Manaus, 27 de outubro de 2026

A responsabilidade de defender o Amazonas

Ilustração em estilo mosaico com rio amazônico, comunidade ribeirinha, prédios de pesquisa, floresta e mãos entrelaçadas ao alto
Ilustração: imagem gerada por inteligência artificial

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“Há 47 anos, o CIEAM defende a indústria e as condições de desenvolvimento do Amazonas. Essa trajetória exige uma posição clara diante de escolhas de governo que comprometam o emprego, a floresta e a capacidade da sociedade de resistir ao crime organizado.”

Uma entidade que dedica 47 anos à defesa da Zona Franca de Manaus tem responsabilidades que atravessam governos, eleições e preferências pessoais. O Centro da Indústria do Estado do Amazonas construiu sua trajetória em torno da continuidade de uma economia que sustenta empresas, trabalhadores e uma extensa rede de atividades. Quando essa estrutura é ameaçada, cabe à instituição identificar a ameaça, demonstrar suas consequências e mobilizar a sociedade para enfrentá-la. Essa obrigação acompanha a própria razão de sua existência.

A orientação de preservar a independência partidária precisa ser compreendida à luz desse compromisso. Ela assegura à entidade condições de dialogar, cobrar e divergir de qualquer governo. Não se pode invocá-la para exigir silêncio diante de medidas que corroam a base econômica do Amazonas. Seria difícil explicar aos trabalhadores e às empresas por que uma instituição criada para defendê-los deixou de advertir sobre um perigo que tinha condições de reconhecer.

O precedente do IPI de 2022

O histórico de decisões públicas precisa pesar nesse julgamento. Em 2022, o governo Jair Bolsonaro editou decretos de redução do IPI que atingiam a proteção competitiva da Zona Franca de Manaus. O Supremo Tribunal Federal suspendeu seus efeitos sobre produtos também fabricados no polo industrial, reconhecendo o risco para o modelo regional protegido pela Constituição. A revisão posterior das medidas permitiu revogar a liminar. A correção ocorreu depois de uma disputa que obrigou o Amazonas a defender judicialmente condições essenciais à sua economia.

Esse episódio precisa integrar qualquer avaliação de um projeto político que reivindique a continuidade daquele governo. A redução de um tributo pode ser apresentada nacionalmente como estímulo à produção e, ao mesmo tempo, comprometer uma política regional quando desconsidera os custos que justificam sua existência. Foi precisamente esse risco que chegou ao Supremo.

Para o Amazonas, a pergunta é concreta. Que segurança oferece um projeto de governo que já colocou em disputa o diferencial necessário à permanência das fábricas na região? Quem reivindica esse legado precisa explicar quais decisões pretende preservar, quais reconhece como equivocadas e que garantias oferece contra sua repetição. O CIEAM tem o dever de formular essas perguntas publicamente, com a mesma firmeza diante de qualquer candidatura.

O que o enfraquecimento da Zona Franca produziria

As consequências iriam muito além dos balanços industriais. A perda de competitividade tende a comprometer novos investimentos, a renovação de equipamentos e a contratação de trabalhadores. Uma empresa pode reduzir suas operações gradualmente, transferir uma linha de produção ou destinar sua expansão a outro estado. Quando essas decisões se acumulam, seus efeitos alcançam transportadoras, restaurantes, oficinas, fornecedores, profissionais autônomos e o comércio dos bairros.

Na casa do trabalhador, a retração aparece como prestação atrasada, alimentação mais restrita, interrupção dos estudos e dependência crescente de ajuda familiar. Nos pequenos negócios, aparece na queda das vendas e na dificuldade de manter funcionários. Nas contas públicas, a perda de atividade econômica pode reduzir a capacidade de financiamento justamente quando aumenta a procura por assistência, saúde e proteção social.

Um governo que fragilize a principal estrutura produtiva do estado, sem construir alternativas viáveis na escala necessária, expõe a população a um empobrecimento de longa duração. Instalar uma fábrica exige capital, formação profissional, fornecedores e confiança. Recuperar esse conjunto depois de sua dispersão pode consumir muitos anos.

Há limitações conhecidas no desenvolvimento amazonense, entre elas a concentração de oportunidades em Manaus e a insuficiência de investimentos no interior. Essas limitações exigem correção, diversificação e maior articulação entre indústria, universidades e economias da biodiversidade. O enfraquecimento da base existente reduziria também os recursos e as capacidades disponíveis para essa transformação.

Card: o Amazonas poderá perder empregos no presente e os instrumentos para construir alternativas econômicas no futuro

A dimensão ambiental

A dimensão ambiental exige igual franqueza. O trabalho industrial, os serviços e as atividades urbanas sustentam formas de geração de renda que dispensam a conversão direta da floresta em área de exploração. Essa contribuição convive com outras condições indispensáveis à conservação, como fiscalização, regularização territorial, pesquisa e oportunidades econômicas para as comunidades.

A deterioração simultânea dessas condições ampliaria a vulnerabilidade do território. Famílias sem alternativas, municípios com poucos recursos e órgãos públicos enfraquecidos teriam menos condições de resistir à expansão de atividades predatórias. É nesse encontro entre necessidade econômica, impunidade e poder financeiro que os negócios ilegais encontram espaço para avançar.

Também nesse campo há antecedentes documentados. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União apontou redução de sanções administrativas do Ibama apesar do aumento do desmatamento, além de problemas de governança na política de controle. Em 2022, o STF determinou a reativação do Fundo Amazônia, cujo funcionamento havia sido comprometido pelas mudanças administrativas iniciadas em 2019. O desgaste dos instrumentos de proteção ambiental integrou a experiência daquele governo e precisa ser considerado por quem avalia seu legado.

Para uma instituição comprometida com o desenvolvimento sustentável, a combinação de insegurança industrial e desproteção ambiental é particularmente grave. Ela ameaça fontes de renda estabelecidas e dificulta a construção de novas atividades baseadas na floresta conservada.

Facções em 344 municípios

A segurança pública completa esse quadro. O crime organizado já disputa territórios, circuitos econômicos e a vida cotidiana na Amazônia. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificou a presença de facções em 344 municípios da Amazônia Legal em 2025, ante 260 no ano anterior. Seus estudos apontam conexões entre mercados ilícitos, fragilidade das políticas públicas e estruturas econômicas utilizadas pelas redes criminosas.

Nesse contexto, a destruição de oportunidades legais agravaria uma vulnerabilidade existente. O desemprego não determina o ingresso de ninguém no crime. A grande maioria das pessoas submetidas à pobreza sustenta sua vida com trabalho e enorme esforço. Organizações criminosas, porém, exploram a falta de renda, a desproteção e a ausência de perspectivas para recrutar, ameaçar, cobrar e impor dependência.

Uma política responsável de segurança precisa enfrentar armas, lavagem de dinheiro, corrupção e redes de comando, ao mesmo tempo que preserva as condições econômicas e sociais que permitem às pessoas viver sem se submeter a esses grupos. O emprego formal faz parte dessa capacidade de resistência, ao lado da escola, da justiça e da presença efetiva do Estado.

Fragilizar a economia legal e a proteção territorial ao mesmo tempo ampliaria as condições para a submissão de comunidades ao poder criminoso. A capitulação pode ocorrer aos poucos: quando o comerciante passa a pagar para funcionar, quando o morador perde a liberdade de circular e quando a autoridade pública já não consegue assegurar direitos. Esse é o risco que precisa entrar na discussão sobre o futuro do Amazonas.

Nenhuma entidade industrial pode considerar esse processo alheio à sua missão. Empresas precisam de trabalhadores protegidos, circulação segura, instituições confiáveis e comunidades capazes de prosperar. A deterioração dessas condições compromete a própria possibilidade de produzir.

Compromissos confrontados com decisões

Por isso, os compromissos apresentados por quem pretende governar devem ser confrontados com decisões anteriores, instrumentos de execução e responsabilidades verificáveis. A defesa da Zona Franca precisa aparecer na política tributária, no funcionamento das instituições, nos investimentos em infraestrutura e no apoio à ciência e à inovação. A proteção da Amazônia precisa dispor de orçamento, fiscalização e alternativas de renda.

O CIEAM chega aos 47 anos com experiência suficiente para reconhecer a distância entre uma declaração de apoio e uma decisão que assegura o desenvolvimento regional. Sua independência ganha valor quando permite fazer esse julgamento sem subordinação a governos ou conveniências eleitorais.

Diante de um projeto que ameace repetir medidas prejudiciais à Zona Franca e à proteção da Amazônia, a posição institucional deve ser clara e fundamentada. Os danos potenciais alcançam o sustento das famílias, a continuidade dos negócios, a integridade da floresta e a segurança das comunidades. É por essas pessoas, por esse território e pelas condições de trabalho das próximas gerações que a defesa do Amazonas precisa ser exercida agora, com a firmeza que orientou a criação da entidade e que continua a justificar sua existência.

A universidade, a pesquisa e a bioeconomia

Há ainda uma perda que precisa ser compreendida em toda a sua extensão. O enfraquecimento da Zona Franca atingiria o financiamento da Universidade do Estado do Amazonas, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento e os recursos destinados a programas prioritários de bioeconomia. A depender da profundidade desse desmonte, estariam ameaçadas a continuidade de atividades universitárias, a formação de profissionais no interior, a manutenção de laboratórios e as pesquisas que procuram transformar a biodiversidade em conhecimento, produtos e renda para a população.

O Amazonas poderá perder, simultaneamente, empregos no presente e os instrumentos para construir alternativas econômicas no futuro. A universidade, a pesquisa e a bioeconomia dependem de financiamento continuado; sua expansão ficaria comprometida justamente quando seria mais necessária. Defender a Zona Franca significa preservar também essas condições de desenvolvimento, das quais dependem os jovens que chegam à universidade, os pesquisadores que trabalham na região e as comunidades que esperam participar dos benefícios da floresta em pé.

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