Uma carta escrita de Manáos em 24 de outubro de 1900, no auge da borracha — dos avós maternos do cronista.
Manáos, 24 de outubro de 1900
Minha querida esposa Isabel,
Dizem que esta cidade foi feita de coragem e de fortuna. Te confesso que a sinto como uma máquina viva, alta, brilhante, e por vezes perigosa, como se a prosperidade tivesse suas próprias sombras.
Os homens falam em voz firme e rápida, como quem não quer perder nenhum minuto dessa época de fausto. A cada passo, vejo sinais do quanto o mundo inteiro chegou aqui. Gente viajada, carregadores apressados, cocheiras cheirando a poeira e couro; casas que ostentam ornamentações como se o destino pudesse ser comprado. O som dos passos se mistura ao de bondes da Manáos Railways Company, além de carruagens puxadas por belos cavalos. É sabido que as conversas quase sempre giram em torno do mesmo segredo: a borracha corre nos nervos de tudo.
A ilusão do fausto
Estou hospedado, como sabes, na casa do Dr. e Sra. Hidelberto Correa Dias. Um belo palacete no bairro dos Remédios. Ele, proeminente advogado. Já sua esposa, Edinea Mascarenhas Dias, é mestra em Humanidades no Lyceu Amazonense Pedro II. Temos conversado muito. A professora Edinea tem uma cultura vasta. Disse-me que o fausto que tem me impressionado por aqui é uma ilusão. Está escrevendo um livro muito importante. Chama-se A Ilusão do Fausto. Certamente se tornará um clássico, pois analisa com precisão esses dias de riqueza que rondam a cidade em consequência da produção da borracha.
Mostrou-me hoje um jornal com anúncios de guarda-livros, afinador e consertador de pianos, leiloeiro, corretor, despachante, alfaiate. Explicou-me que fortunas surgiram devido à imigração e ao desenvolvimento do comércio e da indústria. Vejo que a cidade tem seus atrativos: saneamento básico, esgoto, água, transportes e luz elétrica, e as ruas e praças são asseadas.
A libra esterlina manda nos preços
Tu sabes que cheguei como visitante, mas o comércio desta cidade me surpreendeu até a alma. O que se compra e se vende, Isabel, parece obedecer a uma espécie de linguagem estrangeira. Vejo por toda parte que a moeda que domina as trocas é a libra esterlina. Os preços são ditados com um respeito quase religioso por esse número imaginário que vem de longe, como se o valor da cidade fosse, ao mesmo tempo, local e estrangeiro. Há quem faça contas tão rápido quanto reza. E há quem perca a cabeça — por ganância, por pressa, por medo — e volte para casa com o bolso vazio.
O certo é que a borracha dá a Manáos muito dinamismo, como me explica a professora Edinea, à medida que à cidade é atribuído o papel de intermediação das riquezas extrativas.
O comércio de Manáos passou a depender de produtos importados da Europa e de outros pontos do Brasil: óleos, bacalhau, amêndoas, aguardente, móveis, cal, carruagens, caviar, champanhes, material elétrico, sabão, telhas de barro, calçados, vinho, café, farinha, redes, carvão e paralelepípedo.
Esses produtos entram pelo Manáos Harbour, procedentes da Inglaterra, Portugal, Alemanha, França e Estados Unidos, bem como dos estados do Brasil como Pará, Maranhão, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará e Bahia.
Eduardo Ribeiro e a cidade que ele ergueu
O governador Fileto Pires está promovendo melhoramentos no porto de Manáos. Mas o que todos dizem aqui é que o melhor governador foi Eduardo Ribeiro. Falecido há poucos dias, segundo me disseram, em circunstâncias misteriosas e não muito bem explicadas. Eduardo foi o grande responsável pela modernização de Manáos. Parece-me que se suicidou. Mas as pessoas evitam comentar o assunto.
Foi Eduardo Ribeiro quem construiu o majestoso Teatro Amazonas. Construiu também a belíssima Ponte de Ferro, uma fantástica ponte pênsil que me encantou tremendamente. Ele também construiu o Palácio da Justiça e o Reservatório do Mocó, os quais irei visitar amanhã.
O casal Dias me explica que o capital inglês é o maior responsável pela execução dos maiores e mais importantes projetos que estão reformando e modernizando a cidade em termos de serviços urbanos.
O aniversário da cidade
Hoje, ao percorrer as ruas de São Vicente, Municipal, os arredores do Manáos Harbour e da Matriz, pela rua Marquês de Santa Cruz, vivenciei as comemorações pelo aniversário da cidade. Houve desfiles e ajuntamentos. Não posso explicar apenas com palavras, preciso que compreendas o que meus olhos registram. Uma gente de trajes bem cuidados, o brilho das vitrines, a música que tenta cobrir o calor, e a sensação constante de que tudo acontece em ritmo de novidade.
Os jornais circulam como se fossem bombas, levando notícias de um lado a outro. Falam de novidades vindas dos grandes centros, de novidades que chegam por vapor, e de novidades que mudam as conversas antes mesmo de chegarem aos lares.
Há, contudo, um fausto que Edinea reputa como uma ilusão. Mas discordo um pouco. Eu peço que me perdoes se falo como quem sonha. Manaus é uma espécie de tentação. Ela se ergue acima do rio como promessa, e eu sinto que, para cada bênção recebida, há um preço que ainda não foi cobrado. Neste aspecto a professora tem razão. Vi homens ricos demais para serem tranquilos. Vi senhoras sorrindo enquanto suas criadas carregam volumes pesados, e vi rapazes oferecendo serviços com uma reverência que não é apenas educação, mas um modo de sobrevivência.
O fausto da cidade tem claridade, mas também tem pressa. E pressa, tu sabes, é sempre um sinal de risco. Nesse ponto também concordo com dona Edinea.
Os acontecimentos deste início de século, com a borracha se igualando como produto de exportação, são tão importantes quanto o café, na visão do Dr. Dias, esposo de Edinea.
Vejo que a cidade, onde a vida parece avançar pelo rio, apresenta-se como se coisas e fatos se anunciassem nos gestos. Há uma modernidade que se vê nos detalhes: a forma como se circula, como se comunica, como se discute.
Mesmo quando o calor aperta, as pessoas procuram novidades, procuram “o que vem”. Chegam cartas, chegam recados, chegam notícias de transformações no mundo, e a cidade se comporta como quem não quer ficar para trás. O século, Isabel, parece ter entrado nas portas com força, empurrando a rotina para fora da cadeira.
As festas de hoje, em honra ao aniversário da cidade, foram como um espetáculo à parte. E lá estava o majestoso Teatro Amazonas com luzes, música, conversas altas e promessas novas. Mas entre uma saudação e outra, encontrei também um tipo de vigilância silenciosa. O dinheiro atrai. A oportunidade também. E onde há oportunidade, há disputa. Ouvi rumores sobre negócios que se fecham e negócios que desmoronam num dia; sobre contratos que começam com entusiasmo e acabam com amarga decepção. Há quem compre borracha com esperança e há quem a venda temendo o amanhã.
O que me faz admirar
Mesmo assim, eu não te escrevo apenas para advertir. Quero que entendas o que me faz admirar. Há uma energia coletiva em Manáos que não se encontra em qualquer lugar. A cidade parece querer ser grande. Quer o mundo, quer respeito, quer o olhar das metrópoles. Quando subo o olhar para certos prédios — como os palacetes e o mercado, a alfândega e o Palácio da Justiça —, vejo a tentativa de beleza em meio às dificuldades. Penso que isso é o que resta ao ser humano quando o destino vira mercadoria: a esperança de que o esforço valha a pena.
Se eu pudesse, Isabel, te levaria comigo pela mão para mostrar-te tudo com a paciência de quem não teme perder tempo. Mas a viagem ainda nos limita. Por isso, peço que confies em mim. Estou atento, cauteloso, e guardarei teu nome como se fosse talismã. Tu és a minha casa.
E enquanto Manáos vibra com seus acontecimentos, entre música, comércio, fausto e rumores, eu continuo sendo um visitante que, no meio da tempestade de novidades, procura um rumo seguro, que é somente o teu e a saudade de ti. Que Deus cuide de ti. Se esta carta te encontrar serena, agradece. Se te encontrar preocupada, tranquiliza-te. Eu volto ao lar com a consciência de que nem todo fausto vale o que se paga por dentro.
Com saudade e amor,
Bento Pedro
P.S.: Isabel e Bento Pedro Fadoul são avós maternos do cronista.
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