Não faz muito tempo que a Semana Santa, conforme a tradição católica romana, tinha uma conformação social, familiar e individual bastante diferente da que experimentamos na atualidade. Os fiéis, isoladamente e em família, costumavam manter comportamento mais contido, respeitoso, em reverência, evitando qualquer atitude que pudesse representar desrespeito ou desconsideração para com os sentimentos sagrados de religiosidade uns dos outros.
A vizinhança de nossa casa agia da mesma maneira. As atitudes mais extravagantes, o som elevado da vitrola ou do rádio, a cantoria no quintal ou na varanda, cediam lugar a um silêncio profundo. Nas ruas, caminhavam as poucas pessoas que tinham obrigações inadiáveis de trabalho.
Pouco antes, desde o Domingo de Ramos, esse cenário começava a se desenhar, pois este era o dia em que recolhíamos a palinha benta após a santa missa para, formando uma espécie de cruz, colocarmos na parte posterior da porta de entrada de nossa casa, o que era renovado a cada ano como um gesto de bênção para o lar.
Foi nesse ambiente que nasci e cresci, e por professarmos o espiritismo desde sempre, não participávamos dos excessos que eram atribuídos aos “carolas”, mas tínhamos a consciência de que deveriam ser dias de recolhimento e reflexão, especialmente a quinta e muito particularmente a sexta-feira da Paixão de Jesus Cristo, e isso nos fazia muito bem. Crescíamos interiormente e fortalecíamos nossos laços de família.
Influência ou não da Igreja Católica, convicção social ou tradição, fosse o que fosse, era comum experimentarmos esse recolhimento e certa contrição, o que se repetia nos jornais que dedicavam longas matérias sobre o assunto e nas emissoras de rádio que modificavam o repertório musical adotando composições sacras e programações especiais dedicadas aos dias santificados.
Em casa, as famílias se recolhiam em orações, evitavam realizar serviços domésticos que não fossem urgentes, não se varria a sala, não se comia carne vermelha, não havia orgia, brincadeiras nem festas, e como bem me lembra minha querida irmã Maria Justina, com a autoridade de seus oitenta e poucos anos de juventude e vivacidade, nossa amada mãe cuidava de uma almoço especial tendo à mesa o que tanto gostávamos – feijão com leite de coco passado no liquidificador, pão cortado em rodelas pequenas, peixe e frango. Após o repasto, todos nos reuníamos às três horas da tarde para acender uma vela e rezar a oração que sempre nos uniu: o Pai Nosso, para agradecer. Ao mesmo tempo, era uma relembrança do calvário, crucificação, morte e elevação espiritual de Jesus Cristo.
Outras famílias seguiam para as igrejas nas quais beijavam a cruz, acompanhavam a via sacra, refletiam sobre o sermão das sete palavras e abandonavam completamente as atividades mundanas e se voltavam para a adoração da Santa Cruz. Muitas vezes fomos à procissão levados pela mão e pelo coração sincero de nossa mãe, sempre agradecendo o dom da vida.
O burburinho nesses dias santificados, comum dos tempos atuais, empobrece nosso coração e enfraquece o espírito.
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