
*Davi Avelino Leal
Continuação…
3.3.1 Os Arara do rio Aripuanã
Em 1848, Joaquim Alves Ferreira (1905, p. 91), diretor-geral de Índios da Província de Mato Grosso, registra a presença dos Arara do rio Aripuanã. Segundo ele,
Esta nação é bastante numerosa. Habita em diversas aldeias à margem do Madeira desde o salto de Girão até o rio Jamary. Matem-se da caça e pesca e occupão também de lavoura e fião algodão. Os Arara são bravio e vivem crua e constante guerra com os Mura e outros vizinhos, nações indígenas, e comem a carne dos seus inimigos. São propensos ao roubo e matança e procurão todos os meios de fazer mal (FERREIRA, 1905, p. 91 apud DAL POZ, 1995, p. 17).
A área indicada pelo diretor de índios, que se estende do salto do Girão, passando pelo rio Jamary, chegando até o rio Aripuanã, constitui territorialidade conquistada e defendida pelos Arara, contra as incursões dos Mura e dos ditos “civilizados”. O ponto de vista preconceituoso, presente na fala do responsável pela aplicação da política indigenista na Província do Mato Grosso, revela que as ações do Estado contra povos considerados selvagens e bárbaros correspondiam à submissão pela força.
O discurso oficial presente nas falas, mensagens e relatórios provinciais, reproduzia a visão colonizadora de que índios representavam os “povos incultos e selvagens” e precisavam urgentemente ser civilizados pelo homem branco. Como bem demonstrou Said (2003), a estratégia de dominação colonial desenvolvida por ingleses e franceses no século XIX foi reproduzida pelas elites coloniais, contribuindo para justificar a tentativa de destruição das culturas locais. Embora com pequenos grupos momentaneamente aldeados, os índios Mura, Parintintin e Arara farão, durante o século XIX, uma dura e permanente guerra contra as invasões de suas áreas de reprodução física e cultural.
Poucos anos depois, os Arara são, mais uma vez, registrados pela fala de representantes de província. Agora, é a vez do vice-presidente da Província do Amazonas, Manoel Gomes de Correa Miranda, demonstrar o quanto os Arara, do rio Aripuanã, um afluente do Madeira, estão indo de encontro à fronteira extrativista de suas terras.
O 2º [fato] foi um assalto, que os índios Arara, que habitão no centro do rio Aripuanã derão em um sítio, roubando o que encontrarão, livrando-se de ser assassinado um índio mundurucu, por ter se ocultado em um lugar, que sem ser prescentido distinctamente ouvio, que eles se retirarão ameaçando, que havião de voltar com maior número de gente, e com o próprio Tuxaua, e que então matariam a quanto encontrassem (RPPAM, 1852, p. 5).
O encaminhamento feito por Correa Miranda foi o de atrair pacificamente para a civilização esses índios considerados arredios. Mas, um ano depois, os Arara voltam a atacar, mostrando que não aceitaram a presença de brancos e nem de outros povos indígenas em seus territórios tradicionalmente ocupados.52
No dia 13 de junho succumbirão as frechadas dos Arara no Aripuanã, afluente do mesmo Madeira, o Inspector de Quarteirão da Frequezia de Borba Belizário Sandy de Souza, e mais quatro dos seus companheiros, que ali tratavam de colher drogas (RPPAM, 1853, p. 11).
Passado uma semana, eles retornam e atacam o aldeamento do Tijuco de Muritinga. Embarcados em seis cascos, trucidam um casal de Mundurucu (Manoel Tambor e sua mulher) e um índio Mura (Manuel Catraia), ferindo, com três flechadas, o silvícola de nome José Miguel (PINHEIRO, 1969).
Os Arara não dão sossego aos aldeamentos, inimigos históricos dos Mura, eles aproveitam para atacar durante a noite ou quando está próximo ao amanhecer. Sua tática é de queimar e “disseminar o terror”, tanto na população indígena, quanto entre os não índios:
Em [junho] em dias desse mez havendo noticia de que os índios antropophagos da tribu Arara havião atacado no alto do rio Madeira alguns índios da tribu Mura de quem são rivaes, e que no lago da Antonia já tinham morto alguns para alimento, essa noticia amedontrou os Muras e muitas pessoas empregadas em diversas feitorias do mesmo rio (RPPAM, 1852, p. 4).
Visando impedir os ataques dos Arara, o diretor da Aldeia de Sapucaia-Oroca, José Maria da Conceição, a mais próxima do rio Aripuanã, convocou os índios aldeados, Mura e Mundurucu, para proteger e vigiar os passos dos Arara. Essa mobilização não impediu que, em agosto de 1853, os Arara voltassem a atacar. De acordo com o material compilado por Melo (2006), no Livro de Correspondência dos Diretores de Índios com o Governo do Amazonas de 1853, pode-se perceber outro ataque dos Arara:
Tendo sido anunciado pelos muras Supriano José Taphira rezidente no lago denominado Araúa que estando estes em sua roça apareceo dez cascos com os malvados índios Araras perseguindos para os matar e rapar as suas ferramentas (…) matarão cinco Araras, prezionarao huma velha, e tomarão sete cascos (…) (Livro de correspondência dos diretores de Índios com o governo do Amazonas, 1853, fl. 144).
De acordo com Pinheiro (1969), a índia Arara que fora captura no confronto, por Serafim dos Santos, foi apresentada ao presidente de Província Herculano Ferreira Pena, cuja avaliação preconceituosa e autoritária pode ser acompanhada em seu relatório. No dia seguinte, o diretor das Aldeias do rio Madeira encaminha um ofício ao tenente Vitor da Fonseca, comandante das forças de Borba, para que enviasse nove praças armados e municiados de modo a evitarem os ataques dos índios Arara, que ameaçavam voltar, em grande número, para destruir o aldeamento (Livro de correspondência dos diretores de Índios com o governo do Amazonas, 1853, fl. 146).
Eles, de fato, voltam com 60 índios e matam 7 Mura, sendo 3 menores, que iam buscar banana e plantar roças. Logo após esse ataque, os Arara desceram o rio Aripuanã, onde existe uma aldeia Munduruku e um acampamento de seringueiros em Tabocal, roubando e causando depredações no lugar. Um destacamento policial conseguiu recuperar alguns objetos e sete ubás em que navegavam (RPPAM, 1º de outubro de 1857).
Os índios Mura da aldeia de Uarana, representados pelo seu principal, pediram ao presidente de Província, Angelo Tomas do Amaral, para mudarem de localidade e, também, uma ajuda com víveres e brindes no valor de 25$000 réis. O que essas poucas referências revelam sobre os Arara? Primeiro, é que são grupos numerosos, que vivem nos rios Aripuanã, do Salto do Girão até o Jamary. A economia Arara é baseada na caça, pesca e lavoura de banana e fiação de algodão. Muitas referências ressaltam a inimizade que possuem com os Mura e o fato de serem, os Arara, antropófagos.
O presidente da Província, Herculano Ferreira Pena, reconhece que esses acontecimentos são muitas vezes causados pela imprudência e pela impunidade das autoridades locais, que provocam e praticam atos de violência contra os povos indígenas. Ele lamenta, ainda, porque tais incidentes acabam contribuindo para que o Madeira continue despovoado.
De acordo com Coutinho (1986), que percorreu o Madeira no ano de 1861, os Arara estiveram aldeados em número de 200, numa vila próxima a Borba, porém, devido a um pequeno furto praticado por um deles, acabaram sendo duramente atacados pelos ditos civilizados, com a perda de muitas vidas entre os índios. A partir desse episódio, anterior a 1848, os Arara passam a declarar guerra contra as vilas e aldeamentos próximos ao rio Aripuanã.
Segundo a classificação presente no discurso dos presidentes de Província, os Arara estariam inseridos na categoria de Gentios, ou seja, aqueles que continuam sem contato com a civilização, sendo considerados bravios e capazes de toda a sorte de atrocidades (RPP, 1852, p. 52). Uma das ações visando pacificar os Arara foi o estabelecimento da missão de São Francisco, que funcionou de 1871 até 1881, e contou com uma população de 135 Arara e Torá. São poucas as pesquisas sobre os Arara. Sob o etnônimo Arara, abrigaram-se vários povos na grande bacia do Madeira (SANTOS, 2005). Se, como aponta Gilton Mendes dos Santos (2005), os Arara da bacia do rio Branco são mencionados desde o final do século XIX, à frente da expansão extrativista, alcança-os na década de 1920, os Arara do rio Aripuanã, aparecendo nos documentos, desde os primeiros Relatórios de Presidente de Província. Embora sejam rios próximos, o rio Aripuanã, o rio Branco e o rio Guariba, os Arara presentes nestes rios seriam, como defende Santos (2005), de grupos diferentes.
Acredita-se que o rio Aripuanã se tenha constituído como espaço histórico de vivência dos Arara. Independente de estarem, também, em afluentes como o rio Guariba, Roosevelt ou o rio Branco, os Arara, na maioria das fontes do século XIX, aparecem ocupando territórios às margens do rio Aripuanã.53 Na década de 1920, Nimuendajú (1982) ainda encontrou alguns Arara no rio Preto, próximo à desembocadura do rio Machado com o rio Madeira.
Baseado em informações do missionário Manuel Valdez, Mendes assinala que, apesar da proximidade entre os Arara do rio Branco e os do rio Aripunanã, eles constituem grupos diferenciados. Alguns autores como Silva Coutinho (1986) afirmam que existem três subgrupos Arara, denominados de Hiauareté-Tapui, Anerá-Tapui e Matanaús. Para efeito de contextualização histórica, parte-se da generalização e da forma com a qual eles são indicados pela documentação usada, ou seja, os chamados: “Arara do rio Aripuanã”.
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52 Apoiado nas definições de Weber, Thompson e Hobsbawm, Almeida (2006a) salienta que a noção de tradicional não se reduz à história e nem aos laços primordiais que amparam unidades afetivas, mas incorpora identidades coletivas redefinidas situacionalmente numa mobilização continuada. Nesse contexto de conflito, é que emergem as estratégias identitárias e políticas do grupo.
53 Para Santos (2005), trata-se de grupos que, embora estejam em território contíguos e se identifiquem como Arara, são diferentes entre si.
Continua na próxima edição…
*Davi Avelino Leal é escritor e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e membro do Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição. É licenciado, mestre e doutor pela UFAM.
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