Manaus, 21 de setembro de 2026

BR-319: um sonho realizável?

Mapa de satélite com o traçado da BR-319 entre Manaus e Porto Velho destacado em amarelo
O traçado da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho ao longo de 885 quilômetros.

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Moisaniel Barbosa Filho
* Moisaniel Barbosa Filho

Meu amigo Rômulo Sena me pede para escrever algo especial ou alguma experiência sobre a BR-319.

Como cronista inveterado. Há tempos não uso essa palavra – inveterado. Mas é que já escrevo crônicas faz muito tempo mesmo. Pois bem, como qualquer cronista, fico matutando temas para minhas crônicas. Eureka! O pedido do Rômulo pode dar uma boa crônica. Vamos lá.

Eu era um jovem adulto, amazonense, morador em Brasília quando foi inaugurada, toda asfaltadinha, a BR-319. Essa mesmo que tanto falam que vai ligar Manaus ao resto do Brasil. Era o ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1976. Os jornais anunciavam a abertura da rodovia de 885 km conectando Manaus a Porto Velho. Com todos os trechos asfaltados e tempo de viagem estimado em doze horas.

Recebíamos jornais de Manaus em nossa casa em Brasília. Além das festividades de inauguração, os jornais noticiavam a travessia de bicicleta de dois ciclistas amazonenses que percorreram o trajeto ida e volta, até Porto Velho, para celebrar a inauguração da tão esperada rodovia.

Pronto, pensei. Vou para Manaus no meu fusquinha. A maioria das pessoas da minha geração tiveram um fusca como primeiro e inesquecível carro.

Dias depois, estava comendo uma pizza na Dom Bosco. Um boteco tradicional que vende uma pizza caseira e diferenciada em Brasília. Uma das poucas pizzarias do mundo em que se come pizza em pedaços, na mão e em pé. E até na calçada. Existe até hoje. Todo brasiliense raiz conhece. Fica na famosa 107/108 Sul, conhecida como Rua da Igrejinha.

Eu estava comendo uma pizza quando estaciona, na minha frente, um carro com placa de Manaus! Aquilo foi uma alegria.

Fui, claro, conversar com o ilustre conterrâneo. Chamava-se Carlos, morava no Japiim. Era contador. Trabalhava com o pai. Veio com um amigo para Brasília atrás de um emprego público federal. O amigo não gostou da cidade e tinha voltado para Manaus.

Carlos ficou. Estava empregado num escritório de contabilidade e estudando para concurso. Já tinha até namorada. Uma bela e simpática goiana. Nunca mais os vi.

Fiquei com a estranha mania de ficar vendo placas de carro. Depois disso vi no trânsito umas duas ou três de Manaus/AM.

Acabei não fazendo a viagem. Quando decidi fazê-la já era impossível. Estava intransitável. Há cinquenta anos tenho o sonho de chegar aqui por estrada. Ou ir daqui a Brasília. Será um sonho realizável?


*Moisaniel Barbosa Filho é jornalista, radialista e especialista em Gestão Ambiental. Tem 45 anos de carreira na comunicação da Amazônia, com passagens pela Rede Amazônica, CBN e Rádio Nacional. Atualmente, é Ouvidor-Geral de Itacoatiara (AM), articulista e autor do livro Memórias em AM e FM.

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