Manaus, 7 de janeiro de 2026

Crônicas do Cotidiano: Coisas daqui e de Ultramar

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Dois fatos importantes da semana passada merecem destaque e trago-os à baila, por receio que se diluam em outros de maior gravidade. No Brasil, a situação é tensa: parece que entramos na terceira fase da Intentona de Golpe de Estado. No Congresso, a extrema direita e parte da direita juntaram-se ao “Mercado”, em mais uma tentativa de Golpe, buscando encurralar o Executivo e o STF por via das chamadas “pautas bombas” e em nome da “tal segurança jurídica”. Foi vergonhoso ver o Presidente do Congresso convocar coletiva de imprensa e afirmar que enfrentaria o “insulto ao Congresso” praticado pelo Executivo com a ajuda do STF, usando um agravo contra a liminar expedida pelo Ministro Cristiano Zanin, que suspendeu um ato da casa. Por trás do Presidente do Congresso, estavam os parlamentares que defendem o impeachment de Ministros do STF. Tudo isso para salvar a lei que prorrogou os privilégios de 17 setores da economia e Municípios, que não querem pagar impostos. Que tristeza, que vergonha! Os empresários brasileiros alardeiam que sustentam a Nação com “os impostos que pagam” e dizem que estes são os mais altos do mundo. O Brasil está entre os países onde o imposto é alto, mas a sonegação dos empresários é, também, incomensurável; o que é mais grave, não dizem que eles são, apenas, fiéis depositários dos impostos pagos por nós consumidores de bens, tangíveis ou intangíveis. Quando não sonegam, apenas, fazem o favor de entregá-los ao Estado para cobrir os gastos necessários. Portanto, quando sonegam ou corrompem, furtam o dinheiro do povo e golpeiam a democracia. O Roubo dos poderosos é antigo, foi uma herança e o Padre Antônio Vieira já dizia no seu Sermão do Bom Ladrão, proferido na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), em 1655, perante Dom João IV e sua Corte: “O que posso acrescentar pela experiência que tenho é que não só do Cabo da Boa Esperança para lá, mas também da parte de aquém, se usa a mesma conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio…Tanto que lá chegam começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos, é que lhes apontem e mostrem os caminhos onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quantos lhes mandam; e para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem; e gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade as fazem suas; Furtam pelo modo conjuntivo, porque juntam o seu pouco cabedal com o daqueles que desejam muito; e basta só que se ajuntem a sua graça, para serem, quando menos, meeiros da ganância. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo”. Portanto, a arte de furtar veio no saco cultural da colonização, que nos trouxe, também: a escravidão indígena e a África inteira escravizada; a corrupção e o gosto pela violência; o preconceito e a desigualdade; a cruz, o canhão e a espada; a língua imposta, que se sobrepujou às demais; a poesia e a arte; e um modo de ser, que esconde o mal feito e reivindica a decência, hoje, a cara perfeita de nossas elites, “Santos de Pau Oco”.

De Ultramar, comemorando a Revolução dos Cravos (24 de abril), o Senhor Presidente da República de Portugal, num gesto honroso e sincero, pede desculpas pela violência e pelos crimes cometidos por Portugal contra os povos de suas ex-Colônias e fala em reparação. É claro que será difícil pagar essa conta. Até porque é impagável. Da minha parte, sentir-me-ia satisfeito com algumas coisas: que Portugal contivesse a estupidez da sua extrema direita; que tratasse com dignidade os imigrantes de todos os naipes; que reescrevesse a sua história, para que nela coubesse o sofrimento dos colonizados. Não desejamos benesses: Caravelas carregadas com o legítimo Bacalhau Imperial do Porto, Vinhos Portugueses Varietais e Pastéis de Belém (ou de Nata) para lauta sobremesa. O gesto presidencial é simpático, mas não sara as feridas ainda presentes nos sobreviventes dessas viagens coloniais, que com “armas e barões assinalados…passaram além da Taprobana” (Camões), deixando um lastro de cultura, de destruição, de dor e de fado!

II

Crônicas do Cotidiano: “Soy Loco Por Ti América”

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A canção de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Capinan (1968) que tomamos como título da crônica é uma crítica à repressão no Brasil e em outros países da América nos estertores da Guerra Fria e teve o condão de tornar-se o hino das esquerdas para perpetuar Che Guevara como líder socialista da América Latina. Os autores driblaram a censura brasileira ao referir-se ao guerrilheiro, na letra da canção, como “el nombre del hombre muerto” (o nome do homem morto), além da referência ao líder Cubano José Marti. Marcou, também, o momento histórico sombrio da América Latica afundada em ditaduras, autoritarismos e barbáries, promovidas ou apoiadas pelo Império Americano com sua CIA, em conluio com os Generais fascistas e as elites que temiam as transformações sociais que solapassem os seus privilégios. A América estava Mergulhada na Escuridão, a mesma escuridão que cobriu os céus da Venezuela para o neoimperialismo de extrema direita americano infringir as leis internacionais e conspurcar todos os princípios da convivência entre nações soberanas. Maduro é um detalhe, o imperialismo e o desrespeito à soberania das nações para confiara-lhes riquezas que não lhes pertencem é o problema principal. Houve crime!

Donald Trump, presidente americano, não inova, apenas retoma o que há de mais insano de seus antecessores, que acreditam na predestinação da América do Norte – o tal “destino manifesto”, que mais tarde (início do século XIX) chamou-se Doutrina Monroe e, agora o imperador de plantão tenta emplacar como “Doutrina Donroe”, para que se cumpra a máxima de que a repetição da tragédia seja como farsa. Maduro e Esposa foram sequestrados após um bombardeio pelo arsenal de guerra americano e pela ação de uma tropa de elite e prováveis traidores de plantão, como soe acontecer. Estão presos, acusados de “narcoterrorismo”, crime inventado pela extrema-direita e não aceito na criminologia da maioria dos Estados Democráticos.

Pobre Venezuela: não lhe bastava ser o berço mais próspero dos Caudilhos das Américas, que lhes roubaram a seiva democrática por mais de um século; dona de uma elite branca, estúpida e extremamente cruel, que se arvora sempre do comando político e econômico da Nação; agora, aqueles que lideraram os movimentos reformistas, prometendo por fim às desigualdades, por apego ao poder, tornaram-se miseráveis algozes do povo, iguais aos que haviam substituído. A Revolução Bolivariana enganou o povo. Hugo Chávez, para manter-se no poder, desde 1998, quando eleito pela primeira vez, foi permissivo a um generalato corrupto que o cercou muito tempo, assenhorou-se das instituições civis, enfronhou-se nas atividades econômicas e será difícil negar um envolvimento com o narcotráfico, dando margem para as acusações que lhes são feitas. Maduro, por sua vez, ao suceder Chávez após a sua morte em 2013, foi aprofundando a destruição de todas as instituições que davam sustentação do Estado Venezuelano: armou as Milícias de apoio do governo; aparelhou a justiça demitindo, prendendo e substituindo juízes; fechou o Congresso e o reabriu após aniquilar com prisões, torturas, mortes e banimento toda a oposição a seu governo; fraudou eleições e tornou-se um tirano do seu próprio povo que, sem alternativas, espalhou-se como imigrante por todos os países das Américas (cerca de 8 milhões). Entre os que ficaram, 53% da população mergulha na pobreza e na miséria. Além do desamparo na garantia de direitos fundamentais.

Isolada do concerto mundial das nações, a Venezuela, em sendo detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, tornou-se presa fácil, por obra e graça de seu Ditador e do Governo Trump, que vinha mirando e escolhendo um porto seguro para dizer a toda a América Latina que ela é o seu quintal e fará tudo que ele quiser. Não será bem assim, mas a declaração de terrorismo de estado e instabilidade internacional criarão um inferno para todos. Os congêneres de extrema-direita não venezuelana veem nesse episódio uma “porta da esperança” para seus intuitos e os venezuelanos, que comemoram uma “libertação”, não sabem do seu amanhã. Todos estão com as “barbas de molho” enquanto as riquezas da Venezuela estão sendo divididas entre os vencedores

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