Manaus, 6 de setembro de 2026

Crônicas do Cotidiano: Escatologia da Vergonha Alheia

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O termo “Escatologia” comporta dois sentidos distintos: o teológico/religioso, que fala das coisas do fim do mundo, do céu, do inferno e das profecias em diversas religiões; e o sentido médico, que se refere ao estudo científico dos dejetos humanos. Diante dos acontecimentos que afligem o país e da situação crítica dos personagens e instituições envolvidos, fiquei meio confuso, pois o que pretendo tratar pode ser posicionado na fronteira dos dois significados, sem chegar a ser um terceiro sentido. Mas, faço um apelo aos pudicos, aos “extremamente crentes”, que não se zanguem comigo, pois me parece que os acontecimentos na seara do poder, no Brasil, tanto parecem coisas do fim do mundo quanto coisas escatológicas humanas, que fedem e contaminam o ambiente. Daí a vergonha alheia, tão constrangedora por não conseguirmos vislumbrar quantos e quais sairão banhados de excrementos. Coisas feias, tão feias e tristes, num momento em que as reputações dos jogadores, na política, deveriam servir de farol encantador nos resultados das eleições. Para os que acreditam que a espécie humana é capaz de tudo, a falta de caráter de uns ou da quase totalidade dos poderosos não surpreende. Entretanto, aqueles que se apaixonam por heróis, mitos e quejandos costumam sofrer revezes imponderáveis, que doem no fundo do peito e encolhem o coração.

Certa feita, há muitos anos, em torno da mesa de um bar, discutíamos as questões do poder, e até sexo dos anjos. Éramos cinco e o tempo nos separou irremediavelmente, pelas intercorrências da vida e até por oceanos, mas nos deixou passagens inesquecíveis. No meio da discussão, apareceu a questão teológica da Infalibilidade do Papa da Igreja Católica e as opiniões se dividiram e a discussão exegética ficou acalorada. Um dos convivas, que fez Catequese e Cruzada, trouxe à baila uma questão que pôs fim à discussão, contando um segredo seu, que o angustiou até os 13 anos, sentindo-se um pecador, indigno do perdão de Deus, todas as vezes que aquela dúvida miserável o assaltava: “será que o Papa solta Pum?!” E completou, “sofri muito com isso, até entender que o Papa, também, é humano”. Nada mais tínhamos a discutir ante a sinceridade do amigo e rimos um sorriso amarelo. A situação é mais ou menos semelhante e com a qual temos convivido nesses últimos tempos, sobretudo, depois que a extrema direita escolheu como sua “Geni” o STF. Lembrei-me desse causo e seria oportuno desfazer essa dúvida: “será que os Magistrados da Suprema Corte soltam Pum?” Parece que, em outras esferas de poder, a dúvida já está pacificada, não temos mais dúvidas de que aqueles pulinhos nas cadeiras estofadas sob o céu azul dos tapetes do Senado da República são sinais indeléveis de ventos indesejáveis, mas sob as impolutas togas, ousar-se pensar nisso, jamais!

A história, tanto a escrita com “H” quanto a escrita com o “E”, mostram uma relação entre a flatulência, o poder e a solenidade dos cargos. Os Reis, na Antiga Idade Média, tinham a seu lado, sempre e sempre, um especialista que, pelo faro, sabia detectar se Sua Majestade estava acometido de alguma doença e a merecer cuidados médicos. Já Stálin, que sofria do mal terrível da flatulência, dizem que exigia ao protocolo que, nas solenidades em que comparecesse, na mesa onde ostentaria o seu poder, precisava ficar cercado de taças de cristal e que, nas horas mais tempestuosas, batia em uma delas e as demais iam quebrando em turbilhão, caindo como pedras de dominó umas sobre as outras, encobrindo, assim, o barulho indesejável.

Não sabemos como vai terminar, mas é preciso uma anamnese do ambiente político. Piorou com a “Lava a Jato” e retornou em conluio com forças mais poderosas, dando a impressão de que um só Banqueiro, sagaz e sedutor era capaz de comprar toda a República pelos bastidores. Depois, descobre-se que era, apenas, a metástase putrefata do sistema de poder. A coisa é séria, fede, mas é preciso enfrentá-la com melhor juízo. “Ainda existem juízes em Berlim”, dizem estudantes de Direito empavonados, recitando às namoradas ou namorados, para impressioná-las (los) com sua erudição, não vale mais para o Brasil! É brega, mas que pena, não pode mais ser pronunciada!

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