Continuação…
As viagens de Hans Staden ao Brasil
Desejo comentar o livro Duas viagens ao Brasil, do mercenrío e aventureiro genial chamado Hans Staden. Tive notícias dele de longa data, nos idos de 1971 quando foi exibido na então requintada sala de cinema Odeon, aqui em Manaus, o filme de Nelson Pereira dos Santos, intitulado Como era gostoso o meu francês. A obra foi realizada com roteiro extraído do livro de Staden e logo censurado, pelas inúmeras cenas de nudismo que ele apreciava. Mas depois foi liberado pelos censores de então, revelando-se serem pessoas esclarecidas, ainda que fosse melhor que não existissem. O filme, no entanto, foi liberado com a recomendação de ser exibido só a plateias de adultos, visto as aludidas cenas serem imprescindíveis ao cuidar das etnias primitivas do Brasil do século XVI.
O filme teve muita repercussão, inclusive na França, e foi laureado em várias premiações. Tornou-se um clássico da filmografia brasileira, àquela altura bastante desenvolvida, expressão singular do movimento conhecido como Cinema Novo.
Em 1920, o livro caiu nas mãos da pintora Tarsila do Amaral e do poeta Oswald de Andrade que, ao relatar sobre a experiência de seu autor por nove meses passados entre os Tupinambás, etnia então habituada a rituais de canibalismo, constituiu elemento inspirador do quadro famoso dessa artista intitulado “Abapuru”, que quer dizer o devorador de gente. Em consequência disso, Oswald de Andrade teorizou sobre o movimento antropofágico e da corrente Pau Brasil, marcante no período modernista da literatura brasileira.
Agora, por iniciativa da editora Valer, num trabalho editorial bem cuidado, marca registrada dessa empresa de livros em Manaus, o leitor atual tem a oportunidade de entrar em contato com o próprio texto de Staden. O relato é constituído de pequenos capítulos na maloria como se fosse um diário.
São fantásticas as cenas do mar e os seus perigos, fixadas em páginas lavradas numa linguagem coloquial e de realização fluente, sem os floreios barrocos aplaudidos no estilo literário da época. É vigoroso o realismo com que descreve os fatos. Este é um dado tão expressivo que, embora se revele de forma concisa, não impede de provocar náusea no leitor, como nos casos em que descreve a prática dos rituais antropofágicos desses povos.
Nas viagens marítimas era necessário arrojo e muita coragem para enfrentar as tempestades e também as calmarias que chamavam à solidão nas paisagens perdidas entre céu e mar.
As naves dos reis iam atrás de conquistas espirituais e políticas. A fortuna pecuniária também movia os impulsos reais nesses empreendimentos. Desejavam explorar pedras e metais preciosos e as decantadas especiarias. Este era o motivo mais atraente aos mercenários e aventureiros da estirpe de Hans Staden, seduzidos pela cobiça.
Em um desses barcos o aventureiro conseguiu chegar ao Brasil, com a ajuda dos amigos do Rei de Portugal.
O cerne do livro na primeira parte, entretanto, está nos episódios em que narra o seu aprisionamento e os nove meses em que ficou na posse e a serviço escravo dos maiorais indígenas tupinambás, uma das etnias que dominavam esse pedaço do litoral brasileiro, situado entre São Paulo e o Rio de Janeiro, sempre em guerras entre si, ou a serviço dos franceses em que estavam os tupinambás, e os tupiniquins aproximados dos portugueses desde o descobrimento do Brasil, em constantes litígios pela posse da terra.
Staden ficou entre a vida e a morte, com a ameaça de ser devorado por esse povo habituado ainda aos rituais de antropofagia. Ele foi preso e raptado com a ameaça de reparar, por vingança, a morte do parente de um desses chefes canibais, que eles diziam ter sido executado sob as mãos do ilustre carabineiro.
Staden ficou sem saída. Foi exposto ao escárnio desse povo. Os homens o esbofeteavam na frente de todos e as mulheres o insultavam com agressões verbais e fisicas, esbofeteando-o também. Tiraram-lhe as roupas e o puseram nu como passou a viver daí por diante. Cortaram-lhe a barba. Ouvia todo o tempo, entre esses chefões, conversas privadas sobre o momento em que deveria ser sacrificado. O próprio Staden assistiu a rituais em que os prisioneiros eram devorados, assados na brasa como verdadeiro petisco. Eles comíam peixe e carne de caça, mas do que gostavam mesmo era da carne humana. No interior de suas malocas, o lazer preferido era ficar deitado na rede com uma cesta ao lado, contendo pernas e braços de gente assada. Eles comiam essas iguarias até se embriagar com cauim, bebida típica elaborada de mandioca e milho, que acompanhavam esses momentos de alto e sinistro deleite gastronômico…
Os índios identificavam Staden com os portugueses que eles odiavam. Mas Staden se dizia parente dos seus amigos franceses, que eles não acreditavam.
Staden, no entanto, usou de todos os meios e artificios para adiar o seu sacrifício e buscar um modo de sair daquela enrascada. O cerimonial vinha sendo marcado para a próxima semana e sempre adiado para a sorte do prisioneiro. Rezava em voz alta e pedia ajuda a Deus, para que o livrasse daquela provação. Os índios assistiam aquilo com zombaria. Staden era um cristão fervoroso peculiar aos ritos da Reforma, sabia de cor versículos bíblicos inteiros, usados em suas orações.
Os índios, assim, de tanto testemunhar o resultado prático das preces daquele condenado, começaram a honrar o Deus do prisioneiro. Era visível o bom resultado das bendições daquele homem. As coisas ficavam mais bem situadas no meio deles com suas preces. Melhoravam as rabugices da natureza, posto Staden ser versado em religião, mas também nos domínios do conhecimento acadêmico do seu tempo sobre a máquina do mundo. Quando vinham as tempestades ele sabia do tempo de sua duração e avisava aos maiorais que logo mais tudo ia ficar tranquilo. E assim acontecia. Começaram então a pedir a ele a ajuda do seu Deus nos momentos difíceis, na medida em que se foi transformando em elemento insubstituível na comunidade indígena.
A partir de então afastaram a ideia de transformá-lo em comida nos rituais de antropofagia. Não disseram nada a Staden, mas, também este deixou de ouvir conversas sobre o dia da festa em que devia ser sacrificado.
Percebendo o novo comportamento dos seus algozes, Staden pensou num meio de negociar a sua troca por um bocado de mercadoria que os indígenas adoravam. E assim, um dia, com a chegada de um navio francês ele foi negociado com habilidade, porque os maiorais indígenas não queriam que ele fosse embora. Staden convertera-se em elemento de muita utilidade para eles. Mas conseguiram negociar. A cobiça dos bens materiais superou os benefícios do carisma revelado por Staden em seus diálogos com Deus.
Da leitura do livro não se pode duvidar das convicções religiosas de Staden. O que se averigua é a docilidade de gente tão feroz com as manifestações das forças do espírito. O desejo de devorar as suas vítimas mais se acentuava a partir da violência com que esses guerreiros resistiam às lutas na guerra. Quanto mais valentes os seus adversários, mais lhes apetecía matar para comê-los. E, ao mesmo tempo, se espantavam com o resultado das preces daquele prisioneiro às vésperas de ser devorado. Staden tanto rezou e tanto fez valer as suas preces, que por instantes quase se convertia num pajé, porque nas dificuldades os índios pediam a ele a ajuda do seu Deus.
Na segunda parte do livro Staden relata as observações sobre o dia a dia dos seus verdugos tupinambás.
As aldeias eram compostas de vários grupos familiares comandados por um chefe. De acordo com as vitórias no comando das guerras, um desses chefes passava a liderar a coletividade. Era regularmente ouvido pelos outros em suas dificuldades.
O maior deles, no tempo de Staden, considerado um rei, era Kanyan-Bébe, o famoso Cunhambebe, um dos protagonistas da história de formação do povo brasileiro. A aproximação de sua presença era anunciada por sons de cantos e de trombetas, instrumentos feitos pelos indígenas a partir de troncos de palmeira. Cercando o domicilio desse maioral supremo erguiam-se altas estacas onde se encontravam, em quinze delas, enfiadas as cabeças dos inimigos recentemente devorados. Staden tremeu em pensar que logo mais estaria ali encaixada a sua cabeça. Esse dado era, no entanto, um dos elementos da arquitetura observada nas palhoças de todos os chefes. Nas estacas de proteção de suas casas eles afixavam como troféus as cabeças das suas vitimas.
Cabe uma observação sobre a designação de palhoças para a casa dos indígenas dada por Staden. Para os amazônidas palhoça é um abrigo improvisado feito de palha, mais precário que um tapiri que é construído pelos mateiros em seus trânsitos pela floresta. As casas dos índios são chamadas de malocas, produto de um requinte arquitetônico produzido por materiais constituídos de varas e palha, às vezes tecida.
Staden observou que o mundo interior dos indígenas não respondia com a mesma coragem revelada nas suas ações cotidianas. Eram tomados pelo medo. Não gostam do escuro. Para eles o escuro das noites abriga o Diabo, o rei das trevas. Lançavam para o mundo do imponderável os fatos que eles não sabiam o que era. Sensíveis ao mistério. No preparo das guerras, as tarefas aliadas à construção de armas, arcos, flechas e arpões, eles se reuniam para ouvir o espírito e trabalhar os sonhos.
O chefe agrupava em círculos os guerreiros e indagava sobre o enredo dos seus sonhos na noite anterior. Os guerreiros contavam como foi. Muitos se esforçavam em tornar suas histórias com final feliz. Do resultado da soma dos incidentes negativos ou positivos dos sonhos, eles iam para o confronto. Se negativos eles tentavam adiar, se positivos, não se reprimiam, partiam para as guerras, certos da vitória.
Foram, sem dúvida, em minha opinião, essas tendências de sua vida espiritual que abriram as portas da sua alma para o diálogo dos missionários cristãos. Eram pedra bruta, mas também filhos de Deus.
Na apreciação das qualidades pessoais daquela gente, coincide a opinião de Staden com a observação de Caminha sobre a beleza desse povo. A diferença está em ser o juízo crítico do escrivão da frota de Cabral, produto do contato de dez días, no ano de 1500, tempo em que Pedro Álvares Cabral ficou no Brasil, seguindo a viagem para a Índia, que era o destino do seu projeto, ao contrário da vivência de nove meses de Staden no meio deles, entre 1547 e 1555. Caminha descreve as virtudes físicas das mulheres, cujas vergonhas cobririam de inveja as compatrícias do escrivão. Staden examina a beleza de todos, os homens de cores claras bronzeados de sol e as mulheres com as vergonhas também descobertas.
O trabalho com a raiz da mandioca observado por Staden ficou nos hábitos do povo brasileiro. Mais de quatro séculos depois, na Amazônia, é assim que se cuida do ponto de vista artesanal, da farinha de mandioca, sem tirar nem acrescentar um pormenor que seja. A raíz da mandioca é posta de molho até amolecer e, depois, esmigalhada e espremida no tipiti, para livrá-la de sua substância mais tóxica chamada tucupi, e, depois, esfarelada e torrada em fornos de barro que são espécies de grandes bandejas de argila aquecida ao fogo de lenha e revolvida com um remo, desde o cozimento da massa ainda úmida, até os procedimentos finais com a farinha torrada e pronta para ir à mesa, usada hoje na culinária amazôníca, com aves e peixes a exemplo do tambaqui ou do pato no tucupi, e o famoso tacacá, basicamente preparado com outro produto da mandioca, a goma. Para isso, o tucupi precisa ser bem cozido, a fim de livrá-lo do seu agudo teor tóxico. Morrem os animais que se alimentam de tucupi sem ser cozido. É um veneno.
Staden observou que os índios não gostavam de sal. Conheciam, no entanto, os modos como se produzia o sal nos troncos de palmeiras. Mas a maioria dos tupinambás não comía sal. Quem comia sal vivia muito pouco, diziam eles.
Suas vasilhas de comer eram cuias, usadas ainda hoje na degustação do tacacá entre os amazónidas. Na linha das comidas implantaram os usos do moquém de peixes e carnes defumados, praticados sob a fumaça do fogão, costumes ainda hoje observados entre os moradores da beira do rio.
Eram tão vingativos que os piolhos catados de sua cabeça eram comidos por causa do mal-estar que eles causavam à suas vítimas. Os nomes dos seus filhos eram tirados, sem cerimonial de batismo, dos nomes de aves e animais, flores e frutos da floresta, mas, ainda dos fenômenos da natureza. Usavam, por exemplo, o belo nome feminino de Coema, que quer dizer manhã. Mas a escolha dos nomes das crianças quando nasciam era objeto de uma reunião realizada entre os vizinhos. Nessas reuniões eram lembrados os antepassados heroicos, pois acreditavam que os nomes possuíam o condão de dotar as crianças das mesmas qualidades do maioral lembrado. Os casamentos eram contratados desde criança e os seus ajuntamentos eram privados. Geralmente são monogâmicos. Há, entretanto, homens que possuem várias mulheres, todas vivendo na mesma casa, em compartimentos separados. Os filhos adultos caçam, pescam e trabalham na roça para manter a família. O senhor, verdugo de Staden possuía 14 mulheres.
A lei, enfim, é a palavra do chefe. Tudo funciona conforme a sua vontade. Assim funciona a justiça, a lei é o rei. Sua posição, no entanto, se flexibiliza a partir das influências de determinados fenômenos da natureza em sua alma, como, por exemplo, o temor da escuridão da noite onde vive o Diabo e a posição das nuvens no firmamento, anúncio de tempestades ou de bonança.
As últimas páginas do livro que Staden intitulou de Discurso final, constituem uma invocação ao testemunho de pessoas sobre a veracidade dos fatos relatados em seu livro, e uma prédica, onde manifesta a força de sua religiosidade.
Diz ele que o seu bem-estar e proteção, o resgate do cativeiro onde esteve por nove meses nas mãos dos tupinambas, nas primeiras semanas na iminência de ser devorado em rituais de antropofagia, ele conseguia graças à ajuda e as bênçãos de Deus, porque, segundo ele próprio afirma:
A quem Deus ajuda o mundo não está fechado.
O livro, enfim, foi escrito como uma ampla oração que ele termina com a palavra Amém.
Manaus, Praia da Ponta Negra, quando o rio engole as praias, em janeiro de 2021.
Continua na próxima edição…
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