Manaus, 26 de agosto de 2026

As utopias dos contratos do Novo Mundo e Amazônia

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Este artigo apresenta uma breve descrição conceitual das novas utopias para o século XXI. Demonstra a importância de uma nova reordenação econômica e socioantropológica do sistema capitalista e a necessidade de reformular os conceitos de desenvolvimento econômico e cidadania, permeados pela sustentabilidade. Reafirma e esclarece a importância da Amazônia no processo político e econômico mundial e na nova ordem geopolítica global.

A utopia é uma categoria universal. Em certos contextos culturais, pode ser um contraponto reacionário à práxis histórica que propõe mudar o mundo numa perspectiva crítica que propõe libertar o homem da alienação e da exploração capitalista. Também pode ser considerada uma referência para a solução de problemas de natureza universal ou uma estrutura virtual que impulsiona o intelecto idealista.

Neste artigo, a utopia é usada como estratégia metodológica para a construção de um texto analítico consistente. Analisa diversas utopias associadas a questões relevantes da modernidade (Freitas e Silva Freitas, 2021, 2014) [1,2] por meio de um estudo teórico prospectivo.

Estudos demonstram que cinco utopias guiarão os processos socioantropológicos no século XXI: a construção de um contrato político mundial, centrado no confronto “Leste x Oeste” e na eliminação do racismo; a cristalização da democracia participativa dentro de um sistema político universal; a implementação de um novo contrato natural, baseado na possibilidade da destruição do planeta e da extinção da espécie humana devido às mudanças climáticas e à injustiça ambiental; a consolidação de um contrato social;

Reafirmando os direitos humanos universais; e afirmando um contrato ético entre as nações, em resposta aos dilemas e impasses descritos acima, revelados e exacerbados pelo processo de globalização e pela crescente desigualdade socioeconômica. Essas são as utopias do século XXI, todas com a participação da Amazônia.

A sustentabilidade ainda constitui a utopia das utopias. Ela depende muito da ecologia como processo de produção, construção e reprodução da vida em todas as suas dimensões materiais e simbólicas.

A história demonstra que o capitalismo é incapaz, do ponto de vista heurístico, de explorar economicamente o planeta, preservando simultaneamente seus grandes biomas e populações. Isso reafirma a importância de uma nova reordenação econômica e política do sistema capitalista e a necessidade de reformular os conceitos de desenvolvimento econômico e cidadania. A sustentabilidade é um elemento-chave nesse processo. Contudo, para alcançar plenamente a sustentabilidade, novos contratos globais devem ser desenvolvidos: contratos que sejam amplamente eficazes por um longo período e que fortaleçam a distribuição de riqueza, a construção da paz e uma melhor integração socioeconômica entre os países. Este estudo apresenta uma breve descrição conceitual das novas utopias do século XXI.

Utopias redentoras e a nova geopolítica global

O mundo caminha rumo ao seu colapso socioecológico. Guerras, destruição socioecológica, mudanças climáticas, injustiça ambiental, desigualdade social exacerbada e conflitos civilizatórios comandam essa jornada sem retorno. A materialização de novas utopias na forma de contratos globais que promovam a vida plena e a proteção sustentável do planeta apresenta novos desafios e esperanças para a humanidade e para todos nós. Um raio de luz iluminando a escuridão.

Utopia Política: Um Novo Contrato Político Mundial e a Amazônia

As concepções e os regimes políticos vigentes são diversos e complexos, tanto em quantidade quanto em qualidade. Nessa conjuntura, o confronto político entre Ocidente e Oriente se acentua. O pragmatismo, o racionalismo, a privatização ocidental exacerbada e tecnicista, assim como o fundamentalismo religioso e político dos países orientais, impedem a materialização de um Estado republicano comprometido com uma humanidade integrada e multicultural. Essas questões conspiram contra a construção da paz e da solidariedade mundial.

Guerras de civilizações, chantagem política e invasões territoriais dos EUA em países com grandes reservas de combustíveis fósseis e minerais estratégicos para a indústria eletroeletrônica intensificam esse confronto que põe em risco a estabilidade política mundial. A abundância de recursos minerais e naturais na Amazônia justifica sua presença nesse contrato global.

A inserção assimétrica da China, dos Estados Unidos, da Rússia, da Coreia do Norte, do Irã e de Israel em um diálogo político mundial contribui para a formulação de uma utopia política no século XXI (Freitas e Silva Freitas, 2014) [2]. Essa utopia propõe o estabelecimento da democracia como um sistema político universal, com os processos econômicos e o arcabouço legal permeados pelas novas regulamentações jurídicas e determinações políticas do sistema capitalista. Propõe também a construção de uma nova ordem econômica e política mundial focada na eliminação do culto ao racismo e ao antropocentrismo. Nessa nova conjuntura, coloca-se a possibilidade de cada cultura possuir valores e perspectivas plurais: amor, crença religiosa, arte, comunicação oral, conhecimento técnico e organização social, econômica e política, em diferentes intensidades e gradações.

O crescente fluxo financeiro do Ocidente para o Oriente introduz novos elementos nesse processo econômico mundial. Embora a preservação do meio ambiente e o combate à pobreza ainda não sejam preocupações centrais para as instituições globais que controlam a produção, a circulação e a reprodução do capital, as sociedades organizadas exigem a inclusão da sustentabilidade nas políticas públicas.

Isso significa que estão sendo construídas as condições estruturais para um novo arcabouço que incorpora a sustentabilidade como fundamento dos processos civilizatórios. A multiplicação e a politização das redes sociais e econômicas e as novas formas de organização social contribuem para a implementação de uma utopia política, um novo contrato político mundial.

A utopia política que impulsiona um novo contrato político mundial propõe a descentralização dos poderes econômicos e políticos dos países desenvolvidos. Isso gerará ondas de instabilidades nos processos econômicos nacionais e internacionais. Essas questões pressupõem a construção de uma nova centralidade política e uma nova métrica temporal para os processos econômicos e sociais. Uma centralidade política a ser irradiada a partir das ‘regiões’ e uma métrica temporal situada, tanto, no curto prazo das necessidades humanas quanto no longo prazo da preservação do planeta. Essa conjuntura exige a reinterpretação dos conceitos de cidadania e desenvolvimento econômico (Freitas e Silva Freitas, 2021) [1]. Estão sendo construídas as condições estruturais para um novo quadro que incorpore a sustentabilidade aos fundamentos dos processos civilizatórios ocidentais.

A Utopia Ambiental: Uma Nova Visão Mundial da Natureza Contrato e a Amazônia

A questão ambiental desdobra-se no emblema da ecologia, bem como no processo de produção, desenvolvimento e reprodução da vida. Nessa conjuntura, a utopia ambiental baseia-se principalmente no confronto “natureza x cultura”. Essa utopia pressupõe a concepção centrada no pensamento iluminista do século XVIII, que busca, em essência, tornar-se eterna e invencível “homem-natureza-cultura” em um mundo marcado por grande desigualdade social e um mercado de consumo exacerbado.

A ruptura das estabilidades climáticas, químicas e termodinâmicas do planeta põe em risco o futuro da humanidade e constitui uma possibilidade real. A mitigação do efeito estufa e das mudanças climáticas é o principal desafio ecológico deste século (Freitas e Silva Freitas, 2013) [3].

A incompatibilidade da utopia ambiental com o sistema capitalista constitui uma contradição estrutural da modernidade. O processo capitalista de acumulação, reprodução e circulação de capital não possui alcance teórico e empírico para salvaguardar a preservação ambiental do planeta, presente e futuro. A possibilidade da perda total do controle da perpetuidade da humanidade devido às mudanças climáticas levou potencialmente à implantação de programas mundiais para a preservação e conservação dos recursos naturais, incluindo solos, águas e a atmosfera terrestre (IPCC, 2023) [4]. Isso exige a construção de uma nova base simbólica e material para impulsionar essa utopia, uma base alicerçada nos princípios da responsabilidade e da precaução, entrelaçada em uma rede de integração global por meio de estruturas móveis.

Um novo contrato natural mundial resultará em novas formas de organização das cidades, das matrizes industriais, das profissões e das sociedades, evidencia a necessidade de desenvolvimento sustentável. A grandeza cultural e ecológica da Amazônia exige sua presença neste contrato natural mundial. Ela abriga 385 povos indígenas, 500 trilhões de árvores e 2.000 grandes rios, sendo uma entidade importante para a mitigação das mudanças climáticas.

A Utopia Social: Um Novo Contrato Social Mundial e a Amazônia

A implementação de programas multiculturais e a urgência de combater a crescente desigualdade social são as principais premissas da utopia social. A desintegração da base social mundial reafirma a necessidade de construir os mecanismos operacionais dessa “utopia redentora” que pretende valorizar os processos sociais.

A tendência do mercado e do Estado-nação de criar novos instrumentos para aumentar a desigualdade social, incorporando-os nas políticas públicas, tem de ser revertida. Esta tarefa requer a sincronização das marchas do Estado, do mercado e da sociedade na perspectiva da sociedade (Vivien, 2001, 19-60) [5].

Este pacto mundial deve priorizar o combate às oito “pragas” da pós-modernidade: o racismo, a pobreza, a guerra, o desemprego estrutural, a destruição ecológica, o trabalho infantil, as doenças endêmicas e epidêmicas (especialmente a covid-19) e a crise moral.

A integração mundial das políticas públicas básicas – saúde, educação – e a cultura, mobilização da opinião pública mundial constituem o principal desafio dos mecanismos operacionais dessa utopia.

O aumento dos fluxos migratórios, o ressurgimento da violência e a assimetria econômica mundial reafirmam a importância dessa utopia. Reafirmam também a necessidade de mudar os fundamentos da educação enquanto agente dos processos de produção e reprodução da sociedade capitalista. O entrelaçamento dos contratos sociais e naturais mitigará as tensões sociais mundiais agravadas no século XXI.

O surgimento da era dos modelos de desenvolvimento sustentável impulsiona tendências otimistas para o sucesso deste contrato mundial. A Amazônia está inserida nesse cenário global porque atualmente é o principal laboratório mundial aberto a experimentos de arranjos de produção sustentáveis.

A Utopia Ética: Um Contrato Ético Pluricultural e a Amazônia

A autodeterminação dos povos, a tolerância política e religiosa e o respeito pelas diferenças e pela dignidade humana são os fundamentos da utopia ética. Seus mecanismos operacionais se baseiam na responsabilidade coletiva de construir um mundo generoso, fraterno, solidário e perene, de múltiplas características e multicultural coexistências.

Sua base material pressupõe uma nova regulação de mercado e a reestruturação do papel do Estado na implementação e gestão de políticas públicas. Já sua representação simbólica tem como principais referências as artes e a educação.

Pode-se afirmar que o princípio da sustentabilidade tem como pressuposto a ideia central de construir uma “modernidade ética” que interrompa a destruição do processo de autoafirmação e perpetuação da humanidade na Terra. Numa perspectiva que considera a modernidade ética e não apenas uma modernidade técnica. Essa ética pode ser construída como uma crítica radical à noção de destino, entrelaçando inteligência e liberdade em um vínculo virtuoso com o bem. No entanto, tal ética universal se articula com a globalização da cultura técnica e científica. A ciência moderna pressupõe metodologicamente a distinção entre fato e valor, realidade física e valor, permanecendo em uma relação estritamente extrínseca com a esfera do bem (Ospina, 2000) [6].

Uma nova sociedade mais interligada entre si e com a perpetuidade da humanidade constitui uma aplicação imediata dessa utopia. Isso significará romper com os fundamentos morais e a tradição capitalista da cultura ocidental.

A Amazônia desempenha um papel central nessa utopia, conforme apresentado abaixo. Da perspectiva tecnológica, a vida não é sustentável; ela caminha continuamente em direção à morte física. A deificação humana abre novas perspectivas para esse processo, pois não há restrição à sustentabilidade do espírito. Nesse universo, os fundamentos da teologia podem potencializar a plena sustentabilidade sem contradições com a sustentabilidade divina e espiritualizada.

Esta imagem suscita a seguinte questão: qual a relação deste tema com a Amazônia? Trata-se da reinvenção dos mitos da imortalidade (religião), do mundo natural (a Amazônia), do universo como espetáculo (ciência) e do mundo da moda (mercadorias). Mitos que são as matrizes de representações simbólicas que projetam a ecologia e a sustentabilidade como os principais signos da pós-modernidade. Para esta referência existência, a natureza não tem pele.

Existe um entrelaçamento do tipo ser humano-natureza-espírito, segundo a ecologia integral do Papa Francisco, Laudato Si, que considera a Amazônia como uma entidade viva e espiritualizada (Papa Francisco, 2025) [7]. Nessas condições, podem-se identificar dez “pecados capitais” praticados contra ela, conforme definidos pelo Papa Gregório Magno no século VI e pelas novas demandas teológicas do século XXI [8-12]. São eles: gula capitalista, luxúria, avareza, ira, orgulho, preguiça, inveja, racismo, injustiça ambiental e desigualdade social extrema. Portanto, esses dez pecados capitais têm estado muito presentes na crescente prática de destruição ilícita, ecológica e cultural da Amazônia. Certamente, a Amazônia e a natureza viva e espiritualizada simultaneamente compõem um alicerce estruturante da sustentabilidade espiritualizada. Um contrato ético mundial deve também apreender a natureza como uma entidade viva e espiritualizada. Essa estrutura existencial também reafirma a presença da Amazônia neste contexto.

Conclusão provisória

A ciência, a religião e a educação humanista desempenham um papel fundamental na reinvenção das utopias analisadas neste artigo e estarão muito presentes no século XXI. Mas, atualmente, a humanidade enfrenta muitas incertezas e ameaças. A barbárie política e econômica parece não ter fim. Essa situação reafirma a importância dessas utopias. É assim que as entendemos.

Referências

1. Freitas M, Silva Freitas MC (2021) Quem salvará a Amazônia? Patrimônio Mundial ou destruição total. NY: Nova Science Publishers pp. 1-1.

2. Freitas M, Silva Freitas MC (2014) Fragmentos de utopias do século XXI e Amazônia: projeções e controvérsias. Innovation: The European Journal of Social Science Research 27(3): 275-294.

3. Freitas M, Silva Freitas MC (2013) Sustentabilidade, Amazônia e meio ambiente: proposições e desafios. Revista Internacional de Estudos Ambientais 70(04): 467-476.

4. IPCC (2023) Mudanças Climáticas 2023: Resumo para Formuladores de Políticas. Relatório de Síntese. Contribuição dos Grupos de Trabalho I, II e III para o Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas [Equipe Central de Redação, H. Lee e J. Romero (orgs.)]. IPCC, Genebra, Suíça. 1-34.

5. Vivien F (2001) História de uma palavra, história de uma ideia: o desenvolvimento durável à experiência do tempo, 19-60. Editado por Marcel Jollivet; Elsevier, Paris.

6. Ospina CL (2000) Reunião Internacional de Especialistas em Educação Ambiental e novas propostas para a ação, 30-31. Santiago de Compostela, Espanha.

7. Papa Francisco (2025) Laudato Si’ e Laudate Deum. Nosso visitante de domingo Publicação.

8. Freitas M (2026) Amazônia-Abya Yala: Utopias de Sustentabilidade Transgressora. Revista de Ciências Antropológicas e Arqueológicas 12(2): 1648-1656.

9. Freitas M, Silva Freitas MC (2020) O Futuro da Amazônia no Brasil; Uma tragédia mundial. NY: Publicação Peter Lang.

10. Freitas M (2015) Sustentabilidade: A Utopia das Utopias. Global Journal of Human-Social Science: C. Sociology & Culture 15(7).

11. Remnick D, Finder H (2020) A Terra Frágil: Escritos do New Yorker sobre Mudanças Climáticas. Ecco Press Publishing, Nova York.

12. Silva Freitas MC, Freitas M, Ruiz MA (2015) Política pública para o desenvolvimento durável: a Amazônia. Inovação: The European Journal of Social Science Research 28(2): 192-210.

Link

https://lupinepublishers.com/anthropological-and-archaeological-sciences/pdf/JAAS.MS.ID.000399.pdf

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