
*Vinícius Alves da Rosa
Continuação…
1. DOIS QUILOMBOS E A RESPECTIVA FORMAÇÃO HISTÓRICA: QUILOMBO URBANO DO BARRANCO DE SÃO BENEDITO – MANAUS/AM E QUILOMBO RURAL SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS DO LAGO DO SERPA – ITACOATIARA/AM
O primeiro capítulo propõe enfocar os quilombos e a respectiva formação histórica, a saber: Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito – Manaus/AM e Quilombo Rural Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa – Itacoatiara/AM. Ele tece a caracterização de ambas as comunidades quilombolas, a fim de mostrar as trajetórias históricas dos quilombos investigados, ainda que a preocupação central da tese, por ora elaborada, esteja delimitada às análises da religiosidade popular das duas unidades étnicas inseridas na Amazônia. Entretanto, o esforço epistêmico dedicado a este capítulo não adentra as discussões referentes à religiosidade; o assunto será abordado sistematicamente no desenvolvimento posterior do presente trabalho de âmbito científico, produzido a partir da área das Ciências da Religião.
Manaus, no final do século XIX e início do século XX, experimentou um período de prosperidade econômica, advindo do que a historiografia regional consolidou como Belle époque Amazônica (Dias, 2003; Daou, 2005; Silva, 2012; Costa, 2014; Pinheiro, 2015, 2017), o que possibilitou a transformação urbana da cidade, sendo o então governador, Eduardo Gonçalves Ribeiro, o principal responsável por essas mudanças urbanas (Mesquita, 2009).
Nesse momento, a cidade recebeu uma leva de migrantes atraídos pelas promessas de fortuna com a comercialização da matéria-prima relacionada ao ciclo econômico da borracha ou pelo crescente mercado de trabalho que despontava na chamada “Paris dos Trópicos”. Além do rápido crescimento populacional, o processo de urbanização modernizadora de Manaus foi marcado também pela implementação, por vezes pioneira, de serviços urbanos de ponta, como se fossem linhas de bondes e telefônicas, o sistema de iluminação elétrica, além das redes de água e esgoto (Pinheiro, 2015, p. 29).
Dentre os estrangeiros migrantes, ganham destaque os portugueses, espanhóis, italianos, ingleses, franceses e sírio-libaneses e, entre os nacionais, aqueles geralmente oriundos dos estados do Ceará, Pará, Maranhão, entre outros. Estudos apontam que os recém-chegados se estabeleceram na cidade constituindo vilas e comunidades ou se mantiveram espalhados pelos diversos novos bairros que se formaram.
Ainda que a capital do Amazonas tenha recebido os símbolos urbanos provenientes do colonialismo europeu, materializados à época na arquitetura do seu centro histórico, construído para negar as características da cultura indígena local, quer-se, aqui, à luz do referencial teórico e a partir de realidades concretas, destacar o legado da população negra nos processos históricos de formação das identidades étnicas nas comunidades quilombolas da Amazônia brasileira.
Em Manaus, podemos destacar a chegada dos maranhenses, especificamente ao bairro Praça 14 de Janeiro, no final do século XIX, no lugar onde está localizado o atual quilombo do Barranco de São Benedito. Consoante relato dos quilombolas mais antigos, essa expedição era composta pelos seguintes integrantes: Vovó Severa (Maria Severa Nascimento Fonseca) e seus filhos, Antão Nascimento Fonseca, Raymundo Nascimento Fonseca e Manoel Nascimento Fonseca, além do casal de amigos da família, Fellipe Nery Beckman e Maroca Beckman.
Para fins da correta compreensão dos nomes concernentes aos agentes sociais estabelecidos no bairro Praça 14 de Janeiro, no município de Manaus, faz-se necessário registrar que a Sra. Maria Severa, carinhosamente chamada pelos seus familiares de Vovó Severa, foi casada com o Sr. Antão do Nascimento Fonseca, vítima de assassinato no estado do Maranhão, fatos estes que foram narrados pelos interlocutores da pesquisa, pertencentes à linhagem de descendência de Antão e Vovó Severa.
Dona Maria Severa, por todos assim conhecida – cujo nome de batismo, tempos depois, verificou-se ser Lucia do Nascimento Fonseca –, dera ao filho mais velho o nome de Antão. Assim entendido, além de o primogênito receber o mesmo nome de seu pai, Lucia e Antão tiveram outros dois filhos: um, de nome Manoel Nascimento Fonseca; e, com o mesmo sobrenome, o outro chamou-se Raymundo. Este nome foi grafado com a letra “y”, e Raymundo, por sua vez, tivera um filho ao qual deu o nome de Raimundo, grafado com a letra “i”, sendo este, portanto, neto de Antão e Maria Severa.
Em Manaus, a exemplo desses fatos ocorridos com os migrantes do Estado do Maranhão, no município do Amazonas, meados do século XIX, mais precisamente no ano de 1857, na Colônia Agroindustrial, registra-se o desembarque de trinta e quatro africanos livres. Trata-se do atual município de Itacoatiara/AM, cujos negros foram trazidos para trabalhar em serraria, olaria, estaleiro, bem como na agricultura de propriedade do Sr. Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, sendo eles os fundadores do atual quilombo Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa.
Do ponto de vista geral, a respeito desse contingente negro com origem no Nordeste ou na região Sudeste do país que se deslocou para o Amazonas, cabe registrar que, em período anterior à Abolição, embora o número desses migrantes não seja tão expressivo, a presença negra contribuiu para a lógica organizacional do mercado produtivo, tanto na cidade de Manaus quanto no interior do estado, como observa Pinheiro (2017):
Com relação a presença negra no universo do trabalho em Manaus, somente com o pós-abolição é que se torna possível perceber alterações mais significativas, no sentindo de uma maior ampliação da participação negra, tanto no interior da sociedade amazonense quanto dos contingentes de trabalhadores urbanos atuando em Manaus (Pinheiro, 2017, p. 27).
Estando organizados nos quilombos ou mocambos, de acordo com dados oferecidos pelo INCRA (2024), no Amazonas registram se 15 (quinze) quilombos oficialmente identificados pela Fundação Cultural Palmares – FCP como comunidades remanescentes de quilombos, a saber: em Manaus, o Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito/Praça 14 de Janeiro; no interior do Estado, em Itacoatiara, o Quilombo Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa; em Novo Airão, o Quilombo do Tambor, São Lázaro do Jau e Cachoeira do Jau; em Urucurituba, Santa Maria do Igarapé do Mato; e as 09 comunidades quilombolas no rio Andirá/município de Barreirinha: Santa Tereza do Matupiri, Ituquara, Boa Fé, São Pedro, Trindade, São Paulo do Açu, São João do Urucurituba, Nossa Senhora da Conceição (Vila Carneiro) e Monte Horebe.
Esses quilombos expressam uma constelação de unidades sociais e, aqui, brevemente situados no contexto histórico do Estado do Amazonas, dão a exata dimensão sobre o grau de importância quanto a enveredar por trilhas investigativas que nos permitam compreender e analisar a formação histórica dos quilombos em Manaus e Itacoatiara.
Trata-se de deslindar, pelas configurações socioculturais, os nexos que se interligam para, assim, ter ciência dos fatos que contribuíram para a afirmação identitária dos quilombolas, bem como suas formas de organização ou resistências na manutenção dos territórios, ou seja, nos processos estabelecidos pelas lutas por reconhecimento identitário.
Assim entendido, na seção posterior, apresentar-se-á o “mito de origem” dos dois quilombos: da comunidade do Barranco de São Benedito, em Manaus, e do quilombo rural de Itacoatiara, ambos lócus da presente pesquisa e das reflexões delineadas a seguir.
Continua na próxima edição…
Vinicius Alves da Rosa, quilombola de Morro Alto, RS, professor, doutor em Ciências da Religião.
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