O 10 de junho representa muito mais do que uma simples data nacional em Portugal. É uma ocasião para reforçar a identidade cultural, relembrar a história e exaltar a importância da língua portuguesa no mundo. Língua esta que faz Portugal, Camões, Brasil e Amazonas caminharem juntos. Mesmo porque no dia em que Portugal respira as letras de Camões, o Brasil e o Amazonas parecem também respirar português. Não por imposição, mas por afeto antigo. Afeto que atravessa o Atlântico e chega aos rios amazónicos trazido pelos ventos, sorrisos e livros.
Portanto, queremos que o 10 de junho seja uma ponte entre Lisboa e Manaus, entre o açafrão das ruas de Alfama e o cheiro de tempero dos peixes amazónicos. O português é um idioma que não conhece fronteiras, apenas laços. Camões, ao escrever os sonetos que dançam na memória dos portugueses, brasileiros e amazonenses deixou gravado que a beleza do português está na sua capacidade de caber na boca de qualquer um que o pronuncie com cuidado. E é exatamente isso que sentimos quando atravessamos o Atlântico e chegamos á Amazónia com o mesmo poema nos lábios. A língua é barco, é casa, é encontro não só das águas, mas de gente, de cultura. De miscigenação, de superação, de amizade e interação.
No Amazonas, onde o chão é uma memória de floresta e o céu abriga mil histórias, lendas e mistérios, o português não é apenas idioma da burocracia, dos jornais ou de sala de aula. É a voz que descreve o vento que embala as palafitas. É o canto que acompanha o trabalho dos ribeirinhos, descrevendo a sua lida. Assim como as frutas e seres das matas, os bichos e lendas. É ainda o riso do caboclo que surge quando a chuva decide dançar nos rios. E quando o vento faz banzeiro assustando os canoeiros. A língua portuguesa, nesse cenário, não se limita a ser uma norma. Ela se faz ponte entre comunidades ribeirinhas e as cidades amazónicas que celebram a diversidade com a mesma fé com que celebram o nascer do sol sobre o Rio Negro. Enquanto os portugueses apreciam navios que descem o Tejo em direção ao Brasil e ao mundo.
Ao celebrarmos Camões celebramos a coragem de quem escreve a história sem medo de ser poético. Camões, que mergulha nas águas da vida para extrair a essência da condição humana, seria, hoje, feliz em ver que a paixão pela língua continua a ensinar o valor da clareza, da musicalidade, da dignidade de cada palavra. E o Amazonas, com suas pequenas comunidades do interior e das cidades que sentem o calor do dia e o frescor da noite, se reconhecem nesse maravilhoso, poético e perfeito idioma. Reconhecendo, ainda, que somos filhos de uma língua que nos convoca a sonhar grande, mesmo quando o mundo parece caber dentro de um tapiri, de uma casinha ou mesmo de um pequeno apartamento de um conjunto habitacional em Manaus ou Belém.
Vamos fazer esse 10 de junho transforma-se em celebração dupla. A de Portugal e de Camões, que nos lembram que a palavra pode ser herança. E a nossa aqui da Amazónia onde a lusofonia não é apenas herança linguística. Mas uma experiência de valores próprios e únicos.
Navegar pelos nossos rios e florestas. Sempre lembrando que cada voz tem o direito de ser ouvida, de cada rio ter uma história, que matas e lendas podem nos chamar para ouvir. Que a data sirva, então, para reforçar a identidade cultural que nos une. E para exaltar a beleza da língua portuguesa, que não é apenas norma gramatical, mas casa de encontros. Além de encontro das águas, encontros de maneira, de ouvido, de coração.
Que, neste 10 de junho, a gente possa ver Camões como uma estrela, para muitos amazônidas ainda desconhecido. Mas que aponta para o caminho de quem ousa falar com o mundo, com o Brasil, com o Amazonas, com a memória de todos nós que falamos o mesmo idioma e sonhamos juntos, com o português que não é apenas língua. Mas é abraço que atravessa mares, rios, florestas e várzeas.
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