
*Vinícius Alves da Rosa
APRESENTAÇÃO
Maria Magela Mafra de Andrade Ranciaro1
Resultado de um denso trabalho de pesquisa, vem a público a presente obra intitulada Epistemologia da Religiosidade nos Quilombos. Trata-se de uma tarefa epistemológica assumida pelo autor ao longo de seus estudos investigativos realizados quando da elaboração da tese que tem por título: “Religiosidade Popular nos Quilombos Urbanos e Rurais da Amazônia: um estudo da comunidade do Barranco de São Benedito, em Manaus, e do Sagrado Coração de Jesus do Lago do Serpa, em Itacoatiara-AM1.
Através dessa produção acadêmica, verificam-se múltiplas redefinições acerca do cotidiano de comunidades quilombolas, urbana e rural, com o franco propósito de redesenhar, ou seja, de ressignificar e deslindar os processos político-culturais em curso no Amazonas. O eixo articulador dessa cotidianidade se espraia para além das eventuais análises sobre terra, tempo e espaço. Assim, com base nas interpretações epistêmicas sobre as territorialidades específicas2 – encapsuladas no conceito que define a compreensão acerca de terras tradicionalmente ocupadas –, o autor insere, de forma inédita, os contornos que perpassam os processos de construção atinentes à cultura material e imaterial, explicitando com isso a forma como os quilombolas constroem através da religiosidade suas conexões com o sagrado. Esse aprofundamento vai sendo modelado por dados coletados pela pesquisa empírica, fundada num repertório analítico sobre as festas populares, seus ritos, cultos, liturgias e as expressões de fé e devoções dos quilombolas aos seus santos padroeiros.
Percebe-se que, para além desse fio condutor, carregado de valores simbolicamente religiosos, o autor se deu ainda ao propósito de desvendar as nuances de cunho mobilizatório que definem e traçam os indicadores constitutivos das lutas político-organizativas dos quilombos em análise. Assim, como num giro estratégico, a pedra angular lançada se desloca para o campo dos conflitos ocorridos naqueles territórios tradicionalmente ocupados, permitindo ao leitor compreender tanto os mitos fundantes desses agrupamentos sociais quanto as formas organizativas dos quilombos e suas estratégias de resistência política. Concorrem para isso duas ordens de causa. A primeira diz respeito à exposição dos assuntos subjacentes à imersão de uma literatura compatível com o exercício da reflexividade no âmbito teórico. A segunda condição, de ordem prática, requer do autor certa inflexão tendo em vista suas afinidades identitárias e culturais, cujas relações de parentesco se vinculam aos membros da comunidade quilombola Morro Alto, município de Maquiné, no Rio Grande do Sul e o de Osório, no mesmo Estado.
Assim entendido e, de acordo com o objetivo fundante da investigação que visa compreender as crenças populares e suas perspectivas político-culturais – tanto dos marcadores simbólicos da religiosidade quanto das lutas por direitos étnicos frente aos conflitos fundiários –, a presente obra está organizada tendo por base um arcabouço teórico interpretativo conduzido por via de quatro capítulos e seus respectivos subitens.
O primeiro capítulo tem como título: “Dois quilombos e a respectiva formação histórica: quilombo urbano do barranco de São Benedito – Manaus/Am e quilombo rural Sagrado Coração de Jesus do Largo do Serpa-Itacoatiara/Am”. Um dado relevante desse assunto que se reporta aos processos de construção histórica dos quilombos é a capacidade com que o pesquisador expõe assuntos a respeito dos quais não há registros oficiais. Assim, de forma exemplar, o autor, amparado nas narrativas dos agentes sociais, os designa como verdadeiros portadores das memórias, permitindo ao leitor compreender todo o processo de construção étnica, respectivamente, dos quilombos urbano e rural. Quanto aos mitos de origem dos quilombos, um dado relevante de fatos guardados nas memórias coletivas diz respeito a personagens historicamente marcantes. Por exemplo, no quilombo urbano da Praça 14 de Janeiro, em Manaus, tem-se o registro da chegada dos maranhenses que se deu no final do século XIX. São eles: Vovó Severa (Maria Severa Nascimento Fonseca), e seus filhos, Antão Nascimento Fonseca, Raymundo Nascimento Fonseca e Manoel Nascimento Fonseca, além do casal de amigos da família, Fellipe Nery Beckman, e Maroca Beckman. Quanto ao quilombo rural, localizado no município de Itacoatiara/Am, tendo por base a observação direta e sistemática, o autor sustenta que, em meados do século XIX, mais precisamente no ano de 1857, na Colônia Agroindustrial, registra-se a chegada de 34 (trinta e quatro) africanos livres, negros que foram trazidos para o árduo trabalho na agricultura, extensivo a outras atividades a serviço de serraria, olaria, estaleiro, sendo eles próprios, conforme sinalizado pelo autor, os fundadores do atual quilombo Sagrado Coração de Jesus do Largo do Serpa.
No segundo capítulo, intitulado “A religiosidade popular: uma categoria analítica”, o autor mergulha numa incursão teórica, estabelecendo acurada relação dialógica com autores especializados neste campo de discussão e suas respectivas áreas do saber voltadas, portanto, para questões da teologia, das ciências sociais, abarcando com isso o campo interdisciplinas da história e da antropologia. As categorias analíticas tomadas como fundamento das discussões perpassam múltiplas análises acerca do que vem a ser o tema popular no contexto do catolicismo ou de outras religiosidades praticadas a propósito daquelas, por exemplo, de matrizes africanas, do pentecostalismo e do xamanismo. Outras categorias são utilizadas no curso das discussões e a respeito das quais o autor coloca em destaque as terminologias: hibridismo, bricolagem e amalgamação. Diz respeito, portanto, a uma tríade de pressupostos explorados pelo pesquisador com vistas a subsidiar suas análises de cunho antropológico. Para dar conta daquelas dimensões relativas aos aspectos simbólicos da religião fundados sob o prisma epistêmico das identidades étnicas, tais discussões amparam-se nos contextos destas crenças, cuja ênfase se volta para os santos de devoção, simultaneamente examinadas por via das festas religiosas, quais sejam: a festa de São Benedito ocorrida no quilombo urbano do Barranco, no bairro da Praça 14 de Janeiro, em Manaus; e a festa de Nossa Senhora Aparecida realizada no quilombo rural Sagrado Coração de Jesus, localizado no Lago de Serpa, município de Itacoatiara/Am.
No terceiro capítulo identifica-se o tema “Aspectos político econômicos da religiosidade nos quilombos urbano e rural do Amazonas”. Trata-se do desdobramento analítico de um enfoque através do qual o autor busca refletir sobre a capilaridade do poder, articulando-a sob o ponto de vista do pertencimento e permanência dos quilombolas nos respectivos territórios. Em meio às práticas religiosas, o eixo articulador deste capítulo vai se expressando por via de interesses que demarcam as lutas coletivas notadamente enfrentadas perante aos distintos antagonistas, sejam eles internos ou pertencentes a instituições de controle na esfera da vida social. Para dar ênfase ao tema proposto o autor recorreu à pesquisa empírica realizada junto aos quilombos urbano e rural. Tendo por base os pressupostos epistemológicos acionados ao longo da tese, tais narrativas estão analisadas a partir da sistematização dos dados concernentes à vida cotidiana dos quilombos, ou seja, da produção e reprodução da vida social, cultural e econômica, permitindo se, desta feita, identificar tanto os conflitos agrários quanto as lutas engendradas pelos quilombolas em torno da política de territorialidade nos respectivos espaços sociais. Para tanto, o autor aprofunda discussões acerca da categoria quilombo, explicitando-a consoante a ressemantização do termo evocado num plano conceitual. Fato este que permite, na atualidade, entender que a luta do movimento político-organizativo dos quilombos é, em si mesma, uma “ação coletiva que não dissocia lutas econômicas de afirmação identitária, e nem tampouco território de identidade” (Almeida, 2011, p. 49). Assim entendido, o quilombo está aqui analisado a partir do campo de disputas ocorridas no contexto das realidades rural/urbano e seus desdobramentos forjados, sobretudo, no interior da Amazônia.
O quarto capítulo diz respeito ao tema “Etnografando os quilombos rural e urbano: a vida religiosa e outros aspectos do cotidiano”. Organizado em quatro subitens, os assuntos decorrentes se pautam numa etnografia, cuja discussão se volta para a compreensão dos dados empiricamente coletados, tanto sob o ponto de vista da religiosidade quanto dos conflitos agrários. Num quadro geral, tais assuntos emergem como expressões advindas do cotidiano quilombola, ressaltando-se as narrativas dos interlocutores da pesquisa quanto aos processos de construção histórica dos quilombos urbano e rural. Tais assuntos consolidam-se como síntese das relações de existência material desses indivíduos objetivamente identificadas nos construtos de suas práticas de religiosidade, bem como se explicita o enfretamento das lutas resultantes dos conflitos agrários, temas, estes, tomados como objeto de discussão dialógica estabelecida entre o campo empírico e a produção científica. Tem-se aí uma etnografia fundada no escopo da antropologia interpretativa face a que o autor identifica como sendo uma análise epistêmica, prevendo chegar a uma compreensão seguramente diversa quanto ao entendimento acerca das vivências objetivamente materializadas no cotidiano daqueles quilombos urbano e rural.
Para além dos assuntos em destaque, no referido capítulo o autor insere assuntos a respeito dos quais convém aqui ressaltar as análises constantes do subitem que expõe a construção de um diagrama que registra a genealogia da família Fonseca, marco da referência histórica daquele espaço urbano, por todos chamado de Quilombo do Barranco de São Benedito, situado no bairro da Praça 14 de Janeiro, área central da cidade de Manaus. O item subsequente aborda situações sobre o processo de construção étnica do quilombo localizado no Lago do Serpa, em Itacoatiara/Am. Trata-se das relações de parentesco advindas dos então chamados “troncos velhos”, termo este empregado em alusão às primeiras famílias a adentrarem o quilombo. São elas: Sabino, Melo, Macedo, Clarindo e os Barros. Sobre os conflitos agrários o autor coloca em evidência os problemas enfrentados perante seus distintos antagonistas, via de regra, vinculados aos agronegócios que, por objetivos adversos, se colocam contrários à titulação fundiária daquele território historicamente ocupado.
Em que pese todos os meandros das análises e interpretações constantes desta obra, o dado histórico fica deveras evidente quando o autor, amparado na tese de doutorado elaborada pelo professor quilombola, Claudemilson Nonato Santos de Oliveira, destaca que nesse trabalho o pesquisador informa que “segundo as certidões emitidas pela Prelazia de Itacoatiara, no ano de 1857, a Igreja Nossa Senhora do Rosário batizou 7 (sete) africanos livres, todos adultos, sendo os seus nomes: Paulo, Bernardo, Estevão, Rodolpho, Jeremias, Filizardo e Augusto, demonstrando desde então a ligação dos negros do Serpa com a religiosidade católica” (Vide: Nota de Rodapé Nº 61).
Por fim, no quinto capítulo, intitulado “O Caderno Iconográfico” registra-se, de forma minuciosa, um acervo contendo 35 (trinta e cinco) figuras capturadas por via da pesquisa empírica, inexoravelmente atrelada à dinâmica das interpretações epistêmicas, imprimindo ao presente trabalho a importância quanto adicionar ao patrimônio intelectual dados da reflexividade inseridos nos meandros dos saberes tradicionais, objeto das análises acerca dos quilombos urbano e rural, portanto, cientificamente interpretados na presente obra.
PRÉFACIO
Entre o Barranco e a Água: As Trilhas da Fé Quilombola
Rafaela Fonseca da Silva3
A Amazônia, muitas vezes narrada apenas sob o prisma da exuberância natural, guarda em suas entranhas urbanas e ribeirinhas cartografias de resistência que o mapa oficial tentou apagar. Então, contrário ao que propõe o senso comum, a tese de Vinicius Alves da Rosa – para além de um eventual levantamento acadêmico – é, simultaneamente, um processo de inflexão e reflexão, ou seja: é um mergulho nas águas do Lago do Serpa, em cujas margens está localizado o quilombo Sagrado Coração de Jesus, município de Itacoatiara; por outro lado, trata-se de uma caminhada pelas calçadas da Praça 14 de Janeiro, na cidade de Manaus/Am, onde está situado o Quilombo do Barranco de São Benedito.
Em ambos, por via da observação direta e sistemática, o autor privilegia a escuta das narrativas dos agentes sociais com vistas a identificar como se deu o processo de construção histórica dos quilombos. Assim, de acordo com a memória coletiva, no Quilombo do Barranco de São Benedito, situado nas proximidades da Praça 14 de Janeiro, tal iniciativa se dá a partir do ano de 1890, ou seja, no final do Século XIX quando da chegada dos maranhenses: Felipe Nery Beckman, Maroca Beckman e Severa Nascimento. Quanto ao quilombo rural, localizado no município de Itacoatiara/Am, dados da pesquisa informam que em meados do século XIX, mais precisamente no ano de 1857, na Colônia Agroindustrial, registra-se a chegada de 34 (trinta e quatro) africanos livres, trazidos para o árduo trabalho na agricultura sendo eles mesmos, conforme sinalizado pelo autor, os fundadores do atual quilombo Sagrado Coração de Jesus do Largo do Serpa.
Trata-se das encruzilhadas quilombolas que vão se expressando através da memória coletiva, cujos marcadores históricos estão interligados ao sentimento de fé devotado a seus santos padroeiros. Tais tessituras se interligam, mostrando-nos aquilo que o silêncio e o canto têm a dizer sobre os negros quilombolas da região Norte do Brasil.
Ao confrontar a especificidade das circunstâncias verificadas em meio à realidade do Quilombo do Barranco de São Benedito com a do Sagrado Coração de Jesus, o autor nos convida a entender que a religiosidade popular não é um acessório da identidade quilombola, mas o seu próprio alicerce. Por exemplo, no Barranco, o Santo Negro, São Benedito, se torna o estandarte de uma negritude que ocupa a metrópole expressando-se por via das atividades culturais, quais sejam: a capoeira, o coco de roda, o tambor de crioula, extensivo a isso se tem os ritmos do maracatu e samba. Já no Lago do Serpa, a fé se manifesta como resistência “silenciosa”, onde a proteção do Sagrado Coração de Jesus resguarda um estilo de vida moldado pelo ciclo das águas, a exemplo das procissões que seguem de barco, levando o Santo ao longo dos rios, lagos ou enseadas.
Para além dessas experiências evidenciadas, o autor quilombola constrói em seu texto o conceito de território sagrado cuja designação sugere se tratar de um espaço social (Bourdieu, 2013) onde a prece se mistura em meio ao direito à terra. Assim entendido, esta tese revela como os agentes socais ressignificaram o cristianismo a eles imposto, transformando-o em uma ferramenta que engendra tanto as formas de existência material dos quilombos quanto garante a manutenção de laços comunitários. Trata-se, pois, do compromisso firmado por via das lutas do movimento político-organizativo que, em síntese, se voltam para o pertencimento e permanência dos respectivos grupos étnicos nesses territórios tradicionalmente por eles ocupados.
Daí a certeza de que a obra de Vinicius Alves da Rosa nos leva a reconhecer que o Amazonas também é negro. E, para além disso, é o entendimento tácito de que a reza, o mastro erguido, os quilombolas e a procissão são, antes de tudo, atos políticos de quem se recusa a ser esquecido. Trata-se, enfim, de um território em que os quilombolas insistem em repetir a pequena frase: “São Benedito, é ele quem nos move”.
Não obstante, que essas palavras sirvam de fôlego às comunidades estudadas e de espelho para uma ciência que precisa, cada vez mais, aprender com a sabedoria dos terreiros, dos lagos e dos barrancos.
PREFÁCIO
Quilombo de Sagrado Coração de Jesus do Lago De Serpa
Claudemilson Nonato Santos de Oliveira
Adentrar as páginas da obra, intitulada “Epistemologia da Religiosidade nos Quilombos”, é aceitar um convite para uma jornada que ultrapassa os limites geográficos do estado do Amazonas. Trata-se de um mergulho profundo nas águas da memória, da ancestralidade e da resistência de povos que, sob o manto da fé, reescreveram suas histórias de liberdade em meio à floresta e ao asfalto.
O estudo aqui apresentado debruça-se sobre um fenômeno de complexidade ímpar: a manifestação do sagrado como amálgama da identidade quilombola. O autor Vinicius Alves Rosa, conduz o leitor por dois cenários que, embora distintos em suas morfologias antropológicas/geográficas, convergem no pulsar de uma espiritualidade que não se deixa silenciar. De um lado, temos o Quilombo do Barranco de São Benedito, encravado no coração urbano de Manaus, onde o som dos tambores, e a tradição de saberes e fazeres afro desafia a verticalização da metrópole amazônica; e de outro, o Quilombo Sagrado Coração de Jesus do Lago do Serpa, em Itacoatiara, onde o ritmo das águas e o aparente silêncio da mata ditam o tempo do culto aos santos, da reverencia à reza e a oração.
A originalidade deste livro reside na capacidade de analisar a religiosidade não apenas como um conjunto de ritos litúrgicos, mas como uma tecnologia de sobrevivência. Na Amazônia, o quilombo não é apenas um refúgio histórico, é uma construção contínua de pertencimento e luta por direitos difusos. Ao investigar a devoção a São Benedito na Praça 14 de Janeiro, o texto revela como a herança maranhense se transformou em um baluarte da cultura afro-manauara, transformando a festa religiosa em um ato político de ocupação do espaço urbano por gerações.
Ao transitar para o contexto rural de Itacoatiara, a pesquisa nos presenteia com uma etnografia rica sobre o Lago do Serpa. Ali, a religiosidade popular se manifesta na simbiose entre o catolicismo e os saberes tradicionais, onde a figura do Sagrado Coração de Jesus se torna o guia de uma comunidade que luta pela regularização de seu território e pela preservação de seu modo de vida ribeirinho e ancestral. O autor demonstra, com rigor metodológico, que para o quilombola do Serpa, a fé é o que ancora a posse da terra e o manejo da natureza.
Esta obra preenche uma lacuna crucial na Antropologia e na Sociologia da Religião na Amazônia. Frequentemente invisibilizados por uma visão que homogeneíza o caboclo, os quilombolas do Amazonas emergem nestas páginas com voz e rosto próprios. A pesquisa utiliza o conceito de “território vivido”, mostrando que o sagrado é a fronteira que delimita quem eles são e o que defendem. A religiosidade popular é, portanto, o “fio de conta” que liga o passado escravocrata ao presente de lutas por direitos sociais.
Para além do rigor acadêmico, este livro é um tributo à sensibilidade. O leitor encontrará aqui os ecos das ladainhas, o brilho dos mastros decorados e o fervor das procissões que cruzam as ruas de Manaus e as águas de Itacoatiara. É uma obra indispensável para pesquisadores de Antropologia, Sociologia, Teologia e para todos aqueles que desejam compreender as raízes profundas da diversidade cultural brasileira. Que esta leitura seja tão transformadora quanto os rituais que ela descreve. Que ela nos ajude a entender que, na Amazônia quilombola, rezar é, antes de tudo, um ato de liberdade e fé.
INTRODUÇÃO
A pesquisa executada passou por mudanças atinentes à publicação no formato de livro. Convém referir, nos aspectos introdutórios aos leitores da presente obra, quais sejam: a reescrita do título, partes suprimidas da tese defendida junto ao Programa de Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, em 2024, alterações e acréscimos avaliados como necessários. O trabalho enseja contribuir no espaço acadêmico, especificamente no campo das Ciências da Religião, a partir da Amazônia como lócus de produção científica, considerando, assim, as distintas territorialidades, a natureza, o ritmo ditado pelas águas nessa região, a riqueza da cultura material e imaterial das comunidades quilombolas em contextos urbanos e rurais, que constroem, através da religiosidade, suas conexões com o sagrado, possibilitando o surgimento de ritos, cultos, liturgias, devoções aos santos padroeiros e festas populares.
A publicação investiga a religião como objeto central. Para conhecer quais elementos religiosos constituem-se na cotidianidade das comunidades étnicas quilombolas, analisa os vínculos estabelecidos entre os quilombos tradicionalmente ocupados para compreender formas organizativas, estratégias de resistências, os conflitos enfrentados nas lutas estabelecidas pelo movimento político autodesignado quilombola, que permitiram identificar os seus mitos fundantes nas realidades concretas dos grupos selecionados para este estudo.
A escrita acadêmica, por vezes, é um ato solitário, pois exige a disciplina constante, vigilância epistêmica, além do distanciamento das fronteiras limitantes pessoais do autor, consoante o necessário exercício da reflexividade no âmbito teórico e prático pela dinâmica estabelecida do sujeito em relação ao objeto.
Sobre as comunidades de remanescentes quilombolas, as motivações para estudá-las iniciaram-se pela identificação pessoal, mediante afinidades identitárias e culturais. Trata-se das relações de parentesco constituídas com membros da comunidade quilombola Morro Alto4, localizada no litoral norte do Estado do Rio Grande do Sul, no sul do Brasil.
As relações de parentesco em Morro Alto decorrem da família paterna do autor deste trabalho. Nesta comunidade, morava seu bisavô, Bras Floriano da Rosa, que era Inspetor de Polícia, e fora alfabetizado com mais de oitenta anos de idade no antigo programa de alfabetização de jovens e adultos, uma iniciativa do Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL5.
O avô, André Floriano da Rosa, era agricultor e, a exemplo do bisavô, ambos foram proprietários de engenho de cana-de-açúcar em Morro Alto. Por manterem vínculos afetivos com o território ocupado, os membros da família por parte de pai ainda hoje são moradores desta comunidade quilombola.
No tocante ao sobrenome Rosa adotado pelo autor desta pesquisa, cabe sublinhar, que a sua incorporação pela família originária de Morro Alto remonta ao nome da dona da fazenda, a Sra. de escravos Rosa Osório Marques; posteriormente, esse antropônimo passou a ser utilizado como sobrenome da família paterna do pesquisador.
O que era uma prática comum em relação as famílias de negros no período escravocrata, elas herdavam o sobrenome dos senhores ou senhoras de escravos, no caso específico a família Brás, como é conhecida na região, herdou o nome da Sra. Rosa, proprietária das famílias escravizadas em Morro Alto.
Em relação à família materna, o avô Ataliba Ernesto Alves nasceu em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre, foi morador do bairro Aldeia dos Anjos, e pertencia a uma família de negros; já a minha avó, Sempliciana Mesquita Alves, era natural de Terra de Areia, município do litoral norte gaúcho.
A avó Sempliciana foi alfabetizada pelo MOBRAL, e as memórias da família materna estão relacionadas às atividades agrícolas ligadas ao campesinato, desenvolvidas pelos avós em suas pequenas propriedades rurais, onde criavam cavalos, gado e plantavam pequenas roças para a subsistência familiar.
As referências familiares ajudaram a constituir enquanto ser no mundo. A consanguinidade, os laços de ascendência, a pertença étnica de relações construídas em uma unidade familiar constituída por pessoas negras e interações sociais estabelecidas com o entorno envolvente na região Sul do Brasil.
Além disso, como professor do componente curricular Ensino Religioso desde 2005, na Secretaria Municipal de Educação na cidade de Manaus, e, mesmo com a criação da Lei nº 10.639/03, que versa sobre a obrigatoriedade do ensino da “História e Cultura afro-brasileira” nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, das redes públicas e particulares do país, premente a necessidade de dar visibilidade à luta dos/as negros/as frente à sociedade como um todo.
Ademais, convém reconhecer a importância do povo negro na construção da identidade nacional, fato que leva a crer se tratar de extrema relevância explicitar as contribuições da negritude nas áreas social, cultural, econômica e política na história do Brasil.
Tais questões demandam decisões inadiáveis no tocante ao desenvolvimento de ações relacionadas à produção de conhecimentos, cujo resultado seja em uma educação pautada na visibilidade e no respeito às diferenças de grupos sociais distintos, dentre os quais figuram as comunidades quilombolas.
Cabe destacar que, no âmbito acadêmico registram-se estudos sobre a presença dos negros na Amazônia, como o clássico de autoria de Vicente Salles (1971), no Amazonas.
O cenário de invisibilidade mudou após o lançamento da obra O fim do silêncio: presença negra na Amazônia6 (2011), marco na historiografia regional, pois culminou na publicação de artigos que estavam sendo produzidos principalmente na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), contribuindo a dar visibilidade às comunidades negras e afrodescendentes no Estado.
Como afirma a organizadora do livro supracitado, a historiadora Patrícia Melo Sampaio:
É difícil saber quando e como temas importantes para a compreensão dos nossos dilemas do tempo presente caem no esquecimento; o tema da escravidão africana e da presença negra na Amazônia é um dos mais impressionantes. Vivemos em um país marcado por um longevo passado/presente escravista e isso deixou marcas severas; algumas parecem mesmo indeléveis. Entender a forma pela qual a escravidão se estabeleceu no Brasil e, principalmente, as formas pelas quais ela se enraizou nas nossas instituições, no modo, de pensar e de viver dos brasileiros, é um tema tido como fundamental nos mais diferentes campos acadêmicos: economia, sociologia, antropologia, direito, além da história (Sampaio, 2011, p. 8).
O livro está na segunda edição7, cujas produções científicas possibilitam refletir a partir das diferentes áreas do conhecimento para compreender a presença dos/as negros/as na Amazônia mediante relações de pesquisa construídas na região, com enfoque nos aspectos da cultura, identidade e trajetórias de distintos grupos étnicos em territórios historicamente ocupados.
A historiografia local dedicou pouca atenção aos estudos do período escravista dos negros no Amazonas. Os escritores, bem como os comentadores regionais, defendiam a tese de que a presença negra teria sido inexpressiva e, portanto, a literatura oficial colaborou com o silenciamento e invisibilidade das memórias e mobilizações do povo afrodescendente.
Particularmente, no caso da Amazônia, convém ainda desconstruir a tese da inexpressividade dos negros na região, o que torna necessário preencher as lacunas, bem como evidenciar a presença das comunidades remanescentes de quilombos8 que habitam partes consideráveis da Região Norte do país.
Debrucei-me sobre tais reflexões, enquanto discente no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião na Universidade Metodista de São Paulo-UMESP, em agosto de 2020, com as etapas realizadas em ambiente virtual, em razão do quadro de Pandemia, sendo Manaus, a capital do Amazonas, uma cidade bastante atingida pela nova cepa do coronavírus9.
Estas páginas nasceram nesse contexto, que ficará registrado na história contemporânea como um dos fatos marcantes da primeira metade do século XXI. A omissão do Estado em relação às comunidades étnicas quilombolas podem ser compreendida a partir da leitura da obra do escritor africano Achille Mbembe, nascido em Camarões. Sobre a “necropolítica”, em seu ensaio, afirma o autor:
[…] pressupõe que a expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Por isso, matar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais. Exercitar a soberania é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação de poder (Mbembe, 2018, p. 1).
Alinhado ao horizonte conceitual de Michel Foucault, para quem biopoder significa dominar as vidas manifestando a soberania máxima de quem possui o controle, em diferentes casos concretos, pode ser exercido o direito de matar, deixar viver ou expor à morte. A noção de biopoder é a forma contemporânea em que os políticos no exercício do poder detêm o direito de assassinar por meio da máquina estatal.
A considerar o quantitativo de mortos no Brasil em decorrência da Covid-19, que ultrapassou setecentas mil pessoas, pela demora para comprar as vacinas, a ideologia anticientífica do Governo Federal multiplicou os óbitos que poderiam ser evitados. Como no caso da falta de oxigênio nos hospitais de Manaus, em janeiro de 2021, fato amplamente divulgado pelos veículos de imprensa.
A eleição do Presidente Jair Messias Bolsonaro, em 2018, representou um grave retrocesso para as políticas públicas das comunidades tradicionais, por tratar-se de um Governo declaradamente contrário às diversidades e minorias étnicas.
Assim, instituições como a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Fundação Cultural Palmares, Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (CONAQ), Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SNPIR) tiveram suas pautas de reivindicações ignoradas.
Houve aumento de mortes de indígena e quilombolas, violências contra as pessoas de orientação sexual diferente, como: lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer, intersexo, assexuais – LGBTQIA +, crimes contra os religiosos das sacralidades de matrizes africanas, apoiados pelos discursos oficiais de ódio e intolerância promovidos pelo Estado brasileiro.
A partir desse cenário desfavorável, com os direitos constitucionais negados, devido à não observância dos dispositivos legais, consoante o artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT, e o Decreto 4887/2003, o trabalho fora construída, no recorte temporal de um Governo totalitário, financiado pelo segmento do agronegócio, aliado à exploração ilegal das empresas mineradoras em terras indígenas e quilombolas, com as forças autoritárias do capitalismo, frente às lutas das comunidades por conquistas de direitos territoriais assegurados.
Pessoalmente, o autor desta pesquisa foi acometido pela Covid-19 e hospitalizado durante seis dias em uma unidade hospitalar da rede privada em Manaus, sendo necessário o acompanhamento diário dos profissionais da saúde para a recuperação. Infelizmente, não ocorreu com alguns colegas de trabalho e/ou amigos que vieram a óbito, vítimas do sistema de saúde pública em colapso.
A propósito, para dar continuidade às atividades assumidas com o Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da UMESP e para cumprir o cronograma pessoal de estudos, em paralelo com as disciplinas cursadas ao longo dos semestres, fez-se necessária a busca do equilíbrio emocional, com vistas à recuperação da saúde mental para, assim, conseguir, satisfatoriamente, obter bom desempenho acadêmico.
É preciso considerar que os três primeiros semestres estudados ocorreram de modo concomitante com as atividades de trabalho desenvolvidas em home office, devido ao vínculo empregatício do autor com a Secretaria Municipal de Educação em Manaus. Como dissera Umberto Eco, na obra Como se Faz uma tese: “Pode-se preparar uma tese digna mesmo que se esteja numa situação difícil”. E ainda acrescentou:
[…] para recuperar o sentido positivo e progressivo do estudo, entendido não como uma coleta de noções, mas como elaboração crítica de uma experiência, aquisição de uma capacidade (útil para o futuro) de identificar os problemas, encará-los com método e expô-los segundo certas técnicas de comunicação (Eco, 2018, p.14).
Esta tarefa epistemológica nos conecta com a humanidade, situando-nos na condição de imanência, dadas as circunstâncias da conjuntura sanitária internacional. Nesse sentido, o pesquisador deve estar consciente das suas limitações e finitude, ainda que, em condições emocionais de fragilidade, conseguir colocar a emoção no âmbito racional, para construir a tese com rigor científico.
As ideias preliminares para a escrita acadêmica, com o intuito de aprofundar as análises referentes aos fenômenos religiosos praticados na comunidade do Barranco de São Benedito, em Manaus, e na comunidade Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, em Itacoatiara/AM, e a escolha para pesquisar o quilombo do Barranco de São Benedito em Manaus, ocorreram devido à facilidade de acessar a comunidade, situada na área central da capital amazonense, aliado ao desafio de conhecer a história de um quilombo inserido no contexto urbano da Amazônia.
O fato de a exiguidade do tempo não ter permitido durante o período do mestrado realizar estudos avançados relacionados à religiosidade de terreiro, às visagens relatadas pelos quilombolas da comunidade urbana em Manaus. Por isso, buscou-se elaborar análises comparadas entre o quilombo urbano e o rural.
Na estrutura da dissertação produzida ao longo de dois anos, entre 2016 e 2018, dedicou-se uma seção específica descrevendo a etnografia da festa de São Benedito, evento que compreende sequencialmente: a retirada do mastro, a realização das novenas, o levantamento do mastro, a procissão, a missa festiva, a derrubada do mastro e o encerramento do festejo no chamado ritual do “arranca toco”.
Ao executar a pesquisa no quilombo urbano do Barranco de São Benedito, algumas vezes ouvia dos quilombolas que os membros da comunidade convertidos à fé evangélica não participavam mais das reuniões culturais e religiosas, pois a nova religião professada ensina ser pecado a devoção aos santos, assim como os eventos da comunidade em geral são considerados profanos.
Um episódio emblemático ocorreu com a neta da coordenadora da festa realizada em devoção a São Benedito. Após tornar-se membro de uma igreja evangélica e, posteriormente, vivenciar o falecimento da avó, ela retirou objetos religiosos, como alguidar, oferendas e assentamentos consagrados ao culto e ao cuidado de uma divindade, lançando-os em uma cachoeira da cidade. Alguns familiares ainda teriam tentado localizar os objetos considerados sagrados; todavia, não conseguiram resgatá-los.
Os quilombolas afirmam que o motivo desta pessoa da comunidade, agora convertida à fé evangélica, ter jogado tais objetos na cachoeira ocorreram por orientação do pastor da igreja que frequentava. A comunidade considera a atitude tomada pela quilombola como um caso de intolerância religiosa.
O caso referido é uma das questões a serem investigadas nesta tese, elaborada em face do avanço pentecostal e neopentecostal sobre as devoções católicas romanizadas e populares e também sobre os cultos afro-brasileiros, seja por um vigoroso processo de evangelização que se vale das ações de evangelizadores e concurso midiático, até em rede nacional, ou, em alguns casos, sobrevém formas militarizadas e violentas de ações, culminando com ataques a templos de comunidades de terreiro.
A escolha da comunidade quilombola Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, em Itacoatiara, deve-se ao desafio de investigar um território étnico em contexto rural, inserido em meio a conflitos com diferentes agentes sociais, tais como quilombolas, fazendeiros, empresários e representantes políticos. O referido quilombo é rico em narrativas do imaginário popular e mítico-religioso, que expressam os modos de vida das comunidades amazônidas e seus moradores.
A primeira incursão no território da Comunidade Quilombola Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, no município de Itacoatiara/AM, ocorreu em 28 de fevereiro de 2018, juntamente com a professora Dra. Maria Magela Mafra de Andrade Ranciaro, docente da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. Naquele momento, dedicava-me aos estudos e à escrita da dissertação, com vistas à conclusão do curso de mestrado. A visita foi solicitada pelos quilombolas ao Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia – PNCSA, com o qual colaboro e no qual desenvolvo atividades de pesquisa acadêmica.
A viagem de Manaus a Itacoatiara teve como objetivo esclarecer dúvidas sobre a realização de uma Oficina de Mapas e de um curso de GPS (Sistema de Posicionamento Global) na comunidade, considerando a importância da apropriação de técnicas elementares para a capacitação dos agentes sociais. A propósito, a luta dos quilombolas concentrava se em reivindicações perante o INCRA e o Ministério Público Federal – MPF, sobretudo no que se refere à titulação definitiva do território quilombola.
Outros contatos com os quilombolas de Itacoatiara ocorreram em 23 de fevereiro de 2018, em virtude de uma reunião realizada em Manaus, no quilombo urbano do Barranco de São Benedito, situado no bairro Praça 14 de Janeiro. Posteriormente, tais contatos se deram durante as atividades da Oficina “Fortalecimento Institucional e Coletivo”, organizada pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – CONAQ, realizada em Manaus, nos dias 6 e 7 de julho de 2019.
Na comunidade rural em Itacoatiara não há, segundo as narrativas dos quilombolas, a sacralidade de matrizes africanas, mas há relatos do aparecimento de animais (tapiraiauara), “onça d’água”, da cor preta, com orelhas grandes e patas de cavalo. Davam conta de que as onças atacavam as pessoas, assim, as casas eram construídas com certa altura para evitar os ataques. Segundo afirmou o Sr. Raimundo João Rolin Leal, Secretário da Associação Comunitária Quilombola do Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, em sua residência, durante a minha visita à comunidade, em 19 de agosto de 2020.
O quilombola assegurou que durante a sua infância tais relatos sobre a aparição da “tapiraiauara” eram contados por sua avó Antônia Rolin, uma mulher negra, e pelo bisavô Martinho Leal. O que reforça nas comunidades de remanescentes quilombolas o conhecimento repassado por meio da oralidade.
Na ocasião da visita foi possível conversar com o Sr. Ernando Soares Macedo, presidente da Associação Comunitária Quilombola do Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, a respeito da devoção religiosa a Nossa Senhora Aparecida, quando o quilombola relatou uma versão sobre o aparecimento da Santa.
De acordo com seu Ernando Soares, a imagem da santa negra católica foi encontrada boiando no Lago do Serpa em 1976, localizado no entorno da localidade, pelo Sr. Benedito Aragão, morador da comunidade já falecido. Posteriormente, a imagem foi levada para uma residência e, desde então, os moradores passaram a realizar uma procissão fluvial no lago de Serpa em devoção à referida santa.
Atualmente, há uma igreja católica construída nas proximidades do quilombo, denominada Sagrado Coração de Jesus, em cujo altar se encontra a imagem de Nossa Senhora Aparecida. O festejo fluvial constitui um ritual de afirmação religiosa e integra a territorialidade quilombola daqueles que ocupam tradicionalmente o lugar.
Cabe salientar que, nas adjacências do quilombo rural, há um templo da igreja evangélica Assembleia de Deus no Amazonas (IEADAM), outro da Assembleia de Deus Tradicional e uma igreja adventista. Alguns quilombolas são membros dessas igrejas evangélicas da localidade, aspecto a partir do qual esta pesquisa se propõe a investigar as interações sociais construídas entre as denominações eclesiásticas citadas, especialmente no que se refere à cultura e às tradições da comunidade quilombola.
Alguns quilombolas são membros destas igrejas evangélicas da localidade. Fato a respeito do qual esta pesquisa se propõe a investigar sobre quais são as interações sociais construídas entre as denominações eclesiásticas citadas no que tange à cultura e às tradições da comunidade quilombola.
Vale destacar que as informações acerca da religiosidade presente no cotidiano dos quilombolas começaram a ser identificadas já no primeiro contato com a comunidade rural, em 2018, e foram aprofundadas nas visitas posteriores realizadas no território quilombola, nos anos de 2020, 2023 e 2024. Outros dados analíticos, com maior detalhamento, foram sendo construídos ao longo da pesquisa de campo desenvolvida junto à comunidade.
As fontes de pesquisa sobre a Comunidade Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, em Itacoatiara, além da literatura bibliográfica disponível, são os próprios agentes sociais quilombolas, com os quais mantenho contatos permanentes por meio de telefone e de comunicação via WhatsApp. Entre esses interlocutores, destaca-se o Sr. Raimundo João Rolin Leal, Secretário da Associação Comunitária Quilombola. Cabe considerar que o uso desse recurso técnico, especialmente o WhatsApp, foi potencializado em razão do contexto da pandemia e dos decretos de lockdown.
Um interlocutor importante é o professor e quilombola, morador da área urbana em Itacoatiara, doutor pelo Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia – PPGSCA, pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM, Sr. Claudemilson Nonato Santos de Oliveira, com quem dialogamos frequentemente sobre os desafios da pesquisa no quilombo. Destacamos as ações do referido professor, na condição de agente intelectual e articulador político das demandas e reivindicações da comunidade quilombola rural no município de Itacoatiara.
Quanto à comunidade do Barranco de São Benedito, está localizada na cidade de Manaus, mais especificamente no tradicional bairro Praça 14 de Janeiro, zona Centro-Sul da cidade. O referido território quilombola foi ocupado desde a vinda da Dona Lúcia Nascimento Fonseca (Vovó Severa), há 134 anos, como escrava alforriada procedente do município de Alcântara, no Maranhão.
A partir de seu estabelecimento neste espaço, juntamente com sua família, Dona Severa trouxe consigo costumes e tradições de seus antepassados, os quais permanecem vivos na memória e nas narrativas de seus descendentes. A comunidade foi oficialmente reconhecida pela Fundação Cultural Palmares, em 2014, como comunidade remanescente de quilombo urbano.
Desse modo, estabeleceu-se como objetivo deste trabalho compreender a religiosidade popular em suas perspectivas conceituais teóricas e práticas nas formas cotidianas de organização das comunidades remanescentes do quilombo urbano do Barranco de São Benedito em Manaus e do rural Sagrado Coração de Jesus do Lago do Serpa, em Itacoatiara – AM.
Ao longo da pesquisa, as narrativas coletadas junto aos quilombos urbano e rural permitiram identificar o seguinte problema: as situações conflituosas, tanto do ponto de vista dos marcadores simbólicos da religiosidade popular quanto das lutas por direitos étnicos, impuseram o desafio de construir uma análise epistêmica acerca dessas vivências, objetivamente materializadas no cotidiano do quilombo urbano do Barranco de São Benedito, em Manaus, e do quilombo rural Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, em Itacoatiara – AM.
Nesse sentido, com base em pesquisas anteriores, foi possível identificar fenômenos religiosos presentes nos quilombos urbanos e rurais, bem como fundamentar a análise em um arcabouço teórico articulado às narrativas que advêm do cotidiano quilombola.
O diálogo entre a literatura especializada e as narrativas produzidas no campo de pesquisa permite enfrentar desafios e complexidades que emergem no decorrer da investigação. Nessa perspectiva, os estudos realizados na área das humanidades, especialmente aqueles voltados aos remanescentes quilombolas, buscam refletir criticamente sobre os objetos investigados, considerando pressupostos científicos e diferentes realidades sociais.
Para proceder ao trabalho de campo e coletar os dados sobre as comunidades étnicas, fez-se necessário estabelecer uma “relação de pesquisa”, como afirma Bourdieu (1997). Por meio da análise das organizações sociais, o que implicou na convivência com os quilombolas e demais lideranças que articulam as estratégias político-organizativas, além de construir elos para interagir, dialogar, ouvir e receber informações relacionadas às trajetórias históricas das comunidades.
A categoria designada quilombo, a partir dos autores especializados, com estudos realizados no Brasil, em especial na Amazônia, trata-se de uma discussão contemporânea por meio da qual pretendeu-se refletir sobre as produções epistemológicas referentes às comunidades étnicas e organizações coletivas denominadas quilombolas.
Almeida (2011) ressalta a importância da pesquisa de campo, contrapondo-se ao monopólio da fala, inferindo que formação acadêmica não há engessamento interpretativo que legitime somente uma ou outra fala, não havendo, para o autor, quem detenha o poder de imposição da “definição legítima” de determinadas narrativas.
Ou seja, implica compreender que, para além da interdisciplinaridade, que congrega historiadores, juristas, sociólogos, arqueólogos, geógrafos, agrônomos e antropólogos há um plano de conhecimentos aplicados e imediatos, diretamente vinculados a processos de mobilização político-administrativos. E assevera:
Em verdade tem-se uma situação de liminaridade entre as disciplinas militantes, ameaçadas de aprisionamento pelas formas dos manuais e pela força dos dogmas, e o conhecimento científico, produzido meio aos obstáculos ora estendidos às atividades das pesquisas sistemáticas e às etnografias apoiadas em prolongados trabalhos de campo. Sob este prisma quilombo pode ser entendido hoje consoante com diferentes planos, ou seja, tanto pode ser um tema e um problema da ordem do dia do campo de poder, quanto um conceito, objeto da pesquisa científica; tanto pode ser uma categoria jurídica e uma questão de direito, quanto um instrumento através do qual se organiza a expressão político-organizativa (Almeida, 2011, p. 48).
Tendo por base o conceito de quilombo, adotado por Almeida, no tocante a concebê-lo como de expressão político-organizativa, ao considerar os diferentes processos de territorialidade específicos, o trabalho foi desenvolvido com o viés antropológico.
Especialmente as comunidades do Barranco de São Benedito em Manaus e Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa em Itacoatiara, por serem localidades de pertencimentos coletivos. E, portanto, organizadas no Amazonas, desde o século XIX, cujas implicações religiosas atravessam temporalidades sucessivas.
Para esta produção científica, realizou-se a leitura dos seguintes trabalhos: “Quilombo, favela e periferia: a longa busca da cidadania”, das autoras Lourdes de Fátima Bezerra Carril & Iraci Gomes de Vasconcelos Palheta (2003), “Teorias da etnicidade”.
Seguido de grupos étnicos e suas Fronteiras de Fredrik Barth de autoria de Philippe Poutignat & Jocelyne Streiff – Fenart (1998), a pesquisa do antropólogo Emmanuel de Almeida Farias Júnior (2013), a respeito da comunidade quilombola do Tambor, na cidade de Novo Airão-AM, a tese de Maria Magela Mafra de Andrade Ranciaro (2016) sobre as comunidades quilombolas do rio Andirá, no município de Barreirinha-AM; a tese de autoria de João Siqueira (2014) sobre o quilombo do Tambor, em Novo Airão AM; a tese do historiador João Marinho da Rocha (2019) sobre as comunidade quilombolas do rio Andirá, em Barreirinha-AM; e a tese de Claudemilson Nonato Santos de Oliveira (2019) sobre a temática religiosa em Itacoatiara.
Para além dessas fontes, buscaram-se subsídios teóricos em outros autores que estudam a categoria quilombo, como Almeida (2011), Rosa Acevedo e Edna Castro (1998), Eliane Cantarino O’dwyer (2002) e Ilka Boaventura Leite (2000), para melhor compreender os aspectos das realidades investigadas ao longo do desenvolvimento da pesquisa.
Nesse contexto, o viés do binômio “religiosidade popular” interligou o caminho em que concentrou nossa base investigativa do fenômeno religioso, para, assim, compreender a dinâmica social como fonte de construção de identidade no quilombo urbano do Barranco de São Benedito em Manaus e do quilombo rural Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, em Itacoatiara-AM.
Siqueira (2010), sobre as práticas celebrativas no circuito da religiosidade popular da região amazônica, ressalta que, ao mesmo tempo em que a expressão e veiculação de práticas celebrativas reforçam a construção de identidade sustentada pela força da tradição de um povo, esse o reelabora sob a limitação das condições dadas, formando assim sua consciência individual e coletiva.
No que concerne a categoria identidade, Manuel Castells chama nos a atenção entendendo-a como:
[…] o processo de construção de significados com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(ais) prevalece(m) sobre outras fontes de significado. Para um determinado indivíduo ou ainda um ator coletivo, pode haver identidades múltiplas. No entanto, essa pluralidade é fonte de tensão e contradição tanto na auto representação quanto na ação social. […] A importância relativa desses papéis e o ato de influenciar o comportamento das pessoas depende de negociações, acordos entre os indivíduos e essas instituições e organizações. Identidade por sua vez, constituem fontes de significado para os próprios atores, por eles originadas, e construídas por meio de um processo de individuação (Castells, 1996, p. 22-23).
Para este estudo, Stuart Hall (2005, p. 47) também nos auxilia com contribuições significativas para o debate que envolve cultura e identidade. Em sua obra “A identidade cultural na Pós-Modernidade”, discute: “como as identidades culturais nacionais estão sendo afetadas ou deslocadas pelo processo de globalização? Para responder a essa questão, o autor enfatiza:
[…] o que é importante para nosso argumento quanto ao impacto da globalização sobre a identidade é que o tempo e o espaço são também as coordenadas básicas de todos os sistemas de representação. […]. Diferentes épocas culturais têm diferentes formas de combinar essas coordenadas espaço-tempo […]. Assim, a moldagem e a remodelagem de relações espaço-tempo no interior de diferentes sistemas de representação têm efeitos profundos sobre a forma como as identidades são localizadas e representadas (Hall, 2005, p. 70-71).
Espaço e tempo estão entre os aspectos mais importantes para compreender a sociedade contemporânea, os quais têm efeito sobre a cultura, a identidade e representação social. O autor supracitado enfatiza que na chamada modernidade tardia vive-se processos descontínuos, o que ocasiona uma crise de identidade. Desse modo, a leitura de Stuart Hall é pertinente, uma vez que evidencia as descontinuidades da sociedade moderna e as diferentes posições dos indivíduos na modernidade tardia.
Por este viés, apoiado em Clifford Geertz (1989), representante da antropologia interpretativa, tais estudos certamente permitirão entender a dimensão das identidades étnicas no quilombo urbano em Manaus e no quilombo rural em Itacoatiara. Nessa esteira, a reflexão busca compreender em conhecer os agentes sociais neles presentes, suas representações expressas no cotidiano de territórios tradicionalmente ocupados.
A aproximação com a obra de Geertz, A interpretação das Culturas, possibilita interpretar o mundo social pela observação das experiências construídas pelos sujeitos e identificar a estrutura das relações em diferentes contextos. Partindo desse raciocínio, as relações sociais são uma teia de significados tecidas pelo homem. Trata-se de um sistema de símbolos, definidores do que é a cultura, logo, a cultura se expressa como um conjunto de valores, crenças, costumes, entre outros, os quais orientam a existência humana (Geertz, 1989).
Neste trabalho, busca-se compreender as trajetórias, as memórias sociais a partir da análise dos grupos étnicos, que, segundo Fredrik Barth, “é uma categoria atributiva e identificadora empregada pelos próprios atores; consequentemente tem como característica organizar as interações entre as pessoas” (Barth, 2000, p. 27).
Barth desenvolveu reflexões no que tange aos problemas referentes à construção de fronteiras entre os grupos étnicos. O autor contribuiu fundamentalmente com as pesquisas relativas à etnicidade, assim como também considerou as discussões de grande importância para a antropologia social.
No debate sobre os grupos étnicos e as suas identidades, enquanto categoria analítica, Barth enfatiza que:
Tentamos relacionar outras características dos grupos étnicos – a essa característica básica […] todos os trabalhos apresentados assumem na análise um ponto de vista gerativo: em vez de trabalharmos com uma tipologia de formas de grupos e de relações étnicas, tentamos explorar os diferentes processos que parecem estar envolvidos na geração e manutenção dos grupos étnicos (…) para observarmos esses processos deslocamos o foco da investigação da constituição interna e da história de cada grupo para as fronteiras étnicas e a sua manutenção.
Cada um desses pontos requer certa elaboração (Barth, 2000, p. 27).
Segundo o pesquisador, já está superada a concepção do isolamento social e geográfico das comunidades tradicionais no sentido de determinarem a manutenção das culturas. Para o autor, as fronteiras étnicas permanecem, apesar do fluxo que as pessoas atravessam, ou seja, as distinções entre categorias étnicas independem da ausência de mobilidade.
Faz-se necessário nos pontos de vista do estudioso, um ataque simultâneo teórico e empírico, que permita investigar com certa veracidade os fatos, a fim de adequar nossos conceitos a esses fatos, ao elucidá-los de maneira simples, e, por conseguinte, o mais pertinente possível.
A pesquisa sobre os grupos societários requer investigar o conjunto das práticas (sociais, econômicas, políticas, religiosas etc.), pelo fato de uma coletividade às vezes estar relacionada com processos complexos, constituídos historicamente por construções identitárias que as distinguem de outros grupos.
A identidade cultural é a condição de imanência dos indivíduos, cuja ênfase não está na herança biológica, por não ser um fator determinante para identificar os grupos sociais, mas a herança da cultura é primordial para a vinculação ao grupo étnico, é fundamental para todas as vinculações socioculturais.
Para Barth, os grupos étnicos têm tipos organizacionais, passam a ser vistos como formas de organizações sociais, pela autoatribuição e pela atribuição por outros, ou seja, a atribuição de uma categoria torna se condição étnica ao classificar uma pessoa com relação a sua identidade, relacionada presumivelmente por sua origem.
As categorias étnicas e seus processos organizativos têm diferentes formas e conteúdos nos diversos sistemas socioculturais. Isso permite identificar um grupo atributivo e exclusivo, em que há a dicotomização entre os seus membros e não membros, ou outro onde apenas os fatores socialmente relevantes determinam o pertencimento, mas não as diferenças geradas a partir de outros fatores como, por exemplo, os biológicos.
Deste modo, os processos organizativos das comunidades quilombolas são o que definem os grupos étnicos cujas práticas amparadas nos conhecimentos tradicionais, que, ressignificados, os identificam ao ressaltar as identidades coletivas, a partir das expressões culturais, artísticas e religiosas, presentes no dia a dia das comunidades.
Nessa contextualização, no propósito de construir conhecimentos científicos, com ênfase nas dimensões socioculturais do fenômeno religioso, tendo como local epistêmico o lugar das vivências do Outro, a fim de compreender a diversidade de crenças existentes nos ambientes simbólicos das comunidades quilombolas.
O antropólogo Eduardo Galvão (1955) em sua tese: “Santos e visagens: um estudo da vida religiosa de Itá, Amazonas”, analisou, do ponto de vista antropológico, as questões da diversidade religiosa e cultural presentes na Amazônia, onde constatou práticas do catolicismo popular, bem como o culto aos santos.
O trabalho de Eduardo Galvão é importante dado à pertinência com que o autor estudou a religiosidade daqueles moradores, por vezes, dominados pelas crenças em seres sobrenaturais. Assim, o pesquisador apresentou a composição étnica e os resultados dos processos coloniais a respeito dos quais derivou um modelo cultural.
Além das fontes referidas, foram realizadas ainda as leituras das seguintes pesquisas: “Algumas reminiscências e reflexões sobre o trabalho de campo”, de Evans – Pritchard (1978), “Mocambos na Amazônia: História e identidade étnico-racial do Arari – Parintins/Amazonas, de Jessica Dayse Matos Gomes (2017), “Religião, e medicina popular na Amazônia: a etnografia de um romance’’, de Raymundo Heraldo Maués (2007), “Nas pegadas de um Santo Negro: a expressão feminina nos festejos de São Benedito na Praça Quatorze de Janeiro em Manaus, Amazonas”, de autoria de Karla Patrícia Palmeira Frota (2018) e a “Construção identitária da comunidade do Barranco: Festa de São Benedito”, cuja autora é Lúcia Maria Barbosa Lira (2018).
Nesta perspectiva, o trabalho propôs pesquisar a respeito das crenças, devoções e religiosidades nos territórios quilombolas, com um enfoque conceitual, em especial, na Amazônia, por meio da observação direta e sistemática, perceber, identificar e analisar as características sociais e culturais das comunidades do Barranco de São Benedito em Manaus e Sagrado Coração de Jesus em Itacoatiara – AM.
Assim sendo, a pesquisa dialoga com os autores mencionados para – ancorada teoricamente no diálogo com autores a respeito desses temas – perceber na convivência com a alteridade no quilombo urbano do Barranco de São Benedito, em Manaus, e no quilombo rural Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, em Itacoatiara-AM, quais são as influências e seus desdobramentos concernentes aos impactos contemporâneos face às crenças, devoções e religiosidades em relação à cultura e à identidade étnica dos quilombolas nas referidas comunidades inseridas na região Amazônica.
O estudo proposto ao Curso de Doutorado em Ciências da Religião está ligado à área de concentração: Religião, Sociedade e Cultura, e foi desenvolvido no quilombo urbano do Barranco de São Benedito, em Manaus, e no quilombo rural Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, em Itacoatiara, ambos territorializados no Estado do Amazonas.
Quanto aos procedimentos metodológicos para execução desta pesquisa, entendidos como os instrumentos necessários à abordagem das realidades, uma vez que o trabalho buscou analisar empiricamente as duas unidades quilombolas, é de base descritiva e analítica. Portanto, suportes essenciais para a sustentação da observação direta e sistemática, realizada no período de 2020 a 2023.
Ancorada nessa perspectiva, os quilombos constituem-se como objeto da pesquisa de campo, tendo por base o método qualitativo de investigação científica em função da própria natureza do objeto em questão, buscando, assim, investigar elementos do cotidiano implícitos num universo de significados.
Os sujeitos da pesquisa serão identificados ao longo do contato com o campo, estabelecendo-se um percentual de participantes conforme demandar o universo de moradores dos dois quilombos investigados, bem como as funções e/ou representatividades de lideranças, entre outros aspectos.
Este tipo de pesquisa fornece processos a partir dos quais questões chave são identificadas, e perguntas serão formuladas para descobrir dados importantes acerca de questões anteriormente formuladas e dos objetivos que perpassam a construção do presente trabalho.
Na análise qualitativa, foram utilizados mecanismos interpretativos, com informações arquivísticas sobre dados históricos, preservando-se suas relações e significados expressos nas narrativas do coletivo quilombola.
Os recursos técnicos disponíveis para esse tipo de análise foram: entrevistas feitas por via da observação direta e sistemática, aplicação de questionários temáticos, contendo perguntas abertas e fechadas, e, para as interpretações de outras formas de expressões, foram realizados registros fonográficos e fotográficos, autorizados oficialmente pelos interlocutores.
Por meio dessas técnicas, foi possível receber e obter informações a respeito dos modos de vida dos moradores, de suas atividades econômicas, dos conhecimentos tradicionais que estes grupos sustentam e/ou preservam, de suas festas religiosas, extensivas às suas representações e significados de seus processos históricos.
Para o alcance dos objetivos da pesquisa de campo, no propósito de coletar as narrativas do cotidiano quilombola, a etnografia tornou se uma ferramenta metodológica, através da qual o ato de investigar permitiu capturar realidades concretas com vistas ao procedimento sistemático e analítico do levantamento de dados sobre as características e especificidades do quilombo urbano e do quilombo rural.
A pesquisa de campo e a etnografia ajudaram a alcançar os resultados de uma pesquisa qualitativa, as quais foram adotadas durante a realização do trabalho. Por meio da pesquisa etnográfica é possível obter um levantamento geral e descritivo das comunidades, identificando as características e especificidades. A etnografia fez-se necessária uma vez que os dados sistematizados ganharam sentido e deram visibilidade interpretativa às impressões percebidas em campo.
Segundo Clifford Geertz (2002), a etnografia e a pesquisa de campo fazem parte do processo em que se formam novos conhecimentos, ideias e críticas, possibilitando compreender as diferenças e as realidades entre diferentes culturas. Deste modo, para este estudioso, o estar lá é a pesquisa de campo e o estar aqui é a etnografia. Para a construção de novos conhecimentos, o pesquisador precisa ir à campo para observar, escrever, interpretar, criticar e coletar dados concretos e verdadeiros que fizeram parte de sua experiência pessoal.
Oliveira (1998) destaca o método formado pelas “faculdades do conhecimento”, o olhar, o ouvir e o escrever que consistem em garantir o melhor uso possível dos dados observados. O olhar visa observar tudo o que está ao redor; o ouvir é a compreensão do que foi observado; o escrever é a configuração final do produto do trabalho.
Tais “faculdades do conhecimento” são complementares e possuem uma significação específica para o pesquisador. Segundo este estudioso, o olhar e o ouvir seriam partes da primeira etapa e o escrever seria a segunda parte da pesquisa.
Nesse sentido, neste estudo, em primeiro lugar, realizou-se a pesquisa in loco e se fez do lugar social também um lugar de produção epistemológica. A segunda etapa da pesquisa teve como fonte primária as narrativas orais dos agentes sociais, obtidas durante a observação participante e por meio das entrevistas semiestruturadas.
Posteriormente, foram tomadas providências quanto à transcrição das entrevistas e, consequentemente, foi feita a análise dos dados coletados, cuja interpretação se deu com base nas leituras bibliográficas de autores relacionados aos temas em questão.
Em síntese, é de suma importância primar pelo rigor metodológico do fazer científico ao longo da construção do trabalho. Portanto, buscou se fundamentar teoricamente as discussões, estendendo-se a pesquisa às leituras de artigos, dissertações e teses de autores cujas ideias apresentem as situações e características de distintas territorialidades, fornecendo subsídios com vistas à compreensão das religiosidades presentes no quilombo urbano do Barranco de São Benedito, em Manaus, e no quilombo rural Sagrado Coração de Jesus, em Itacoatiara – AM.
Para a realização desta pesquisa, foram entrevistadas 11 pessoas, cujas narrativas ofereceram o subsídio principal para esta investigação. A estrutura do trabalho é composta por quatro capítulos, dos quais o primeiro disserta sobre “Dois quilombos e a respectiva formação histórica: Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito – Manaus/AM e Quilombo Rural Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa – Itacoatiara/AM”, com vistas à descrição da formação histórica, do “mito de origem” e das dinâmicas sociais, para entender como se deram os processos de construção das identidades étnicas e, com isso, observar a territorialidade que permitiu a organização das comunidades quilombolas em Manaus e Itacoatiara.
Enfocando os quilombos do Amazonas e suas mobilizações político-organizativas, tanto dos chamados quilombos urbanos, abrigados na cidade, como dos quilombos em contextos rurais, pois assim, singrando os rios e as trilhas percorridas para conhecer os quilombolas da Amazônia brasileira.
O segundo capítulo, “A religiosidade popular: uma categoria analítica”, versa sobre a religiosidade popular e, compreendendo-a como categoria analítica, estabelece diálogo com autores especializados neste campo de discussão. Assim entendidas, as discussões se voltam para as diferentes tradições vividas por agentes sociais com representação religiosa nos quilombos. Nota-se que tais práticas fogem às regras administrativas e, por isso mesmo, ultrapassam os habituais controles eclesiásticos da religião oficial. Neste sentido, aborda-se a religiosidade com ênfase nas reflexões críticas acerca das narrativas dos distintos agentes sociais em suas diversas vertentes simbolicamente presentes na vida cotidiana, a se expressar por via das crenças, das linguagens, enfim, das sacralidades, por vezes legitimadas pelo imaginário popular.
O terceiro capítulo, “Aspectos político-econômicos da religiosidade nos quilombos, urbano e rural do Amazonas”, intenciona refletir pelo viés acadêmico, na dimensão teórica e prática, com vistas à arrazoada compreensão dos aspectos político-econômicos da religiosidade, concebendo-a como eixo articulador das subjetividades e sentimentos de pertença nos territórios quilombolas, em espaço urbano e rural, no Estado do Amazonas, não meramente como elemento isolado, mas ladeado por interesses, disputas ou relações de poder construídas nas esferas do convívio social.
Tais expressões de fé, publicamente assumidas e encarnadas na vivência popular, estão presentes nas raízes do tecido da vida comunitária, notadamente por meio de lutas coletivas enfrentadas perante distintos antagonistas das unidades quilombolas.
O quarto capítulo, “Etnografando os quilombos rural e urbano: a vida religiosa e outros aspectos do cotidiano”, descreve as narrativas de acordo com as pesquisas de campo, analisadas etnograficamente sob a ótica da religiosidade vivida e dos aspectos do cotidiano rural e urbano. Cabe referir, a respeito desse capítulo, que os dados sistematizados foram construídos consoante as observações, estudos e convivências realizadas com a devida reflexividade acadêmica, a partir das incursões constituídas dos trabalhos desenvolvidos, conectados aos territórios quilombolas secularmente localizados em Itacoatiara – AM e Manaus, respectivamente.
O quinto capítulo, “O Caderno Iconográfico”, acrescido como dado da pesquisa, diferencia-se dos capítulos anteriores elaborados em forma de textos, pois expõe as escolhas visuais do livro, a organização cartográfica e a dimensão imagética, nas quais estão imbricadas as narrativas dos agentes sociais pesquisados, referentes às comunidades quilombolas enfocadas no trabalho.
Nele, organizou-se o texto explicativo referente às fontes de imagens, fotos, registros documentais e cartoriais, detalhando as escolhas cartográficas selecionadas, bem como o acréscimo das discussões críticas sobre elas, incorporadas a esta análise como resultado do estudo científico.
A investigação acadêmica ora convertida no livro sob o título “Epistemologia da Religiosidade nos Quilombos” fornece aos leitores resultados dos trabalhos de campo, levantados por meio das narrativas, práticas religiosas vividas e ritualidades sagradas, concernentes às territorialidades específicas protagonizadas historicamente em dois quilombos situados na Amazônia.
1. Antropóloga, professora aposentada da Universidade Federal do Amazonas-UFAM e pesquisadora junto ao Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia-PNCSA.
Apresentada junto ao Programa de Pós-graduação e m Ciências da Religião, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), referida tese foi defendida e aprovada em 04 de outubro de 2024.
2. Tendo por base a dinâmica constante do processo de territorialização e territorialidade, Almeida (2008) estabelece a distinção entre terra e território, propondo a ultrapassagem do sentido atribuído a essas expressões usualmente constantes do discurso geográfico. Neste aspecto o autor amplia tais discussões, propondo como um dado inovador o emprego do termo territorialidade específica para, desta feita, “nomear as delimitações físicas de determinadas unidades sociais que compõem os meandros de territórios etnicamente configurados (…) consideradas, portanto, como o resultado de diferentes processos sociais de territorialização e como delimitando dinamicamente terras de pertencimento coletivo que convergem para um território”. Consultar: Almeida, Alfredo Wagner Berno de Terra de. Terra de quilombo, terras indígenas, “babaçuais livres”, “castanhais do povo”, faxinais e fundos de pasto: terras tradicionalmente ocupadas”, 2ª ed., Manaus: PGSCA-UFAM, 2008.
3. Quilombola, com titulação de mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino Tecnológico PPGET, do Instituto Federal do Amazonas-IFAM, e membro fundadora da Associação das Crioulas do Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito em Manaus/Am.
4. De acordo com as informações contidas na Certidão de Autorreconhecimento expedida pela Fundação Cultural Palmares, citada por (Barcellos, 2004, p. 484), a Comunidade Negra de Morro Alto está localizada no município de Maquiné no litoral norte do Estado do Rio Grande do Sul, atualmente constituída por aproximadamente 230 famílias, que receberam oficialmente a Certidão de Autorreconhecimento como Comunidade Remanescente de Quilombo, em 2004.
5. O MOBRAL foi um movimento educativo o qual propiciou a alfabetização de adultos e, posteriormente, de jovens no Brasil, a partir das décadas de 1960 e 1970.
6. Não significa que antes não houve trabalhos e publicações sobre a temática, mas dentro dos padrões da historiografia contemporânea brasileira, o livro se caracteriza um divisor de águas entre uma historiografia clássica e uma historiografia profissional.
7. A segunda edição do livro O Fim do Silêncio: presença negra na Amazônia, organizado pela historiadora Patrícia Alves Melo, foi lançada em 2021.
8. O termo “remanescente” é apresentado no Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT da Constituição de 1988, de acordo com (Almeida, 2011, p. 43) para chegar à ideia de quilombo, como “resíduo”, de uma forma que “já foi”. Todavia, a expressão remanescente será utilizada algumas vezes nesse trabalho como referência aos quilombolas, por ser um dispositivo político e identitário acionado pelo próprio movimento quilombola.
9. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou a “nova cepa do coronavírus da Covid-19” como um problema sanitário de preocupação internacional, pois certamente ainda continua sendo estudado pela comunidade científica devido a sua letalidade.
Continua na próxima edição…
Vinicius Alves da Rosa, quilombola de Morro Alto, RS, professor, doutor em Ciências da Religião.
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