
*Meiry Jane Cavalcante Rattes
Continuação…
4.1 Os agentes da pesquisa
Para traçar o perfil dos jovens do nosso estudo, partimos das seguintes questões: idade, local de nascimento, posição na família (com quem mora), escolaridade dos pais, renda familiar, situação de trabalho dos pais, onde realizou o Ensino Fundamental, escolaridade dos pais, se trabalha ou faz curso, qual curso almeja seguir no nível técnico ou Ensino Superior, e quais as motivações dessas escolhas. Esse conjunto de elementos manifesta sentidos em relação ao perfil de cada agente pesquisado e não dá conta da complexidade da condição de existência destes jovens. No entanto, a partir das respostas produzidas por meio do Grupo Focal, é possível dar mais consistência a todos esses elementos que nos amparam a traçar o perfil dos jovens em questão.
Ainda cabe destacar que, ao relatarmos as falas dos sujeitos respondentes, identificaremos cada um deles por codinomes para resguardar o anonimato. Os jovens serão denominados no texto com as iniciais de seu primeiro nome e sobrenome, acompanhados da expressão jovens. No decorrer do texto também utilizamos o termo “agentes”. Tal escolha se deu por entender, a partir de Bourdieu (2020), que os agentes sociais atuam em campos de luta para transformar ou conservar as relações de poder. Os relatos dos agentes foram transcritos na íntegra, com o intuito de que o leitor acompanhe as sínteses parciais e conclusivas que foram acontecendo dentro do texto; o termo agente nos ajuda também a compreendê-los como pessoas que atuam efetivamente no processo de construção desta investigação.
“O sociólogo que deseja estudar as “classes sociais”, […] ou as “gerações”, e que toma partido metodologicamente, mas também política e sociologicamente, quanto à realidade que interroga: ele se expõe a ser objetivamente portador de uma teoria implícita” […] (Bourdieu, 2020, p. 56).
Apesar de abordarmos cada um desses elementos por vez, não significa que os concebemos isoladamente, mas que por meio deles é possível analisar também a expressão de processos contraditórios, que revelam uma sociedade cuja intenção é produzir uma juventude com vivência homogênea e ainda silenciar suas necessidades, pois é reprodutora da estrutura social vigente.
É com esse entendimento que passamos a apresentar os agentes da pesquisa, a comunidade onde moram, o papel da família na construção dos seus projetos de escolarização, as categorias eleitas para a pesquisa, para assim analisar os dados que estão relacionados ao quarto objetivo deste estudo, qual seja: compreender os processos de “mobilização pessoal”, as estratégias e os investimentos familiares voltados para o acesso e a permanência no percurso socioeducacional das juventudes na Amazônia.
É oportuna a reflexão sobre a relação que os jovens estabelecem com a escola e que foram impedidos de manter esse vínculo fisicamente, ao longo da pandemia. Sabemos da importância da escola no âmbito das relações sociais, que são criadas e mantidas a partir da rotina escolar, e como os jovens a reconhecem para o desenvolvimento para a sua dimensão cognitiva, vejamos o relato a seguir:
Bom, para mim, a diferença que tem aqui no meu ensino, ensino fundamental, foi… foi meio fraco por causa da pandemia também. Aí ele é meio mudado também do ensino médio, tem, já e falei, é mais meio pesado, mas é bom. Aí, é isso, é a matéria que eu gosto também é matemática e língua portuguesa (Jovem G.S.).
Para mim, do oitavo ao nono ano foi meio complicado por conta da pandemia, que eu quase não estudei. Eu estudava por apostila. E a gente não frequentava a escola. Foi um pouco complicado por. Quando eu cheguei no colégio, aqui no Vital de Mendonça, eu tive um pouco de dificuldade por conta disso, porque quase não estudei nada (Jovem E.S.).
Os efeitos na educação brasileira com a pandemia de 2020 foram acentuados em 2021, pois o período pandêmico teve duração de aproximadamente dois anos, no modo remoto em sua maioria, e os jovens da nossa investigação finalizaram o Ensino Fundamental em meio a esse momento.
A realidade foi bem desafiadora para o nosso estado, onde houve muitas mortes, a situação representou o verdadeiro caos, com a população adoentada, sem condições de tratamento adequado para o novo vírus, o que ocasionou a interrupção dos estudos de muitos estudantes, que pararam ou pensaram em parar.
“Em diferentes momentos, entre 2020 e 2021, o Amazonas tornou-se foco nacional e internacional, em função da disseminação do vírus, do colapso do sistema de saúde” […] (Silva et al., 2023, p. 6).
A pesquisa coordenada pelo Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE) apresenta os dados que podem ser observados na Figura 12, na qual nota-se que 6 a cada 10 jovens interromperam os estudos durante a pandemia, a partir disso, é possível analisar a interrupção dos estudos no período pandêmico. Abaixo podemos analisar um conjunto de motivos que contribuíram para a interrupção dos estudos, neste período de isolamento social. Dentre as razões apresentadas, destacam-se o não interesse na continuidade dos estudos, por alegarem que já haviam estudado o suficiente; outro grupo de jovens argumentou que não conseguiu arcar com as despesas da escola ou da faculdade, e há também aqueles que optaram em trabalhar, em busca de dinheiro.
Figura 12 – Interrupção dos estudos na pandemia

Fonte: CONJUVE (2021, p. 51).
As dificuldades de aprendizado aumentaram consideravelmente com a pandemia instalada nos anos de 2020 e 2021, e o funcionamento do Ensino Médio sofreu mudanças estruturais, os jovens foram impactados ficando longe do espaço físico institucional. São inúmeros os desafios desta etapa na escola pública, o que tem contribuído para o abandono escolar. Ao analisar o desenho da governança educacional para a Educação Básica, que se materializou no primeiro ano da pandemia de Covid-19, no Amazonas, Silva et al. (2023, p. 6) destacam: “O desigual acesso à internet e aos recursos tecnológicos, com recortes decisivos de classe, raça e etnia, gênero e localização geográfica, desenhou experiências diversificadas ao longo dos anos letivos de 2020 e de 2021”.
A falta de socialização foi um dos elementos negativos da pandemia na rotina dos jovens. A ausência de interação com os amigos e colegas de turma, bem como professores e demais sujeitos da comunidade escolar, afetaram o desenvolvimento social e emocional das juventudes, uma vez que o processo de sociabilidade é crucial para a construção de vínculos incluindo as perspectivas de aprendizagem. Ainda sobre a pesquisa do CONJUVE (2021), a Figura 13 apresenta os dados relativos às dificuldades de aprendizado no período da pandemia.
Figura 13 – Dificuldades de aprendizado na pandemia

Fonte: CONJUVE (2021, p. 57).
Pela análise da Figura 14 a noção de “ficar para trás” representa um conjunto de dificuldades que os jovens podem ter desenvolvido durante o período de ensino remoto. Nota se que 5 a cada 10 são impactados para manter o foco nas atividades; 4 a cada 10 para se organizarem nos estudos; e 3 a cada 10 nas relações sociais, como falar em público e interagir com professores e colegas. No Ensino Médio, são muitos os relatos sobre as dificuldades em cálculos, produção e interpretação de textos, que já existiam, porém foram acentuadas no período pandêmico.
Quadro 17 – Caracterização dos jovens


Fonte: Elaborado pela autora (2025).
Diante das informações do Quadro 17, os jovens apresentam algumas diferenças quanto à idade, à cor, à renda familiar, à composição da família, à escolaridade e à situação dos pais ou responsáveis no mercado de trabalho, como também à escolha dos cursos que almejam seguir no futuro. Todos esses fatores certamente influenciaram/influenciam a sua trajetória escolar. Ao investigar as identidades destes jovens, buscamos compreender também a ação e constituição da estrutura escolar a partir das vozes silenciadas dos agentes do meio rural e compreender a ação dessa organização em suas vidas. A proposição é de caracterizar, em seus aspectos econômicos, sociais e culturais, o que abrange compreender quem são os jovens que estão concluindo a Educação Básica nessa escola e residem na comunidade São Sebastião da Costa do Siripá.
É exatamente nessa conjuntura que o comportamento dos jovens é forjado pelo contexto social em que vivem, bem como pela forma como eles interpretam e experimentam suas próprias vivências. É fundamental analisar como esses dois fatores se relacionam, já que identificamos configurações juvenis que refletem a diversidade de situações encontradas em nossa pesquisa. Apesar de alguns pontos divergentes, em todos os relatos, a família cumpre um papel importante na orientação das trajetórias escolares dos estudantes envolvidos. E a identificação dessas questões comuns indicam pistas importantes para compreender seu percurso socioeducacional.
O grupo de jovens pesquisado apresenta trajetória sem reprovações na sua jornada escolar, confirmando-se por meio das suas aspirações e planos para o futuro, Dos oito jovens, três são do sexo feminino e cinco do sexo masculino, e ratificam o senso comum e parte da literatura que aponta a família como principal responsável pelo sucesso escolar. Lahire (2004, p. 28) demonstra como as práticas de super-escolarização em famílias populares apresenta muitos casos possíveis, dentre eles “Os pais sacrificam a vida pelos filhos para que cheguem aonde gostariam de ter chegado ou para que saiam da condição sociofamiliar em que vivem”.
O discurso valorativo dos jovens sobre a importância da família, com ênfase para a orientação, o acolhimento e o suporte também são percebido no grupo focal, quando esses jovens ressaltam que:
É, eu recebo orientação muito da minha mãe. Pelo fato que ela falou que nunca teve a chance que eu tenho de estudar. Ela fala que hoje em dia as coisas são muito fáceis pra mim, né? Então ela fala, nesse sentido: eu trabalho todo dia pra ti ficar lá na escola, né? Pra ti ter a chance que eu nunca tive. Então pra mim isso daí é uma oportunidade muito boa que ela nunca teve. Ela sempre tá me dando o que ela nunca teve (Jovem A.S.).
O meu irmão, ele me dá vários conselhos, ele me diz: estuda. Porque eu não tive a oportunidade que tu tá tendo agora de estudar. Então ele terminou os estudos dele, mas só que ele não se formou completamente. Então ele sempre me aconselha: estuda, faz um curso, termina teu curso, depois passa pra faculdade, termine a faculdade e arranje um trabalho pá ajudar a nossa família. Assim como minha mãe sempre diz que o estudo leva ao sucesso, como meu pai e meu tio. Sempre me ficam me aconselhando nessa minha vida toda (Jovem J.H.).
A minha família, ela é muito boa, organizada. Tem alguns problemas? Tem. Por conta do estresse do trabalho, mas ela é uma família amorosa. Caso você sofra alguma coisa, a gente tá lá pra lhe ajudar, assim, com físico, mental e tudo. Aí também minha mãe, ela é uma grande acolhedora. Meu irmão não mora mais com a gente, por conta que ele já cresceu, já tá vivendo a vida dele. E meu pai, ele, ele é um bom pai, assim, que presente no momento. Só às vezes que a gente tá estressado, mas tudo bem (Jovem G.R.).
É exatamente nessa conjuntura que Zago (2013), quando aborda o tema da mudança de setor de atividade mediante credenciais escolares, esclarece:
Os pais, munidos do desejo de reverter a situação social familiar no plano do trabalho e das condições de vida, transferem aos filhos a realização desse projeto almejado. […] são recorrentes as afirmações que situam os pais como os grandes incentivadores para os filhos seguir caminhos por eles não trilhados no campo da educação formal [..] (Zago, 2013, p. 182).
Nessa perspectiva, quando os jovens destinam importância à escola por meio de valores como: educação, ensino, pesquisa, leitura, conhecimento, eles manifestam um conteúdo simbólico que nos revelam sobre as vivências familiares. Lahire (2004, p. 59), ao analisar a construção histórica da figura do aluno, reforça: “Antes de tudo é preciso destacar o fato de que a escola não é um simples lugar de aprendizagem de saberes, mas sim, e ao mesmo tempo, um lugar de aprendizagem de formas de exercício do poder e de relações com o poder”.
É, eu acho que o meu ensino médio aqui foi muito bom, por conta que aqui eu vi diferença do que o ensino médio do interior. Eu tiro isso por conta da minha sobrinha que estuda aqui, agora, na cidade. Ela veio morar com a gente já com uns sete anos de idade. Hoje ela está fazendo dez, graças a Deus. É porque assim, né?
No ensino do interior, como ela lhe disse, né? Tem vários professores que faltam, outros que não tão nem aí pro aluno, não querem nem aprender. Aí a mãe dela disse que era bom ela vir morar com a gente, por conta que eu estudava na cidade e eu já tava sabendo ler, escrever, Taboada, essas coisas. Hoje em dia ela já tá sabendo já as quase as quatro operações da tabuada e já tá sabendo ler, graças a Deus. E eu acho o Vital de Mendonça muito legal por conta do que eles têm vários professores e não deixam às vezes, os tempos vago (Jovem V.R.).
Resende (2013) nos faz pensar na funcionalidade da escolarização, quando discute o aumento do tempo médio da escolarização de grande parte da população:
Trata-se de um cenário em que a escolarização tornou-se um processo hegemônico, impondo-se como valor e impondo seus valores para os diversos grupos sociais, na luta pela ascensão ou pela reprodução de suas posições em um contexto cada vez mais competitivo (Resende, 2013, p. 202).
Esse raciocínio é seguido da próxima fala, que se soma às reflexões em relação aos sentidos da escolarização para a vida das juventudes que buscam no ensino da cidade questões como formação, preparação e orientações para chegar ao curso superior, como uma das funções da educação escolar:
Eu penso em trabalhar depois de eu fazer minha faculdade e fazer o resto dos estudos, por conta que fica mais fácil pra mim do que ficar no trabalho e me concentrando nos estudos. Já terminando o curso e a faculdade já fica bem mais leve pra mim (Jovem E.R.).
Bom, eu tô tentando terminar meu estudo pra mim fazer um curso pra veterinário também, como eu lhe falei, porque eu tenho um, eu gosto muito de trabalhar com animais aí, essas coisas. Aí eu tenho vontade de fazer um curso pra isso, pra veterinário, porque eu gosto de ta ajudando os animais, porque tem uns que ficam doente, né? Aí pra gente não ver eles doente, a gente tem que ajudar eles. Aí por isso que eu queria fazer um curso pra veterinário (Jovem G.S.).
A perspectiva bourdieusina a essa discussão é essencial, pois também a França, no contexto das décadas de 1950 e 1960, viu sua école republicaine ser frequentada por populações historicamente preteridas – como os filhos de artesãos, agricultores, operários da indústria e, com o passar do tempo, também de imigrantes. A sociologia desenvolvida por Bourdieu a partir de meados da década de sessenta analisou cuidadosamente este fenômeno. Como acontecia a entrada das classes marginalizadas, é o que Bourdieu responde com a conhecida expressão “excluída do interior”. E permaneciam excluídos. No entanto, tal exclusão se revelava de outro modo, pois os estudantes já se encontravam dentro do próprio sistema escolar. Pierre Bourdieu e Patrick Champagne (2023), ao analisarem a entrada no jogo escolar de categorias sociais que até então consideravam-se ou estavam praticamente excluídas da escola, advertem:
Um dos efeitos mais paradoxais deste processo – a propósito do qual se falou, com um pouco de precipitação e muito preconceito, de “democratização” – foi a descoberta progressiva, entre os mais despossuídos, das funções conservadoras da escola “libertadora”. Com efeito, depois de um período de ilusão e mesmo de euforia, os novos beneficiários compreenderam, pouco a pouco, que não bastava ter acesso ao ensino secundário para ter êxito nele, ou ter êxito no ensino secundário para ter acesso às posições sociais que podiam ser alcançadas com os certificados escolares […] (Bourdieu; Champagne, 2023, p. 291).
A comparação entre o atual contexto educacional brasileiro, a partir do Novo Ensino Médio e as análises feitas em 1950 na França, bem como outras regiões da Europa, é possível ser estabelecida quando os autores chamam a atenção para a seguinte questão: “até o final dos anos 50, as instituições de ensino secundário conheceram uma estabilidade muito grande fundada na eliminação precoce e brutal das crianças oriundas de famílias culturalmente desfavorecidas” (Bourdieu; Champagne, 2023, p. 290).
Nesse sentido, a reforma do Ensino Médio causa não só um expressivo retrocesso, como também um processo de exclusão na trajetória educacional das juventudes, principalmente, aos jovens das regiões mais longínquas e consideradas periféricas, porque estabelece uma divisão entre os que continuam tendo acesso ao ensino de boa qualidade e a grande população da escola pública que fica limitada a um ensino frágil e de baixa qualidade, como acontecia na década de 1990 no Brasil, apontando uma grande defasagem do formato atual do Ensino Médio brasileiro, ou seja, de que o país está estagnado. Pois, como já vimos no capítulo três desta tese, as desigualdades no acesso à escola persistem entre os jovens de 15 a 17 anos, tanto em áreas urbanas quanto rurais. Embora os dados mostrem uma taxa de acesso de 94,6% nas áreas urbanas e 90,3% nas áreas rurais, é preocupante notar que ambas as áreas apresentaram uma queda em relação ao ano anterior. Além disso, o avanço registrado ao longo de mais de uma década é extremamente pequeno.
Ainda nessa discussão, Bourdieu e Passeron (2014) investigaram as relações entre os diferentes tipos de capital e o sistema educacional. Eles demonstraram que as desigualdades no campo escolar não podem ser reduzidas mediante apenas às diferenças de condição econômica, como muitos economistas haviam sugerido na época. Os autores defendem que o sistema educacional, apesar de aparentemente democrático e igualitário, funciona como um dos principais mecanismos de reprodução das desigualdades sociais. Isso ocorre porque tal sistema preconiza os signos culturais dominantes, cujas classes médias e altas detêm. E nessa perspectiva, os estudantes advindos das classes populares enfrentam, desde cedo, a violência simbólica, imposta pelo sistema escolar, que restringe as suas oportunidades e promove a consolidação das desigualdades sociais.
Nesse cenário, acontece o fortalecimento das desigualdades, pois é exatamente no tratamento dos estudantes como iguais em direitos e deveres que o sistema escolar ampara melhor os privilégios e legitima as desigualdades sociais. Isso se explica a partir dos conteúdos e aptidões escolares, as exigências e critérios do sistema de ensino demonstram maior ou menor afinidade com os hábitos culturais de determinadas classes (Bourdieu; Passeron, 2014).
Bourdieu (2023) denuncia a transformação dos privilégios sociais em dons ou méritos individuais e questiona o sistema escolar como fator de mobilidade social, já que as desigualdades sociais são convertidas em diferenças acadêmicas, consagrando a ideologia meritocrática que compõe o conjunto de ideias e concepções dos grupos sociais dominantes. Segundo o autor, a escola exerce responsabilidade na perpetuação das desigualdades sociais, ainda que a definição social de igualdade de oportunidades defenda o contrário: por essa definição de “igualdade formal”, como expressão dos ideais democráticos, a escola se apoia na neutralidade e afirma a desigualdade de dons ou de méritos, fazendo crer que o sucesso seja uma consequência do trabalho e dos dons individuais.
Essas desigualdades são ainda maiores se tomarmos como referência os espaços rurais da Amazônia. Diante dos dados apresentados no capítulo três, podemos afirmar que o Brasil precisa avançar no âmbito das políticas públicas, e nesse cenário o campo é intrinsecamente mais vulnerável às desigualdades.
As falas dos estudantes também revelaram a carência de espaços de lazer e sociabilidade, pois, são poucas as oportunidades nos locais onde residem. Para alguns estudantes, o lazer limita-se a ir à igreja, o que é muto comum para a maioria deles, jogar bola e participar de campeonatos entre as comunidades, nos campos próximos as suas residências. Com poucas opções, a maior parte do tempo livre desses jovens é dedicada ao plantio, cuidar da roça e dos animais, como mostram os depoimentos:
É, dentro da comunidade. Tem muita liberdade. Do lado da minha casa lá, deixa eu ver, dá uns cinco minutos, tu consegue achar um campo de futebol pra ti jogar. Eu sempre vou lá domingo, dia de domingo. A gente sempre consegue vim aqui na cidade também, passear, assim, sair com os amigos (Jovem E.S.).
Bom, na minha comunidade sempre tem um Arraial de São Sebastião. Então, todo Arraial e a gente tem que ir lá, por conta que a gente tem uma promessa com o Santo, né? Então a gente sempre vai. E vai para o São Sebastião, aí a gente sempre dá lá um porco, um rancho e etc. (Jovem A.R.).
Eu tô tentando terminar meu estudo pra mim fazer um curso pra veterinário também, porque eu gosto muito de trabalhar com animais aí, essas coisas. Aí eu tenho vontade de fazer um curso pra isso, pra veterinário, porque eu gosto de ta ajudando os animais, porque tem uns que ficam doente, né? Aí pra gente não ver eles doentes, a gente tem que ajudar eles. Aí por isso que eu queria fazer um curso pra veterinário (Jovem G.S.).
Ao mesmo tempo em que as narrativas revelam a condição que estudantes da Comunidade São Sebastião da Costa do Siripá vivem suas juventudes, também alertam sobre a carência de políticas públicas para atender os direitos dos sujeitos do campo. Enquanto o Estado não implementar ações concretas para apoiá-los, eles são forçados a assumir a responsabilidade por sua própria trajetória, e assim aproveitar as escassas oportunidades de melhoria de vida.
Continua na próxima edição…
* Meiry Jane Cavalcante Rattes é Doutora em Educação pela UFAM, com foco em Educação, Estado e Sociedade na Amazônia, e Mestra em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela UFJF/MG. Pedagoga de formação com especialização em Metodologia do Ensino Superior, possui sólida trajetória na Educação Básica e na gestão escolar, tendo atuado como gestora do Colégio Vital de Mendonça e professora em Itacoatiara, além de integrar o corpo técnico da SEDUC/AM.
Como pesquisadora, integra o Grupo de Pesquisa em Sociologia Política da Educação e é associada à ANPEd, onde participa do GT de Sociologia da Educação. Sua produção intelectual concentra-se em políticas públicas educacionais, juventudes na Amazônia e Ensino Médio, investigando as interseções entre o Estado e a Educação Básica.
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