Manaus, 27 de setembro de 2026

Mundos do trabalho e conflitos sociais no rio Madeira (1861-1932)

Capa do livro Mundos do trabalho e conflitos sociais no rio Madeira (1861-1932), de Davi Avelino Leal
Mundos do trabalho e conflitos sociais no rio Madeira (1861-1932), de Davi Avelino Leal (Editora Valer).

Compartilhe nas redes:

Davi Avelino Leal
Davi Avelino Leal

Continuação…

3.3.3 Os Mura55

Das etnias mencionadas na documentação produzida pelos poderes oficiais, destacam-se os Mura. Etnia com mais de três séculos de relações conflituosas com missionários, comerciantes e militares, os Mura são, ainda, pouco estudados.56

Eles, que passaram boa parte do século XVIII enfrentando diretamente as forças coloniais e tiveram que negociar um pacto de “pacificação”, retornaram com os ataques e as escaramuças aos povoamentos de desbravadores que tentavam intrusar áreas tradicionais. Como já dito, o objetivo deste trabalho é o de não recuar, até um ponto de origem, para marcar a primeira aparição dos Mura. O que se quer é perceber como eles apareceram na cena histórica no século XIX.

Os Mura ocupavam um território importante, não só para os cabos de canoa do século XVIII, mas também permaneciam em áreas estratégicas de exploração de cacau, castanha e borracha. Relatórios técnicos produzidos por engenheiros e administradores que subiam e desciam o rio Madeira, na segunda metade do século XIX, registram, na sua totalidade, a presença de aldeamentos indígenas Mura, principalmente em Canumã, Capanã e Sapucaia-Oroca. Esta última seria, de acordo com Menéndez (1992), uma missão fundada por padres carmelitas, em 1827, na margem esquerda do baixo Madeira.

Outro registro dos Mura foi feito pelo tenente da marinha americana Lardner Gibbon, que, em viagem de exploração do chamado vale amazônico, anota, em 1854, o encontro com canoas de índios Mura. Segundo o representante do governo dos Estados Unidos, os índios tinham muito boa aparência (GIBBON, 1854). Visitou, também, as aldeias Mura, o engenheiro F. Keller, em 1867. Segundo o técnico, antes de parar na Ilha das Araras, na embocadura com o rio Aripuanã, passou por Sapucia-Oroca, onde fez a medição do nível do rio, e depois parou em Canumã (KELLER, 1870).

At Sapucia-Oroca, on the right shore of the Madeira, at about 125 miles from its mouth, there is a Mura settlement, with consists of about a dozen miserables sheds, scarely large enough to tie the celebrate three cords underneath, in with the repose after their fishing or thieving excursions (KELLER, 1875, p. 188).

Uma das visões mais preconceituosas sobre os Mura é a formulada por F. Keller (1875). Ele classifica, de antemão, os Mura como ciganos e preguiçosos, pois, segundo seu relato, todo mundo comentava isso no baixo rio Madeira. Embora as expressões já fizessem parte do vocabulário colonial quanto aos Mura, a reprodução de termos como “desprezíveis” e “indolentes” índios multiplicam-se no texto.

Assim como F. Keller, Neville Craig57 conheceu os Mura de Sapucaia-Oroca quando, a serviço da empresa responsável pela Ferrovia Madeira-Mamoré, em 1878, teve que subir o rio Madeira. Conforme seu relato, Sapucaia-Oroca era decepcionante, pois era reduzido o número de índios Mura, que ali viviam em aproximadamente vinte cabanas, sobre uma elevação de terra vermelha, à margem direita do rio.

Sua descrição do território, retirado o tom altamente preconceituoso e comum a outros engenheiros que passaram pelo lugar, revela características da vida cotidiana do aldeamento, tais como o preparo dos alimentos feito pelas índias, que incluía macacos e tucanos. Podia-se encontrar arcos e flechas que mediam cerca de 2,5 metros de comprimento, além de zarabatanas nas quais se podia usar flechas ervadas, além dos pratos feitos com barro cozido ou casca de jerimum. Como já foi mencionado em outra parte do trabalho, a aldeia de Sapucaia-Oroca, dirigida no final da década de 1850 por José Maia da Conceição, era, sem dúvida, um reconhecido centro de povoamento Mura (CRAIG apud PINHEIRO, 1969, p. 51). De acordo com Geraldo Pinheiro (1969), Sapucai-Oroca constituía-se numa das aldeias mais densamente habitadas da Província do Amazonas. O significado de seu nome faz referência a galinheiro (PINHEIRO, 1969, p. 49). Pinheiro (1969), citando outros autores, comenta que os Mura vivem tradicionalmente em Sapucaia-Oroca e ali fazem as suas festas em homenagem à Tupana.

O avanço da empresa extrativista foi de encontro à perspectiva étnica do uso do território. Os Mura, mais uma vez, imporão forte resistência a esse processo de intrusão de seus territórios tradicionais. A partir da leitura dos Relatórios de Presidente de Província da época, é possível acompanhar o embate entre os Mura e os novos invasores do Madeira. O Relatório de Presidente de Província de 1852 mostra a presença ativa dos Mura:

No Rio Madeira alguns bandos de gentios das numerosas tribus dos Muras, tendo nestes últimos tempos commetidos nefandos crimes contra pessoas inermes, chegarão a insurgir-se contra o seu próprio chefe principal (Tuxaua) só porque este quis impedir os excessos e os desregramentos d’aqueles que, por esse motivo, o espancarão e deixarão por morto. Dois índios, dos autores desse attentado, vierão e se achão presos em processo e acerca dos outros dei promptas e enérgicas providencias para que sejam capturados e punidos (RPPAM, 1852, p. 5).

Essas providências mencionadas no texto concretizaram-se com o estabelecimento de diligências nas aldeias Mura. Evidencia-se a repressão no controle da força de trabalho das aldeias. Segundo o documento enviado ao posto policial de Borba e Mataurá,

empreguem toda a vigilância, e força a sua disposição, estabelecendo uma ronda fluvial em canoa bem armada, a fim de serem capturados os salteadores da Nação Mura, ou outros qualquer malfeitores, os quais devem ser punidos com o rigor das leis e que os vagabundos sejam remettidos a esta Capital para terem applicação. Recomendando que essas diligências sejão confiadas a officiais ou officiais inferiores, que saibão com actividades, circunspeção e prudência discriminar os bons dos maos e assim restabelecer a ordem pública, e a segurança individual que nesses últimos tempos tem soffrido violentos ataques em diversos lugares do Rio Madeira (RPP, 1852, p. 6).

Após o processo de “autopacificação”, iniciado em 1784, os Mura foram, praticamente, abandonados à própria sorte, sem a presença do poder estatal para a constituição de aldeamentos. Como destacam Santos (2002) e Moreira Neto (2005), em 1819 eles voltam a atacar os núcleos coloniais no rio Madeira. À medida que a fronteira avança sobre seus territórios, eles oporão forte resistência à intrusão de suas áreas, atacando não apenas os incipientes núcleos de povoação, mas também os aldeamentos e missões formadas por outros índios.

Tal processo pode ser acompanhado pelos Relatórios de Presidente de Província e, também, pelas cartas e ofícios elaborados pela administração das diretorias parciais de índios e pelos jornais que circulavam no período. Uma análise dos ofícios enviados pelos diretores parciais de índios ao diretor-geral, no período da vigência do Regimento das Missões, revela que muitos índios Mura estavam sendo convocados para irem trabalhar nas obras do governo.

Na década de 1870, o encarregado pela aldeia de Sapucaia-Oroca, Benedito Rodrigues de Souza Canela, fala da dificuldade de se enviar índios para os trabalhos de obra pública.

Por Raimundo Vieira de Gusmão foi me apresentado um requerimento despachado por V. Exª, mandando entregar ao mesmo requerente os índios da aldeia Sapucaia Oroca sob minha direção dos mesmos. Cypriano, Silvério e Ângelo — cuja ordem de V. Exª, deixou de cumprir pelo motivo que passo a expor:

O indio Cypriano é um dos capitães Tuxauas da referida aldeia e os outros dois Silvério e Ângelo, seus filhos d’aqueles e todos elles, com a de mais famílias mulheres e crianças já estiveram quatro annos na casa do mencionado Gusmão quando estava então encarregado da aldeia Sapucaia Oroca, e lhe prestavam bons serviços e a nada lhe ficaram devendo, como pelos conhecimentos, sendo os ditos índios então arrebanhados por Gusmão que os levou para sua casa, pouco importando que estes pobres índios abandonassem suas habitação e as suas roças de mandioca que tinham.

Agora mesmo, Gusmão antes de apresentar-me seu requerimento despachado por V. Exª, foi de noite ao sito do Capitão Cypriano e o levou despoticamente para sua casa, querendo também conduzir com os filhos, mas estes se refugiaram para o mato, ficando assim malogrado o seu arbitrário intento.

Devo dizer a V. Exª, que os referidos três índios, todos tem suas famílias e moram juntos e tem suas roças que não é para ficarem abandonadas com a ausência dos supra ditos índios.

Rogo a V. Excia, mui respeitosamente que quando algum indivíduo requerer V. Excia, índios do aldeamento sob minha [administração], mande previamente que me informe, ou então, V. Excia, não designe o nome deles para assim evitar que seja maquiada a boa intenção de Vossa Excelência.

Reitero a V. Exª os meus protestos de estima e merecida consideração (Ofício da Diretoria de Índios, 1887).

O que o documento mostra é o conflito pelo controle da força de trabalho dos índios e a resistência pelo plantio em suas roças. Aqui, a roça emerge como espaço de autonomia e, de acordo com Almeida (2006b, p. 51), expressa uma maneira de ser e de viver, configurando-se,

Mais do que um modelo de relação antrópica com os recursos escassos, a denominada roça compreende um estilo de vida que vai desde a definição do lugar do povoado, passando pela escolha dos terrenos agriculturáveis, e dos locais de coleta, de caça, pesca, até os rituais de passagem que asseguram a coesão social em festas religiosas (tambor de criola, procissões e demais cerimônias) em funerais e batizados (grifos do autor).

A preocupação e a disputa envolvendo os atuais administradores locais, chamados, também, de diretores parciais de índios, ex-administradores locais e o diretor-geral, representado pelo cônego Raimundo Amâncio de Miranda, são constantes. Tal aspecto revela o combate entre a autonomia e o controle exercido por meio da imobilização da força de trabalho.

Cabe, aqui, um parêntesis, para que se entenda a força política que o padre Raimundo Amâncio de Miranda possuía sobre os povos indígenas da Província. Tal importância pode ser comparada ao que representou, nas primeiras décadas do século XX, o inspetor-geral do SPI/AM, Bento Lemos.

Dados recolhidos em fontes manuscritas e em relatos biográficos revelam elementos da trajetória de Miranda. Ainda jovem, estudante de teologia no Pará, foi apadrinhado pelo influente Dom Antônio Macedo da Costa, conhecido como “Bispo da Amazônia”, que contribuiu para que Amâncio de Miranda subisse os degraus da hierarquia religiosa, chegando a ocupar cargos importantes, dentro e fora da igreja, como o de diretor-geral da Instrução Pública, do Lyceu Amazonense. Foi o diretor-geral de Índios da Província do Amazonas e ocupou o cargo de presidente de Província interinamente.

Envolveu-se em vários conflitos com lideranças políticas locais, contrárias ao trabalho dos missionários com os índios. Organizou manifestações de rua para protestar contra o presidente de província, Oliveira Machado, pois o representante do Executivo tinha se colocado contra o envio de crianças indígenas para Belém do Pará, custeado pela Província do Amazonas. Na ocasião, Raimundo Amâncio de Miranda fora demitido do posto de diretor da Instrução Pública e acusado por desmandos e arbitrariedades cometidos no período em que ficara como presidente de Província interino.

Aproveitando-se de uma greve de carroceiros, Raimundo Amâncio de Miranda discursa contra Oliveira Machado, causando correria e tumulto no centro da cidade (BITTENCOURT, 1973; LOUREIRO, 1990). De sua trajetória política e missionária, o que interessa, aqui, é o período em que ocupou o cargo de diretor-geral (1886-1889) e trocou informações, por meio de cartas e ofícios, com os diretores parciais.

Outra correspondência, vinda de Sapucaia-Oroca, expõe a preocupação do diretor parcial, Raimundo Vieira Gusmão, com a situação em que se encontrava. Ele queria saber se permaneceria no cargo, pois o novo diretor-geral, Raimundo Amâncio de Miranda, acabara de assumir:

[?] de V. Revma., e das pessoas de sua estima és que mais desejo eu e minha família tem servido graças a Deus.

Sabendo que V. Revma. foi nomeado Diretor Geral dos índios da Província do Amazonas e sendo o encarregado dos índios de Sapucaia Aroca antigamente nomeado pelo major Gabriel Ribeiro Guimarães já falecido, por isso venho respeitosamente perguntar particularmente a V. Revma., se me acho demitido, pois consta-me que se acha outra pessoa nomeado e não tendo eu recebido demissão não me tenho informado, espero que V. Revma., me responda esta cartinha na qualidade de vivo e [moldes] o adiantamento (Ofício da Diretoria de Índios de 26/4/1886).

Os diretores e ex-diretores, ao trocarem acusações entre si, de abuso no trato com índios, acabam revelando as condições de vida e trabalho nos aldeamentos, bem como a violência praticada contra aqueles povos. Em ofício encaminhado ao diretor-geral de Índios, Raimundo Amâncio de Miranda, o diretor parcial da aldeia de Sant’Ana relata a forma com a qual os índios são maltratados:

Tendo V. Remo. sido nomeado pelo governo diretor geral de índios nesta Província, nomeação justa e muito acertada não podiam ter elles um verdadeiro curador de seus direitos; e conhecendo eu o caráter ilibado de V. Revma., e seus actos que são pautados da maior retidão e justiças fazem-se dirigir estas a V. Revma., e incluir uma cópia da parte dada no dia 12 do mez pp ao inspector deste [?] são, pelo índio Mura de nome Acácio.

Os índios rezidentes no lago “Carapanatuba” Revmo. Sr. são constantemente perseguidos e espancados e não há quem e nem autoridade que punha um paradeiro a similhante malvadeza. Os individuo-os de nome Napoleão e Deiró fregueses de Apolinário da Silva, este constantemente embriagado quase sempre dá maus tratos aos Muras e aqueles também já não é esta a primeira vez que dão facadas nos referidos índios e outros factos que não menciono agora para não lhe tirar tempo, grandes afazeres com que sempre vive V. Revma., e também porque tenho a certeza que d’hora em diante os índios receberão a devida justiça que por ventura venham precizar. Concluindo esta peço a V. Revma., que releve algumas faltas e erros, pois é bem acanhada a minha inteligência subscrevo-me (Ofício da Diretoria de Índios de 19 de julho de 1886).

Diante de tanta violência, a evasão dos índios era uma prática comum. Muitos se embrenhavam nas matas, pois não queriam ser recrutados para os pesados serviços nas cidades. O contexto de meados da década de 1860, marcado pela Guerra do Paraguai, gerava, nos Mura, o medo de terem seus filhos e maridos levados para longe. Tal notícia fez com que os povoamentos se esvaziassem, criando dificuldades para a administração provincial e reforçando o discurso da falta de braços. Além desses problemas, havia, ainda, a questão das endemias que atacavam os povoamentos. Então, José Monteiro de Sá comunica ao diretor-geral as condições sanitárias e de saúde da aldeia de Autaz Assú:

Ilmo. Revemo. [?] Diretor Geral de Índios.

Sendo de urgência comunicar o Estado dos índios da tribo Mura do aldeamento de “Autaz-Assú”. Desde junho ano passado que apparece as febres nesse lugar, e que logo privem-nos de trabalharem com o reaparecimento de tal moléstia e sem que ali houvessem mais um pequeno [tuccano] chegaram aqui quatorze dos ditos índios (como mostra a relação nominal) pedindo remédio e sustento as quais dei acolhimento em minha casa. Em nome de Deus pesso a voces dar-me um auxilio para que eu possa ter elles até ficarem bem, que me é impossível visto minhas circunstâncias serem escassa para auxiliar as ditas. Espero na benevolência de voces dar providências e que seja com a mais brevidade.

Eu poderia ter feito esta comunicação pelo vapor mais não fiz, porque esses índios tem encarregado. Apesar de meu ser muito pregado tenho ate hoje sustentado.

Conto ser ouvido, pois que suplico em vontade de Deus (Ofício da Diretoria de Índios de 21/6/1886).

Passado um mês do primeiro ofício, o diretor parcial envia um novo documento atualizando a situação e reforçando o pedido de ajuda para cuidar dos índios:

Ilmo. Senhor.

Cumpre-me o meu dever levar ao digno conhecimento de V. Excia., o lamentável estado dos índios das aldeias de Autaz-Assú, e Curuçá cujas Aldeias fazem parte de meu quarteirão: Entriste-se-me Ilmo. Senhor, ver-se os pobres e infelizes índios morrem à mingua sem recursos a não ser da providência divina, a terrível peste que [?] neste Rio Madeira e seus afluentes e as lesões que tem causado perda de muitas vidas com especialidade dos índios que morrem os dez por dia. Eu enquanto estava com a saúde fez todo o que pode aos índios que salvei algum porém haja que também me acho bastante doente, não posso prestar-lhe além disso sou homem pobre e por isso venho por meio deste emplorar de V. Excia, não só com Diretor Geral dos índios, como homem humanitário, pedir suas valiozas providencias para ao menos salvar-se os poucos índios que restão (Ofício da Diretoria de Índios de 21/7/1886).

A situação dos Mura e a de outras etnias não melhora. Os pedidos de envio de índios aumentam na mesma proporção que a exposição das dificuldades nos aldeamentos. O diretor parcial da aldeia de Capanã, Januário Carvalho, envia um ofício ao diretor-geral, explicando a situação entre os Mura, e anexando, ao documento, uma lista contendo os nomes dos residentes na aldeia:

Capaná, 25 de setembro de 1887

Ilmo. Revmo. Sr. Cônego Raimundo Amâncio de Miranda

Cumprimentando respeitosamente a S. Excelência inclusa a relação do número dos índios que existe em Capaná debaixo de minha inspeção e governo. Logo que tomei o encargo que V. Exª se [?] confiar-me, dos ditos índios, chamei-os ao trabalho, fasendo elles prestar serviços aos moradores e comerciantes deste lugar como informei a V. Exª, pelos documentos de contratos assignados em meu poder, afim de auxiliar o comércio e realizá-los cumprindo fielmente com as ordens de V. Exª, com o que estarão bastante satisfeito os habitantes d’este lugar, mas sendo o capitão dos ditos índios dotado de um mau entendido malevolo [?] a não me mostrar mais, […] gente afim de que eu não podece mais auxiliar os habitantes deste lugar e retirou-se com uma pessoa para as cabeceiras d’este rio para onde tem por costume hirem todos os annos pelo tempo da seca afim de pegarem tartaruga. Porém indo eu ao dito lugar, fiz regressar a maloca o dito [capitão], aonde permanecia o maior numero de índios, que se estavam prestando alguns serviços. O Capitão dos ditos indios é que aconselha aos outros da mesma tribu para não obedecerem-me por isso que não se metem nos serviços como provião fazê-lo, e nestas coisas usarei algumas energias. O dito capitão é cúmplice da morte dos escravos de Frei Joaquim de Santa Luzia, da Villa da Conceição que em 1855 foram assassinados na boca do Capaná e se fosse preciso retirar-se o dito [Capitão] d’este lugar e com a nomeação de outro de entre elles, prestameão grande serviço ao comércio e indústria. Por inveja e desrespeito político, hum adeverçario meu fez publicações de hum artigo no comércio do Madeira, caluniando-me a outras mente, ao que vou dar resposta. Com estima e com consideração subscrevo-me.

A V. Exª.
Januário S. Oliveira Carvalho.

Relação dos Índios da Tribu Mura residentes em Capaná — os seguintes:

  1. Capitão Faustino
  2. Manoel Filho
  3. Inocêncio
  4. Moisés
  5. Joaquim (cara fina)
  6. Arnaldo “filho”
  7. Benedito
  8. Miguel
  9. Zeferino
  10. Adão
  11. Jacob
  12. Manoel sinho (Manoelzinho)
  13. Manoel (cara fina)
  14. Florentino
  15. Antonio (cachaça)
  16. Miguel sinho (Miguelzinho)
  17. Romão
  18. Duarte
  19. Thomé
  20. Narciso Velho
  21. Paulino
  22. Antonio Machado
  23. Francisco Velho
  24. Muratú
  25. Antoniozinho

Capaná, 25 de setembro de 1887.
Januário de Oliveira Carvalho (Ofício da Diretoria de Índios, 1877)

O documento acima revela, mais uma vez, a disputa pelo controle dos índios e a estratégia de fuga e evasão dos povoamentos, principalmente na época de viração das tartarugas.58 Esse documento mostra as condições dos aldeamentos Mura nos anos finais do Império.

À proporção que a economia extrativista da borracha avançava, novas situações de fronteira vão sendo criadas e diferentes formas de enfrentamentos são construídas pelos povos indígenas que viviam nas áreas afetadas. Em outros capítulos do trabalho, retomarei a história dos povos citados acima, para análise da dinâmica específica e da historicidade do contato de cada um deles.

O conflito aberto, marcado por guerras e escaramuças, era apenas um dos elementos da resistência dos povos indígenas contra a exploração da sua força de trabalho e o esbulho de suas terras. Outras estratégias foram elaboradas pelos Mura, Arara, Parintintin, Torá e Mundurucu, visando resistir ao sistema repressor da força de trabalho. Tenreiro Aranha (RPPP, 1952) fala, por exemplo, na evasão dos aldeamentos, causada pela fuga em massa dos índios que tinham aceitado, inicialmente, o aldeamento, mas que depois recusam-se a obedecer as ordens e se retiram.

A leitura da documentação não deixa dúvidas quanto à terrível experiência dos povos indígenas, quando o que estava em jogo era a separação de membros da família extensa do seu grupo doméstico. O grande esvaziamento dos aldeamentos Mura não se deu apenas pelo abuso de poder dos diretores locais, mas pela ameaça de terem seus filhos levados para a Guerra do Paraguai, a partir de 1867.

Conhecidos são os relatos que atribuem ao major, membro da Guarda Nacional, Manoel Pereira de Sá,59 a viagem por muitos distritos do Madeira, para arrebanhar indígenas de todas as etnias, para servirem na Guerra do Paraguai, como voluntários da Pátria (HUGO, 1959). O chamado pega-pega (levar crianças e jovens) povoa o imaginário Mura e gera grandes sofrimentos, pois está associado ao momento em que todos tiveram que abandonar suas aldeias, para abrir roças no meio da mata para não serem levados por forças de repressão do governo.60

No recente documentário Yandé Mura (2008/2009), os relatos são bem nítidos e mostram os vários momentos, na história do século XX, em que os Mura, das várias aldeias de Autazes, tiveram que “sumir” para fugir do pega-pega. Outro dado que chama atenção, na documentação, é que, se o padrão da relação etnopolítica para os povos do Madeira, no século XIX, foi a guerra, alguns principais (lideranças indígenas baseadas muito mais no prestígio do que no poder) buscavam negociar a inserção do grupo nos aldeamentos e, assim, “aderiam” ao projeto civilizador.

Ainda no relatório de Tenreiro Aranha, pode-se perceber o poder de barganha e o sentido político que os principais atribuíram às suas ações, e faziam questão de que os chefes políticos, ditos “civilizados”, tomassem consciência de que os líderes indígenas apresentavam demandas nativas:

De muitas e diferentes tribos tem vindo se apresentar-se com saudações, ante a effigie de Sua Magestade, o Imperador, os principais chefes delas, […] e eu lhes hei dado títulos ou patentes com expressas clausulas de fundarem novas povoações, de chamarem das mattas para elas os índios, e de os fazerem aplicar a cultura da terra, a pesca e a outros trabalhos úteis a eles próprios, aos homens de Estado, além de ter mandado dar fardamentos próprios para a agricultura e pesca, isto com maior parcimonio, porque eles com pouco se contentão (RPP, 1952, p. 35).

A citação acima, bastante conhecida e reproduzida pelos pesquisadores do século XIX, na Província do Amazonas, revela, sobretudo, a vinda de vários povos indígenas até a capital, para demandarem melhores condições de vida nos aldeamentos e receberem títulos e patentes para os principais. Ao contrário dos que atribuíam passividade e falta de visão política aos povos indígenas, a “leitura à contrapelo” da documentação oficial permite perceber que os povos desenvolviam estratégias diferenciadas de resistência e imprimiam um ritmo próprio aos aldeamentos.

O desdobramento dessa relação era, muitas vezes, a reiteração de um sistema de inclusão marginal, no qual os filhos e filhas dos principais tinham sua força de trabalho explorada e podiam subir na hierarquia social, até um nível limitado. Essas questões têm sido amplamente debatidas por historiadores e antropólogos que trabalham com os povos indígenas em situação colonial61 (AMOROSO, 1998; MELO, 2009; MISSAGIA MATOS, 2004; SAMPAIO, 2001; SANTOS, 2009).

Continua na próxima edição…


Notas

55. Toda e qualquer generalização sobre os Mura do rio Madeira no século XIX deve ser tomada como procedimento operacional, sendo, na prática, difícil falar de grupos, aldeias e comunidades tão diferentes, com temporalidades específicas, vivendo em vários municípios dos rios Madeira, Purus e Autazes, e que se autodenominavam Mura.

56. Além das fontes primárias para o século XVIII compulsadas por Amoroso (1991) e Santos (1993), incluindo o poema Muruhaida, de João Wilkens, e o Auto da Devassa Mura, há os relatos dos naturalistas, para o século XIX, como os de Spix e Martius, além das notícias presentes nos relatórios técnicos de engenheiros que percorreram o Madeira, na segunda metade do Oitocentos. Para o século XX, destaca-se o trabalho de Curt Nimuendaju, na coletânea de Julian Stwart. Para a historiografia sobre o tema, destacam-se as pesquisas de antropólogos e historiadores, como os trabalhos de Amoroso (1991), Santos (2009), Athila (1998) e Fernandes (2008).

57. Informações retiradas do texto de Geraldo Pinheiro (1979), gentilmente cedido pela professora Selda Vale da Costa, à época do exame de qualificação da pesquisa.

58. A roça indígena e a época de viração das tartarugas eram atividades coletivas que traziam uma relativa autonomia para o grupo, e, por isso, foram duramente combatidas pelas autoridades locais.

59. O nome de Manuel Pereira de Sá está ligado à origem da vila e, depois, cidade de Manicoré. Membro da Guarda Nacional, depois da Guerra do Paraguai, da qual participou, conseguiu galgar os postos militares de mais alta patente. Exaltado pela historiografia de cunho mais tradicionalista e conservador, como o historiador Arindau Reis, Pereira de Sá foi, para os vários povos indígenas do Madeira, um verdadeiro flagelo.

60. Almeida relata os casos de pegação entre os chamados quilombolas de Alcântara/Maranhão. A pegação é a forma como eles nomeiam os recrutamentos obrigatórios para prestar serviços guerrilheiros e militares. No Maranhão, há, inclusive, relatos sobre o chamado “negro Tito”, que recrutava homens para a “guerra paraguaia” (ALMEIDA, 2006, p. 41).

61. Situação colonial — Não se trata de reduzir o recorte ao conhecido para o período colonial, mas de pensar a permanência de relações que têm por base a dominação e o controle, por parte do Estado, daqueles que precisam ser colonizados, civilizados e catequisados por outrem (OLIVEIRA, 2009; SAID, 2003).

*Davi Avelino Leal é escritor e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e membro do Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição. É licenciado, mestre e doutor pela UFAM.

Views: 0

Compartilhe nas redes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *