Como um Congresso tão desacreditado aprovou, com maioria esplendorosa, uma redução da jornada de trabalho encalhada há cerca de 40 anos?
Quem não conhece a célebre citação do Velho Testamento, quando, no Livro do Gênesis, o Deus “vingativo e fura-olho” dos que escreveram o “texto sagrado” disse a Adão e Eva, culminância da Sua criação, que, após o “Pecado Original”, expulsos do “Paraíso”, “ganhariam a vida com o suor de seu rosto”?! Estava criado, portanto, o trabalho exaustivo, a obediência aos donos do mundo e a mais-valia!
E eu, que conheço a dor do trabalho, a minha e a dos outros, preferi acreditar no Deus Generoso, que prega a felicidade dos mais humildes, dos que precisam ser resgatados da miséria humana para que haja Igualdade e Justiça no mundo. Entrei em estado de epifania e lembrei de Leão XIII e sua encíclica Rerum Novarum, a qual sei quase de cor, desde pequeno.
O inacreditável no Congresso
Tão logo foi proclamado o resultado da votação no Congresso Nacional, a Casa dos Representantes do Povo, em votação terminal, pensei, também, no inacreditável. Como um Congresso tão espúrio, tão desacreditado, tão conturbado e imiscuído nos braços da corrupção, da trapaça dos lobbies e da “escrotidão” (com pedido de perdão pelo nome feio) e que, com o voto do povo, dá abrigo a notórias células fascistas parlamentares que trabalham pela volta da escravidão, teria aprovado, com maioria esplendorosa, uma proposta de redução da jornada de trabalho encalhada há cerca de 40 anos?
Confirmavam-se aí as cambalhotas que a política pode dar no Brasil e quiçá no mundo: os parlamentos de direita terminam se curvando à pressão das ruas e do povo para aprovar medidas que não são do seu agrado, premidos pela sobrevivência.
A lição da Lei Áurea
Foi assim, e em circunstâncias como essa, que o Parlamento do Império, na vigência do gabinete mais conservador que tivemos no II Império, encaminhou e aprovou, contra seus interesses, em termos, a Lei Áurea, que definitivamente extinguiu a escravidão, mesmo sem dar aos libertos nada além da alforria coletiva.
Dizemos “em termos” porque o fim da escravidão dos negros sem nenhuma recompensa empurrou os ex-escravizados, por mais de um século, para o grande exército de reserva de mão de obra do capitalismo periférico. Graças a essa astúcia dos latifundiários e aristocratas, até hoje a população de mulheres e homens negros e pardos sofre a injustiça, ocupando os piores postos de trabalho, recebendo os mais baixos salários, sob a justificativa histórica de que são despreparados e não se encaixam nos ditames da meritocracia branca. Puro ódio e preconceito de cor e de classe!
Isso não é milagre, é História
Esse é um dos “milagres” que só pode ser operado numa democracia! O Estado Democrático de Direito nos permitiu chegar a esse “hoje”, por isso não é tão milagre assim! É História! História da luta da classe trabalhadora, de um governo que encampou a proposta revivida por um jovem balconista de farmácia, negro, engajado nas lutas sociais, e levada ao Parlamento por uma deputada, também negra e trans, encampadas pela esquerda e forças do governo, dos sindicatos e das redes sociais, obrigando os estúpidos contrários a entregarem os anéis para não entregarem os dedos.
Esses ainda pregam o revide, daí a necessidade de vigilância, que somente as urnas podem garantir. Isso não é pouco, é um tesouro conquistado. E, se houver um trabalhador que entenda o contrário, precisa ser resgatado da alienação.
O que dizem a Fiesp e a CNI
É inconcebível aceitar os argumentos da nota da Fiesp, a da CNI e dos outros sindicatos patronais — embora escorados no direito sagrado e democrático de espernear — de que o mundo vai desabar, as empresas vão falir, o índice de desemprego vai aumentar, os “informais”, que hoje eles divinizam como “empreendedores e quase ricos”, vão aumentar fora do controle e os preços dos produtos ao consumidor vão subir.
E, dizendo isso, cometem o “sincericídio”, confirmando que quem paga e sustenta o Estado e as políticas sociais é o povo, e não eles, pois tudo repassam ao consumidor.
Na verdade, essas quatro horas ainda custarão pouco para os magnatas: um pouco menos de mais-valia. O adiamento da compra dos carros de luxo, aviões e jet-skis com o desvio do dinheiro a juros baixos do “Plano Safra”, financiado pelo governo federal, para eles e seus filhos desfilarem nos rodeios de luxo do sertanejão safado, que suga o dinheiro das prefeituras; as férias programadas para Miami; as festas nas ilhas gregas; e o desvio para outros paraísos tipo Novo Éden ou Maldivas, onde são acolhidos com o tilintar de suas moedas, ganhas com o suor do rosto dos outros!
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