Ao tentar descrever a força da obscenidade do mundo em que vivemos, Jean Baudrillard (1929-2007) nos situa como Reféns de um terrorismo que transcende a violência: “a violência é anômica, o terror é anômalo…é deformante da ordem e da cena política… Ele também parece surgir de outra sucessão, aleatória e vertiginosa, de um pânico por contiguidade, e não mais responde unicamente às determinações da violência. Mais violento que a violência, assim é o terrorismo, cuja espiral transpolítica corresponde à mesma elevação aos extremos na ausência da regra do jogo” (Estratégias Fatais. Rio de Janeiro: Rocco, 1996, p. 31). O mundo vivia uma encruzilhada e desembocava no chamado pós-modernismo, mas o pensador francês já marcava suas posições proféticas em um mundo onde o Simulacro superaria o mundo real. Por isso, afirma que “existe um terror, e ao mesmo tempo um fascínio, da criação contínua do mesmo pelo mesmo” (p.45). As máquinas, as guerras, as revoluções, inclusive a revolução sexual, as obscenidades da vida em sociedade e a ação dos meios de comunicação de massa distorceriam a visão de realidade e nos encaminhariam para um “mundo virtual”, de sedução, de violência, de terror apaziguado pela ilusão; um mundo que se digladiaria consigo mesmo. Apesar do tempo, foi isso que senti na leitura dos discursos que circulam pela mídia sobre os fatos, tanto aqui no Brasil quanto no mundo.
A Extrema Direita se robustece com sua gene fascista fabricando o “mesmo pelo mesmo” desmontando as regras, iludindo os tolos e transtornando espíritos lúcidos através da mídia convencional e das redes na Internet, suas fábricas de simulacros ao difundirem discursos e imagens falsas, imitações imperfeitas, aparências sem realidade, muitas vezes simuladas, que invertem a realidade e nos deixam malucos. Vejamos alguns dos seus feitos: 1. 47% dos brasileiros vivem em situação de pânico com a violência provocada pela falta de segurança, diz a pesquisa de opinião; 2. empresas públicas, privatizadas “para serem mais eficientes”, demitem servidores experientes, terceirizam os serviços de reparos nas linhas de distribuição de água e gás e empregam pessoas que não conhecem a planta física das redes, cavam um buraco e provocam um vazamento de gás fazendo explodir um quarteirão inteiro de um bairro onde vivem pessoas pobres; 3. o feminicídio aumenta vertiginosamente no país inteiro, apesar das denúncias feitas por vítimas antes da morte; 4. ator famoso, de direita, promove um festejado curso para ensinar homens de bem e conservadores a serem “verdadeiros homens” e bons maridos; 5. um Banco fechado pelo Banco Central torna-se a ponta de um “iceberg”, um mega escândalo de corrupção que transborda para o sistema social e político e se mistura com o crime organizado. Visto em separado, tais notícias parecem não ter nexo causal ou estrutural. Parece, mas têm! E a mídia, como se no passado, por omissão ou desvirtuamento da realidade, nada tivesse com tais fatos transformados em discursos midiáticos, produz sobres eles novos discursos que excluem as relações causais e mesmo estruturais que os produziram dentro do sistema do qual ela faz parte ao optar pelo simulacro do “país dividido”, do identitarismo gerador de ódio, do feminismo exacerbado e da pureza do empresariado capitalista. Usam, portanto, o simulacro para classificar como violência as práticas anômalas da convivência pessoal ou social e não reconhecem como violentas as práticas de grupos empresariais organizados para extorquir os usuários na prestação de serviços essenciais e sem cumprir as regras de segurança. Da mesma forma, normalizam a pregação machista, misógina, homofóbica e outras. Certamente, se todas essas práticas fossem tipificadas como práticas violentas, as pesquisas de opinião que não medem a verdade dos fatos, mas o sucesso dos discursos midiáticos para as massas, salvar-se-iam bem poucos da violência, no Brasil, apenas aqueles do topo da pirâmide socioeconômica. Pesquisas de Opinião são cerejas do bolo, apenas confirmam o sucesso dos fabricantes de simulacros que nos levam para lugares distantes da realidade e nos aproximam do terror discursivo de suas verdades, simplesmente para a alegria dos grupos a que servem. A Teoria da Comunicação de Baudrillard antecipou a explicação de mundo que fingia que mudava para produzir o mesmo do mesmo: a violência e o terror. Coisas de um fascismo renovado, que fingimos não ver!
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