Manaus, 29 de novembro de 2023

Regional e universal

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Universal e regional é uma dicotomia engendrada no mundo moderno. Não são categorias estéticas divergentes, mas pretendem ser uma hierarquia. No século XIX, Leon Tolstoi se deu ao trabalho de esclarecer que, no caso da literatura, quanto mais esta fosse fiel à própria aldeia, mais universal seria. É curioso que tal observação tenha sido feita por um russo, e não por um francês ou um alemão. É bem provável que Tolstoi estivesse reagindo ao fato de que a recepção da literatura da Rússia estava exilando-a no gueto do Regional, patamar abaixo do Universal, já que provinha de um país periférico e semibárbaro com então era visto na Europa Ocidental.

Ainda recentemente a revista VEJA insultou, como sempre, a inteligência brasileira, carimbando o romancista Milton Hatoum como regionalista, com o explícito intento de diminuir sua importância como autor, contrastando-o aos superiores autores sulistas, todos universais. A questão, portanto, nada tem a ver com estética e criação literária, mas de uma hierarquização preparada para manter a hegemonia de certas regiões avançadas e modernas sobre as outras primitivas e pobres.

Uma literatura regionalista parece ser algo tão improvável quanto uma literatura amazônica. No que diz respeito à literatura amazônica, o que há é uma literatura que se escreve na Amazônia, e que faz parte – quando merece – do corpus da Literatura Brasileira. Quanto ao regionalismo, é uma invenção nordestina, um rótulo geográfico e ideológico que criaram para se contrapor ao modernismo paulista.

Modernismo, aliás, do qual participamos na primeira hora. Abguar Bastos, Pereira da Silva e Bruno de Menezes estão ai para provar. Trata-se de um rótulo tão pouco cultural e histórico que os sulistas acabaram por entender que regionalismo é tudo o que é produzido da Bahia para cima, ou seja, tem a ver com desenvolvimento econômico, tamanho da pobreza, quantidade de políticos corruptos e folclóricos, enfim, esses índices do subdesenvolvimento físico e mental. O problema é que nada disso define uma literatura, nem faz uma estética, nem garante a qualidade criadora. Ainda mais quando aplicada à literatura dos autores da Amazônia, e especialmente à cultura amazônica como um todo. Porque justamente a Amazônia, como prova a sua própria história, é uma região acostumada com a modernidade.

Nos 500 anos de presença da cultura europeia, experimentou os métodos mais modernos de’ exploração. Cada uma das fases da história regional mostra a modernidade das experiências que foram se sucedendo: agricultura capitalista de pequenos proprietários em 1760, com o Marquês de Pombal; economia extrativista exportadora, em 1890 com a borracha; enclave industrial reexportadorem 1968 com a Zona Franca de Manaus e proposta de desenvolvimento sustentável em 2000. Os habitantes da Amazônia, portanto, não se assustam facilmente com problemas de modernidade, o que vem provar que a região é bem mais surpreendente, complexa e senhora de um perfil civilizatório que o falatório internacional faz crer. Não é por outro motivo que a Amazônia continua um conveniente mistério para os brasileiros. Afastando-se os entulhos promocionais, as falácias da publicidade e a manipulação dos noticiários de acordo com os interesses econômicos, nota-se que a Amazônia vem sendo quase sempre vitimada, repetidamente abatida pelas simplificações, pela esterilização de suas lutas e neutralização das suas vozes.

Sem a necessária serenidade, e visão crítica da questão a partir de um projeto de sociedade nacional, os brasileiros deixam- se levar pela perplexidade quando não sucumbem definitivamente à propaganda. A questão da região amazônica é sem dúvida fundamental para entendermos bem a diversidade do Brasil. Mas nem sempre foi possível o acesso ao passado da grande planície.

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