“O Brasil não é para principiantes”, dizia o maestro Antônio Carlos Jobim. E quando nos esforçamos para compreendê-lo, aprendemos que a desfaçatez tem lado.
Há precedentes. No final do século XIX e início do século XX, quando o Brasil ainda se chamava “Estados Unidos do Brazil”, nas refregas entre Brasil e Bolívia pelas terras do Acre, devido às ingerências do Bolivian Syndicate — consórcio formado com capital norte-americano e inglês para apropriar-se da borracha, conhecida como “ouro branco” —, Don Luiz Gálvez Rodrigues de Arias, arrivista espanhol, se autoproclamou Imperador do Acre. O episódio foi retratado por Márcio Souza no premiado romance, exemplo da literatura fantástica brasileira, intitulado Galvez, Imperador do Acre.
O Brasil é incomparável: “até cafetão tem ciúmes”, dizia Tim Maia. Coisas do folclore político que não nos permitem negar as bizarrices que acontecem nesse país e que nos intrigam.
O candidato que perdeu e se declarou eleito
O candidato a presidente da República que recebeu 60 milhões de votos em eleições limpas, reconhecidas por observadores estrangeiros, perde a eleição, foge do país para livrar-se de investigações sobre crimes a ele imputados e, ao chegar no seu “duvidoso abrigo americano”, arvora-se em perseguido político e autointitula-se “presidente da República eleito”, numa eleição que ele considera “fraudada” — na qual, apenas ele, por vontade do povo, não fora eleito, mesmo com toda a liberdade para fazer sua campanha nos meios de comunicação, com inserções diárias obrigatórias em todas as redes de rádio, TVs e redes sociais da internet, pagas pelo Estado.
A Faria Lima exige, a Constituição responde
Mas as coisas não ficam por aí. O “tal mercado”, ou mais precisamente a “tal Faria Lima”, proclamado o resultado das urnas, vem a público com notas contundentes exigir, por todos os meios que financia, que o governo eleito se renda a seus caprichos e confesse que vai fazer a vontade dos financistas, incorporando imediatamente, sob pena de retaliação, o “tal corte de gastos” — e só aceitará um nome escolhido por eles para dirigir a economia, com “carta branca”.
Não é só um ato de arrogância: é a conivência descarada com um golpe em marcha, que apenas muda de estratégia. Quem perdeu a eleição vai para casa e volta na eleição seguinte. Os defensores do projeto econômico perdedor, da mesma forma, não têm o direito moral, jurídico e político de insistir no que o povo recusou. Não podem afrontar a Constituição, que expressa no seu art. 1º, parágrafo único:
“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”
É simples assim! O eleito elegeu também as linhas mestras de seu programa de governo e, nos termos da mesma Constituição, discutirá sua aplicabilidade com os outros representantes do povo. E o que for aceito merece respeito e acatamento.
O que o projeto aprovado nas urnas não contempla
O projeto econômico aprovado pelo povo não contempla as vontades malévolas que sacrificarão as conquistas sociais e as políticas públicas compensatórias. Da mesma forma, assegura que não será irresponsável com o controle das receitas e despesas da União, porém anda por outros caminhos que não são aqueles que favorecem apenas os rentistas gananciosos, e não vai dar calote em ninguém — mesmo sabendo que a dívida pública brasileira sempre exigiu uma auditagem severa para confirmar seu montante e sua “verdade”.
O governo eleito sabe, ainda, que a dívida pública é alta, mas é feita com entes do mercado interno e perfeitamente sustentável, sem colocar em risco a “segurança jurídica” de investidores.
O terrorismo feito pelo mercado ultrapassa os limites do bom senso: comentaristas cínicos e de má-fé apontam as suas trombetas apocalípticas por toda a mídia comprometida com as ideias conspiratórias dos grupos econômicos para obstaculizar a execução das medidas necessárias, mas que não lhes agradam.
Essa narrativa perversa cai nos ouvidos de largas camadas da nossa sociedade e se junta aos interesses da “matilha” que aposta na desgraça, no empobrecimento, no impedimento de ascensão social, com o fito de locupletar-se com os salários baixos, com os privilégios, com a ostentação ridícula que os torna gloriosos diante dos tolos.
Por fim, não se pode suprimir o debate democrático, mesmo com os derrotados e as minorias, assim como não se pode pactuar com a mentira, a covardia fujona e o golpismo! “O Brasil não é para principiantes”, dizia o maestro Antônio Carlos Jobim; e, quando nos esforçamos para compreendê-lo, aprendemos que a desfaçatez tem lado e não merece o nosso apreço!
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