
* Osvaldo Silva
Manaus conhece o som das oportunidades que chegam atrasadas.
Elas quase sempre aparecem depois de muitos anos de desconfiança, depois de muitos relatórios escritos longe daqui, depois de muitas explicações dadas por quem mora na Amazônia a quem insiste em falar da Amazônia como se ela fosse apenas cenário, reserva, mapa verde ou problema nacional.
Por isso, quando a Suframa projeta a chegada de mais de 200 novas fábricas ao Polo Industrial de Manaus nos próximos três anos, eu não leio apenas uma notícia econômica. Leio um sinal. Ainda incompleto, ainda dependente de planejamento, ainda sujeito às incertezas de qualquer promessa industrial. Mas um sinal importante. A própria Suframa informa que esses projetos envolvem fábricas já aprovadas pelo CAS ou em fase de implementação.
O dado merece cuidado. Não se trata de dizer que 200 novas indústrias já abriram as portas. Não abriram. O que existe é uma fila de projetos, uma movimentação empresarial e uma percepção nova de segurança jurídica depois da reforma tributária. A Folha também registrou que esse movimento poderia representar crescimento de cerca de 30% no número de indústrias da região, hoje em torno de 600.
Mesmo assim, o fato político já aconteceu.
O Amazonas voltou a ser visto como lugar possível.
E isso, para uma região acostumada a justificar sua existência dentro do próprio país, não é pouco.
A Zona Franca de Manaus sempre carregou uma contradição brasileira. Muitos cobram dela eficiência de centro industrial consolidado, mas esquecem que ela nasceu justamente porque o mercado, sozinho, não corrigiria o isolamento amazônico. Manaus não tem a geografia do Sudeste. Não tem a mesma malha rodoviária. Não tem a mesma proximidade dos grandes centros consumidores. Não tem os mesmos custos logísticos.
Comparar realidades tão diferentes como se elas partissem do mesmo ponto revela mais ideologia do que análise.
Karl Polanyi, em A Grande Transformação (1944), lembrava que a economia nunca existe separada da sociedade. O mercado não paira acima do território. Ele se apoia em pessoas, instituições, caminhos, rios, cidades e escolhas políticas. Quando o Brasil sustenta a Zona Franca, não cria apenas uma vantagem tributária. Cria uma forma de presença nacional na Amazônia.
Essa presença tem defeitos, limites e urgências de atualização. Mas sua ausência seria muito mais grave.
Sem atividade econômica estruturada, a Amazônia não fica automaticamente protegida. Ela fica vulnerável. O vazio também produz danos. Produz informalidade, ocupação desordenada, garimpo, grilagem, dependência e abandono.
A indústria, quando bem planejada, pode funcionar como uma âncora urbana. Ela concentra renda, qualifica mão de obra, cria fornecedores, movimenta serviços e reduz a pressão por modelos predatórios de exploração territorial. Não resolve tudo. Nenhuma política pública resolve. Mas oferece um caminho concreto entre dois extremos ruins: destruir em nome do progresso ou congelar a região em nome de uma preservação confortável para quem está longe.
Amartya Sen, em Desenvolvimento como Liberdade (1999), defendeu que desenvolvimento não deve ser medido apenas por renda, mas pela ampliação real das capacidades humanas. Essa ideia ajuda a entender o que está em jogo. Uma fábrica não importa apenas pelo faturamento que gera. Importa pelo curso técnico que ela estimula, pelo jovem que ela emprega, pela família que ela sustenta, pelo conhecimento que ela exige, pela cidade que ela obriga a se organizar.
Se essas novas indústrias vierem, Manaus precisará mais do que terrenos.
Precisará de visão.
A Suframa cita projetos em setores como medicamentos, motocicletas e termoplásticos, incluindo empresas como Brainfarma, Royal Enfield Brasil e Karina Plásticos da Amazônia. Isso mostra uma diversificação relevante. O Polo Industrial não pode depender eternamente das mesmas cadeias produtivas. Ele precisa subir degraus: tecnologia, bioeconomia, fármacos, novos materiais, pesquisa aplicada, design industrial, software, energia limpa e produção de maior valor agregado.
O Amazonas não pode ser apenas o lugar onde se monta o futuro dos outros.
Precisa participar da criação desse futuro.
Celso Furtado, em O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974), alertava para os limites de um modelo que apenas cópia padrões de crescimento dos países centrais sem considerar desigualdades, recursos naturais e estruturas históricas. A lição serve ao Amazonas. Crescer não basta. É preciso perguntar: crescer para quem, com qual custo, com qual inteligência e com qual permanência?
A chegada de 200 fábricas pode renovar a economia amazonense. Mas também pode pressionar uma cidade que já vive trânsito difícil, ocupação irregular, déficit urbano e serviços públicos sobrecarregados. Se Manaus receber essa expansão sem planejamento, transformará oportunidade em improviso.
E improviso, na Amazônia, sempre cobra caro.
O caminho precisa ser mais exigente. Área industrial regularizada. Licenciamento sério. Infraestrutura logística. Energia confiável. Transporte público. Qualificação profissional. Parceria com universidades. Fiscalização ambiental. Integração com fornecedores locais. Contrapartidas urbanas. Transparência.
Ailton Krenak, em Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019), critica a separação artificial entre humanidade e natureza. Essa reflexão pesa muito aqui. Na Amazônia, economia e floresta não podem caminhar como inimigas. Se caminharem, perderemos as duas.
Por isso, eu vejo essa notícia com esperança, mas não com ingenuidade.
Espero que as fábricas venham.
Espero que tragam emprego, tecnologia, renda e novas cadeias produtivas.
Mas espero também que o Amazonas não aceite qualquer expansão como se toda indústria fosse automaticamente boa. O que precisamos é de indústria com compromisso territorial. Indústria que entenda onde pisa. Indústria que não trate Manaus como galpão fiscal, mas como cidade, floresta, povo e projeto nacional.
A Zona Franca de Manaus chega a um ponto decisivo. Ela já provou que resiste. Agora precisa provar que evolui.
Se essas 200 fábricas saírem do papel, o Amazonas poderá viver uma nova fase industrial. Mas o verdadeiro avanço não estará apenas no número de CNPJs. Estará na capacidade de transformar investimento em desenvolvimento, fábrica em conhecimento, emprego em dignidade e crescimento em permanência.
O Brasil costuma lembrar da Amazônia quando precisa discursar para o mundo.
Talvez esteja na hora de lembrar dela quando decide produzir, inovar, planejar e distribuir oportunidades dentro do próprio território.
Porque a Amazônia não quer ser tratada como exceção.
Quer ser tratada como parte.
E uma parte do Brasil não pode passar a vida inteira pedindo licença para existir.
Referências
- Suframa – Reforma Tributária ajuda a impulsionar investimentos na Zona Franca de Manaus.
- Folha de S.Paulo – Reforma tributária deve aumentar em 30% empresas na Zona Franca de Manaus.
- BNC Amazonas – Zona Franca de Manaus espera pelo menos 200 fábricas em três anos.
- A Crítica – Suframa projeta 200 novas fábricas para o PIM.
- Karl Polanyi – A Grande Transformação / The Great Transformation (1944).
- Amartya Sen – Development as Freedom (1999).
- Celso Furtado – O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974).
- Ailton Krenak – Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019).
* Osvaldo Relder Araújo da Silva atua como Designer UI/UX e Analista de Sistemas há mais de 15 anos. Sua expertise abrange Design, Comunicação e Multimídia, bem como o Desenvolvimento de Software de Alto Desempenho.
Views: 2




















