Manaus, 6 de setembro de 2026

Mundos do trabalho e conflitos sociais no rio Madeira (1861-1932)

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*Davi Avelino Leal

Continuação…

3.3 A apropriação da relação de tutela como estratégia de agenciamento da relação

O objetivo do presente tópico é apresentar um quadro geral dos povos indígenas do rio Madeira, no momento em que se estabelece o avanço da empresa extrativista no curso do Baixo e Médio rio Madeira. A dinâmica do contato interétnico⁴⁹ subordina-se a temporalidades específicas, não sendo possível um viés unilinear como modelo de explicação. Não se trata da busca de uma origem de ocupação dos povos indígenas do Madeira e nem de uma abordagem segundo o paradigma dos estudos de área cultural, presentes na Antropologia de meados do século XX.

O objetivo é captar situações históricas específicas a partir de dinâmicas próprias que envolveram os povos indígenas do curso do Baixo e Médio rio Madeira, no momento de “corrida” para os seringais. O recorte é feito justamente no momento em que novas frentes extrativistas de borracha adentram o rio Madeira. Nesse contexto, a partir da segunda metade do século XIX, etnias como os Mura e Mundurucu, que já vêm de uma longa experiência de conflito e aproximação com os poderes coloniais, têm, mais uma vez, que enfrentar uma “nova onda” de invasão e esbulho de suas terras (SANTOS, 2002).

Uma questão que se levanta é que não se pode pensar a história dos povos indígenas do rio Madeira apenas levando em conta a chegada dos chamados desbravadores, no seu movimento de expansão das fronteiras.50 Inúmeros povos indígenas, difíceis de identificar com precisão, habitavam o curso do rio e desenvolviam modos de vida específicos, nas suas comunidades de origem. Também não é certo acreditar que, em meados do século XIX, a presença de comerciantes e extrativistas fosse uma coisa nova para os índios. Só como ressalva, destaca-se que uma parte deste tópico é marcada por inferências sobre os povos indígenas, com base em estudos arqueológicos, historiográficos e etnológicos sobre a presença humana no rio Madeira. Há uma dinâmica local desenvolvida pelos povos indígenas que, de certa forma, precisa se reconfigurar, a partir da nova fronteira interétnica, que se estabelece com a chegada dos “novos conquistadores”.

Várias são as possibilidades de identificação e classificação dos povos indígenas do rio Madeira. Há a opção por um recorte linguístico seguindo os principais troncos, famílias e povos, mas preferiu-se a forma pela qual os povos indígenas do vale do Madeira e dos seus principais afluentes foram aparecendo na documentação oficial, construída no século XIX. É possível destacar que esse movimento de reordenação do território, das formas sociais de uso dos recursos naturais, da própria reelaboração da cultura e do passado, deve ser tomado por intermédio do conceito formulado por Oliveira (1998) como processo de territorialização.

Como todo recorte e toda classificação são contingentes e arbitrários, tem-se consciência das dificuldades e dos problemas metodológicos. No entanto, este configura-se como uma possibilidade plausível de acompanhar de perto o movimento dos povos no processo de construção de uma fronteira etnopolítica.51 Uma das formas de localizar essas etnias, na documentação, é por meio dos “arquivos da repressão”, pois o choque com o poder fez com que esses povos aparecessem na cena histórica (GINZBURG, 1994; FOUCAULT, 2003). Tal procedimento foi adotado por Fabrício Vieira (2004) e Ariane Silveira (2007), quando, na identificação dos principais conflitos, envolvendo os povos indígenas na primeira década de funcionamento da Província do Amazonas.

QUADRO 5 – DISTRIBUIÇÃO DAS ETNIAS POR CONFLITO/DELITO (1852-1862).

(VIEIRA,2004, p.15)

Uma leitura do quadro acima indica que, das quatro etnias sobre as quais mais se registraram conflitos, três estão no rio Madeira, e, dos 35 casos registrados nos Relatórios de Presidente de Província, 26 são de povos que viviam no Madeira. Somente uma investigação a “contrapelo” permite perceber quanto esses povos estavam procurando imprimir um processo de territorialidade, lutando, de diversas formas, contra a intrusão de suas terras.

Das etnias que ocupavam os “dilatados sertões” do rio Madeira citadas para períodos anteriores (séculos XVII e XVIII), tais como os Iruri, Parapixana, Onicoré, Pama, Caripuna, Torarise, Arara, Mura, Mundurucu, Sapupé, Curuti, Muturucu, Comauy, Acariuara, Brauará, Uarupá e Terari (AMOROSO, 1991; HUGO, 1959; SERAFIM LEITE, 2000).

MARAJÓ, 1992; MENENDEZ, 1993), a principal fonte de informação do século XIX registrou a presença dos Mura, Arara, Parintintins, Matanari, Juma, Catuxi, Aricunana, Ariquena, Bari, Curuaia, Itatapia, Pammá, Sará, Tuturi, Urupá, Yauará e Torá (RPPAM, 1852, vol. I, p. XX-XXI).

Entre as etnias citadas no levantamento feito em 1853, a mando do presidente de Província, os Arara, os Mura e os Parintintin aparecerão de forma continuada. Os outros povos, muito esporadicamente, serão citados nos documentos oficiais. Novo levantamento de fontes históricas para análise dos Parintintin e Teharin, Miguel Menendez (1992) destaca a ausência de referências aos povos indígenas no Madeira do século XIX. Segundo o autor, apenas os Mura, Arara, Parintintin, Munduruku e Torá aparecem na documentação (MENENDEZ, 1992).

Ainda no processo de identificação das etnias, temos o trabalho do naturalista americano James Orton (1870, p. 319), membro da Academia de História Natural de Ciências da Filadélfia, que publicou um trabalho sobre a Amazônia, intitulado The and the Amazon across the continent of South America, em 1870. Nele, o autor destaca a presença, de forma preconceituosa, das principais etnias do Madeira, em meados do século XIX,

On the lower Madeira are the houseless, formidable Aráras, who paint their chins red with achote (anatto), and usually have a black tattooed streak on each side of the face. They have long made the navigation of the great tributary hazardous. Above them dwell the Parentintins, light colored and finely featured, but nude and savage. In the labyrinth of lakes and channels at the mouth of the Madeira live the lazy, brutal Múras, the most degraded tribe on the Amazon. They have a darker skin than their neighbors, an extraordinary breadth of chest, muscular arms, short legs, protuberant abdomens, a thin beard, and a bold, restless expression.

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49 O conceito de contato interétnico deve ser problematizado a partir das formulações de J. P. de Oliveira (1988), que retoma o conceito elaborado por R. C. de Oliveira (1972) à luz de antropólogos como Gluckman e Barth, ou seja, o contato interétnico é uma situação histórica específica, com diversos atores sociais vinculados a diferentes grupos étnicos.

50 Recorreu-se, mais uma vez, a João Pacheco de Oliveira (1979), para problematizar o conceito de Fronteira. Para este autor, a Fronteira deve ser vista como modelo teórico que articula uma totalidade composta por partes heterogêneas e com diferentes ritmos de funcionamento. Nesse sentido, a Fronteira é, em primeiro lugar, uma forma de propor uma investigação; segundo ela não pode ser pensada a partir de modelos universais e genéricos; terceiro, não existe uma articulação natural das partes; quarto, uma das condições sociais para a existência da fronteira é a oferta de mão de obra, articulada aos recursos de subsistência disponíveis; quinto, construção de mecanismo de imobilização da força de trabalho; sexto, constituição de determinadas formulações ideológicas aliadas a um processo de reorganização social (OLIVEIRA, 1979).

51 Tal conceito de Fronteira Étnica deve ser entendido a partir das formulações de Fredrik Barth (1979), em que a relação de identidade um grupo se estabelece como fronteira política e não se reduz ao aspecto cultural como marco diacrítico do grupo. Portanto, não é o isolamento que define a identidade, mas a relação entre grupos em conflito.

Continua na próxima edição…

*Davi Avelino Leal é escritor e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e membro do Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição. É licenciado, mestre e doutor pela UFAM.

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