Manaus, 27 de setembro de 2026

Fora d’água, pessoal

Pintura de botos-cor-de-rosa transformando-se em figuras humanas em um igarapé, representando os encantados do folclore amazônico
Os “encantados” do imaginário ribeirinho amazônico.

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Faz calor. Nada melhor do que um dia relaxando. Perto de um igarapé. Almoçando aquele tambaqui assado. De preferência de rio e não um ruelo de viveiro.

Antigamente dizíamos que íamos para um “banho”. Havia os banhos em que se tinha que ser sócio. Como o Bosque Clube e o Guanabara. Havia os banhos de amigos. Quando fui para Brasília, lá há os clubes. Menino de calças curtas, vindo de Manaus, disse na escola que no domingo iria ao banho. Aquilo foi motivo de risada. Bullying, como se diz hoje em dia.

O certo é que no domingo passado fomos ao banho. Os banhos agora são chamados de balneários ou até de resorts. Mas para mim podem dar o nome que quiserem. Clube, resort, day use, balneário. Banho é banho. Ora essa!

O banho estava maravilhoso. Praia do Rio Negro. Tambaqui assado no almoço. Pescado pelo caboclo que nos servia. Pescador, garçom e filho da cozinheira.

O dia passou rápido. Eram quase seis horas da tarde. Dois curumins, já adolescentes, conversavam enquanto limpavam as mesas. Não dá para entrar mais na água. Vai dar seis horas.

Aí eu entrei na conversa. Perguntei o porquê. E o caboclo respondeu que às seis horas da tarde é um “momento perigoso”.

Achei estranho. A Igreja Católica costuma chamar esse momento de “Hora do Ângelus”, associado à memória da anunciação. Reza-se geralmente a Ave Maria.

Aprendi com os rapazes que caboclos ribeirinhos não entram nos rios às seis da tarde. Os rios não são só lugares naturais, são também espaços entre terra e água, entre cotidiano e mundo espiritual.

Penso que evitar entrar no rio nessa hora sugere uma regra de prudência e proteção. O fim de tarde seria quando “as coisas” ficam mais ambíguas. Acredito que seja por perigo real, como correnteza, encalhe, visibilidade, seja pelo medo do sobrenatural.

As tradições, a cultura, os mitos e lendas amazônicas são de diversidade e riqueza impressionantes. Segundo aqueles rapazes, neste horário podem ser percebidas presenças, assombrações ou encontros com “encantados”.

Eles me relataram histórias. Em algumas os seres aparecem no rio. Em outras, a “hora” é mais importante do que o tipo de criatura.

Já em casa fiquei pensando se a hora do Ângelus pode ter virado um marcador que a comunidade usa para reforçar um comportamento seguro: “ficar fora da água”.

Como a religiosidade católica se mistura com o imaginário dos povos ribeirinhos, é comum haver sincretismo cultural. A prática católica do Ângelus, invocação de Nossa Senhora, convive com narrativas do nosso rico e surpreendente folclore amazônico.

Pelo sim, pelo não, fui logo avisando a turma:

— Saiam fora d’água. Hora de ir para casa.

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