Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Crônicas do cotidiano: A prova de vida por reconhecimento facial

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Enquanto a biopolítica se fundamenta no controle das ações externas e manifestas dos sujeitos no espaço da sociedade, quase como seu contrário, a psicopolítica toma como objeto a transparência dos atos que emanam das subjetividades dos mesmos sujeitos, com o objetivo de planejamento e controle político das relações sociais e de poder. A primeira pautou a sociedade na sua caminhada da modernidade até o final do século passado; a segunda, vem sobrepondo-se, hodiernamente, em decorrência do desenvolvimento e prevalência das tecnologias em geral, das tecnologias da comunicação e da disseminação das teorias neoliberais. Na biopolítica se vai da aparência para a essência; e, na segunda – a psicopolítica –, a transparência é o fenômeno que atravessa as relações entre indivíduos, sujeitos e grupos sociais como realidade objetiva. Essa discussão filosófica foi tratada, com propriedade, por Byung-Chul Han, em Psicopolítica – o neoliberalismo e novas técnicas de poder. Belo Horizonte: ÂYINÉ, 2018.

O que nos importa, neste momento, é registrar a presença do neoliberalismo como fundamento ideológico entre nós e a sua força, representada na face recrudescida das nossas relações sociais, das nossas relações de poder e das nossas relações pessoais. O indivíduo substitui o sujeito social, a realidade objetiva se escancara na forma de transparência ou melhor, de uma “pseudotransparência”, em decorrência da ação do aparato de comunicação que se coloca a serviço do poder de dominação. Estamos seduzidos pelas novas mídias, mas não são elas as culpadas, como muitos costumam supor, elas são somente o meio utilizado por seus operadores para se apoderarem das referências comportamentais, dos desejos, das mentes de forma totalitária, isto é, do inconsciente coletivo, para reprogramá-lo em favor de forças que controlam e corroboram com os ideais de uma sociedade que nega o humanismo, a solidariedade e a ética.

Até agora recusamos tratar esse assunto como nosso, em parte por recusarmos a pós-modernidade, o neocapitalismo e o neoliberalismo, na crença de não termos passado por todas as etapas evolutivas do capitalismo. Um negacionismo da dialética, talvez. Porém, o Brasil é um dos países que mais opera as novas tecnologias de comunicação. O processo de digitalização, entre nós, alcançou um status de grande potência. As redes sociais operam com rentabilidade e se beneficiam de todas as fragilidades que as tornam mais receptivas e competitivas com outros sistemas de comunicação, que não mais resistem ao seu assédio e à convergência.

Os imperativos categóricos que sustentavam a democracia liberal foram rompidos e o Estado Democrático de Direito faz água porque ainda não encontrou os meios para sobrepor-se aos fatos gerados nesses novos espaços da sociedade digital de “neoliberalismo faceiro”, ampliado pela mídia tradicional, que busca a convergência para sobreviver no reino do “deus mercado”. Os “malucos” que construíram e realizaram o Oito de Janeiro, no Brasil, estão operando nessa nova lógica. Como nos indica Byung-Chul Han (No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018, p.134), “a psicopolítica se empodera do comportamento social das massas ao acessar a sua lógica inconsciente. A sociedade digital de vigilância, que tem acesso ao inconsciente coletivo, ao comportamento social futuro das massas, desenvolve traços totalitários. Ela nos entrega à programação e ao controle psicopolítico”.

Das palavras, já dizia Jean Baudrillard (Palavras de Ordem. Porto: Campo das Letras, 2001, p. 9): “existe na temporalidade das palavras um jogo quase poético de morte e de renascimento: as sucessivas metaforizações fazem com que uma ideia se torne noutra coisa para lá dela mesma – ‘uma forma de pensamento’. Porque a linguagem pensa, pensa-nos e pensa por nós, pelo menos enquanto pensamos através dela”. Senhora das palavras e da intimidade de nossa alma, a sociedade digital já está pensando por nós!

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