Manaus, 14 de janeiro de 2026

Manifesto Amazônico às professoras e à juventude

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Resumo

“O que está em discussão não é apenas o papel atual da Amazônia nos processos políticos, econômicos e científicos, mas também sua inserção estratégica no novo quadro político de um mundo globalizado.” (Marcílio de Freitas)

Por que a Amazônia é a última utopia ecocultural da humanidade? Que desafios ela apresenta para o mundo e por que ela é importante para a humanidade? Por que o capitalismo predatório não possui alcance teórico e empírico para transformá-la em uma commodity ambiental sustentável? Como podemos protegê-la da estupidez humana e da ganância do mercado? Como desenvolvê-la de forma sustentável para o benefício do Brasil e da humanidade? Por meio de abordagens intersubjetivas, essas questões são analisadas neste manifesto.

A educação cidadã contínua é uma exigência da modernidade. O futuro da sustentabilidade é muito dependente do grau de esclarecimento e comprometimento dos governos, das sociedades e das pessoas com a proteção do planeta e das populações mais desprotegidas socialmente. As professoras e os professores têm uma responsabilidade estratégica nessa complexa jornada da humanidade.

Manifesto às professoras e à juventude do Brasil e do Mundo

Caras Professoras, Caros Professores;

Envio-lhes esta singela mensagem a partir da Amazônia. Asseguro-lhes que nunca houve um processo de destruição da Amazônia tão intenso e dramático como o desencadeado nesta última década. Ela está morrendo rapidamente. As autoridades instituídas e os setores sociais e econômicos esclarecidos precisam intervir neste processo, em sua defesa e uso sustentável. Mas, minha preocupação ultrapassa os limites institucionais e políticos, pois a Amazônia é de todos nós e, certamente, constitui a principal herança material e simbólica para nossa juventude e gerações subsequentes. Dimensão civilizatória, nacional e universal, que só é plenamente compreendida e apreendida pelas Professoras e pelos Professores, em todos os níveis de atuação da categoria. Esclareço que a inserção da Amazônia aos processos globais abarca questões amplas e fundamentais associadas à educação cidadã das crianças e dos jovens. Essas questões incrustaram a globalização da sustentabilidade aos fundamentos econômicos, religiosos e científicos da civilização ocidental, gerando novas centralidades políticas e éticas. Centralidades que promovem e valorizam os empreendimentos locais, e se orientam num sistema ético baseado na reavaliação estrutural das noções de valor e direitos. Valor e direito à vida; valor intrínseco da natureza e dos serviços ambientais; cultura, natureza e valor simbólico; direitos individuais e preservação ambiental; direitos coletivos e relações diplomáticas, entre outros, constituem temas polêmicos que movimentam projetos educacionais, programas de pesquisa, políticas públicas e acordos internacionais.

Colegas Professoras, atribuir novos sentidos aos fundamentos, aos significados explicativos e aos mecanismos operacionais associados à noção de valor também requer revisar as abordagens e as avaliações das crenças e dos desejos humanos. Nesse contexto, três categorias clássicas, valor-verdade, valor-utilidade e valor-beleza, têm sido subsumidas por valor-vida, valor-humanidade, valor-cultura, valor-natureza e valor-universo, categorias mais complexas e com maiores alcances heurísticos. Esta nova conformação da história universal potencializa as relações entre os programas educacionais, a ética da sustentabilidade e a Amazônia, numa conjuntura na qual a mundialização da hipocrisia e da barbárie política fortaleceu a importância dos processos éticos e estabeleceu a sustentabilidade como paradigma universal.

As relações entre sustentabilidade e Amazônia suscitam surpresas e contradições, como ilustrado em seguida. Nós, professoras e professores, sabemos que interagir com um aluno em sala de aula, com um animal de estimação ou uma planta cultivada em nossa casa é uma rotina universal que se concretiza por meio de diferentes abordagens e exigências técnicas. Em geral, esta interação é acompanhada por momentos de surpresas, alegrias, felicidades e, também, de muitas preocupações. Estes sentimentos se revigoram quando este tipo de interação se amplia aos limites de uma escola, de um jardim ou de um bando de animais. E se transforma em experiências complexas quando abarca, em ordem, uma política educacional inovadora, entrelaçada às propostas de uso sustentável das florestas, dos rios, das faunas e floras, ou dos céus e os ciclos da natureza. Em forma ponderada e em diferentes graus de dificuldades, estes desafios são enfrentados rotineiramente na docência de diferentes disciplinas ou na gestão educacional sob nossas responsabilidades. Nem sempre temos respostas prontas e adequadas para diversos aspectos destes processos culturais, assentados em experiências seletivas e milenares e difundidos por meio de linguagens singulares e universais acessíveis às crianças e aos jovens. Numa perspectiva que, simultaneamente, promova a vida e a natureza. Este exemplo ilustra a relevância e a pertinência da ressignificação dos processos de formação plena das crianças e da juventude, quando se consideram as suas relações com a natureza.

Este quadro de referência reafirma a importância do paradigma da sustentabilidade, articulando-o com os fundamentos teológicos centrados na vida plena, espiritualizada e incrustada à natureza. Esta nova dimensão civilizatória universal suscita desafios diferenciados à Amazônia, situando-a como o lugar privilegiado e único num mundo ideologizado, tecnificado e transcendental. A sua inserção nas relações do mito de criação do mundo por meio da ecologia integral propugnada pelo Papa Francisco, põe novos elementos aos fundamentos da teologia. Amplia a complexidade das tradições religiosas e suscita possibilidades de o conceito de sustentabilidade também ser estendido à dimensão espiritual do ser humano. Portanto, faz-se necessário que a sustentabilidade da vida seja o principal fundamento das governanças e das políticas globais. Nesta conjuntura, as relações da sustentabilidade com as culturas e as naturezas espiritualizadas reafirmam a importância da Amazônia.

Há outra dimensão fantástica da Amazônia que assusta o capitalismo predatório e os governos arrogantes. Os governantes são passageiros. A duração do poder político de um governante é breve. Um político que hoje lidera uma nação, no futuro breve, falecerá deixando legados do tipo: inclusão social e econômica, prosperidade, cidadania, paz e preservação ecológica; ou miséria, desemprego, desalento, guerra, degradação ecológica e desesperança, entre outros. Cenários mesclando os elementos presentes nestas duas tendências políticas também podem se materializar. Em nenhum destes cenários circunstanciais, passado-presente, as pessoas negam a importância da natureza em suas vidas e em suas famílias. Entretanto, a necessidade de preservação ecológica não se resume somente a determinado ponto de vista pessoal ou a um objetivo político. Ela faz parte de um processo que precisa transcender várias gerações em pequenas e grandes escalas espaciais, locais e planetárias. Esta característica da sustentabilidade se opõe às excessivas concentrações de poder, político e econômico, ao expansionismo imperialista e às guerras de ocupação lideradas pelos países centrais. As dualidades do tipo: miséria-riqueza, cidadania-marginalização, esclarecido-alienado, saúde-doença, guerra-paz, destruição-construção, degradação-preservação, escassez-concentração, entre outras, sempre presentes nas políticas públicas, terminam ‘empurrando’ os governantes despreparados e presunçosos em direção à promoção do desenvolvimento predatório, não sustentável.

Nestas condições, a pressão econômica dos grupos transnacionais e as crescentes desigualdades sociais nos países em desenvolvimento contribuem para a degradação dos ambientes naturais e potencializam processos de ruptura com os ciclos da natureza. É interessante observar a presença destes elementos políticos na Amazônia, com danos irreversíveis às suas populações e aos seus ecossistemas. Isto implica na premência do estado brasileiro intervir neste processo com programas que promovam o seu desenvolvimento econômico de forma integrada à natureza e em bases sustentáveis.

Tratando-se da Amazônia, isto também requer alianças duradouras entre a ciência e tecnologia e o conhecimento tradicional regional, por meio das redes e plataformas das sociedades do saber. Esta conjuntura reserva um lugar especial ao desenvolvimento da bioindústria e à implantação da Universidade Intercultural. A indissociabilidade entre natureza e cultura na Amazônia assusta o mercado global, que ainda a considera um almoxarifado abrigando um conjunto infinito de recursos naturais descartáveis. A falta de políticas públicas para esta região agrava este quadro e contribui para a sua degradação, embora as resiliências de suas comunidades interioranas e de seus povos originários estejam minorando seu processo de depreciação ecológica.

É fantástico! Ela abriga mais de 385 povos originários, 500 bilhões de árvores e 2000 grandes rios. Apresenta-se como uma entidade socioecológica imprescindível à estabilidade climática do planeta, uma região estratégica para a construção de novas relações estéticas com a natureza e espaço diferenciado para a reciclagem dos processos atmosféricos planetários. Colegas docentes, incorporar a Amazônia à Política de Desenvolvimento Econômico do Brasil, integrá-la internamente por meio de arranjos produtivos vocacionados e construir as condições políticas para assegurar o financiamento de seu desenvolvimento em bases sustentáveis, a partir de seus municípios, são exigências prementes. Perspectivas que certamente assegurariam a sua condição de principal centro mundial de desenvolvimento sustentável.

Caros professores, a necessária construção da sustentabilidade dos lugares e do planeta durante este século levanta seis questões estruturantes, todas relacionadas às novas formas de produção, expansão e circulação do capitalismo, todas relacionadas às formas de organização das economias e das sociedades.

A primeira é simbólica, e por esta razão é mais complexa. Há certa imponderabilidade sobre a noção de sustentabilidade, uma vez que os seus mecanismos de operacionalidade não estabelecem “Como”, “Onde” e “Quando” romper com a forma clássica de desenvolvimento padrão. Há risco em se construir um empreendimento socioeconômico estruturalmente inconsistente que poderá contribuir para o crescimento das desigualdades sociais.

A segunda questão refere-se à incompatibilidade da noção de sustentabilidade com o conceito de crescimento. Não do crescimento financeiro, mas do crescimento do fluxo de massa e energia. Isto privilegiará o mercado de bens com mais durabilidade e resultará em mudança estrutural na matriz industrial tradicional alicerçada no uso de combustível fóssil.

A terceira questão remete-se à dinâmica do processo de concentração financeira. A despeito das inúmeras crises, os países centrais estão cada vez mais ricos em detrimento do crescente processo de pauperização nos países periféricos. No ponto de vista destes países periféricos, faz-se premente incorporar elementos próprios da condição humana à noção de sustentabilidade. Com outro problema adicional: a crescente onda global de privatização do mundo conspira contra a ideia de gestão, em longo prazo, das riquezas naturais do planeta.

A quarta questão relaciona-se com a não convergência política dos governos dos países ricos em direção ao mundo sustentável. A história registra que os discursos desses governos não resultam em políticas públicas sustentáveis. Há dificuldades em se efetivar experiências ou ações sustentáveis que ponham em risco o estado de bem-estar de seus eleitores e as estabilidades econômicas e políticas desses países.

Outra questão importante é a constatação de que a noção de desenvolvimento sustentável só tem vigência histórica em experiências locais, enquanto política planejada de aproveitamento dos recursos do território que envolve configurações sociais, situações políticas e possibilidades de aplicações de tecnologias disponíveis. A universalização dessas experiências locais, com projeções em escala planetária, é regulada por um objetivo comum negociado: a preservação da biodiversidade que, por sua vez, está estreitamente associada à diversidade cultural. A existência de condições objetivas para sua plena realização ainda é objeto de muitas polêmicas. A utilização inadequada da biosfera, a mercantilização exacerbada do meio ambiente e do princípio de clonagem, e a intensificação do processo de pauperização dos países periféricos são fatores que conspiram contra uma solução consensuada em curto prazo.

Finalmente, há crescente tensão entre a noção de sustentabilidade e o princípio universal de segurança nacional. O grau de fricção entre estas duas categorias históricas dependem fortemente da evolução dos processos políticos em escala mundial. A grande recessão econômica global devido à covid-19, às guerras e à mudança climática tem incorporado novas dificuldades a este quadro.

Os fragmentos destas seis questões que movimentam a noção de sustentabilidade nos processos mundiais encontram-se presentes em diversos modelos de desenvolvimento regionais e nacionais, com impactos em suas políticas públicas básicas, em especial na Amazônia brasileira. Se, por um lado, a construção das condições estruturais necessárias para consolidar o desenvolvimento sustentável em escala planetária tem custo econômico e político que os governos dos países industrializados ainda não assumiram, por outro, os atores sociais têm desenvolvido estratégias para incorporar a “condição humana” como principal pressuposto da sustentabilidade. Perspectiva que constitui um dos principais desafios das políticas de educação, ciência e tecnologia no século 21.

 

Representações amazônicas – Figuras geradas por inteligência artificial

Na verdade, a natureza tem se afastado do ideário humano à medida que o uso da ciência e da tecnologia positivista imprimiu um caráter pragmático e funcional aos mecanismos de desenvolvimento econômico. A sua incorporação (da natureza) às políticas públicas como mercadoria ou objeto de mais-valia contribuiu para a sua rápida depreciação e desumanização. A possibilidade de desestabilização socioecológica do planeta exige reconciliar as pessoas com a natureza, processo mundial que tem a Amazônia como sua principal referência material e simbólica.

O bem-estar do ser humano também está associado à estabilidade dos ciclos da vida no planeta, que, por sua vez, é muito dependente das culturas, preservação e uso sustentável dos trópicos úmidos, oceanos e das regiões polares. Três ecossistemas interligados entre si e em rápido processo de deterioração. A perenidade milenar destas regiões é garantida e aperfeiçoada pelas sabedorias de suas populações tradicionais por meio de alianças compartilhadas com suas naturezas. As perversidades do capitalismo predatório têm criado rupturas ecológicas e civilizatórias ainda intransponíveis aos desenvolvimentos sustentáveis destas regiões. As suas proteções dependem de ações práticas de lideranças políticas mundiais que detenham imediatamente suas destruições, que já se encontram em estágios avançados. Neste cenário alarmante, os trabalhadores, os jovens, as sociedades, as instituições, as religiões e os governos comprometidos com a sustentabilidade são conclamados para defenderem a Amazônia e o planeta.

Estimadas professoras e colegas professores, a Amazônia é um tesouro incomensurável do povo brasileiro e da humanidade. Sua proteção e uso sustentável continuam sendo o principal desafio político e econômico para as sucessivas gerações de brasileiros. Sua destruição cultural e ecológica terá impactos perniciosos e irreversíveis à humanidade. Nestas condições, ela pode se tornar uma tragédia ao equilíbrio ecológico planetário e à humanidade. Enfim, por quanto tempo ela continuará guiando nossas concepções e sonhos por um mundo sustentável para todos? Pergunta-se: como seria o Brasil sem a Amazônia? A vida precisa ser construída em bases sustentáveis. Ela é um sopro no tempo da história.

Professoras e professores do Brasil e do mundo, finalmente, após esta longa exposição, sugiro-lhes que incluam a natureza, a sustentabilidade e a Amazônia em suas disciplinas e em seus incessantes diálogos com a classe estudantil. Insistam e popularizem a sua importância para o Brasil e o mundo, e a necessidade de protegê-la, em bases sustentáveis. Pois ela está sendo transformada em fumaça e em lembranças fugazes.

Caros amigos e caras amigas, descubram a Amazônia. Ela está morrendo. Quem vai salvá-la? Precisamos proteger o futuro de nossos filhos. A Amazônia é uma entidade-chave nesse processo global. Amanhã pode ser tarde.

Cordiais saudações,

Professor Marcílio

Manaus, abril de 2025

*Manifesto publicado no “Journal Of Anthropological And Archaeological Sciences, JAAS, Vol 11, Issue 2, August 2025. Ver: https://lupinepublishers.com/anthropological-and-archaeological-sciences/pdf/JAAS.MS.ID.000356.pdf. Este texto também encontra-se em processo de publicação em revista científica sediada na Inglaterra.

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