Manaus, 21 de setembro de 2026

Epistemologia da Religiosidade nos Quilombos

Quilombolas e indígenas Kokama no festejo de São Benedito, no quilombo urbano do Barranco de São Benedito, em Manaus
Festejo de São Benedito no quilombo urbano do Barranco de São Benedito, em Manaus, com a participação do povo Kokama.

Compartilhe nas redes:

Vinícius Alves da Rosa
* Vinícius Alves da Rosa

Continuação…

2.2 A religiosidade popular e suas diferentes vertentes no quilombo urbano do Barranco de São Benedito, em Manaus

Ela também entendia do riscado21

(Hildamira Adjiman Silva)

É importante salientar que as pesquisas produzidas para discutir o termo “popular” admitem as limitações e dificuldades neste campo de trabalho, sobretudo quando se pretende fornecer explicações a respeito do que o vocábulo designa. Por motivos óbvios, aqui, particularmente, propomo-nos estudar o sentido atribuído à categoria em questão, trazendo-a para o centro de discussões que envolvem as simbologias pertinentes às comunidades quilombolas.

Há, por assim dizer, o enfrentamento de desafios que perpassam a tessitura desta tese, cujo dever acadêmico se impõe no sentido de conceituar os fenômenos religiosos presentes nos quilombos, com vistas a descrever as práticas ritualísticas das diferentes tradições religiosas. Em um primeiro momento, essa análise se volta ao contexto da unidade social autodesignada quilombo do Barranco de São Benedito.

Neste espaço de reflexão, elencamos as expressões da religiosidade popular no cotidiano da comunidade quilombola urbana no município de Manaus. Os dados construídos resultam da observação participante e, portanto, da observação direta e sistematizada, tendo como objeto de análise os eventos coordenados pelos quilombolas a partir de 2016, bem como os registros realizados em diário de campo, as conversas e entrevistas gravadas com os interlocutores empiricamente envolvidos no presente estudo.

Isto implicou a convivência com os quilombolas, nas relações com os mediadores e interlocutores. Os mediadores – que internamente articulam as estratégias políticas na comunidade – possibilitaram o acesso aos entrevistados. Quanto aos interlocutores, estes proporcionaram construir elos com outros agentes sociais, permitindo-nos interagir, dialogar, ouvir e receber informações relacionadas às distintas práticas religiosas.

Sobre o sincretismo verificado em meio às práticas religiosas percebidas na região amazônica, Emerson Silveira & Dayana Silveira (2015), citando Maués (1990), assinalam que:

Das muitas práticas religiosas existentes, as da pajelança cabocla são muito difundidas em toda a ilha. A pajelança cabocla, herança indígena, e decorrência de um vasto sincretismo de práticas e crenças de distintos povos, definida como um conjunto de práticas presentes no território amazônico composta, em graus variáveis, de elementos da religiosidade indígena, afro-brasileira e católica, adquirindo características particulares dependendo do contexto histórico e social em que está inserida (Silveira, 2015, apud Maués 1990, p. 71).

Entrementes, na Amazônia, além da biodiversidade que a constitui, há também outras vivências sociais, culturais, étnicas e espirituais nas diferentes tradições praticadas em locais religiosos, decorridas das heranças indígena, católica, protestante e afro-brasileira, com características notadamente sincréticas.

Para o antropólogo Sérgio Ferretti:

O Tambor de Crioula é uma atividade ritual, praticada por determinada camada social, como divertimento e pagamento de promessas. Sua pesquisa permite verificar uma expressão de resistência cultural dos negros e seus descendentes, no Maranhão, que até o presente ainda não foi devidamente analisada pelos estudiosos (Ferretti, 2002, p.15-16).

O Tambor de Crioula é um elemento da cultura popular maranhense, expressão que começou a ser realizada pelos africanos e descendentes quando de suas chegadas ao Brasil. Isto pode ser observado no Maranhão, mais especificamente nas cidades de São Luís, Alcântara, Rosário, Codó e em outras regiões. Na Comunidade Quilombola do Barranco de São Benedito, foi apresentado em caráter religioso desde as primeiras festas em honra a São Benedito22, realizadas no final do século XIX, cuja representação simbólica era referendada nos festejos do mastro votivo.

A prática do batuque é uma expressão e denominação genérica referente às manifestações afro, por integrar instrumentos de percussão, extensivos às danças, ao jogo de capoeira. Entre outras lutas e/ou disputas, tais práticas se dão também na esfera da religiosidade dos povos tradicionais de terreiro, sambas e batucadas.

Nessa perspectiva:

[…] outros sentidos latejavam dentro dos batuques. Para seus praticantes, podia ser uma fonte de recuperação das energias desgastadas depois das longas e pesadas jornadas de trabalho; podia ser uma maneira de desembaraçar os domingos e dias santos para realizar seus ritos religiosos, celebrar deuses e orixás; reis, reisados e santos protetores (Abreu, p. 21, 2014).

Em Manaus, no bairro Praça 14 de Janeiro, onde está situado o quilombo urbano, os ritos religiosos são marcas incontestes das antigas práticas diversificadamente celebradas e registradas atualmente nas memórias dos quilombolas. Por via das narrativas, os agentes sociais relembram fatos sobre a existência das rezadeiras, das visagens, das mães-de-santo, as quais participavam dos rituais e, tendo-as como tradições de fé, com esses ritos conviviam sem quaisquer problemas junto à comunidade.

Tais fatos podem ser verificados no relato da quilombola Hildamira Adjiman Silva23:

Dona Maroca era esposa do Felippe Beckmam, ela fazia trabalho aí na casa dela, fazia os banhos, só vinham aquelas pessoas de dinheiro, vinham naqueles carros de luxo que chamavam, aí, elas tomavam o banho ali, quando saíam já iam com a roupa trocada, por isso que os quintais, aqui, aparecem muita visagem, por causa dos banhos que ela fazia. Aí, tu já viu, a entidade, tinha um tajá, que chamavam “pinto-da-meia-noite”, só que eu não conheci esse tajá, quando dava meia noite ele piava, aí tinha um senhor que morou aqui, o primo da Alice do doutor Paiva, ele via uma tocha de fogo aí no quintal. O Felippe Beckmam, ele festejava São Benedito, no sábado de aleluia, porque foi uma promessa que ele fez, ele adoeceu, aí, ele fez essa promessa com São Benedito, pra iniciar no sábado de aleluia, por isso, quando eu ia pras novenas de São Benedito eu alcancei a Bárbara, depois da Bárbara já veio a Lourdinha, da Lourdinha a Cimar, da Jacimar a Jamily, mas a finada Paula eu não lembro. O papai era mais chegado aí, por causa de ser maranhense, ele sempre considerou a família Fonseca como parente, então, por isso que eu tenho essa amizade com os Fonseca, porque já vem com ancestrais, eu tenho que continuar, porque ele tinha muito apego. Então, quando eles tinham qualquer problema, ele era tipo assim, um conselheiro, era padrinho da Guiomar e do Nestor, de crisma. Deus o livre, ele tinha uma consideração com essa família Fonseca, e eles com ele, tanto que o finado Manoel, pai da tia Cosma, chamava pro papai de marujo, porque ele era marinheiro da alfândega, e ele chamava pro finado Manoel de Manduca, eles eram assim.

(Hildemira Adjimam Silva, 80 anos. Entrevista 03 [09 de dezembro de 2021])

Em alusão aos membros da família Beckman – personagens importantes na história da organização do quilombo do Barranco de São Benedito –, segundo registro em Manaus, na edição do Jornal do Comércio publicada no ano de 1928, na coluna dos aniversariantes, consta o nome do Sr. Felippe Nery Beckman.

O fato corrobora as narrativas dos moradores idosos da comunidade quilombola, visto que eles sustentam que o Sr. Beckman trabalhava como profissional da construção civil. Sendo mestre de obras, mantinha relações de amizade estabelecidas com os políticos locais. Todavia, tratando-se de um homem negro, isto já pressupunha certo status social diferenciado para a época.

Na construção social da identidade coletiva por meio das narrativas dos entrevistados, é possível identificar o sentimento de pertença ao território tradicionalmente ocupado. Trata-se de práticas religiosas que, transportadas do passado, na atualidade, conferem aos terreiros novas dinâmicas de pertencimento, de crenças e celebração dos ritos e cultos, como o batuque da Mãe Efigênia, da Mãe Marina e o terreiro da Mãe Clara; expressões religiosas que incorporavam e incorporam, na atualidade, os elementos de uma ancestralidade.

A quilombola Hildamira Adjiman Silva assegura que a Sra. Maroca Beckman era uma sacerdotisa da religiosidade de matrizes africanas; alguém que realizava atendimentos religiosos em sua residência, situada no bairro Praça 14, cujos clientes eram pessoas de um alto poder aquisitivo. As referências aos “banhos” indicam que estes geralmente são usados em sessões de descarrego e purificação. Feitos com ervas regionais, os banhos têm por missão limpar, tirar as impurezas do corpo, tendo ainda por propósito o fortalecimento espiritual, pois evocam coisas boas, boas energias e bons fluidos.

Nesta perspectiva, há também referência a situações relativas ao aparecimento de visagens comumente relatadas pelos quilombolas. As aparições se davam nos quintais das suas residências, por exemplo, próximo à cacimba, isto é, uma espécie de poço que, cavado, jorra água naturalmente. De grande utilidade, o poço é chamado de “cacimba de São Benedito”, pelo fato de estar localizado no mesmo terreno onde anteriormente fora construído o barracão no qual era realizada a festa em devoção ao Santo Padroeiro.

Sobre as práticas de devoção a São Benedito organizadas secularmente pelas lideranças da comunidade, convém destacar o posicionamento sob a ótica da crítica construtiva em relação à catolicidade do festejo, pelo fato de a coordenação do evento ser de responsabilidade exclusiva dos leigos, que durante muitas décadas enfrentaram seus antagonistas históricos, a exemplo dos padres e administradores da igreja católica pertencente ao bairro Nossa Senhora de Fátima.

Além disso, como informado pelos quilombolas, certos líderes da comunidade tanto coordenavam as festas religiosas quanto participavam também da religiosidade de matrizes africanas. Ou seja, além da devoção a São Benedito, praticava-se também o recebimento de espíritos, os cultos aos orixás e a frequência aos terreiros.

Ao longo de 134 anos, a festa de São Benedito se expressa historicamente como parte de uma territorialidade conquistada tradicionalmente. Em 2023, o evento contou com a participação dos indígenas Kokama, que, ao se reunirem com as lideranças da comunidade quilombola, participaram da retirada do tronco de uma árvore comumente conhecida como Envira. Na comunidade indígena Parque das Tribos, posteriormente, o tronco da árvore fora descascado em frente às residências dos quilombolas, passando por um processo de secagem, para ser ornamentado com frutas regionais, como mastro votivo.

O povo Kokama, representado na pessoa da cacica Lutana Ribeiro, ao participar do festejo na comunidade do Barranco, evidencia o encontro histórico das identidades étnicas: indígenas e quilombolas. No interior do quilombo, a participação dessas duas forças nas etapas desse ritual religioso expressa, por si, a longevidade da devoção em honra ao Santo Protetor, demonstrando potencialmente a representação simbólica de resistência cultural apresentada ao longo de toda uma história.

No que tange ao festejo de São Benedito celebrado no quilombo do Barranco, em Manaus, a realidade empiricamente observada evidencia a miscigenação de elementos da cultura étnica plasmada na tradição religiosa, ressignificada por meio do ritual ocorrido ao longo dos tempos, demonstrando, com isso, a afirmação identitária dos quilombolas.

Deste modo, as tensões estabelecidas entre a religião oficial e a religiosidade vivida pelos quilombolas sugerem o aprofundamento teórico com vistas a identificar as particularidades do cotidiano quilombola e outros aspectos intrínsecos à religiosidade, devendo estes ser criteriosamente compreendidos com e a partir da realização do trabalho de campo, a ser efetivado no quilombo urbano do Barranco de São Benedito, como se verifica no subitem a seguir.

Continua na próxima edição…


Notas

21. A afirmação em destaque fora dita pela Sra. Hildemira Adjimam Silva, na entrevista realizada em 09 de dezembro de 2021. A quilombola é moradora da Comunidade do Barranco de São Benedito e usou a expressão em referência à Mãe de Santo, Dona Chaga, que no passado tinha um terreiro no bairro Praça 14 de Janeiro. A frase utilizada ressalta os conhecimentos da mãe de santo sobre a religiosidade de matriz africana.

22. O referido festejo em devoção a São Benedito será descrito detalhadamente na próxima seção.

23. SILVA, Hildemira Adjimam. 80 anos. Entrevista 03 [09 de dezembro de 2021]. Entrevista realizada na residência da entrevistada, Manaus, Amazonas. Entrevista concedida a Vinícius Alves da Rosa e Rafaela Fonseca da Silva.

*Vinicius Alves da Rosa, quilombola de Morro Alto, RS, professor, doutor em Ciências da Religião.

Views: 0

Compartilhe nas redes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *