Manaus, 15 de setembro de 2026

Antes de falar ao microfone, São Gabriel me ensinou a ouvir.

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*Moisaniel Barbosa Filho

Eu trabalhava no Distrito Industrial de Manaus, na Philips da Amazônia, exercendo a função de alimentador e estoquista. Meu dia a dia era cercado por componentes eletrônicos, rádios portáteis, enormes linhas de produção e uma equipe formada por jovens trabalhadores que sonhavam com um futuro melhor.

Foi ali que conheci pessoas que deixaram marcas permanentes na minha memória. Meu gestor, Ribamar; o jovem e inteligente Stones Machado, que mais tarde se tornaria um grande amigo; o supervisor Júlio, sempre correto e bem-humorado; e os colegas Alan Maurício – meu parceiro de tantas aventuras boêmias inesquecíveis -, Chiquinho, Augusto, o bom de bola Claudemir (Barézinho), Nicolau, Gileno (Parceirinho) e Edmilson (Morcego), dentre outros que passaram pelo Departamento de Materiais. Éramos a turma do almoxarifado.

Vivíamos unidos, como passarinhos no mesmo fio. Trabalhávamos muito, mas o ambiente era tão leve e alegre que as horas pareciam correr depressa. Poucas vezes, ao longo da minha vida profissional, encontrei um ambiente corporativo tão dinâmico, colaborativo e humano.

Porém, mesmo gostando daquele trabalho, dois anos depois tomei uma decisão que mudaria completamente o rumo da minha história.

O que o destino me reservava em São Gabriel

Meu pai havia sido transferido pela FUNAI – Fundação Nacional do Índio – para São Gabriel da Cachoeira, onde assumiria a função de Delegado de Base do Alto Rio Negro. Resolvi acompanhá-lo, sem imaginar que aquela mudança definiria toda a minha vida profissional.

Naquele momento eu buscava novos caminhos. Havia deixado Manaus para trás e ainda não fazia ideia do que faria dali em diante.

Foi então que meu pai lançou uma pergunta aparentemente simples.

– Por que você não fica por aqui?

Ele estava iniciando um projeto de compra de produtos do extrativismo, como sorva, cipó e piaçava, que seriam armazenados e posteriormente enviados para Manaus. Explicou que o trabalho não exigiria dedicação diária, já que as embarcações não chegavam todos os dias.

Mas foi a frase seguinte que mudou definitivamente o meu destino.

– Também está surgindo uma rádio por aqui. Você não gosta de rádio?

Gostar era pouco.

Eu era apaixonado pelo rádio, embora ainda não tivesse tido uma experiência profissional diante de um microfone.

Meu pai então me apresentou ao gerente da emissora, José Carlos. Daquela conversa nasceram os testes, os treinamentos e, finalmente, a oportunidade que abriria as portas para uma profissão que me acompanharia por toda a vida.

Entretanto, São Gabriel da Cachoeira não me ensinou apenas a fazer rádio.

A cidade me apresentou uma Amazônia que eu ainda não conhecia.

Chamava minha atenção ver os casais indígenas caminhando pelas ruas. Quase sempre a mulher carregava nas costas um grande paneiro, conhecido como waturá, preso por uma faixa apoiada na testa. Dentro dele seguiam farinha, macaxeira, utensílios e tudo o que fosse necessário para o dia a dia. Muitas vezes, além de toda aquela carga, ainda levava uma criança apoiada na cintura.

À frente caminhava o homem, trazendo apenas um terçado.

Confesso que meu primeiro julgamento foi precipitado.

Comentei com meu pai:

– Como pode? A mulher leva todo o peso e o homem vai na frente carregando apenas um terçado?

Ele sorriu e respondeu com a serenidade aquariana, que lhe era peculiar, de quem conhecia profundamente aquela realidade.

Explicou que, naquela tradição, cabia ao homem proteger a família. Precisava manter as mãos livres para abrir caminhos na mata, enfrentar obstáculos e reagir rapidamente diante de qualquer ameaça.

Naquele instante compreendi que eu estava olhando uma cultura milenar com os olhos de quem ainda não conhecia sua lógica.

Foi uma lição que nunca mais esqueci.

Aprendi que nem sempre aquilo que parece injusto à primeira vista pode ser compreendido sem antes conhecer a história, os costumes e o ambiente em que nasceu.

Outra curiosidade despertava meu interesse. Observava que muitos indígenas caminhavam com os pés voltados ligeiramente para dentro. Na época ouvi explicações de que essa característica favoreceria a locomoção em determinados terrenos da floresta, proporcionando maior equilíbrio e segurança.

Nunca soube afirmar se essa explicação possuía fundamento científico. Mas lembro perfeitamente do fascínio que essas descobertas despertavam em mim.

São Gabriel da Cachoeira transformou-se numa grande escola.

Ali aprendi que a Amazônia guarda conhecimentos que dificilmente cabem nos livros. Eles vivem na experiência acumulada de seus povos, transmitida de geração em geração.

Antes de me ensinar a falar ao microfone, São Gabriel ensinou-me a observar.

E, antes de comunicar, ensinou-me a ouvir.

Por hoje, é só, meus amigos!

Sábado que vem, teremos uma nova aventura, neste canal, através dos Fragmentos de Memórias em AM e FM.

Fraterno abraço.

Imagens ilustrativas: AI, sob orientação do autor.

*Moisaniel Barbosa Filho é jornalista, radialista e especialista em Gestão Ambiental. Tem 45 anos de carreira na comunicação da Amazônia, com passagens pela Rede Amazônica, CBN e Rádio Nacional. Atualmente, é Ouvidor-Geral de Itacoatiara (AM), articulista e autor do livro Memórias em AM e FM.

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