Minha querida tia Idalina não se conforma com a desclassificação do Brasil pela Noruega. Ela na verdade, não gosta muito de futebol. Toda quarta-feira reclama que o futebol atrapalha sua rotina de novelas. Mas nas copas titia se transforma. Dá até palpite na escalação. Convoca os sobrinhos e amigos para assistir os jogos em sua casa…
-“ Sou uma torcedora bissexta. Só torço de quatro em quatro anos. E pelo Brasil,” repete em todas as copas. Meu país que amo e adoro. Sou brasileiríssima. Ufanista total.
Ela é daquelas que se arrepia ao som do hino nacional. Fica furiosa se alguém conversa ou se mexe quando o hino toca. E observa se os jogadores sabem cantá-lo. Há uma parte que as pessoas erram. ” Brasil de um sonho intenso” primeira parte. ” Brasil de amor eterno” a segunda parte. A dica é que primeiro se sonha e depois se ama. Outra coisa desnecessária é chamar alguma cantora famosa para cantar. Coisa da cultura americana. Nem sempre dá certo. Alcione que o diga. Ah!
Tem mais. Quando Idalina era menina cantava-se o hino perfilados. Ou seja, em posição de sentido. Essa mania de colocar a mão no coração é macaquice importada. Idalina também é contra.
Está convencida de que desclassificaram o Brasil de propósito. Ou não. Idalina, supersticiosa que só, acha que o Brasil só volta a ganhar uma copa quando proibirem as apostas. Existem os deuses do futebol, diz ela. Estão furiosos com manipulação de jogos. E pior, a jogatina tem destruído famílias. É um câncer na sociedade brasileira. Enquanto não acabarem com isso, o Brasil não ganha mais nada.
-E não adianta pôr a culpa só no técnico Ancelotti. Mas é bom culpa-lo. Errou na escalação. Nós temos mais de 200 milhões de habitantes. A grande maioria dos meninos brasileiros jogam bola. Agora vejam só. A Noruega é um país de menos de 6 milhões de habitantes. E faz muito frio. Não dá para jogar bola o ano inteiro, argumenta Idalina.
Titia não se conforma. E se tem que culpar alguém ou algo, além das bets, vamos culpar o Ancelloti. Na Copa de 1966 nós fomos desclassificados por Portugal. Ainda não havia televisão em Manaus. Ouvia-se pelo rádio. Alguns portugueses foram hostilizados. Seu Pinto tinha uma mercearia no canto da Rua Barroso com a Henrique Martins. Fechou as portas preventivamente. O grande bode expiatório foi o técnico, que se chamava Feola. Idalina colocou o nome de seu cachorro vira-latas de Feola. Possivelmente foi o homem mais xingado e destratado no Brasil no ano de 1966. Feola, o cachorro, viveu muitos anos e levou muita bronca de Idalina.
Nesta semana Idalina adotou um vira-latas. Muito sonso e não entende o que Idalina, sua nova tutora, comanda. Pertencia a um senhor italiano falecido. E. Claro, só entende Italiano. Se pelo menos esse cachorro falasse francês. Seria melhor, diz ela.
Enquanto falávamos ao telefone. Idalina gritou algumas vezes;
– Passa Ancelotti!
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