Manaus, 8 de junho de 2026

Crônicas do Cotidiano: “Taí, Eu fiz Tudo pra Você Gostar de Mim”

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Como de costume, a convulsão política no Brasil estava quente por ser um ano de eleições e as rivalidades políticas reservavam surpresas: o possível fim da “Política do Café com Leite” e a derrocada das oligarquias regionais. Era o início de 1930 e tudo parou por instantes, os olhos voltaram-se para o Carnaval que se avizinhava e ninguém pensava nos possíveis desfechos da luta política e, muito menos, que aquele seria o último Carnaval da República Velha; que Getúlio Vargas, tendo como vice João Pessoa, favoritos nas campanhas à Presidência da República, seriam derrotados por Júlio Prestes, de São Paulo; que João Pessoa, assassinado por um adversário, num crime passional transformado em “crime político”, seria o estopim da revolta nacional, com acusação de fraude eleitoral, pelos derrotados. Em 24 de Outubro de 1930, Washington Luiz é Deposto e Getúlio Vargas chega ao Palácio do Catete, sede do Governo da República, no Rio de Janeiro: estava derrubado o Governo e se iniciava a Era Vargas, com um golpe civil-militar que mudaria a história do Brasil. Esse “nariz de cera” é somente um pouco do contexto para lembrar que ano de eleição é, desde antanho, ano de confusão. Lembrar, também, que essa estória de polarização “vivida hoje” é balela e toda vez que a direita perde o controle da situação ela se camufla, se mimetiza e se alia com Deus e o Diabo e com os que mais lhe convier, formando novas forças políticas. É raro, mas ela às vezes erra! A Era Vargas não foi bem o que ela queria, foram-se os anéis, mas ficaram os dedos e ela continua aqui, com as suas artimanhas!

Foi na Era Vargas que se iniciaram aproximações mais densas nas relações Brasil e Estados Unidos da América (EUA) e o lançamento dos americanos na luta pela hegemonia no que eles chamam de “nosso hemisfério”, evocando a Doutrina Monroe. Antes disso, os EUA não eram muita coisa para nós: uma pequena rusga para conseguir a navegação na Amazônia, ainda no Império; tentativa de comprar terras para mandar os negros recém libertos nos EUA para o Brasil, o que lhes foi negada por Dom Pedro II; imigrantes americanos derrotados na Guerra da Secessão se instalando em ponto do país; os Ford Bigode nas nossas ruas como símbolo de modernidade; e ações conjuntas para minorar a Grande Crise Econômica de 1929. A aproximação mesmo começa pelas relações diplomáticas chamadas de “políticas de boa vizinhança”, dentro de diretrizes para toda a América Latina, vistas como ofensiva imperialista no pós-guerra e como forma do capital apropriar-se de talentos espalhados pelo mundo para fortalecer a comunicação de massas, a ampliação das audiências e a rentabilidade de seus investimentos a menor custo. E desses países são levados os grandes ídolos das suas indústrias culturais, ainda incipientes, para os estúdios de Hollywood, dando início a um processo de colonização cultural. Entre os nossos talentos, foi elevada ao estrelato a “Pequena Notável”, Carmen Miranda. Segundo Ruy Castro, o seu maior biógrafo, foi seu talento e não a conjuntura política que a fizeram estrela com nome na Calçada da Fama e reconhecida como a mulher mais bem paga dos EUA pelo Tesouro Americano, no auge de sua carreira. É interessante notar que essa história de usar Carmen Miranda como símbolo de nossa amizade carnal com os americanos foi incensada pela direita “viralatista”, a mesma criticada por Nelson Rodrigues como abjeta, que não perde tempo em clamar pelo incondicional alinhamento: com a turma da Guerra Fria; do MEC/USAID, que colocou livros doutrinários americanos nas nossas bibliotecas e professores/espiões da CIA dentro de nossas universidades, no triste período da Ditadura Militar de 64, feita pelos mesmos que conseguiram derrubar Getúlio Vargas e dar vida novamente à direita e à extrema direita, no Brasil. Assim sendo, Carmem Miranda não se iguala aos vira-latas que lambem botas dos americanos, traindo o Brasil. A marchinha que marcou o seu sucesso e lançamento como cantora, de autoria de Joubert de Carvalho, “P’ra você gostar de mim” (Taí), foi gravada e lançada em janeiro de 1930, um sucesso estrondoso e cantava: “Taí/ Eu fiz tudo pra você gostar de mim/ ai meu bem não faz assim comigo não/ Você tem, você tem que me dar seu coração”. Não! Não é o “Melô dos traidores” para agradar gringos trumpistas e dar a eles o nosso PIX, as nossas mercadorias e receber rindo, como hienas, as taxas que eles quiserem nos impor!

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