Manaus, 12 de setembro de 2026

As utopias dos contratos do Novo Mundo e Amazônia

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Amazônia é um universo diferenciado, uma unanimidade mundial. Uma entidade que guarda infindáveis mistérios e segredos, potencializa histórias fantásticas, desperta empatia e encantamento e, simultaneamente, desempenha um papel estratégico no novo ordenamento político global. Costumo dizer que sua presença nos processos políticos, econômicos, científicos e teológicos globais pode ser representada por 4 utopias mundiais, esquematizadas em forma de contratos mundiais. Instrumentos políticos que precisam ser institucionalizados, visando à construção de um mundo centrado na solidariedade, na fraternidade e na equidade, assentado na sustentabilidade espiritualizada e compartilhada.

Mas o seu futuro continua sujeito a riscos plausíveis. É preciso incorporar sua sustentabilidade transgressora no seu desenvolvimento sustentável espiritualizado. Desde a chegada dos europeus à região no século 16, a Amazônia continua vítima de intervenções predatórias, submetida a preconceitos e constrangimentos civilizatórios impostos aos seus povos durante sua colonização e reconfiguração territorial nacionalista forçada. Sua inclusão no novo ordenamento mundial, por meio de 4 contratos amplos e abrangentes, é um elemento-chave na nova geopolítica global.

1. Contrato político mundial e Amazônia

Este contrato tem como foco o confronto entre “Ocidente” e “Oriente”. A materialização de intervenções políticas que desconstruam este confronto exige descentralizar a economia e os poderes políticos dos países desenvolvidos. Demanda também desconstruir o falso antagonismo das relações entre “Natureza” e “Cultura” nos processos econômicos e na práxis humana. Este quadro desdobra-se na emergência de uma nova centralidade política e métrica temporal para nossa vivência. Centralidade política que privilegia as atividades e as culturas locais, os empreendimentos regionais dirigidos aos mercados globais. Prioriza as ações, do local ao mundial, do singular ao universal. No tempo breve, propõe-se atender às necessidades básicas da sociedade e, no tempo longo das gerações, preocupa-se com a perpetuidade da espécie humana e a preservação do planeta. Este contrato requer ressignificar o conceito de cidadania e desenvolvimento econômico. As reiteradas pilhagens econômicas por governantes tiranos com grande capacidade bélica em países orientais, africanos e sul-americanos, em especial na Amazônia pan-americana, mostram a importância da instauração desse contrato mundial. A cobiça internacional pelos recursos minerais e ambientais amazônicos, em especial pelas terras raras e outros minerais estratégicos para a indústria de microeletrônica, reafirma a necessidade desse contrato. A rápida destruição socioecológica do planeta e de grande parcela de conhecimento tradicional mundial demanda a implantação desse contrato no curto prazo. Este quadro mostra a importância da emergência de novos marcos civilizatórios que incorporem em seus fundamentos a grandeza cultural e ecológica da Amazônia, assim como o paradigma da sustentabilidade. Certamente, a Amazônia apresenta-se como uma entidade-chave nesse novo contrato político mundial.

2. Contrato ecológico mundial e Amazônia

O ‘contrato natural mundial e a Amazônia’ é um fundamento da era do Antropoceno, que considera a ecologia um dos principais emblemas da modernidade. Logo, o contrato ambiental mundial baseia-se principalmente no confronto da natureza com a cultura. Esse contrato, que pressupõe a concepção civilizatória centrada no pensamento iluminista do século 18, propõe tornar a tríade “homem-natureza-cultura” eterna e invencível, em um mundo marcado por grande desigualdade social e um mercado de consumo exacerbado. A ruptura das estabilidades climáticas, químicas e termodinâmicas do planeta põe em risco o futuro da humanidade e constitui uma possibilidade real. Mitigar o efeito estufa, as mudanças climáticas e a injustiça ambiental é o principal desafio ecológico deste século. A incompatibilidade da utopia ambiental com o sistema capitalista predatório constitui uma contradição estrutural da modernidade, considerando que o regime capitalista ainda não tem alcance teórico e empírico para salvaguardar a preservação ambiental do planeta. Isso exige construir uma nova base simbólica e material para materializar esse contrato, uma base política alicerçada nos princípios da responsabilidade e da precaução, entrelaçada em uma rede de integração global por meio de estruturas móveis. Um novo contrato natural mundial resultará em novas formas de organização das cidades, das matrizes industriais, das profissões e das sociedades, potencializando a implantação dos modelos de desenvolvimento sustentável. A grandeza cultural e ecológica da Amazônia exige sua presença neste contrato natural mundial. Ela abriga 385 povos indígenas, 500 bilhões de árvores e 2.000 grandes rios, sendo uma entidade importante para mitigar as mudanças climáticas. Um universo cultural e ecológico que desafia todos os campos de conhecimento da modernidade.

3. Contrato social mundial e Amazônia

‘Um novo contrato social mundial e a Amazônia’ baseia-se na necessidade de implantação de programas multiculturais e na urgência de combater a crescente desigualdade social. A desintegração das instituições multilaterais e da base social global reafirma a necessidade de construir os mecanismos operacionais desse “contrato redentor”, que propõe promover e valorizar os processos sociais. A tendência do mercado e do Estado-nação de criar novos instrumentos para aumentar a desigualdade social, incorporando-os em suas políticas públicas, tem de ser revertida. Esta tarefa requer a sincronização das marchas do Estado, do mercado e da sociedade na perspectiva da sociedade. Este pacto mundial precisa priorizar o combate às oito “pragas” da pós-modernidade: o racismo, a pobreza, a guerra, o desemprego estrutural, a destruição ecológica, o trabalho infantil, as doenças endêmicas e epidêmicas e a crise moral. A integração mundial das políticas públicas básicas – saúde, educação e cultura – e a mobilização da opinião pública mundial constituem o principal desafio desse contrato. O aumento dos fluxos migratórios, o ressurgimento da violência e a assimetria econômica global reafirmam a importância desse contrato. Reafirmam também a necessidade de mudar os fundamentos da educação enquanto agente dos processos de produção e reprodução da sociedade capitalista. O entrelaçamento do contrato social e o natural mitigarão as tensões sociais mundiais agravadas durante o século 21. A emergência da era dos modelos de desenvolvimento sustentável criou tendências otimistas para o sucesso deste contrato mundial. A Amazônia está inserida nesse cenário global porque atualmente é o principal laboratório mundial aberto a experimentos de arranjos de produção sustentáveis. Ela tem pretensão de se tornar o principal centro global de modelos de desenvolvimento sustentável.

Os três contratos apresentados demandam um contrato ético pluricultural mundial que também abarca os grandes desafios postos pela humanidade na Era do Antropoceno.

4. Contrato ético mundial e Amazônia

Finalmente, tem-se o novo contrato ético pluricultural mundial e a Amazônia. A autodeterminação dos povos, a tolerância política e religiosa e o respeito pelas diferenças e pela dignidade humana são os fundamentos desse contrato. Seus mecanismos operacionais baseiam-se na responsabilidade coletiva de construir um mundo generoso, fraterno, solidário e perene, de múltiplas características e coexistências multiculturais. Sua base material pressupõe uma nova regulação de mercado e a reestruturação do papel do Estado na implementação e gestão de políticas públicas. Sua representação simbólica tem como principais referências as artes e a educação. Pode-se afirmar que o princípio da sustentabilidade tem como pressuposto a ideia central de construir uma “modernidade ética” baseada numa sociedade mais interligada entre si e com a perpetuidade da humanidade. Isso significa romper com os fundamentos morais e a tradição capitalista da cultura ocidental. A Amazônia desempenha um papel central nesse contrato ético mundial. Na perspectiva biológica, a vida não é sustentável. Ela viaja continuamente em direção à morte física. A deificação humana abre novas perspectivas para esse processo, pois não há restrição à sustentabilidade do espírito. Nesse universo, os fundamentos da teologia podem potencializar a sustentabilidade plena sem contradições com a sustentabilidade divina e espiritualizada. Este cenário suscita a seguinte questão: qual a relação desta abordagem com a Amazônia? Trata-se da reinvenção dos mitos da imortalidade (religião), do mundo natural (a Amazônia), do universo como espetáculo (ciência) e do mundo fashion (mercadoria). Estes mitos são as matrizes de representações simbólicas que projetam a ecologia e a sustentabilidade como importantes signos da pós-modernidade. Para esta referência do ser humano, a natureza não tem pele.

Há um entrelaçamento do tipo ser humano-natureza-espírito, segundo a ecologia integral do Papa Francisco, Laudato Si, que considera a Amazônia como uma entidade viva e espiritualizada. Nessas condições, podem-se identificar os dez “pecados capitais” praticados contra ela, conforme definidos pelo Papa Gregório Magno no século VI e pelas novas demandas teológicas do século 21. São eles: gula capitalista, luxúria, avareza, ira, orgulho, preguiça, inveja, racismo, injustiça ambiental e desigualdade social extrema. Portanto, esses dez pecados capitais têm estado muito presentes na crescente prática de destruição ilícita, ecológica e cultural da Amazônia. Certamente, a Amazônia e a natureza viva e espiritualizada compõem um alicerce estruturante da sustentabilidade espiritualizada. Um contrato ético mundial deve também apreender a natureza como uma entidade viva e espiritualizada. Essa estrutura existencial também reafirma a presença da Amazônia neste contrato ético.

A ciência, a religião e a educação humanista desempenham um papel central nesses contratos mundiais, que também contarão com a presença da Amazônia no século 21. Mas, atualmente, a humanidade enfrenta muitas incertezas e ameaças. A barbárie política e econômica parece não ter fim. Essa situação reafirma a importância desses contratos e suas reverberações na Amazônia. Dessa forma, a implantação do desenvolvimento sustentável na Amazônia, especialmente no Estado do Amazonas, precisa considerar o quadro de referência apresentado neste ensaio.

Marcílio de Freitas

Manaus, 28 de agosto de 2026

Marcílio é patrono da cadeira n.º 5, Alexander von Humboldt, do IGHA.

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