Manaus, 14 de setembro de 2026

Epistemologia da Religiosidade nos Quilombos

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*Vinícius Alves da Rosa

Continuação…

2. A RELIGIOSIDADE POPULAR: UMA CATEGORIA ANALÍTICA

Ora, o que parece passar despercebida é a característica básica da nossa religiosidade de então: justamente o seu caráter especificamente colonial. Branca, negra, indígena, refundiu espiritualidades diversas num todo absolutamente específico e simultaneamente multifacetado17.

(Laura de Mello e Souza)

Este capítulo versa sobre a religiosidade popular e, compreendendo-a como categoria analítica, estabelece diálogo com autores especializados neste campo de discussão. Assim entendidas, as discussões se voltam para as diferentes tradições vividas por agentes sociais com representação religiosa nos quilombos. Nota-se que tais práticas fogem às regras administrativas e, por isso mesmo, ultrapassam os habituais controles eclesiásticos da religião oficial. Neste sentido, abordar-se-á a religiosidade com ênfase nas reflexões críticas acerca das narrativas dos distintos agentes sociais em suas diversas vertentes simbolicamente presentes na vida cotidiana, a se expressar por meio das crenças, das linguagens e, enfim, das sacralidades por vezes legitimadas pelo imaginário popular.

Trata-se de dar especial destaque àqueles cenários multifacetados, ou seja, configurados por concepções e estruturados pelo hibridismo, fato que permite à presente pesquisa desenvolver estudos, resguardando-se o ineditismo como viés acadêmico no campo religioso. Por essa via, as Ciências da Religião certamente contribuirão para a formatação de um instrumental teórico-metodológico de modo a possibilitar novas produções epistêmicas. Portanto, esses assuntos compõem o repertório interpretativo exposto nos subitens destacados posteriormente.

2.1. A religiosidade popular e algumas considerações

Quando Deus retornar, teremos que ir ao seu encontro primeiro bailando, antes de poder defini-lo na doutrina18.

(Harvey Cox)

A religiosidade popular, como objeto de análise, pode ser estudada por meio de várias vertentes fundamentais que marcaram as pesquisas de alguns intelectuais identificados com suas respectivas áreas do saber, quais sejam: teólogos, cientistas sociais, historiadores, antropólogos, dentre outros. Porém, a categoria em tela, consagrada no campo das Ciências da Religião, ainda provoca debates no ambiente acadêmico.

Faz-se premente, em particular nas Ciências da Religião, postular investigações voltadas para o rigor da cientificidade acerca dessa categoria perscrutada, em razão do “termo, que parece indicar um quadro único, na verdade expressa vários sentidos associados através de conotações recíprocas” (Cesar, 1976, p. 7).

Segundo Cesar (1976), as primeiras noções sobre a terminologia popular vêm de meados do século XIX, tendo por significado algo relativo a supersticioso, grosseiro, curioso ou vulgar. Coube aos etnólogos folcloristas, que discutiram a categoria, romper com o sentido pejorativo. A partir de então, pode-se dizer que o

[…] termo popular por si só representa certa complexidade em sua definição e um caráter exclusivo para designar as classes sociais subalternas, que provêm das camadas menos favorecidas da sociedade. Representa, também, em seu conjunto, as manifestações coletivas, linguagem e religiosidade de um povo. Tal complexidade tem uma dimensão histórica resultante da hibridação da fé com a cultura de um povo. Sempre ressurgindo como resposta a cada momento histórico e a cada geografia (Reis, 2007, p. 68).

De acordo com Reis, a categoria popular está acompanhada de inúmeros significados, o seu sentido se alinha a ideia de povo, sujeito que cria e recria suas próprias manifestações culturais. Trata-se, neste sentido, de um mundo diverso e ao mesmo tempo singular, sendo a representação de um grupo ou de uma nação.

Todavia, defende a autora supracitada que a noção de religiosidade popular não deve ser entendida unicamente pelo viés do povo, ou seja, é tautológico pensar que a religiosidade de um povo é popular. Para Reis, a religiosidade popular pode ser definida segundo o conceito de cultura popular, uma vez que ambas as categorias estão relacionadas. Por exemplo, lembra a autora que, no Brasil:

[…] em cada região, a propagação da religiosidade será incorporada de acordo com a cultura do povo, e o resultado da devoção aos santos atenderá exclusivamente às questões de ordem secular. Ao elegerem os seus padroeiros e suas respectivas manifestações de devoção, o povo reforça também a sua crença cultural (Reis, 2007, p. 70).

Waldo Cesar, autor do texto “O que é ‘popular’ no Catolicismo Popular”, em 1976 já problematizava a dificuldade em definir a categoria popular na área dos estudos da religião. Esse campo de pesquisa – religiosidade popular – assegura o estudioso que se trata de um desafio à Sociologia, à Teologia, à Etnologia e às demais áreas do conhecimento. Em face de possíveis interpretações acerca do termo, Cesar lança a seguinte questão quando infere: o que é o popular no catolicismo popular? A priori, o interesse do autor seria entender o catolicismo a partir desta categoria, a respeito da qual poderíamos estender a pergunta para outras religiosidades brasileiras a propósito daquelas, por exemplo: de matrizes africanas, do pentecostalismo, do xamanismo, entre outras.

Sobre essas religiosidades brasileiras, Reis (2007) aponta aspectos a serem levados em consideração e que vão desde as expressões corporais até os rituais; algo de suma relevância para a comunicação com o sagrado. Desse modo, “o conjunto de representações que caracterizam a religiosidade popular é resultado do hibridismo cultural e religioso a que o Brasil foi submetido […]” (Reis, 2007, p. 68). Nesse diapasão, diria o antropólogo Darcy Ribeiro, misturaram-se o Catolicismo Ibérico, o Xamanismo, o indígena e o mundo mágico Africano.

O professor Raymundo Heraldo Maués (2005) pesquisador da religião na Amazônia, também trabalhou com a categoria popular, tornando-se conhecedor da diversidade religiosa cabocla19, adornada simbolicamente por seus mitos, crenças, entre outras práticas. Ao estender seus estudos para a religiosidade indígena, o autor pondera se tratar de algo ainda mais complexo, levando-se em conta o mundo cultural-religioso dos povos da Amazônia.

A respeito da complexidade que perpassa o entendimento sobre certas categorias analíticas intrínsecas à compreensão de determinadas realidades, Cesar (1976) ajuíza:

Dado o seu uso corrente, palavras, como popular, povo, tradição, folclore, mentalidade popular […] criam alguns problemas quando se trata de precisar o lugar e a função de qualquer categoria social e cultural que empregue um destes termos” (Cesar, 1976, p. 5).

Nesse sentido, o termo popular é empregado para entender os encantados da Amazônia, embora o uso da categoria não pretenda simplificar essa crença, pois, ao contrário, trata-se de um esforço empreendido para compreender essa realidade, como o fez Maués (2005) ao longo de seus estudos na região amazônica.

De acordo com Brandão (2007), a religiosidade popular recria símbolos, rituais, práticas e crenças da religião erudita, mas com ressignificações próprias. Ao passarmos para o campo da religiosidade popular, entende-se que se trata de manifestações locais, pelas quais se incorporam elementos de sincretismo e de diferentes matrizes religiosas, como a veneração de santos populares, a sacralidade de objetos, rituais, divinação e/ou a busca de soluções para os males do cotidiano.

Outras categorias são utilizadas com finalidades explicativas, tais como hibridismo, bricolagem e amalgamação, devendo ser exploradas como modo de compreender a diversidade cultural ou popular. Trata-se, enfim, de uma preocupação antropológica porque leva em conta as dimensões intrínsecas aos aspectos simbólicos da região.

Partindo desse pressuposto, a formação da cultura no Brasil passa necessariamente pelas três matrizes étnicas: indígena, africana e europeia. Resguardando-se as peculiaridades subjacentes a essa tríade, entende-se que tais realidades devem ser analisadas sob o prisma daquelas categorias interpretativas. Tais matrizes étnicas, compõem, portanto, a junção de tradições específicas que resultou em um amálgama interposto pelo fim da hegemonia do Cristianismo Católico, ou seja, espraiando-se tanto para os contextos urbanos quanto rurais, a religiosidade brasileira é constituída pela bricolagem.

Segundo o sociólogo jamaicano Stuart Hall:

[…] o hibridismo, o sincretismo e a fusão entre tradições culturais diferentes produzem novas formas de cultura apropriadas à modernidade tardia, mas possui custos e implica no relativismo, na perda de tradições locais e no aumento dos fundamentalismos (Hall, 2000, p. 22).

Hall (2000) é um renomado autor do mundo contemporâneo, responsável por conceituar epistemologicamente o termo hibridismo o qual fora caracterizado por culturas cada vez mais mistas. Ele considera, neste sentido, que estas práticas híbridas podem ser identificadas também no âmbito da religiosidade.

A respeito da compreensão acerca do que vem a ser o termo bricolage, de acordo com o antropólogo Claude Lévi-Strauss, na análise do pensamento mítico:

[…] em nossos dias, o bricoleur é aquele que trabalha com suas mãos, utilizando meios indiretos se comparados com os do artista. Ora, a característica do pensamento mítico é a expressão auxiliada por um repertório cuja composição é heteróclita e que, mesmo sendo extenso, permanece limitado; entretanto, é necessário que o utilize, qualquer que seja a tarefa proposta, pois nada tem à mão. Ele se apresenta, assim, como uma espécie de bricolage intelectual, o que explica as relações que se observam entre ambos (Lévi-Strauss, 1989, p. 32).

Cabe destaque à obra O Pensamento Selvagem, em que Levi-Strauss referindo-se à inépcia dos “primitivos”, está motivado a desenvolver o pensamento abstrato, mesmo que os exemplos demonstrem ser os nomes abstratos não uma riqueza, tampouco se trata da característica exclusiva das línguas chamadas civilizadas. Desta forma, a categoria bricolage tem sido utilizada em suas implicações conceituais para investigar cientificamente as diferentes religiosidades populares, construídas e ressignificadas em respectivos lugares sagrados, místicos, como as práticas ou cultos das diferentes espiritualidades, indígenas, afro, católicas, entre outros.

Quanto à categoria amalgamação, o pesquisador Eduardo Galvão, em sua tese intitulada “Santos e visagens: um estudo da vida religiosa de Itá, Amazonas”, resultado do trabalho de campo realizado na Amazônia, destacou:

O caboclo de Itá, como da Amazônia em geral, é católico. Não obstante, sua concepção do universo está impregnada de ideias (sic) e crenças que derivam do ancestral ameríndio. Essa maneira de ver o mundo, não representa o simples produto da amalgamação de duas tradições, a ibérica e a do indígena. Essas duas formas supriam o material básico do que envolveu a forma contemporânea da religião do caboclo amazônico (Galvão, 1955, p. 00, grifo do autor).

Galvão (1955) analisou, do ponto de vista antropológico, as questões da diversidade religiosa e cultural presentes na Amazônia, constatando práticas do catolicismo popular, bem como do culto aos santos. O trabalho de fôlego, dada à pertinência com que estudou a religiosidade daqueles moradores, buscou saber sobre as crenças em seres sobrenaturais. Com isso, o pesquisador observou a composição étnica e os resultados dos processos coloniais a respeito dos quais derivou um modelo cultural.

Oriundas da dinâmica entre as múltiplas identidades religiosas, pelo fato de se entrecruzarem, a tese, ora em desenvolvimento, tem como objetivo central investigar a religiosidade popular, pelas experiências pessoais ou vivências coletivas, a partir das fronteiras sociais, culturais, históricas e políticas. Nesta perspectiva, de forma geral, doravante far-se-á uma análise conceitual acerca da religiosidade popular na região amazônica.

Imbuídos desse propósito, recorremos ao artigo “Entre a bricolagem moderna e o hibridismo pós-colonial: um caso de religiosidade amazônica”20, que tem como autores Emerson Sena da Silveira e Dayana Dar’c e Silva da Silveira (2015). Ao trazerem os conceitos acerca do alcance hermenêutico dos termos bricolagem moderna e hibridismo póscolonial, os mesmos se referem a um caso de religiosidade na Amazônia. Por via dessa reflexão, é possível diferenciar os traços característicos do catolicismo organizacional no continente europeu, fundamentado pela ortodoxia institucional e no magistério cristão sob a competência dos teólogos da religiosidade praticada pela cristandade brasileira com seus aspectos notadamente multifacetados.

Na mesma perspectiva de ideias, Laura de Mello e Souza afiança:

A partir dos estudos recentes, sabe-se quão fortemente impregnada de paganismo se apresentou a religiosidade das populações da Europa moderna, e quantas violências acarretaram os esforços católicos e protestantes no sentido de separar o cristianismo e paganismo. O cristianismo vivido pelo povo caracterizava-se por um profundo desconhecimento dos dogmas, pela participação na liturgia sem a compreensão do sentido dos sacramentos e da própria missa. Afeito ao universo mágico, o homem distinguia mal o natural do sobrenatural, o visível do invisível, a parte do todo, a imagem da coisa figurada. (Souza, 1986, p. 90-91).

Neste sentido, o catolicismo europeu organizado institucionalmente tem diferenças essenciais em relação as características específicas do cristianismo vivido pelo povo em terras brasileiras. Isto se deve provavelmente ao desconhecimento dos dogmas, sacramentos e doutrinas com fundamentos teológicos propagados pela igreja, estando as religiosidades no Brasil voltadas às práticas do universo mágico. Assim entendidas, as práticas religiosas vividas pelo povo brasileiro integram os diferentes sistemas de crenças, na interface de várias simbologias vinculadas aos rituais de afirmação, procissões, pagamento de promessas, superstições, culto aos santos, mesclados nas concepções mágicas de mundo.

Nesse contexto, será analisada a religiosidade popular em suas diversas vertentes, pois oferece uma leitura da tradição da igreja católica, cujas práticas são habituais e frequentemente exercidas no quilombo urbano do Barranco de São Benedito, localizado na Praça 14 de Janeiro, bairro central da cidade de Manaus.

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17. Citação extraída do livro O Diabo e a Terra de Santa Cruz, registrada no capítulo 2 intitulado: Religiosidade Popular na Colônia, p. 88.

18. A referida citação, aqui usada como epígrafe, é de autoria do teólogo americano Harvey Cox, cujo autor acredita ser uma perda não querer aprender, nem respeitar a cultura ou religião do povo (Cox, Harvey. A festa dos foliões, Ed. Vozes: Petrópolis, 1974, p. 39).

19. O termo caboclo é uma forma genérica para se referir ao morador das comunidades rurais da Amazônia.

20. O referido artigo está publicado na PLURA – Revista de Estudos da Religião. Vol. 6, n°2, 2015, p. 69-99. Dossiê “As religiões na Amazônia”.

Continua na próxima edição…

*Vinicius Alves da Rosa, quilombola de Morro Alto, RS, professor, doutor em Ciências da Religião.

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