
*Davi Avelino Leal
Continuação…
2.5 Redes sociais e a construção de um mercado de seringais e castanhais no rio Madeira
A emergência de um mercado de compra e venda de seringais e castanhais baseado em critérios puramente monetários e impessoais conviveu com estratégias baseadas e construídas a partir de múltiplas formas de articulação que passavam por laços de afinidade, relações pessoais e os imbricados sistemas de honra e herança. Para reconstituir esse processo é preciso examinar as estratégias desenvolvidas por uma das famílias mais poderosa de Humaitá e de todo rio Madeira, na segunda metade do século XIX: a família Monteiro.
Antes de se passar à análise da trajetória da família Monteiro, são necessárias algumas considerações teóricas sobre a forma de abordagem da família, para fugir de concepções essencialistas e reducionistas.
Na historiografia mais recente, um nome que se destaca nesse aspecto é o de Giovani Levi e os seus estudos das estratégias familiares como forma de garantir a segurança do grupo, manter o prestígio, a riqueza e o poder do grupo familiar. Uma pista do autor para os estudos da família é atentar para as relações que se estabelecem para além dos laços de sangue, ou seja, a aliança pode se estabelecer entre famílias não co-residentes. Desta forma, evita-se a visão simplificadora da família como unidade de residência, ou como afirma o autor,
Para além dos núcleos parentais co-residentes, devemos observar as formas de solidariedade e cooperação seletiva adotada para organizar a sobrevivência e o enriquecimento, ou seja, as amplas formas de favores, dados ou esperados, através dos quais passam as informações e trocas, reciprocidades e proteção (LEVI, 2000, p. 98).
A forma como o autor problematiza o objeto o leva a pensar em estratégias familiares que se forjam num contexto que está além da unidade de residência. Essas considerações teóricas são importantes, pois contribuem para refletir-se nas estratégias elaboradas pela família Monteiro.
A trajetória da família Monteiro no Brasil tem início com a vinda do patriarca da família, José Francisco Monteiro de Portugal. Guardadas as especificidades da trajetória individual, a presença de portugueses, no Brasil do século XIX, perfaz um caminho conhecido em que estes irão atuar no comércio das principais cidades como atacadistas e varejistas. Boa parte deles chega, inclusive, fazendo parte de uma rede de acolhimento e recepção que os coloca, em pouco tempo, com condições de abrir o próprio negócio. A teia de relações e articulações da família Monteiro pode ser melhor analisada a partir do relato presente no livro de memórias do neto de José Francisco Monteiro, o advogado, político e escritor Almino Affonso (2004). Nele, o autor revela as imbricadas relações familiares, bem como as estratégias desenvolvidas não só pelo patriarca, mas por toda a família, durante boa parte do século XIX e XX, para manter o prestígio, a riqueza e o poder em Humaitá. É a partir, sobretudo desse livro, que foi possível reconstituir as estratégias da família Monteiro.
Conhecido como Comendador Monteiro, José Francisco Monteiro chegou ao Rio Madeira no final da década de 1860. Nascido na cidade do Porto, Portugal (1830), passou alguns anos na praça do Maranhão adquirindo experiência no comercio até se transferir para Belém, onde abriu a firma José Monteiro & Cia. Após acumular experiência e capital, em menos de uma década depois mudou-se para o Amazonas. Diferente dos que afirmam sobre a trajetória desses comerciantes e políticos como José Monteiro (ALMEIDA, 2005, p. 32; HUGO, 1959) ou J. G de Araújo, eles não chegaram aqui pobres e com garra e determinação fizeram fortuna. Pelo contrário, Joaquim Gonçalves de Araújo, por exemplo, aciona de pronto uma rede familiar em que os irmãos mais velhos que já atuavam no comércio local servem como suporte para empreitada.
José Monteiro já tinha acumulado capital e experiência nas praças de Belém e São Luís e vem com recursos suficientes para aviar fregueses. Com esse intuito, estabeleceu-se inicialmente no sítio Pasto Grande, próximo ao Mirari, acima da cidade de Humaitá, onde possuía um seringal e explorava outras atividades de comércio. No entanto, como diz Raimundo Almeida (2005), o comendador foi obrigado a se deslocar devido aos ataques constantes dos Parintintin, conforme explora do na introdução desta pesquisa. Em 1869, uma das propriedades de José Monteiro foi duramente atacada pelos Parintintin, ocasionando a mudança de toda a família para um lugar mais acima, fundando, ali, Humaitá. Ainda segundo Affonso, o comendador teve, em momentos diferentes, dois relacionamentos com união estável. Do primeiro relacionamento nasceram Antonio Francisco Monteiro, primogênito e braço direito nos negócios do pai durante décadas; Conceição, casada com o importante comerciante dr. José Crespo; Isabel, que se casou com João Ventura, José Francisco Monteiro Filho, advogado que atuou em Manaus, e Augusto, casado com d. Aristoliana.
O patriarca José Francisco Monteiro era dono de seringais em Mirary, no Behém (seringal Castanho com 687 mil metros; seringal Flórida com 23 estradas) e nos lugares Antelo, Vidraça, André e Jacundá. O poder econômico foi convertido em poder político, pois exerceu várias vezes o cargo de superintendente municipal de Humaitá. O filho mais velho, Antônio Francisco Monteiro, também era dono de seringais em Mirari. No entanto, além de seringueiro desenvolvia a atividade de principal administrador do mais importante jornal da cidade, o Humaytaense. Semanário no qual quem escrevia era o seu filho (neto de José Francisco Monteiro), reconhecido escritor que vivera em Paris no meio literário e boêmio, Raimundo Monteiro. Ele era casado com Úrsula Botelho, da família de Álvaro Botelho Maia. Tão importante quanto à presença de um homem de letras na família, foi o casamento de Honorina Monteiro com o influente e rico seringalista Acácio Ferreira Vale, dono de seringais em Mirari.
Esses dois enlaces matrimoniais são reveladores de como “o senso prático das estratégias” (FOUCAULT, 1979; BOURDIEU, 2004) funcionou para que famílias influentes do local pudessem, ao casar os seus membros, fortalecer os laços de prestígio e poder, para manter o controle sobre os principais castanhais e seringais e sobre as mais importantes firmas aviadoras locais. A relação que se estabelece é entre as três principais famílias, os Monteiros, os Vales e os Maias. A segunda filha de José Antônio Monteiro casou-se com o comerciante e suplente municipal de juiz José da Costa Crespo. Seu nome aparece em muitos documentos relativos ao contexto local como o responsável pelo julga mento em casos de brigas e desavenças nos seringais. Neste ponto, o braço da família Monteiro se espraia pelo poder judiciário, pelo executivo municipal e pelo legislativo municipal.
Filho da primeira união estável, José Francisco Monteiro Filho tornou-se advogado da família, atuando em Manaus. E Isabel Monteiro casou-se com o empregado da firma Monteiro & Cia, João Ventura. Como destaca Motta (1996), também para os barões da terra essa era uma estratégia comum, pois eles sabiam o quão importante era controlar ou ter influência nos três poderes para que no momento de conflito e desavenças com outros poderosos a rede de influência fosse acionada. O “senso das estratégias” pode ser notado quando perceber-se que, mesmo morando longe, os filhos dessa primeira relação de José Antonio Monteiro mostravam uma unidade nos interesses da família. Assim como apontou Levi, linhas atrás, permanecer unido não significa viver debaixo de um mesmo teto e que a estratégia econômica desenvolvida por esse grupo foi separar as residências, mas manter a unidade dos negócios.

Mapa genealógico de José Francisco Monteiro
O segundo relacionamento estável do “Comendador”, como era conhecido José Francisco Monteiro, foi com a boliviana Mathilde Ximenes (filha do comerciante boliviano Fabio Ximenes com a indígena Aduana Ximenes). Dessa relação, que durou até a morte de J. Monteiro, nasceram treze filhos. Antes de comentar as relações entre os filhos desse segundo enlace, faz-se necessário atentar para o fato de ser boliviana a segunda mulher de J. Monteiro. Num contexto em que um número significativo de trabalhadores era formado por indígenas bolivianos e que as terras pertenciam a uma região de fronteira e disputa entre Brasil e Bolívia, casar-se com a filha de um rico comerciante boliviano podia ser uma boa estratégia para o fortalecimento dos negócios.
Essa relação mencionada era tão forte que José Monteiro atuava como cônsul da Bolívia no Brasil, responsável pela agência aduaneira boliviana no rio Madeira (HUGO, 1959; Humaytaense, 15/11/1896). Dos treze filhos do casal destacam-se o médico Francisco Monteiro Jr, formado em Medicina na Bahia. Este foi prefeito de Humaitá e também trabalhou junto com o Cel. Rondon quando de sua passagem pela área. Após a morte da filha Matilda Monteiro (casada com Bohemundo Álvares Afonso), a irmã Dolores Monteiro contrai matrimônio com o viúvo e influente seringalista Bohemundo Álvares Afonso (pai de Almino Afonso) dono do seringal “Aliança”.
Além desses, Eduardo Monteiro e Margarida Rosa Monteiro também possuem participação direta na atuação pública da família Monteiro. Enquanto Eduardo Francisco Monteiro se elege como prefeito várias vezes, Margarida Monteiro contribui, junto com o marido Jerônimo Monteiro, para os negócios da firma do pai. A rede de relações é interminável. Adelfa, neta de J. Monteiro, casou-se com o representante da firma que atuava no rio Madeira, a B Levy & Cia.
O caixeiro-viajante José Garcia não era bem-visto na família, talvez por ser representante da firma B. Levy, firma que entrara em atrito com os interesses da casa Monteiro. Havia casos em que outra família influente não fazia parte diretamente dos Monteiros, mas estava estreitamente ligada por interesses comerciais ou políticos. O caso mais notável talvez seja a do médico baiano Pedro Alcântara Bacelar. Aportou em Humaitá em 1905 (formado em Medicina pela faculdade de Medicina da Bahia, a mesma de José Francisco Jr.) e possuía uma ampla rede de amigos em todo o território, pois tinham estudado medicina na mesma faculdade. Quando chega à cidade se vale do prestígio de ser médico para se aproximar da família Monteiro.
Também dono de seringal, o dr. Alcântara Bacelar, como era chamado, possuía uma fazenda chamada “Petrópolis” no lugar conhecido como “Popunhas”. Sempre que tinha uma folga viajava na lancha Muirakitan de propriedade de Antônio Francisco Monteiro. Em 1917 o então doutor Pedro Alcântara Bacelar torna-se governador do Estado do Amazonas e iniciam-se as desavenças e conflitos de interesses com o Comendador Monteiro (O Madeirense, 24/3/1918). O governador Al cântara Bacelar estava mais alinhado aos interesses de Antônio Fran cisco Monteiro (o filho mais velho) do que propriamente com o pai, que a essa altura contava com 97 anos. Não apenas Alcântara Bacelar se desentendera com o patriarca, mas o próprio filho Francisco Monteiro, por disputas políticas, chocou-se com os desejos do pai, a ponto de es tarem à beira de um conflito armado (AFFONSO, 2004).
Das mais importantes famílias da área, a única que não estava alinhada aos interesses da família Monteiro era a do conhecido seringalista Manuel de Souza Lobo. Dono do seringal Três Casas (um dos três mais importantes seringais da margem de Humaitá), comenta-se até que Manuel Lobo era inimigo da casa Monteiro. Segundo afirma o missionário salesiano Vitor Hugo, em seu segundo volume de os Desbravadores, a disputa com a família Monteiro era com relação à chama da pacificação dos Parintintin, pois os dois seringalistas disputavam quem obtinha sucesso com o intento (HUGO, 1959; MENEDEZ, 1989). No próximo capítulo serão analisadas as estratégias elaboradas por Manuel de Souza Lobo para se aproximar dos Parintintin.
Toda essa rede de casamentos, intrigas e alianças permite que se construa uma cadeia de relações onde os interesses são conjugados, os setores mais importantes da sociedade são sistematicamente ocupados e o poder e a riqueza acabam circulando em ambientes restritos. São inúmeros os seringais e castanhais que estão sob o controle da família Monteiro, segundo afirma Almino Afonso (2001), os Monteiro possuíam propriedades no Mirari, administradas por Antonio Francisco Monteiro, o extenso seringal Aliança administrado por Bohemundo Alvares Afonso (casado com Dolores Monteiro), o seringal Castanho, no Behém (um lote perfazendo 45 milhas e 687 mil metros), o seringal Florida com 23 estradas (administrado pelo filho Augusto Francisco Monteiro, seringais nos lugares Antelo, Vidraça e André, bem como terras no Jacundá (Humaythaense, 12/11/1916).
As notícias de compra, venda e arrendamento dos seringais passavam necessariamente pela família, pois os seus membros ocuparam, por décadas, a superintendência municipal. Eram também os donos dos principais jornais da cidade. Mais do que isso, a rede de relações possibilitava um controle mais acurado sobre o mercado de seringais e castanhais em Humaitá. Ainda no início da década de 1870, o genro de José Francisco Monteiro, o comerciante e seringalista, José da Costa Crespo, compra da Província do Amazonas terras onde deveriam passar os trilhos da Madeira-Mamoré, por 600$00, para logo em seguida, questão de poucos meses, revender as mesmas terras, agora inflacionadas para a Comissão Fiscal das Estradas de Ferro pelo dobro do preço.
O governo não aceitou a indenização absurda pedida por Costa Crespo para a desapropriação da área, embora peritos tenham confirma do que os novos valores pedidos estariam conforme o preço dos terrenos da área (HUGO, 1959, vol. I). Esse relato é um sintoma de como a família atuava, pois, detendo informações privilegiadas por ocupar postos estratégicos dentro do governo municipal, podia antecipar-se na compra de terras e seringais que em pouco tempo estariam valorizados.
O patrimônio da família Monteiro foi longamente administrado pelo pai, José Francisco Monteiro, que viveu 97 anos, falecendo em 21 de outubro de 1917. Ele acompanhou todo o processo de expansão do mercado da borracha, acumulando riqueza, prestígio e poder, e vivenciou também o momento em que a chamada “crise” abateu os principais seringalistas de toda a região. O ano de 1917 é particularmente difícil para família Monteiro, pois antes mesmo da morte do patriarca, os conflitos entre o pai e o filho mais velho, e as intrigas com o parceiro político de outrora e agora governador do Estado, Pedro Alcântara Bacelar, contribuíram para debilitar ainda mais o comendador. Nem a presença do bispo do Amazonas D. Ireneu Joffily em Humaitá (ficou hospedado na casa Monteiro em Mirary), ajudou a arrefecer os ânimos. Com a morte do velho Monteiro quem assume a direção dos negócios da família, em Humaitá, é a filha mais velha de José Francisco Monteiro com Mathilde Ximenes Monteiro (a segunda e mais duradora relação do patriarca), dona Maria Bernadete Carmen Ximenes Monteiro (talvez pelo distanciamento físico e emocional do primo gênito Antônio Francisco Monteiro), dando prosseguimento aos negócios até os anos 40 com a sua morte (AFFONSO, 2004).

Mapa genealógico da 2ª família de José Francisco Monteiro 1.

Mapa genealógico 2 da família de José Antônio Monteiro
Continua na próxima edição…
*Davi Avelino Leal é escritor e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e membro do Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição. É licenciado, mestre e doutor pela UFAM.
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