“Em tempos de guerras tarifárias e reorganização das cadeias globais, o acordo Mercosul-União Europeia representa uma oportunidade para transformar pequenas e médias empresas em protagonistas de uma nova geografia da competitividade.”
Há momentos em que a economia mundial muda quase imperceptivelmente. Não por causa de uma invenção extraordinária ou de uma grande crise financeira, mas porque os países começam a reorganizar suas relações comerciais. As rotas se alteram, os investimentos procuram novos destinos e cadeias produtivas inteiras passam a buscar alternativas para reduzir riscos. É exatamente esse movimento que o mundo presencia hoje.
A disputa comercial entre Estados Unidos e China, a crescente utilização de tarifas como instrumento de política externa, os conflitos geopolíticos, a busca por autonomia industrial e a regionalização da produção inauguraram uma fase em que competitividade deixou de depender apenas de eficiência produtiva. Ela passou a incorporar segurança, previsibilidade e capacidade de adaptação.
Nesse ambiente, acordos comerciais voltaram a ocupar posição estratégica. Não como simples mecanismos de redução de tarifas, mas como instrumentos de reorganização da economia mundial.
É nesse contexto que o acordo entre Mercosul e União Europeia deve ser compreendido. Muito além da diplomacia. Muito além das negociações iniciadas há mais de duas décadas.
O tratado representa uma oportunidade para reposicionar empresas, cadeias produtivas e regiões inteiras dentro de uma nova arquitetura do comércio internacional.
A oportunidade começa quando termina a celebração
É natural que as primeiras análises concentrem atenção na redução das tarifas. Afinal, trata-se do benefício mais visível. Mas a experiência internacional demonstra que tratados comerciais produzem resultados muito diferentes entre empresas que atuam no mesmo setor.
Algumas expandem rapidamente suas exportações. Outras permanecem exatamente onde estavam. A diferença quase nunca está na tarifa. Está na preparação. Exportar deixou de significar apenas vender para outro país.
Significa compreender normas técnicas, atender requisitos ambientais, garantir rastreabilidade, comprovar origem dos insumos, adaptar sistemas internos, digitalizar processos e construir relações permanentes de confiança com mercados altamente regulados. A tarifa abre a porta. A capacidade empresarial é que permite atravessá-la.
O conhecimento vira infraestrutura
Durante décadas, a infraestrutura necessária para competir era composta por estradas, portos, aeroportos e energia. Nada disso perdeu importância. Mas uma nova infraestrutura passou a determinar quem consegue participar das cadeias globais de valor. Ela é formada por conhecimento. Informação. Certificação. Tecnologia. Governança. Inteligência regulatória.
Empresas que dominam esse patrimônio conseguem adaptar-se rapidamente às mudanças do mercado internacional. As demais passam a competir sempre em desvantagem.

E, com certeza, essa é a transformação mais profunda provocada pelos novos acordos comerciais. Eles deslocam a vantagem competitiva do produto para a organização da empresa.
Nenhuma pequena empresa internacionaliza-se sozinha
Existe um equívoco recorrente quando se fala em exportações. Imagina-se que internacionalizar uma empresa depende exclusivamente do empreendedor. Na prática, os países mais competitivos demonstram exatamente o contrário. Empresas exportam. Ecossistemas tornam isso possível.
Universidades formam profissionais. Institutos tecnológicos desenvolvem soluções. Entidades empresariais disseminam informação. Agências públicas reduzem barreiras. E mais: Instituições financeiras oferecem instrumentos adequados. Centros de certificação garantem conformidade.
A inovação nasce justamente da qualidade dessa cooperação. É por isso que pequenas e médias empresas raramente caminham sozinhas rumo ao mercado internacional. Elas crescem quando fazem parte de um ambiente que compartilha conhecimento.
A vantagem silenciosa da Amazônia
À primeira vista, pode parecer que essa discussão pertence apenas aos grandes centros industriais do país. Ocorre exatamente o contrário. Poucas regiões brasileiras reúnem ativos tão relevantes para essa nova economia quanto a Amazônia.
A Zona Franca de Manaus consolidou um parque industrial sofisticado, integrado às cadeias internacionais de fornecimento e habituado aos padrões tecnológicos exigidos pelos mercados globais.
Ao seu redor desenvolveu-se uma extensa rede de fornecedores, prestadores de serviços, empresas de tecnologia, centros de pesquisa e instituições de apoio empresarial.
Esse patrimônio costuma ser analisado apenas por sua capacidade de produzir. Talvez seja mais importante observá-lo por sua capacidade de ensinar.
Cada empresa internacionalizada transfere conhecimento. Cada certificação incorpora competências. Cada fornecedor qualificado amplia a inteligência coletiva da região. É assim que ecossistemas industriais amadurecem.
Dos Arranjos Produtivos Locais aos Arranjos Produtivos Globais
Durante muitos anos, o conceito de Arranjo Produtivo Local ajudou a compreender a importância das redes empresariais regionais. Hoje talvez seja necessário dar um passo adiante. As cadeias produtivas já não terminam nas fronteiras nacionais.
Elas conectam pequenas empresas amazônicas a fabricantes europeus, centros tecnológicos asiáticos, mercados consumidores norte-americanos e plataformas logísticas distribuídas por diferentes continentes.
Os arranjos continuam nascendo localmente. Mas passam a operar globalmente. É nesse momento que deixam de ser apenas Arranjos Produtivos Locais. Transformam-se em Arranjos Produtivos Globais.
A mudança parece apenas semântica. Na realidade, representa uma nova forma de compreender desenvolvimento regional. O território continua sendo o ponto de partida. O mercado passa a ser o mundo.
Competitividade como estratégia de desenvolvimento
Essa transformação produz uma consequência frequentemente negligenciada. Quando pequenas e médias empresas ampliam sua capacidade de competir internacionalmente, não crescem apenas as exportações. Cresce a produtividade. A inovação. A qualificação profissional. O investimento privado. A arrecadação. A renda.
E cresce, sobretudo, a capacidade de uma região construir seu próprio futuro. Na Amazônia, essa lógica adquire uma dimensão adicional.
Uma economia baseada em tecnologia, conhecimento e agregação de valor fortalece atividades compatíveis com a conservação da floresta e amplia o espaço para uma bioeconomia integrada à indústria, à ciência e aos mercados internacionais. O comércio exterior deixa, assim, de ser apenas uma política econômica. Passa a ser uma política de desenvolvimento territorial.
A próxima agenda da indústria brasileira
Durante muitos anos, discutimos como proteger nossa indústria. Hoje começa a surgir uma pergunta igualmente importante. Como prepará-la para ocupar novos espaços no mundo?
A resposta dificilmente estará apenas nos tratados internacionais. Ela dependerá da capacidade de formar empresas mais inteligentes, instituições mais cooperativas e ecossistemas mais inovadores.
O acordo Mercosul-União Europeia oferece uma oportunidade rara de acelerar esse processo. Seu maior legado, entretanto, talvez não seja medido pelo crescimento das exportações. Será medido pela capacidade de transformar milhares de pequenas e médias empresas em protagonistas de uma economia cada vez mais conectada, sofisticada e global.
Porque, no fim das contas, os grandes acordos comerciais mudam tarifas. As grandes transformações mudam mentalidades. E são estas que, verdadeiramente, reposicionam regiões, empresas e países diante da história.
*Economista, empresário e presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, Conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM.
Views: 0



















