
*Eder de Castro Gama
CAPÍTULO 2 IDENTIDADE E MEMÓRIA DE UM POVO
No segundo dia da Semana do Patrimônio Cultural, os alunos estavam todos sentados e conversando sobre o que descobriram com suas famílias, sobretudo as histórias de visagens. Neste momento entra a professora Maria do Carmo, e após fazer a chamada, Duda pergunta:
– Professora! Hoje vamos fazer igual ao povo Ubuntu sentar-se em círculo?!
– Sim! – Respondeu a Professora.
Depois de sentados em círculo, a professora perguntou a todos, se tinham feitos as tarefas de casa. Introduz a aula com outra pergunta.
– Vocês têm regras de comportamento na família e na casa de vocês?
Todos os alunos responderam que sim. A professora pediu para Pedro falar de uma regra de comportamento da sua família.
– Professora, lá em casa toda vez antes das refeições temos que lavar as mãos e fazer agradecimento a Deus antes de comer.
– Muito bem Pedro! – Eduarda quais as regras que têm na sua casa?
– Lá em casa, tomamos bênção dos nossos pais ao acordar ou ao sair ou, chegar em casa.
– Isso Eduarda! Falou a Professora. Estevão, como é na sua casa?
– Na casa dos meus pais lá no interior, quando é época de semana santa, temos que tomar bênção dos nossos pais, falar baixo, comer somente peixe, não bagunçar e não ser desobediente até no Sábado de Aleluia. Caso contrário, pode aleluiar a qualquer momento com um puxão de orelha dada por minha mãe.
Neste momento todos riram da situação contada por Estevão, pois alguns também já tinham passado por isso na época da Semana Santa. A professora perguntou ao Benedito, um dos alunos que era da comunidade Lago de Serpa localizada a 10 km da estrada AM-010. Se lá tinha algum tipo de regra que se lembrasse.
– Tem sim professora! Na minha comunidade na época da procissão de Nossa Senhora de Aparecida, os mais velhos que carregam a Santa no momento da procissão têm que segurar com um pano branco, para não tocar diretamente na imagem, porque é considerado um desrespeito a Santa se for pego diretamente. Falou Benedito. A professora continuou falando:
– Olha! Vocês estão vendo que em todas as famílias e comunidades temos regras de comportamento? Tudo isso, é chamado de identidade cultural. Significa que toda a sociedade, povo ou comunidade tem valores, padrões de comportamento, formas de viver e características culturais que os identificam, os tornam semelhantes entre si, parecidos entre si.
– Por exemplo, temos as populações indígenas que tem muito em definido as suas regras de comportamento. Alguém conhece algum indígena?
– Eu! Levantando o braço e respondendo Manú.
– Lá na cidade de Maués quando fui visitar meu tio, conhecido como Zé de Manaus, comerciante famoso da cidade, apareceram os índios da Tribo Sateré Mawé da comunidade Andirá – Maraú, vendendo pão de guaraná, que é uma massa endurecida de guaraná em formato de pão manual, que é ralado na língua de pirarucu. É muito gostoso o guaraná ralado com água e um pouco de açúcar tomado na cuia.
– Isso mesmo Emanuelle! Vocês sabiam que os indígenas Sateré-mawé têm o ritual da tucandeira, é realizado quando o menino tem por volta de 14 anos de idade e no dia marcado toda a tribo se reúne numa grande festa, onde é feito uma luva de palha e colocado cerca de 200 formigas tucandeiras com seus ferrões dentro da luva, que ferra doido, quando o menino coloca as mãos dentro da luva é segurado por índios mais velhos que dançam junto com ele e cantam as músicas ancestrais, como uma forma de aguentar a dor. Eles fazem, este ritual para marcar a passagem do menino para fase adulta, significa que eles já estão preparados inclusive para se casar.
No momento que a professora descrevia o ritual da tucandeira os meninos diziam, “ainda bem que não nasci nesta tribo”. As meninas diziam: “acho é pouco para estes meninos fedorentos aqui da escola. Devia existir aqui também!” Patrícia uma das alunas que estava impressionada com a história perguntou:
– Professora! As meninas também passam por algum tipo de ritual?
-Sim! – Respondeu a professora.
– Na tribo Tikuna em uma região de Tabatinga aqui mesmo no Estado do Amazonas, as meninas quando ficam mocinhas, que tem sua primeira menstruação, coisa que todas as meninas vão passar. Lá quando elas passam por isso a primeira vez, os familiares se reúnem, principalmente as mulheres mais velhas da aldeia, para fazer uma casinha com palha de buriti, é chamado de noviciado moçangol, nele a moça nova recebe ensinamentos de vida, como cuidar da casa, do marido, dos filhos e ensinamentos sobre cura com os remédios da floresta e proteção místicas contra espíritos maus da floresta. O ritual termina com uma grande festa para todos da tribo, momento em que os mascarados chamados de encantados e bichos que são os homens mais velhos dançam. Neste momento, é trazido a menina da casinha em que ela estava. Toda pintada com adornos corporais, é colocada no centro da festa, é quando as mulheres mais velhas arrancam todos os cabelos da menina com suas unhas e a deixam careca. Simboliza que ela renasceu para uma nova vida. E a partir deste momento, ela está preparada para vida adulta.
Neste momento, foi a vez dos meninos curtirem com a cara das meninas dizendo que achavam era pouco para um bando de menina gaiata. As meninas faziam cara de desespero e respondiam que ainda bem que não tinham nascido Tikuna.
A professora interviu, falando para todos terem calma. Que assim como as tribos tinham seus ritos de passagem, a nossa sociedade não indígena também tinha.
– O nosso rito de passagem se dá nas festas de aniversário. Por exemplo, toda vez que fazemos aniversário nós assopramos as velinhas em cima do bolo não é verdade?! Então, o apagar das velas significa que estamos completando mais um ano de vida, por isso que é importante cantar parabéns e apagar as velas. As meninas têm um ritual de passagem, para a fase adulta. É a realização da festa de quinze anos. É o momento em que o pai e a mãe fazem uma grande festa para mostrar sua filha para sociedade, lá elas se vestem como princesas e dançam valsa com os meninos e todos os homens da festa.
– Quando somos crianças, para quem é católico têm o batizado na igreja. É o momento que os pais da criança mostram para comunidade cristã, que o seu filho está aceitando Jesus pelos pais. Vocês entenderam? – Perguntou a professora.
Todos responderam que sim. A professora continuou falando sobre a diferença de identidade pessoal para identidade cultural.
– Crianças, identidade pessoal é forma de como nós nos identificamos a nossa forma de vestir, de falar, enfim nossa expressão pessoal. E a identidade cultural, ou coletivo é como nós nos identificamos com nossa família, com a comunidade e com o nosso povo.
Eu contei aqui sobre os rituais da tucandeira dos Sateré Mawé e o ritual da moça nova dos Tikunas. Pois então, eles são povos deferentes com sua identidade cultural e padrões de comportamento cultural. Mas também do ponto de vista de um Estado brasileiro são considerados povos do Brasil. E nós também somos do Brasil, considerados de uma cultura Brasileira. – Neste momento falou Estevão:
– Professora! Ontem à noite quando conversava com o meu tio Zé sobre a aula de ontem, ele me explicou que as comidas que temos faz parte de contribuição de vários povos que vieram para o Brasil e formaram a cultura Brasileira. Como por exemplo, a comida pirarucu de casaca que foi baseada no bacalhau português, a feijoada baseada na comida dos negros escravos e o tacacá baseado na comida dos índios.
– Isso mesmo Estevão! Exclamou a professora entusiasmada como aprendizado da turma.
A professora perguntou:
– Vocês sabem como a identidade de um grupo, de um povo ou sociedade é mantida? Ela é mantida pela memória, ou seja, é ela que armazena as informações, os conhecimentos e as experiências, tanto em um nível individual, social ou coletivo. Gente, a memória é um elemento fundamental da manutenção da nossa identidade. O esquecimento também faz parte da memória. Tal como: Quando estamos sozinhos as vezes a gente não lembra de uma determinada coisa, mas quando estamos juntos conversamos e vamos lembrando das coisas em conjunto, podemos até fazer as mesmas coisas de outro jeito. Por exemplo.
– Vocês sabiam que existe uma dança aqui de Itacoatiara chamada Lundu, ela foi ensinada pelos negros que vieram para morar em Itacoatiara como escravos livres nas fazendas do Barão de Mauá. Pois então, assistir ser dançada, é muito bonita, são homens e mulheres que dançam com roupas de chita bem florida com os pés no chão em formato de roda. Então se decidirem colocar a dança novamente, basta reunir as pessoas que viram e dançaram e tentar reproduzir, assim com a memória de todos traremos uma manifestação cultural de volta. Por isso, a memória é importante para a preservação da identidade de um povo.
– A professora explicou também, que a memória é importante para manutenção da identidade de um povo, entorno da sua forma de falar, de vestir, na culinária e na construção das casas.
A professora continuou sua aula perguntando quais são as histórias que as famílias dos alunos têm sobre a cidade de Itacoatiara, como lendas e mitos. Pedro Levantou a mão e disse.
– Professora minha mãe me contou uma história que seu tio vivenciou aqui na cidade de Itacoatiara, na época em que a luz elétrica ficava ligada por poucas horas nos postes de luz. Eles dormiam cedo, e acordavam às 5h da manhã para ir buscar carne no Mercado Central, pois além de ser muito cara, ela acabava logo. As pessoas não tinham relógios em casa com facilidade, porém se guiavam pelo badalar dos sinos da igreja matriz.
– O meu tio acordou depois de ouvir uma badalada do sino, acreditou que era 5h da manhã, pediu bênção de sua mãe e foi para o Mercadão, chegando perto de um seringal algumas quadras antes de chegar no mercado, deparou-se com uma grande porca, que passou a lhe perseguir. Correu e se escondeu por trás das árvores, ainda era noite de luar. Ficou observando, foi quando viu a porca passar por de trás de uma árvore e do outro lado surgiu uma mulher nua com os cabelos soltos e saiu correndo. Ele, ficou branco feito papel! Fez o sinal da cruz e se pegou com tudo que é santo. Foi correndo para o mercado. Chegando no mercado estava apenas o vigia que esperava um descarregamento de carne. Viu o jovem pálido e perguntou: – Você viu fantasma? E o que está fazendo tamanha meia noite aqui? Respirou fundo e tomou um pouco de água e o meu tio falou: – “Fui perseguido por uma porca grande, quando vi ela transformou-se em uma mulher. Momento que sai correndo para cá no mercado”. – Depois de um bom tempo, o carregamento de carne chegou, o nosso tio comprou a carne e voltou para casa às 2h da manhã, por outro caminho.
– Boa história Pedro! Alguém tem outra história para contar?
Perguntou a professora.

– Eu tenho! Disse Benedito.
– Então nos conte Benedito?! Falou a professora.
– A senhora sabe por que lá na comunidade do Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa temos a comemoração da festa de três santos? Perguntou Benedito.
– Não! Respondeu a professora curiosa.
– O meu pai Ernando me contou, que o Santo que dá o nome à Comunidade Sagrado Coração de Jesus foi por causa da indicação dos padres da Igreja Católica, é feito um arraial no dia 27 de junho. Mas aí temos a festa de Nossa Senhora aparecida em dois dias diferentes. A Santa que comemoramos dia 22 de setembro, é uma que um senhor achou boiando no lago de Serpa, ele estava pescando e não pegava nada. Depois que ele achou a Santa pegou um monte de peixe, por isso consideramos Santa Milagreira. A segunda festa de Nossa Senhora de Aparecida é realizada no dia 12 de outubro mesmo, foi uma santa que um promesseiro dou para ficar na igreja, esta festa é só nossa da comunidade que realizamos uma procissão, também faz milagres, ela é nossa lá de casa.
– Nossa Benedito eu não sabia! Parabéns por saber das coisas religiosas da comunidade.
Alguém mais teria outra história? Perguntou a professora.
– Eu! Falou Maria.
– Então nos diga Maria.
– Professora, meu tio que é padeiro lá no bairro de Santo Antônio aqui em Itacoatiara, me contou que uma noite por volta da meia noite quando tacava lenha no forno para aquecer para poder ficar pronto para assar os pães por volta das 3h da manhã ficou esperando a lenha queimar para poder fechar a fornalha. Foi sentar-se em frente a padaria. Foi quando de cabeça baixa e com sono, pensando a que horas iria conseguir dormir, viu no fundo do quintal de duas casas que ficavam em frente a padaria, um fogo do tamanho de uma vela que ficava dançando para lá e para cá, de repente, o fogo ficou grande como se fosse de uma grande fogueira e começou a atravessar as cercas que separavam o quintal, de um lado para o outro. Ele viu aquilo, que na hora passou seu sono. E correu mais do que depressa para dentro da padaria, não quis mais saber de estar na rua este horário. Ele me falou que era o fogo-fátuo. Só aparece nos lugares que tem ouro. Agora não sabemos se no quintal enlamaçado das vizinhas têm ou não têm ouro?!

– Quem sabe né Maria! Falou a professora rindo da história.
– Então queridos alunos, vejam que estas histórias que vocês contaram estão nas memórias dos familiares de vocês, e algumas delas já estão passando para vocês, e vocês já compartilharam elas com todos aqui. Estas histórias fazem parte da memória que compõe o Patrimônio Cultural da família de vocês e da cidade de Itacoatiara. Por isso, dizemos que o Patrimônio Cultural é imaterial porque está ligado a memória das pessoas e é material porque sai da memória para o físico, algo que podemos tocar e fazer. Por exemplo, aqui no bairro do Jauary mora o senhor Dídico, o nome dele é Raimundo Diniz dos Santos, ele é um senhor albino apelidado como filho de boto. Neste momento todos os alunos riram.
A professora continuou.
– Respeito! As pessoas falam isto porque são rudes e desrespeitosas. Enquanto a professora falava, ela ouviu.
– Eu já o vi na igreja Matriz tocando violino. A professora continuou.
– Vocês sabiam que ele fez o seu primeiro violino aos 12 anos deidade? Ele era filho de marceneiro na cidade de Urucurituba, mas faz tempo que ele mora aqui em Itacoatiara.
– O Seu Dídico como é conhecido, é um grande mestre artificie fazedor de violão e violino, ele detém o conhecimento da arte de fazer e tocar estes instrumentos. Este conhecimento, está na sua mente, é um modo de fazer, aí consideramos Patrimônio Cultural Imaterial e quando ele faz os instrumentos e se materializa, dizemos que ele tem nas mãos um instrumento que é fruto de um Patrimônio Cultural Material. Entenderam?!
– Sim professora! Responderam os alunos.
– Além do mais, o Senhor Dídico é um grande orgulho para todos os itacoatiarenses, pois ele já se apresentou no Teatro Amazonas no dia 30 de abril de 1993 com a Orquestra Sinfônica do Teatro Amazonas. Foi aplaudido de pé. E anima as missas, as alvoradas e os arraias das festas de Santo aqui da nossa cidade. – Falou a professora.
– A professora Maria do Carmo encerrou sua aula e pediu para os alunos se prepararem para o dia seguinte, pois iriam identificar e conhecer os Patrimônios Culturais da Cidade de Itacoatiara, iriam todos passear de ônibus e descer nos lugares de visitação.
Depois que todos saíram da escola, Estevão ficou pensando em tudo que ouviu e aprendeu em sala de aula. Pensou, será que o meu avô é considerado um mestre artificie de fazer, por que ele sabe fazer canoas? Um certo dia, perguntei, vovô, para que o senhor quer este tronco de árvore no terreiro da sua casa? – Ele falou que era para fazer um casco, um tipo de canoa escavada na madeira. Eu acho que ele é sim um mestre de fazer canoas. – Pensou Estevão.
Estevão foi para sua casa. Chegando lá descobriu que naquele dia sua tia não colocaria banca para vendas e nem teria mingau de bananas para vender. Ela chegou tarde em casa, pois teve que substituir uma colega que faltou no trabalho, por isso, não deu tempo de fazer as merendas. O menino aproveitou o tempo livre, para fazer um desenho de tudo aquilo que ouviu na escola.
*O autor é natural de Itacoatiara, vem trabalhando com a temática sobre patrimônio cultural a mais de duas décadas. É formado em Ciências Sociais (UFAM) e Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (PGSCA/UFAM) especialista em Festas Populares e Religiosas da Amazônia. Formado em Direito (ULBRA/Manaus), MBA em Gestão, Licenciamento e Auditoria Ambiental (Anhanguera-Uniderp). É professor Universitário. Publicações em coautoria nos livros “Cultura popular, patrimônio imaterial e cidades” (2007) e “Culturas populares em meio urbano” (2012). Autor dos livros “A Senhora, o Folclore e o Festival” (2022) e “Descobrindo o Patrimônio Cultural de Itacoatiara (2024)”. É Assessor Jurídico e sobre o patrimônio imaterial etno-história da Amazônia para empresas de licenciamento ambiental e arqueológico.
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