobre o que designaram de “etnografia dos documentos”, considero que podemos identificar a partir do levantamento de fontes primárias e secundárias, a dinâmica social do conflito, como também elementos que envolvem a construção da identidade étnica de “remanescentes de quilombo”. Acevedo e Castro (2004) designaram como “etnografia dos documentos” o tratamento etnográfico em relação ao levantamento de fontes documentais, onde se verificou a dinâmica social de ocupação da terra pelos denominados “remanescentes de quilombo” (Farias Júnior, 2013, p. 56).

Tal assertiva converge para o entendimento de que é possível identificar práticas culturais específicas nos elementos que compõem a identidade coletiva dos agentes sociais, com base no passado e no presente, consoante asseguram os relatos das histórias vivas nas lembranças daqueles que continuam vivendo no mesmo território dos seus antepassados, ou seja, em território tradicionalmente ocupado. As evidências podem ser percebidas por meio da entrevista feita com a Sra. Maria de Nazaré Vieira dos Santos, como registrado a seguir.

Entrevistador: O senhor Felippe Beckmann veio do Maranhão para Manaus?

Nazaré: – Veio, mas eu não conheci, quando eu cheguei, ele já não era mais vivo.

Entrevistador: Ele veio de Alcântara para Manaus? Nazaré: – Não sei se ele veio de Alcântara, mas foi ele quem trouxe São Benedito.

Entrevistador: A imagem de São Benedito era do Felippe Beckmann?

Nazaré: – Sim, do Felippe Beckmann!

Entrevistador: Há quantos anos a senhora participa dos festejos de São Benedito?

Nazaré: – Desde menina, e o São Benedito era pra ter a igrejinha dele, nunca teve né? Nossa Senhora de Fátima, sim, aí virou aquela confusão, negócio que mudaram né, depois fizeram aquela música, mas era pra ser São Benedito (…) (Entrevista 01, Maria de Nazaré Vieira dos Santos [Dona Nazaré], 83 anos, Manaus, 19-04-2017).

Em virtude do relato da senhora Maria de Nazaré Vieira dos Santos, surgiu outra

narrativa a respeito de São Benedito, tendo em vista que os quilombolas acreditavam que a imagem pertencia à Dona Maria Severa Nascimento Fonseca. Todavia, a entrevistada é enfática ao afirmar que a imagem pertencia a Felippe Beckman, trazida por ele do Maranhão. Aliás, em um momento da conversa informal, Dona Maria de Nazaré Vieira dos Santos enfatiza que o Sr. Felippe Beckman foi o primeiro a chegar a Manaus, portanto, em período anterior à chegada da Sra. Lucia do Nascimento Fonseca. Referindo-se à “Vovó Severa”, Dona Nazaré afirma que ela se mudou para Manaus a convite do Sr. Felippe Beckman.

Com a chegada dos negros e negras naquela localidade previamente definida e, por concentrar pessoas inicialmente classificadas como operárias, lavadeiras de roupas, vendedores de comidas típicas, com origens no Nordeste brasileiro, o grupo social ali instalado era denominado pela sociedade local como “Colônia Maranhense”, “Reduto Maranhense” ou “Vila dos Maranhenses”.

O então governador do Amazonas, o Sr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, era engenheiro, de formação militar positivista, natural da cidade de São Luís, capital do Maranhão. Como já citado anteriormente – de acordo com a Certidão do Cartório do Registro Especial, Títulos e Documentos do Estado do Amazonas, na Comarca de Manaus —, o governador comprara um terreno em 1896 e doara ao Sr. Felippe Beckman, local correspondente ao território em que está situado atualmente o quilombo urbano do Barranco de São Benedito. Tais informações constam também no caderno do Grêmio Recreativo Escola de Samba (GRES) Vitória Régia, que, por meio do Enredo do Carnaval/90, entoa a canção, afirmando que:

O referencial mais antigo da comunidade foi o maranhense Felipe Beckman, um negro que havia sido escravo e que iniciou o culto de São Benedito padroeiro dos negros. E assim, Felipe Beckman coordenou e liderou inicialmente a instalação dos negros que iam se estabelecendo no início do século na Praça 14, cuja vinda e permanência em Manaus, foi favorecida por Eduardo Ribeiro, Governador na época também maranhense e negro (GRES Vitória Régia, Enredo do Carnaval 90).

Mesmo fazendo parte da tradição oral da comunidade, não foram encontrados nesta pesquisa dados que identifiquem a relação entre Eduardo Ribeiro e Felippe Beckman; da mesma forma, inexistem detalhes que informem como efetivamente era a relação do então governador com a comunidade que deu origem ao quilombo do Barranco de São Benedito, territorializado na Praça 14, em Manaus.

Todavia, estudos informam sobre as relações de reciprocidade entre o Sr. Felippe Beckman11 e dona “Severa”. O escritor Mário Ypiranga Monteiro (1983) oferece dados que permitem entender que Felippe e Severa eram amigos. Aliás, Felippe foi pai de criação de Raimundo Nascimento Fonseca, filho da dona Maria Severa. Ao tempo em que seu Felippe e sua esposa, Maroca Beckman, eram padrinhos de Bárbara Fonseca, neta de dona Maria Severa. Tais fatos levam a crer que havia entre as duas famílias relações construídas de solidariedade.

Não podemos assegurar com exatidão quais foram os motivos da vinda de Felippe Beckman para Manaus, embora saibamos que o sobrenome Beckman é de origem germânica, pois fontes históricas informam que os Beckman lideraram uma revolta no Estado do Maranhão em 1684, devido às suas insatisfações com a Coroa Portuguesa.

A vinda dos maranhenses é objeto de estudo nas discussões da historiografia que trata do tema “Mundos do Trabalho”. Em recente livro, o historiador Balkar Pinheiro corrobora com Mário Ypiranga, quando o autor endossa: “Caminhamos com a hipótese de que tais trabalhadores, assim como também parte do corpo técnico que compunha o funcionalismo municipal e estadual, teve origem em levas migratórias vindas do Maranhão, desde o imediato pós-abolição” (Pinheiro, 2017, p. 45).

Exemplo disso é o Decreto de Lei nº 8, de 21 de setembro de 1892, que autorizava o governador a conceder passagens gratuitas de 3ª classe a artistas nacionais e estrangeiros, assim como possibilitava a eles certa ocupação laboral, alojamento e diárias, com as despesas por conta do Estado, àqueles que quisessem fixar residência no Amazonas. Nesse sentido:

Eduardo Ribeiro compreendeu que não se poderia trabalhar sem técnicos. Voltou-se para o problema inicial da mão de obra (…) manda buscar operários na Europa, Maranhão e Bahia, aproveitando uma lei amparadora. Documentaremos a seguir: o secretário do governo apresentava em ofício ao chefe da Segurança Pública da Bahia (não refere o nome) em janeiro de 1893, o cidadão Aprígio Monteiro de Carvalho que ia contratar artistas, dizendo: “… rogo-vos que auxilieis esse cidadão no desempenho dessa comissão a que esse governo liga a máxima importância” (Monteiro,1990, p. 66).

Os profissionais masculinos trabalharam nas obras do Teatro Amazonas, do Palácio da Justiça, da ponte Benjamin Constant e no Reservatório Mocó, dentre outros trabalhos em oferta na cidade. Para os homens, os postos de serviços giravam em torno das atividades do comércio, do trabalho operário em fábricas e do mercado informal de trabalho. Já as mulheres atuavam nas fábricas ou em ateliês de costura que existiam na cidade (Pinheiro, 2017). Havia também um mercado informal de trabalho que consistia na venda de produtos “ofertados” por ambulantes espalhados pela cidade. Outras atividades majoritariamente femininas eram exercidas pelas lavadeiras de roupas ou por mulheres ligadas à gastronomia; cozinhavam as comidas típicas para comercializar as iguarias em suas bancas de guloseimas.

Aquelas famílias de migrantes do Maranhão estabeleceram-se na Rua Japurá, cuja fixação urbana permitiu-lhes estabelecer relações de sociabilidade, seja por vínculo de parentesco, seja por sentimento de afetividade e de pertença ao território. Foi por via desse processo de relações interpessoais e das formas de expressar certa liberdade organizacional do movimento representativo que se oportunizou a formação desse grupo étnico na cidade de Manaus. Dadas as características da estrutura urbana de Manaus, a comunidade era tida como um lugar longínquo da cidade, formada por lotes de terras particulares, numa região de chácaras cujas propriedades pertenciam a famílias financeiramente privilegiadas. Lugar este em que havia poucas estradas e alguns igarapés nas proximidades. Essa caracterização é reiterada nas palavras dos antigos moradores, quando afirmam: “aqui quase tudo era mato”. Conforme o mapa da Figura 20 (em anexo).

Com relação ao Sr. Felippe Beckman, trata-se de um negro, por todos reconhecido como o primeiro membro da comunidade a chegar a Manaus. De acordo com as narrativas dos mais velhos, Seu Felippe, ex-escravizado no Maranhão, primava por assegurar interações de reciprocidade com os seus conterrâneos que fixaram residência na Praça 14. No entanto, tendo por base o deslocamento dos Beckman que migraram para o Amazonas ainda no século XVIII, podemos inferir ser possível que alguns membros dessa família tenham sido “senhores de escravos”.

A propósito do aspecto cultural que os migrantes carregam consigo, transportando-os para o local do deslocamento, o relato da quilombola Sra. Deusdete Fonseca Lima12 (dona Deca), é ilustrativo:

Quando a mamãe veio do Maranhão, o meu pai já estava aqui em Manaus, a vovó nasceu em Codó, e a vovó ela dançava batuque, só que eu não acredito nessas coisa, eu me lembro, um dia ela disse: – Vamos? Aí eu fui! O batuque era aqui na Duque de Caxias. O terreiro do batuque era ali, aí ela pediu da mamãe: Eu vou levar a Deca! Eu era pequena, aí ela ainda me levou pra mim dar uma rodada, comemos um tal de mocororó [risos], aí eu fui, porque eu sou uma pessoa que eu nunca respondi nem pro meu pai, nem pra minha mãe, aí, depois daí eu não fui mais, a mamãe e o papai não gostavam dessas coisa (Entrevista 02, Deusdete Fonseca Lina, [Dona Deca], 87 anos, Manaus, 26-11-2016).

Dona Deusdete Fonseca Lima faleceu em 2024. Era chamada de “Tia Deca”, filha do Sr. Antão do Nascimento Fonseca (Mestre Antão) e, portanto, neta da Sra. Lucia do Nascimento Fonseca (Vovó Severa). De acordo com a entrevista realizada com ela em 2016, sua avó nasceu no município maranhense de Codó, região cujos municípios agregam comunidades quilombolas no Maranhão, conhecidas pela designação “terra de preto”.

Dona Deusdete relembrou o “batuque” que havia na Praça 14, prática da religiosidade dos povos-de-terreiro presente na memória dos quilombolas, pois tais crenças referem-se aos terreiros existentes na localidade do passado: o da Mãe Efigênia, Mãe Marina e Mãe Clara. Os relatos dos mais velhos informam que Dona Severa e Maroca Beckman eram sacerdotisas da sacralidade de matriz africana.

As famílias Vieira dos Santos, Souza, Soeiro do Nascimento, Adjiman Silva, Fonseca, dentre outras, constituem a comunidade, na qual os descendentes de Dona Lucia do Nascimento Fonseca ressignificaram suas histórias de vida. Tal ressignificação ocorre, notadamente, pelo protagonismo e liderança da fundadora da comunidade, hoje auto representada sob a designação de remanescente quilombola, que convive no território tradicionalmente ocupado.

Portanto, para consubstanciar a construção analítica da tese, estamos estabelecendo contatos com as secretarias das cúrias católicas nos municípios de Alcântara, Pinheiro e Codó, no Maranhão, e com os cartórios de registro destes municípios, na busca de obter dados de nascimento ou de batismo da Senhora Lucia do Nascimento Fonseca, de seus filhos, Antão, Raymundo e Manoel, bem como para obter possíveis informações a respeito de Felippe Nery Beckman.

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10. Certidão extraída do Registro Especial, Títulos e Documentos do Livro B número quarenta e três (B Nº 43), Manaus, 19 de Agosto de 1963.

11. Segundo Mário Ypiranga Monteiro (1983, pgs.234-235): “A história é longa e se prende ao movimento dos Beckmann do Maranhão. No século retrasado, aí por 1799, elementos da família Beckmann migraram para o Amazonas, fugindo do Maranhão, a exemplo de centenas de outras pessoas e foram residir num local aprazível, espécie de bosque, à ilharga do igarapé secundário que desagua no igarapé de São Raimundo, antigamente mais conhecido por Teiú. Com o tempo o igarapezinho passou a chamar-se

do Beckmann e hoje se pronuncia popularmente Bequemão e Bequemoa. Verificou-se com esse nome o mesmo fenômeno que se daria com outros, a mulher do Beckmann ficou conhecida por Bequemoa aportuguesado”.

12. LIMA, Deusdete Fonseca – 87 anos. Entrevista 02 [26 de Novembro de 2016]. Entrevista realizada na residência da entrevistada, Manaus, Amazonas. Entrevista concedida a Vinícius Alves da Rosa.\

Continua na próxima edição…

*Vinicius Alves da Rosa, quilombola de Morro Alto, RS, professor, doutor em Ciências da Religião.

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