Manaus, 7 de julho de 2026

Mundos do trabalho e conflitos sociais no rio Madeira (1861-1932)

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*Davi Avelino Leal

Continuação…

1.2 Entre a “seca” e a cerca: os nordestinos e a política de colonização da Província do Amazonas

A expansão da fronteira extrativista, tal como formulada por João Pacheco de Oliveira, isto é: “como mecanismo de ocupação de novas terras e de sua incorporação, em condição subordinada, dentro de uma economia de mercado” (OLIVEIRA, 1979), irá demandar um número cada vez mais crescente de braços para trabalhar nos seringais.31 Consoante a isto, o economista Samuel Benchimol, informa que em vários momentos do século XIX e XX, milhares de cearenses foram atraídos para Amazônia em busca de melhores condições de vida e trabalho.

Um dos primeiros argumentos que podemos destacar a partir da pesquisa de Benchimol em O Romanceiro da Batalha da Borracha é o de que existe uma diferença entre os primeiros cearenses que migram para a Amazônia em meados do século XIX e os migrantes que aportam no Estado a partir da grande seca de 1877. Essa pequena distinção pode nos ajudar a pensar em determinados mecanismos de reprodução da migração, tal como os apontados por Abdelmalek Sayad em sua pesquisa sobre a migração de pessoas de Cabilia, na Argélia, para França.

Autores como Arthur Reis (1998), Victor Hugo (1959), Carlos Teixeira (1980) e o próprio Samuel Benchimol (1992), destacam a presença de cearenses desde meados do século XIX na Amazônia. Em pesquisa recente, Alexandre Cardoso (2011) analisou a trajetória de João Gabriel de Carvalho e Melo, cearense que esteve na região pela primeira vez no início na década de 1850, realizando, nas décadas posteriores, viagens ao Ceará para recrutamento de força de trabalho para atuarem nos seringais do rio Purus (CARDOSO, 2011, p. 11).

Ainda estamos há uma década da grande seca que irá se abater sobre o Ceará. João Gabriel de Carvalho e Melo fazia o movimento de ida e vinda do Ceará trazendo trabalhadores com a promessa de enriquecimento fácil, o que talvez não fosse tão difícil assim nesses anos iniciais de exploração dos seringais. A questão que se coloca é que os cearenses que vieram neste período, entre 1850 e 1870, construíram um imaginário de que a Amazônia era um paraíso para o enriquecimento rápido. O discurso da Amazônia como fronteira aberta, lugar de recursos inesgotáveis e permeada de dualismos, foi sendo pouco a pouco inventada pelos que retornavam ao Ceará contando conquistas em terras distantes.

Benchimol usa a expressão “tradição paroara”32 para referir-se à estratificação do passado feito pelos trabalhadores que vinham das várias cidades do Nordeste e que foram por ele entrevistados na década de 1940. De acordo com Benchimol, as histórias de sofrimento e das possibilidades de se “vencer na vida” eram acionadas por quem aportava à cidade de Manaus (BENCHIMOL, 1992).

Segundo Abdelmalek Sayad, é justamente esse tipo de discurso que funciona como mecanismo reprodutor da migração. E aí, quando vem à fome e a miséria, com a grande seca de 1877 no Ceará, as pessoas são levadas a “migrarem” para outras regiões do país. Como destaca Samuel Benchimol33

Quando a seca vem, temos uma imigração por ruptura de equilíbrio, imigração por fome (Brunhes) pesando muito mais que a migração por fortuna. Quando a grande seca soma com a alta da borracha dá-se o êxito em massa (BENCHIMOL, 1992, p. 45).

Como o autor de Elgorba (exílio), a emigração repousa em uma longa tradição e a comunidade de origem passa a ser dependente da migração. A análise de Sayad, a partir de um contexto social específico e com uma abordagem no plano teórico diferenciado, contribui para problematizar processos sociais que podem ser aproximados. No caso da Amazônia, a seca e a expansão da economia da borracha foram dois elementos que embora caminhassem juntos, não se confundiam.

Logo após a criação da Província do Amazonas, em meados do século XIX, uma das principais preocupações dos governantes era “colonizar” o interior da Província a partir da atração de migrantes europeus. A ideia de “vazio demográfico” fundamentava tanto o argumento da necessidade de imigrantes, quanto servia para escamotear a existência e o genocídio praticado contra as inúmeras etnias que habitavam a região. Se havia o desejo de mão de obra por parte do poder público, esses trabalhadores precisariam estar afeitos ao trabalho, logo não daria para ser qualquer trabalhador.

Os Relatórios de presidente de Província identificavam os indígenas como preguiçosos, avessos ao trabalho disciplinado,34 indolentes e vingativos. Eles estavam, naquele momento, inseridos em pleno processo de “pacificação”. De forma geral, o ideal de “colonização” do interior do país excluía o elemento negro, embora tenha existido um projeto de transferência de mão de obra negra do sul dos Estados Unidos para a Amazônia, o qual acabou fracassando. No entanto, o desejo era que a colonização fosse feita com o europeu.

O trabalhador que se “adaptaria” bem ao sistema de exploração da força de trabalho, segundo a concepção dos estrategistas da época, era o europeu. Segundo Edinéa Dias:

Os preconceitos contra os nacionais permeiam os discursos de muitos homens públicos. A propósito disso, do nordestino, por exemplo, o máximo que se queria era a exploração de sua força-de-trabalho nos seringais, daí serem tão discriminados quanto aos trabalhadores locais; para estes sobravam apenas as acusações de que eram indolentes e preguiçosos. Quando se pensa em imigração para o Amazonas fala-se em europeus, estes sim, seriam os indicados para trazer progresso e engrandecimento para o Estado (DIAS, 1999, p. 142).

Um desses estrategistas que pensou a colonização a partir do mercado externo foi o liberal Tavares Bastos. Ainda na década de 1860, o autor de O Vale do Amazonas (1866), defendia a abertura do rio Amazonas para as nações europeias e os Estados Unidos, bem como ressaltava a importância de colônias de imigrantes americanos.

Questionando os argumentos depreciativos que atribuíam às condições insalubres os fracassos da colonização na região, Tavares Bastos desloca as explicações dos tradicionais quadros naturais e biológicos como fatores do insucesso para explicações sociais e históricas (BASTOS, 1975). Para Tavares Bastos, a migração não deve ser feita de forma isolada, e que as famílias tenham terra para cultivar. Conforme destaca o autor,

A imigração para o Brasil, depende certamente de variadas condições: o casamento, a liberdade de culto exterior, a proteção e favores aos cultos dissidentes, a discriminação do domínio público, o regime de terras, o sistema administrativo e a escravidão (BASTOS, 1975, p. 178).

O anseio por estes imigrantes levou à construção de colônias de povoamento e à transferência de pessoas de várias partes da Europa para a Amazônia. Vejamos o que dizem os presidentes de província sobre esta questão:

[a Província] carece, porém de braços industriosos e morigerados que aproveitem pela indústria as infinitas riquezas naturais que este vastíssimo vale encerra. A imigração é o único remédio para adiantar-se o futuro do Amazonas; ela aumentará a sua população, desenvolverá a sua indústria e sua riqueza pública (RPP, 1870, vol. 15, p. 24).

O discurso da colonização do interior da Província esteve presente na fala dos vários presidentes que ocuparam este cargo, assim como dos viajantes europeus que por aqui passaram. Hideraldo Costa explorou bem esse aspecto nos relatos dos vários viajantes que estiveram na região, nesse período, ao mostrar que havia um ideal de colonização e “embranquecimento” da região. Aos brancos endógenos, ainda não civilizados, segundo os viajantes, cabia a missão do trabalho de mestiçagem; já a administração da Província deveria ficar a cargo de uma elite branca exógena (COSTA, 1995).

Esse debate estende-se por décadas. Alguns anos depois da fala de João Matos, o presidente Passos de Miranda vem com a seguinte proposta:

Esta convicção que nutro deste o momento que me coube a honra de presidir esta província, radicou-me o propósito de promover a imigração e colonização; e declaro-vos que será este o maior empenho para mim, pois é incontestável que esta rica e encantadora região, para elevar-se ao maior grau de desenvolvimento, precise somente de populações laboriosas que, aproveitando a fertilidade do solo, aumentem com a exportação dos produtos a riqueza publica (RPP, 1876, vol. 19, p. 93).

O presidente de província, não só justifica a importância da imigração e colonização do interior, como apresenta um plano da forma que deve ser efetivado. Acompanhemos seu projeto:

Dois meios temos nós a empregar para a conquista de braços que se dediquem a grande e pequena lavoura nesta província. 1) promovendo a imigração estrangeira com vantagens reais para os imigrantes e suas famílias, a fim de que eles permaneçam no país; 2) Promovendo a catequese por meio de um sistema mais profícuo, do que o empregado até hoje e firmando, nos diversos rios da província, colônias indígenas, onde haja trabalho metódico e ensino prático de agricultura. Ambos os meios devem ser adotados e para este assunto, que considero da maior importância para o prospero futuro do Amazonas, peço vossa ilustrada atenção.

A imigração estrangeira, debaixo do ponto de vista social, é de vantagens incontestáveis. São povos cultos, ricos de experiência e de trabalho, circunstâncias certamente mais apreciáveis e que nas províncias do sul tem produzidos belíssimos resultados, mas tem custado aos cofres públicos não pequenos sacrifícios […] Em vista do que acabo de expor, é minha opinião que devemos tratar com perseverança da imigração estrangeira e estabelecer a colonização indígena, que é nula entre nós. Podemos realizar o nosso intento do seguinte modo: 1) contrato de famílias estrangeiras para se estabelecerem nesta província, dando-lhes no primeiro ano alimentação e casa e concedendo-lhes as terras precisas pelo preço menor da lei, para serem pagas em prazos a prestações; 2) estabelecendo em cada um dos rios mais conhecidos da província uma colônia indígena, dando uma subvenção por três anos somente a pessoa que criar uma colônia com 200 índios pelo menos, obrigando-se a mesma pessoa a vesti-los e pagar-lhes uma diária razoável, que seria arbitrata pela presidência, a qual teria inspeção nas colônias.

Para a realização deste plano talvez encontreis embaraços nas finanças da província, exausta de recursos próprios, mas lembro-vos a suspensão de algumas despesas que são inteiramente improdutivas e que devem desaparecer do orçamento. Além disso, logo que o governo Imperial, cujo interesse pela imigração estrangeira para o Brasil se tem feito sentir de modo franco, conhecer as vantagens que esta pode trazer a esta província, não deixará de vir em nosso auxílio (RPP, 1876, vol. 19, p. 93-94).

Para Passos de Miranda, somente a soma da imigração estrangeira e a colonização indígena poderiam efetivamente contribuir para solucionar o que retoricamente se colocava como problema da “falta de braços” na Província. Havia a ideia, forte na época, de que o branqueamento da população era a única saída e solução para um país mestiço como o Brasil e para uma região predominantemente indígena como a Amazônia.

As tentativas feitas tanto pelos governantes, quanto por particulares, não tiveram êxito. A falta de recursos das famílias que vinham da Europa e as dificuldades de “adaptação” às condições locais, foram fatores que determinaram o fracasso do estabelecimento de colônias com imigrantes. No entanto, o discurso anunciando a necessidade de mão de obra só aumentava. O sonho dos governantes de “civilizar” os povos pela via do trabalho agrícola, atrelado ao argumento da “falta de braços” deve ser entendido nesse contexto em que o objetivo maior é fixar para trabalhar a terra. A exploração extrativista ficava em segundo plano.

Como bem demonstrou Nasthia Pereira, o projeto civilizatório formulado pelos presidentes de província, previa três elementos básicos: a) colonização para o crescimento agrícola; b) religião; c) educação primária (PEREIRA, 2008). O debate subjacente a esse processo girava em torno das disputas entre os defensores do extrativismo, sobretudo de borracha e castanha e os que advogavam investimentos na agricultura (OLIVEIRA, 1979). Os comerciantes e donos das casas aviadoras defendiam o extrativismo como forma de progresso, pois era a maneira mais rápida e fácil de obter ganhos. Uma parte dos políticos, encabeçados pelos chefes do executivo estadual, acreditavam que a médio e longo prazo o desenvolvimento de atividades agrícolas seria a melhor saída, pois ela perfazia tanto objetivos econômicos quanto objetivos morais.

O projeto político desejado era o de criação das colônias agrícolas. Uma análise breve das mensagens dos governadores, revela que o objetivo almejado seria fixar os trabalhadores em projetos agrícolas. Para o século XIX, a regra era a dispersão. Isso se dava pela concentração de trabalhadores nas atividades extrativas da borracha. Se não havia trabalhador estrangeiro em grande escala para os seringais, a saída foi utilizar a força de trabalho nacional, embora houvesse desde o início, por parte dos governantes, antipatia com relação a esse trabalhador.

Como não havia outra forma para os comerciantes e governantes, o jeito foi, ainda que a contragosto, recorrer à força de trabalho advinda das províncias do Nordeste que, naquele momento, passava por sérias dificuldades devido às grandes secas que abatiam a Província do Ceará. Nesse contexto, emerge a data de 1877 como modalidade de explicação e data canônica dos intérpretes e analistas da economia da borracha. No entanto, resta indagar em que medida esse corte representa uma ruptura e de que forma ele tornou-se um critério de periodização.

Como salienta Alexandre Cardoso, a seca de 1877 acabou sendo alçada ao acontecimento discursivo que cristalizou determinado recorte para se pensar as políticas de povoamento para a região, bem como fundamentou ações governamentais como o subsídio de passagens. Segundo o autor, é preciso atentar para o fato de que o chamado movimento migratório entre a Província do Amazonas e a do Ceará é muito anterior a 1877 (CARDOSO, 2011). Em várias províncias brasileiras, o discurso oficial ressalta que o problema da escassez da falta de braços seria resolvido com o deslocamento dos chamados nordestinos, sobretudo cearenses, para trabalhar em áreas produtoras. No caso da província do Amazonas, uniram-se esforços particulares e governamentais visando à transferência dessa força de trabalho para região.

Coube ao governo construir um discurso em que a Amazônia aparecia como celeiro de recursos inesgotáveis35 que, somado aos mecanismos de reprodução da migração tal como os formulados por Sayad, contribuíram para dirigir a migração não para as lavouras de café do Sudeste, mas para os seringais da Amazônia. Citando Douglas Graham e Sergio Buarque de Holanda, o economista Roberto Santos (1980, p. 108) elenca alguns fatores que levaram os migrantes nordestinos a optarem pela Amazônia em detrimentos das fazendas de café de São Paulo. Dentre os elementos selecionados por Santos, destacam-se: a) o preconceito do chamado “trabalhador nordestino” com áreas “tradicionalmente” escravistas; b) a ilusão de enriquecimento rápido; c) a propaganda e arregimentação de prepostos do Pará e Amazônia em cidades do Nordeste; d) os subsídios que os governos do Amazonas e Pará davam ao transporte de migrantes, aliado aos programas de colonização, ajudam a atrair os trabalhadores para a Amazônia; e) a facilidade da navegação costeira para as Províncias do Norte; e) a miséria gerada pela seca ocasionou a ruptura dos senhores de terras e a saída dos homens.

Diante dos fatores citados, a Amazônia aparecia como a melhor opção para os migrantes, porém o que estava em jogo era a possibilidade de mobilidade social que as áreas de plantation não permitiam. Os governos provinciais, tendo em vista que este processo não é localizado, tomaram providencias para que a chegada de trabalhadores em abundância não significasse trabalhadores evadidos dos seus postos de trabalho numa região que propicia a fuga e a resistência. Segundo Almeida, os esforços do governo provincial do Maranhão foram todos nesse sentido, pois como destaca o autor, o que parece estar em pauta, de maneira permanente, é uma preocupação em não deixar que a força de trabalho se disperse ou se mantenha dispersa pelo interior da província, com terra abundante e disponível (ALMEIDA, 2008, p. 130).

Ainda segundo Almeida, isso ajuda a explicar o racismo com que esses povos foram tratados não só no Maranhão, mas nas várias províncias, incluindo a do Amazonas. A leitura dos Relatórios dos presidentes de província mostra como, aos poucos e gradativamente, foi-se construindo uma imagem do chamado “migrante nordestino” e do também denominado, pelos relatórios, de “povo amazonense”. Enquanto o nordestino é tido como criminoso, ganancioso e indolente, o dito “povo amazonense” é pacífico, ordeiro e obediente às leis.36

Em pesquisas nos jornais do período que circulavam em Manaus, Oliveira (2010) mostra como as chamadas elites locais buscaram homogeneizar os chamados “nordestinos pobres” como “flagelados da seca”, “criminosos” e “facinorosos”. Ele destaca alguns pontos, como a multiplicidade de trabalhadores que vinham da Paraíba, do Maranhão, do Piauí e principalmente do Ceará, e de que os vários movimentos de vinda para a Amazônia, as chamadas “levas de migrantes”, obedeciam a dinâmicas diferenciadas.

Esse discurso estigmatizante era recorrente tanto na fala da imprensa, quanto nos relatos oficiais. Retornando aos Relatórios de Presidente de Província, percebe-se na secção que trata da Tranquilidade Pública, Segurança Individual e de Propriedade, a construção da imagem do amazonense em relação ao nordestino se dá de forma explícita.

Vejamos o que diz o relatório:

O que é fato, porém, é que o aumento da população produzido pela afluência de gente, que de fora se tem dirigido para o Amazonas, tem operado grandes modificações no que antes se observava entre os Amazonenses acerca da segurança individual e de propriedade. Atraídos pelo lucro fabuloso da goma elástica e pela facilidade de extraí-la bons e maus tem se corrido para esta riquíssima região, a fim de tentarem fortuna. Quem conhecer os atentados que, contra pessoas e bens, que ultimamente tem se realizado nesta província, e não inquirir das circunstâncias e da proveniência dos seus agentes, há de se acreditar que a índole proverbialmente pacífica e das ambiciosas deste bom povo vem se modificando (RPP, 1883, vol. 26, p. 11).

No mesmo relatório, na seção que trata da administração da justiça provincial, a comparação mais uma vez é feita:

Os habitantes do Amazonas são pacíficos, é certo, e a boa índole de que são dotados somente poderia até bem pouco tempo justificar a permanência dessa divisão. Mas hoje os tempos são outros. As correntes imigratórias têm-se estabelecido com grande força para esta Província, onde as riquezas naturais se ostentam com sedução. E nelas, a par de homens trabalhadores e honestos, tem vindo certo número de refugiados […] já entraram na cadeia desta capital e foram remetidos a justiça do Ceará, que havia decretado a prisão deles, dois criminosos, Liberato Barroso de Sousa e José Batista Braga, dos quais o primeiro era negociante, e exercia essa profissão no rio Purus, onde consta também que fizera algumas mortes. Estas circunstâncias têm alterado profundamente as condições em que se achavam anteriormente a Província. E muito convém, acompanhando o movimento que elas vão imprimindo nos elementos de vida que possuímos apertar as esferas de jurisdição, a fim de que a ação da justiça possa chegar sem demora até a sua periferia (RPP, 1883, vol. 26, p. 11-13).

O discurso oficial se esforça para construir uma imagem degradante e criminosa do outro. A construção oficial da suposta identidade do “povo amazonense” necessita deste outro para se constituir. Os chamados amazonenses representariam a perfeita oposição aos considerados nordestinos. Nota-se que não há divisão quando se fala em nordestinos. Todos são tratados como se fizessem parte de um todo homogêneo: cearenses, maranhenses, paraibanos (mesmo entre cada um deles é difícil a generalização).

Pacíficos e de boa índole, o maior defeito da população amazonense (caracterizado pelo relatório como das classes menos favorecidas) seria a embriaguez, como mostra:

A índole dos Amazonenses é tão boa, que parece influir naqueles que vem habitar com eles […] o habitante do Amazonas muitas vezes está trapilho e sofrendo misérias; porém não se tenta a cometer uma baixeza ou violência para tirar-se desse estado. Se for mais cuidada a educação deste povo, que se consiga desterrar o vício da embriaguez, único motivo que faz aparecer em vez quando, na classe menos desfavorecida, alguns desacatos, com certeza teremos a região amazônica habitada pela melhor e mais policiada população do Império.

Nem se considere exagerada esta nossa asserção; porque hoje se mantém a ordem pública, e há segurança individual e de propriedade em uma área tão vasta, com uma diminuta força pública, sendo as ordens expedidas desta capital executadas a duas milhas de distância sem a intervenção daquela. Um povo, que assim respeita o princípio da autoridade e ao mesmo tempo rende cultos a liberdade e é altivo, prenuncia um futuro de grande valor (RPP, vol. 22, 1879, p. 115).

Com relação aos trabalhadores oriundos de províncias do Nordeste e que foram aceitos a “contragosto” pelos governantes (já que necessitavam de mão de obra), não se poderia dizer o mesmo. O suposto “aumento da criminalidade”, para a elite local, estava relacionado à chegada destes migrantes, considerados extremamente “ambiciosos” e capazes de qualquer coisa para enriquecerem.

A índole do povo amazonense é excelente: o homem nascido nesta zona tropical é ordinariamente calmo, refletindo em suas ações, e pouco sujeito a explosões de paixões vivas. […] Infelizmente outro tanto não poderia afirmar, em relação a índole e hábitos dessas numerosas levas de homens, que, atraídos pelo natural desejo das riquezas, tem concorrido para a exploração das selvas, fecundando-as pelo seu trabalho, com grandes incrementos das rendas públicas e relações comerciais. De seu aparecimento e contrato com os naturais, do choque de interesses, e modificações introduzidas no seu novo gênero de vida, surgiram gravíssimos atentados contra a segurança individual, registrando-se frequentemente crimes bárbaros, que por fatalidades são raramente punidos, em razão das causas que no artigo precedentes foram indicadas (RPP, 1886, vol. 31, p. 10-11).

Todo o arrivismo atribuído aos “nordestinos” escamoteava o fato de que a própria elite local é que desejava enriquecer em um curto espaço de tempo. Foi essa mesma elite,37 representada por políticos, comerciantes e seringalistas, que criou os dispositivos de controle da mão de obra visando a uma maior lucratividade de seus investimentos.

Por ora, o que está em jogo nesse processo que envolve regimes de visibilidade e dizibilidade, expressos em práticas e discursos (saber/poder), é o controle tanto da mão de obra, quanto das áreas produtoras de borracha. Diante do exposto, o objetivo deste capítulo foi recuperar esse processo de territorialização no momento em que novas forças de transformação estão avançando sobre o rio Madeira, na segunda metade do século XIX. Nesse conjunto de mudanças estão os povos indígenas, comerciantes portugueses, seringalistas de última hora, trabalhadores atraídos pela riqueza fácil ou fugidos das secas, além de cientistas e agentes do governo que atuaram na área.


31 Almeida (2008), mostra como o discurso dos administradores provinciais do Maranhão articulam os problemas da escassez de braços, os projetos de colonização, a migração e a lei de terras. Sobre esse processo, José Murilo de Carvalho argumenta que a questão central do período após 1850 foi a questão da mão de obra, estando agregado a ela de forma secundária a questão da terra (CARVALHO, 2006, p. 331).

32 Conforme Lacerda, paroara é uma designação pejorativa que faz referência às aves migratórias e foi utilizada para identificar os cearenses que arribavam por causa da seca (LACERDA, 2006, p. 99).

33 Cardoso (2011) critica justamente a visão cristalizada na historiografia que percebe a migração como uma ação do Estado sobre os “sujeitos” ou como determinada apenas por fatores econômicos ligados à expansão da borracha, retirando-os a condição de construtores de sua própria história. Crítica semelhante havia sido formulada por Palmeira e Almeida (1977) ao analisarem a categoria migração.

34 F. Keller argumenta que as atividades extrativistas realizadas pelos índios não podem ser consideradas trabalho. O fato de extrair produtos fornecidos pela natureza não pode ser considerado como trabalho diz o engenheiro, ao contrário da agricultura na qual o agente social trabalha a terra (KELLER, 1870, p. 49).

35 Estudando o caso da província do Maranhão, Almeida (2008) assinala que as ideologias do progresso partem do pressuposto de que existem riquezas naturais e potencialidades de recursos na Província. Destaca ainda que a natureza é sempre representada como dadivosa e que os homens é que são incapazes de trabalhá-la.

36 Processo similar foi pesquisado por Durval Muniz de Albuquerque (2006), ao estudar a construção discursiva sobre o nordestino em São Paulo. Segundo o autor, esses discursos estigmatizantes funcionam como dispositivos estratégicos de controle.

37 Segundo Alexandre Avelino (2008), não havia homogeneidade entre os diversos membros e organizações da chamada elite. Seus interesses divergiam frontalmente opondo, por exemplo, comerciantes de Manaus que fornecem mercadorias a crédito aos seringais e seringalistas acusados de descuido no trato das seringueiras.

Continua na próxima edição…

*Davi Avelino Leal é escritor e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e membro do Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição. É licenciado, mestre e doutor pela UFAM.

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