Nota introdutória
Estimado(a) leitor(a)! Conforme prometido ao amigo Francisco Gomes, nesta oportunidade faço um breve relato sobre minha participação, na condição de palestrante, nas comemorações dos 200 anos, 1826-2026, das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé. Aproveito para submeter um recorte ampliado e específico do texto intitulado “Amazônia, Padre Antônio Vieira, Papa Francisco e a Sustentabilidade Espiritualizada: novos desafios e esperanças”, apresentado nesse evento, para fins de publicação em seu Blog. Participei desta Jornada como o palestrante que fecharia o encontro que se desenvolveu no salão principal da Biblioteca Nacional Central de Roma, Itália. Minha palestra foi apresentada em 30 minutos, nesse evento bem coordenado pela Prof.ª Sonia Salomão, professora titular da Universidade de Roma. Saí da jornada com a certeza de que nós, amazônicos, continuamos muito sós na defesa e na efetivação de propostas concretas para o seu desenvolvimento socioeconômico, em bases sustentáveis. Como se tratava de uma jornada centrada nas atividades do Padre Antônio Vieira na Amazônia durante o século 17, todas as apresentações que me antecederam, com palestrantes da Itália, Portugal, Brasil e Santa Sé, de certa forma, analisaram os impactos das contribuições desse intelectual do cristianismo. Mas, a questão que mais me inquietou foi a seguinte: por que especialistas tão cultos e influentes insistem no apagamento da memória das atrocidades decorrentes do processo de colonização no Novo Mundo? Como 12 pessoas, cultas e estudiosas sobre essa temática, historiadores e cientistas sociais, podem construir discursos sobre a Amazônia dos séculos 16 e 17 sem citar as atrocidades do império ibérico no novo mundo? Ainda na década dos anos 90, durante minha passagem pela Universidade de São Paulo, um grande amigo sociólogo paulista me dizia e justificava: ‘Marcílio, os historiadores e os cientistas sociais, em especial os que fizeram suas formações doutorais no exterior, sempre são coniventes com o apagamento da memória nacional e civilizatória.’ Outro sociólogo, de projeção internacional, com doutorado na França, ao nosso lado, riu e completou: eles nunca vão admitir o confronto entre diferentes processos civilizatórios, reduzirão essa tragédia civilizatória a um processo de integração e aculturação civilizatória. Hoje, não só compreendo como convivo, em meus trabalhos e leituras, com essa praga intelectual histórica reduzida ao aculturamento que tanto mal faz para nós mesmos e também para nossa juventude. Papa João Paulo II e Papa Francisco já fizeram a purificação da memória do cristianismo. Acredito que, atualmente, na Amazônia, especialmente em Manaus, onde se concentra a maior população indígena do Brasil, esse problema já está superado. A maioria dos povos indígenas já trabalha com a igreja cristã, com respeito mútuo, em defesa da Amazônia e de seus interesses legítimos, sem hipocrisia e com transparência. Com surpresa, constatei que, na contramão da história, setores do Vaticano parecem não ter assimilado essa dimensão histórica em sua vivência. O discurso do jovem jesuíta, reitor de uma importante universidade sediada no Rio de Janeiro, ofende a grandeza dessa importante instituição brasileira. O do representante da Santa Sé é um escárnio aos povos oprimidos e excluídos do processo civilizatório pelo imperialismo da acumulação e da expropriação infinita. O do embaixador brasileiro mostra a naturalização desse genocídio que deixou muitas feridas abertas na Amazônia, nas Américas e nos continentes. Nesse sentido, constatei a existência de uma grande lacuna política e científica entre o que o Brasil espera da Santa Sé, e vice-versa, para o desenvolvimento e o significado da Amazônia para o mundo nessa era de transição civilizatória. Por um lado, dá impressão de que os colonizadores deram uma paradinha por aqui para fazer um rápido piquenique, gostaram e ficaram definitivamente, pastorando os povos originários à espera da chegada do Padre Vieira. Ou que mais de 6 milhões de indígenas foram abduzidos de seus domínios culturais e territoriais para povoarem outros lugares longínquos. Por outro, apresentam a Amazônia como, majoritariamente, uma construção da cultura europeia, o que é um equívoco grave e de certa forma racista. Esta é outra questão que precisa ser resolvida em nosso país. Estas foram minhas conclusões após as falas dos especialistas e autoridades presentes na jornada. Notei que causei certo constrangimento, principalmente no embaixador brasileiro, ao iniciar minha fala apresentando os dados oficiais sobre as populações indígenas, passado e presente, e mostrando indiretamente a contínua morte física e cultural da Amazônia. Mas, não devemos esquecer do período trágico da diplomacia da Terra plana e da Amazônia com as porteiras abertas. É sempre bom renovar e ressignificar os nossos desafios. Brevemente, publicarei um livro onde analiso a questão do alcance heurístico da centralidade da Amazônia na doutrina cristã, no contexto da sustentabilidade espiritualizada – entidade em movimento centrada no novo “ser-estar-relacionar-se”, permeada por imanências e transcendências, tendo como mecanismos operacionais os verbos-ação: educar, incluir, inovar, empreender, preservar e desenvolver (Freitas, 2025a). Essa é a minha pretensão ao abordar esse tema sensível e intersubjetivo. A questão do apagamento da memória é antiga e conveniente aos interesses capitalistas e, em certa medida, das próprias instituições acadêmicas. Que, sem potência política e administrações carismáticas e imobilizadas por suas lideranças internas, não conseguem construir uma proposta de inserção nacional para o nosso desenvolvimento social e econômico, a partir de nossas culturas, com as devidas colaborações internacionais. Por razões conhecidas, essa questão técnica e política não será resolvida durante esse governo. Compreendo o alcance e o desdobramento dessa crueldade e hipocrisia civilizatória, pois já moramos em países imperialistas, França e Inglaterra. Nesse sentido, continuo acreditando que o Brasil ainda é um país sem futuro, sem perspectivas e competência política para construir um lugar para a Amazônia em seu projeto nacional, que aliás, ninguém conhece. Minha participação na jornada resultou num artigo que a Prof.ᵃ Sonia, curadora do evento, publicará nas memórias do mesmo, um manuscrito mais longo, denominado “Amazônia: adeus!” sobre a mesma temática que submeti a uma editora sediada no Rio de Janeiro, e outro artigo denominado “Amazônia, Padre Antônio Vieira, Papa Francisco: sonhos e esperanças” que terminei em 15.5.2026. Ainda estou em dúvida se submeto este último artigo a uma revista internacional, o que exigiria sua tradução para o inglês e me tomaria mais tempo. Vou decidir até a próxima semana. Neste período de campanha eleitoral para os cargos brasileiros majoritários, pergunta-se: Qual é o futuro do Brasil? E de nossa querida Amazônia? Os cenários que se apresentam irradiam pessimismo e apreensões que congelam a pobreza e a destruição cultural e ecológica na região. Mas, vamos em frente, fazendo o possível e resistindo sempre. Portanto, Amazônia: tristes trópicos! Deus a proteja. Por isso, meu próximo livro se chamará “Amazônia: adeus!”.
Abraços fraternos, Marcílio.
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Amazônia, Padre Antônio Vieira, Papa Francisco e a Sustentabilidade Espiritualizada: novos desafios e esperanças – versão simplificada
1. Amazônia e a natureza estereotipada: reducionismo e positivismo exacerbados
A natureza arrebata perplexidades e unanimidades e revela-se em todos os lugares e momentos, nas metamorfoses dos céus, nas práxis, e em suas formas e conteúdo. Artistas e crianças historiadoras constroem novas concepções civilizatórias, centradas na liberdade e nas sustentabilidades irradiadas a partir das culturas e dos lugares. Apresentam-se ao mundo, desenham as suas próprias histórias e libertam a natureza das crueldades humanas e das raposas fantasiadas de cordeiro. Pode-se dizer que a natureza ampla, unitária e sistêmica, foi tipificada pelos positivistas como um laboratório científico, econômico e cultural complexo, aberto às experiências e às modelagens, em todas as escalas, desde a microscópica à cosmológica. Ela pode ser representada como uma biblioteca viva, em superfícies sólidas e fluidas, contíguas e diversificadas. A morada dos fenômenos físicos e transcendentais que se irradiam e se transbordam sobre os territórios e os espaços siderais, vivificados pelas culturas. Um tipo de universo em paralelo, cobiçado, invejado e também desprotegido, prisioneiro do capitalismo predatório, das guerras, da desigualdade social e econômica extrema e da crescente injustiça ambiental.
O papel da Amazônia neste quadro de referência é paradigmático. Espaço estratégico à nova geopolítica global, morada de centenas de culturas milenares – importantes para a compreensão das relações sustentáveis da humanidade com a natureza e principal biblioteca mundial viva em superfície sólida contígua – com mais de 2 mil grandes rios e 500 bilhões de árvores. Ela também é um mecanismo importante para a estabilidade climática e termodinâmica do planeta, uma região imprescindível para se compreender o alcance social e econômico dos modelos de desenvolvimento sustentável espiritualizado, entre outros atributos.
As várias concepções de uso e caracterização da natureza, pelos diversos campos de conhecimento formal, quando superpostas, suscitam contradições que mutilam estruturalmente a concepção de vida plena e autêntica (Freitas, 2025b). Vida essa centrada em intervenções positivistas e funcionalistas que se desdobram na vulgarização e na simplificação dos propósitos e sentidos da existência humana. Neste sentido, o alinhamento pleno da ciência à política, conforme os interesses do capitalismo, constitui uma tragédia da modernidade, o simulacro do devir humano.
Na contramão da ciência, Padre Antônio Vieira (1608-1697) integrava suas ações e ideias em defesa da Amazônia, por meio da busca da unidade divina, sempre potencializando a pluralidade da natureza, criação de Deus. Por outro lado, Papa Francisco (1936-2025) apreendia todas essas dimensões das abordagens e intervenções sobre a natureza, morada de sua ecologia integral, mas tinha interpretações diferenciadas e sofisticadas sobre ela. O seu nome papal ou pontifício é autoexplicativo. Ele sempre afirmava que a origem e o destino das pessoas são comuns, incluindo os da natureza. Culto e sábio, lembrava que Deus criou o mundo e sua essência também se emana de Deus, irradia-se ou eflui-se de sua natureza divina. Em outras palavras, lembrava que o mundo estava em Deus e que, simultaneamente, Deus estava no mundo, mas o mundo não era Deus e Deus não era o mundo. Isto é: a essência divina se encontra em todas as coisas. Ele reafirmava a essência imaterial do mundo. Por meio de sua crença inabalável, profetizava que a Amazônia era quem melhor representava essa criação, por meio de seus povos originários e tradicionais e de sua natureza viva. A mensagem de sua encíclica Laudato Si (Papa Francisco, 2015), encarnada na ecologia integral, é clara e enfática: “Precisamos cuidar e proteger a Amazônia, em especial os seus filhos, tão perseguidos e discriminados pelos governantes e pelas forças produtivas predatórias. Precisamos fazer as políticas públicas plenas e a presença de Deus espiritualizar as suas localidades.”
Portanto, manter a Amazônia prisioneira de políticas globais que, prioritariamente, a consideram um sorvedouro de carbono e um mundo cíclico das águas, constitui um reducionismo científico e uma crueldade política exacerbada. Condições que mantêm os seus povos e trabalhadores e as suas vivências em uma prisão perpétua (Freitas et Silva Freitas, 2021; 2020), condenados a um tipo de assistencialismo promovido por esmola de fariseu.
2. Padre Antônio Vieira, Papa Francisco e a libertação espiritual da Amazônia
Padre Vieira herdou uma Amazônia, popularizada como Índias Ocidentais e classificada pelos seus conquistadores e cronistas como “Sertões de Bárbaros”, butim dos países ibéricos em nome de um Deus raivoso e vingador. Um novo universo encapsulado pelas limitações linguísticas e pela ambição europeia desvairada, que não tinha alcance civilizatório para compreendê-lo e compartilhá-lo.
Os dois primeiros séculos de intervenções e conquista da região pelos europeus, a partir de 1500, foram determinantes para a sua historiografia e a construção forçada de sua nova identidade antropológica, assentada em novos valores e deveres, mercantilistas e cristãos. A identificação, classificação e análise deste longo período por meio de abordagens temáticas, esclarecem o confronto do encontro e entrelaçamento assimétrico de duas diferentes perspectivas civilizatórias. À época, os grandes problemas que a Amazônia, Estado do Maranhão e do Grão-Pará, apresentava à Coroa Portuguesa abarcavam diversas dificuldades, todas entrelaçadas entre si. Destaque para o seu reconhecimento geográfico, a dificuldade de contato e de interação linguística com os nativos, a ameaça constante de invasões por outras nações europeias, e a resistência indígena à presença dos invasores, ora se aliando, ora guerreando com os mesmos, conforme os seus interesses próprios e estratégicos. Destacavam-se também as dificuldades de adaptação social e econômica dos colonos assentados na região e a comunicação política entre a Colônia e a Coroa, devido aos diferentes filtros e interpretações dos problemas e de suas relevâncias para o império lusitano. Ênfase a uma jurisprudência colonial que legitimava a violência da Coroa Portuguesa, em diversos níveis hierárquicos, em prol da escravidão forçada dos povos indígenas (Carvalho Jr, 2017; Ugarte, 2009; Coelho, 2008; Souza Gomes, 2021). De certo modo, estas questões permearam as ações políticas e pastorais do Padre Antônio Vieira na região, durante todo o século 17. Pode-se afirmar que os missionários jesuítas tiveram um papel estratégico e determinante na conquista territorial, política, econômica e espiritual da região.
Nesse sentido, os séculos 16 e 17 foram determinantes para as visões mercantilistas que a Amazônia despertou para o imaginário e o mercado europeus. À época, a igreja católica teve um papel determinante nesse processo assentado na salvação ‘das almas gentílicas’. Processo e ação pastoral fortemente reestruturados e ressignificados por Papa Francisco.
As ações do Padre Vieira sinalizavam a dificuldade de Portugal manter sua hegemonia política e econômica em um novo mundo emergente. Universo que incorporava, velozmente, uma nova base material e simbólica assentada em uma florescente e potente ciência e tecnologia. Ironicamente também referenciada na ocupação e uso exacerbado da natureza e na exploração do trabalhador, portanto, na reafirmação da importância dos ‘Sertões dos Bárbaros’ para o mercantilismo e o futuro da industrialização europeia, colaborando para legitimar as bases estruturantes do capitalismo da privatização absoluta e do progresso infinito e excludente.
No contexto deste ensaio, pode-se dizer que estes fragmentos de macrocenários civilizatórios contribuíram para a construção da futura insustentabilidade física e espiritual dos designs das novas matrizes de convivência e produção emergentes nos séculos 17, 18 e 19. Padre Vieira, a seu modo, teve um papel importante nesse processo de alcance mundial (Vieira, 2015). Enfrentou a Inquisição portuguesa no período de 1663-1667 por defender a liberdade econômica e religiosa dos cristãos-novos, judeus convertidos, gerando constrangimentos e conflitos com o Santo Ofício, tribunal eclesiástico da Igreja Católica. Suas posições proféticas sobre o “Quinto Império” – o retorno de Dom Sebastião, Rei de Portugal desaparecido em 1578 na Batalha de Alcácer-Quibir – agravaram as acusações que lhe foram imputadas. A sua defesa da Companhia de Jesus, da qual participava com relativa influência política, à revelia da rivalidade da Inquisição, ampliou a opressão inquisitória contra a sua pessoa (Vieira, 2015). Padre Vieira conseguiu ser anistiado em Portugal. Em 1675, o poder papal de Roma o absolveu das reclusões e do silêncio impostos. A coragem cívica e intelectual desses dois personagens históricos, em defesa da liberdade e de outros atributos humanos universais contra a tirania de poderes inquisitórios instituídos, reafirma suas importâncias para o processo civilizatório ocidental. A sua absolvição fortaleceu a política de defesa da liberdade indígena na Amazônia pelos jesuítas, dificultando os interesses escravistas dos colonos estabelecidos na região durante o século 17. Em bases consistentes, o Padre Antônio Vieira incrustou a ‘liberdade’ nos fundamentos e na hermenêutica da doutrina missionária. Mostrou que a liberdade é uma condição imprescindível para a espiritualização.
Os fundamentos da globalização econômica e espiritual emergentes nos séculos 20 e 21 são heranças desse período que abarca várias camadas civilizatórias (Silva Freitas, 2013). Este processo, fortemente dependente da educação, da ciência e da tecnologia, contribuiu com muitas inovações para integrar e aperfeiçoar as pessoas e a humanidade. Período que também incorporou e reafirmou questões estruturantes graves e desafiantes no processo civilizatório, tais como: o combate à desigualdade social exacerbada, a injustiça ambiental, as guerras, o racismo e a necessidade de perpetuar a espécie humana e a natureza, por meio da sustentabilidade local e global, devido à possibilidade de desestabilização socioecológica do planeta.
Papa Francisco foi um pastor preocupado com as mazelas sociais e econômicas movimentadas pelos processos de globalização. Ambos defendiam a liberdade, embora Padre Vieira equivocadamente justificasse, à época, a escravidão africana. Dizia que a vontade divina não aniquilava a liberdade humana. Papa Francisco foi um crítico da economia de mercado que transforma as pessoas em objeto e mercadoria, defendeu os direitos humanos e a necessidade das pessoas e da humanidade usufruírem um ambiente saudável e inclusivo.
Padre Vieira, um mestre da retórica, agia como um termômetro a indicar os graus de ascensão e declínio do império lusitano. Papa Francisco espiritualizou a natureza e o mundo por meio de uma igreja aberta em busca do pluralismo religioso. Por sua vez, o ativismo do Padre Vieira mostrou, para o bem ou para o mal, a importância e as contradições das articulações entre a religião, a política e a economia. De certa forma, corajosamente, contribuiu para a abertura da religião às críticas e às intervenções políticas. Papa Francisco espiritualizou o mundo, a partir da Amazônia, morada de sua ecologia integral, atribuindo-lhe sentidos e propósitos humanos e divinos. Padre Vieira defendeu radicalmente os seus povos originários do jugo colonial, atribuindo-lhes um sentido existencial transcendental e também imanente. Cada qual a seu modo e em sua época, ambos combateram a inquisição degradante e as concepções burocráticas e imobilizantes do Vaticano. Contribuíram para a instauração de um cristianismo vivo, atuante e transformador; agentes imprescindíveis para a sustentabilidade espiritualizada e compartilhada. Construíram elementos teóricos e analíticos que ajudaram a ressignificar o sentido da vida e a gerar novas utopias e esperanças para a humanidade. Potencializaram um cristianismo crítico, sem contradições com a natureza divina da vida humana.
Em contexto diferente e mais complexo, a ecologia integral do Papa Francisco apresenta-se como uma referência central para a construção de um novo Brasil e de uma nova era civilizatória centrada na sustentabilidade espiritualizada e compartilhada. Francisco, Santo Papa da mudança, da paz, do amor, de entrega aos pobres e marginalizados, defensor e eterno amigo da natureza e dos mais necessitados (Pape François, 2016). Espiritualizou o mundo; mostrou haver uma ordem cósmica divinizada – ainda incompreendida pela ciência, pela política e pelo mercado -, que nos move em direção à solidariedade, à fraternidade e à coesão social, sempre protegendo os mais frágeis e a natureza (Papa Francisco, 2020b). Solicitou licença e entrou em nossas vidas para nunca mais sair, uma bênção às pessoas e às famílias. Interagia e interpretava a Amazônia, diferenciadamente.
3. Reafirmando esperanças e alegrias civilizatórias
Enfim, a literatura especializada reafirma a importância universal da obra de Padre Antônio Vieira, com ênfase para os seus sermões e para as suas cartas de defesa dos povos indígenas (Vieira, 2003). Suas práticas vivenciais, suas manifestações e seus persistentes registros contra a escravidão indígena no século 17 inauguraram uma era permeada por seus confrontos com os colonos sediados no Estado do Grão-Pará e Maranhão. A restauração portuguesa, as invasões holandesas em Pernambuco, a escravização de indígenas e a defesa dos cristãos-novos perante a Inquisição são questões presentes e marcantes em sua obra (Vieira, 2015; 2022; 2003). Embora, no contexto daquela época, ele conciliasse a escravidão dos afrodescendentes aos interesses do processo de evangelização. Por meio de abordagens discursivas, o Padre Antônio Vieira inventou e mundializou uma Amazônia pluricultural e desafiadora. A partir dela, criou novas fronteiras entre a religião, a economia e a política. Sua obra deixou um legado precioso para a humanidade, em especial para o Papa Francisco no processo de construção de sua ecologia integral e de espiritualização do mundo (Papa Francisco, 2015).
Papa Francisco espiritualizou as culturas e as incrustaram na natureza, e vice-versa, por meio de uma igreja aberta em busca do pluralismo religioso, atribuindo-lhe sentido e propósito humano e divino. Por intermédio de sua ecologia integral, construiu processos para ressignificar o sentido da vida e para gerar novas utopias e esperanças por uma sustentabilidade espiritualizada para a humanidade (Papa Francisco, 2020a). Transbordou os seus quatro sonhos, descritos em “Querida Amazônia”, sobre a humanidade. Sonhos que promovem a defesa dos mais pobres e desamparados, a complexa e bonita diversidade cultural amazônica, a sua exuberante natureza viva e harmônica, e a devoção e ação pastoral de suas comunidades cristãs em sua preservação e integração espiritual. Consagrou a Terra e o cosmos como entidades vivas e pulsantes, a urgência de descoisificar a ciência e a necessidade de eliminar seu caráter positivista e funcionalista, instrumentalizado pelo mercado de commodities. Insistiu na mudança nas relações das pessoas com a natureza e em ações globais para proteger o planeta, combater a miséria social, a injustiça ambiental e promover a paz (Pape François, 2025, 2016).
Padre Antônio Vieira e o Papa Francisco, inventores de resiliências ao capitalismo alienado e excludente, que brevemente será superado pelas casas de Francisco e Clara (ABEFC, 2021), construíram sonhos e esperanças que se renovam e começam a se consolidar em nossa querida Amazônia.
Referências
ABEFC – Articulação Brasileira da Economia de Francisco e Clara. (2021) Os 10 princípios da economia de Francisco e Clara. Documento elaborado a partir de reflexões coletivas produzidas no Brasil e divulgado no 2º Encontro Virtual Global da Economia de Francisco e Clara. Link: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-10/os-10-principios-da-economia-de-francisco-e-clara.html
Carvalho Jr. (2017) Índios cristãos. Ed CRV, Curitiba.
Coelho, G., M. (jul/dez 2008) Vieira, a Amazônia e o Mundo Profetizado. Ideação, Feira de Santana, n. 20, v. 2, 53-69.
Freitas, M. (2025a) Era uma vez a Amazônia. Ed Dialética, SP.
Freitas, M. (2025b) Amazônia: Vida, Utopias e Esperanças. Ed Dialética, SP.
Freitas, M.; Silva Freitas, M., C. (2021) Who Will Save Amazonia? World heritage or full destruction. Nova Science Publishers, NY.
Freitas, M.; Silva Freitas, M., C. (2020) The Future of Amazonia in Brazil: A worldwide tragedy. Peter Lang Publishing, NY.
Papa Francisco. (2020a) Exortação Apostólica Pós-Sinodal. Querida Amazônia. A Santa Sé, Roma.
Papa Francisco. (2020b) Carta Encíclica Fratelli Tutti do Santo Padre Francisco sobre a fraternidade e a amizade social.
Papa Francisco. (2015) Carta Encíclica Laudato Si – Doc.201: Sobre o cuidado da casa comum
Capa comum – Ed Paulinas, SP.
Pape François (2025) Espère, L’autobiographie. Tradução do italiano: Françoise Bouillot e
Samuel Sfez. Ed. Albin Michel, Paris.
Pape François (2016) La joie de l’amour. Exhortation Apostolique. Bayard Éditions, Paris.
Souza Gomes, R. (2021) Nem vadios nem vassalos. Ed Valer, Manaus.
Ugarte, A., S. (2009) Sertões de Bárbaros. Ed Valer, Manaus.
Vieira, A. (2022) Os mais belos sermões do Padre Antônio. Ed Petra, RJ.
Vieira, A. (2015) A chave dos Profetas; livros primeiro, segundo e terceiro. Direção: José E. Franco e Pedro Calafate. Tradução: António Guimarães Pinto. Ed Temas e Debates, Lisboa.
Vieira, A. (2003) Cartas do Brasil. Organização: João Adolfo Hansen. Ed Hedra, SP.
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