Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Arthur Cézar Ferreira Reis, um injustiçado (Parte I)

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Que o Amazonas é um Estado injustiçoso não se discute. Isso decorre do neocolonialismo político, econômico e cultural que nos afeta, é antigo e não para de crescer. O Amazonas vive sempre tropeçando. Quando se acreditava que findaram as oligarquias da República Velha, o poder local continua vitimado pelo autoritarismo, dependente dos humores do poder central.

Reporto-me aos seguintes fatos para maior clareza. O percentual dos políticos nativos à frente da administração estadual, durante o ciclo republicano (1889-2015), não chega à metade dos cerca de 40, totalizados no período. A estatística em desfavor dos amazonenses resultará ainda mais escandalosa se adicionados os coeficientes relativos aos governadores do período imperial (1823-1889). Nos parlamentos estadual e federal o quadro não é diferente: nas últimas legislaturas, o número de pessoas oriundas de outros estados tituladas como representantes do Amazonas aumentou velozmente.

As sociedades prosperam menos se seus governantes estiverem desvinculados espiritualmente da terra. O telurismo é elemento agregador. Segundo os dicionaristas, “Telurismo é a influência do solo de uma região nos costumes”. Ele exprime-se no apego à terra natal, na fidelidade ao povo, na consciência de ser nativo dela. O filho nativo é um amante insaciável. Bem situou certa feita Miguel Torga (1907-1995), poeta português: “Para mim, a terra é fonte de onde tudo parte e [para] onde tudo regressa, é gênese e porto de viagem, princípio e fim, mãe e alimento. Sou da terra e sou por ela”.

Não se trata de hostilizar ou menosprezar brasileiros de outros estados que chegam a todo instante para somar conosco. Atuando no magistério, na administração, no jurídico, nas ciências e nas artes, incontável número deles contribui eficazmente com o nosso desenvolvimento material, intelectual e moral. Abraçaram a nossa causa, aqui formaram família, amam de verdade o Amazonas. O cerne da questão está na classe política, na empresarial e nalguns grupos do setor intelectual. Em geral, o intelectual acadêmico é um tipo não muito afetuoso e sem muita abertura. O verdadeiro disso é que, enquanto os naturais da terra se estranham, vivem se acotovelando, os que chegam mal-intencionados tiram proveito dela.

O Estado do Amazonas que, aliás, não está entre os primeiros em audiência no mundo da pesquisa brasileira, raramente aparece nas revistas mais severas quanto à qualidade científica. Nossos cientistas – à exceção de alguns poucos – costumam falar mais para dentro do que para fora, produzem pouco e a custos muito elevados. Alguns são geniais, mas a soberba os deixa mal perante a opinião pública.

Se a canção diz que “a vida é arte, errar faz parte”, porque cultivar a altivez da infalibilidade? O problema é que geralmente os seres humanos quanto mais erram mais persistem na dissimulação ou mesmo no erro. Reconhecer a verdade dos fatos e admitir como importante e justo o trabalho de outrem demandam tempo. Felizmente que, tanto no interior quanto fora do circuito acadêmico, há exemplos de intelectuais que não se amesquinham. Escrevendo do jeito que querem, sem amarras, levantam questões, participam. Para repetir Bóris Fausto, são intelectuais sem pose, sem preocupações eruditas.

De toda sorte, existem razões para refletir. O professor-doutor Renan Freitas Pinto, da UFAM, afirmou recentemente: “A intelectualidade da Amazônia está silenciada… A região está rigorosamente colonizada. Parcela expressiva dos pensadores [do Amazonas] pensa a partir dos editais [do CNPq e da CAPES] para desenvolver seus projetos. É um tipo de pesquisa extremamente formal [revelando] a colonização onde a produção acadêmica é uma das expressões maiores do colonialismo brasileiro interno”.

Há uma fome pela História que os trabalhos da academia não conseguem contemplar. A Amazônia precisa se reconhecer para ser uma região melhor. A sociedade brasileira (e mais ainda a amazonense) não se interessa pelo estudo da História, e essa conjuntura contribui para a desconstrução da memória coletiva. O desinteresse não é só de professores e alunos, mas está em toda a parte. Terra sem heróis, aqueles homens (e mulheres) que se doaram pelo Amazonas dificilmente são reconhecidos. Faltam debates e conversas sobre o tema. Isso precisa urgentemente mudar.

A importância das obras de autores amazonenses – procedentes ou não do meio acadêmico – está no fato de possibilitar aos estudiosos refletirem sobre a História do Estado e da Amazônia. É justo reconhecer que o maior volume do que é atualmente produzido sobre o período colonial amazonense tem ainda como referência as pesquisas realizadas há mais de oitenta anos pelos historiadores Arthur Cézar Ferreira Reis (1906-1993) e Mário Ipiranga Monteiro (1909-2004) – tal qual o sociólogo Samuel Benchimol (1923-2002), até um tempo atrás eram demonizados pelo mundo acadêmico.

Os dois últimos têm seus trabalhos mais ou menos reconhecidos e, merecidamente, são sempre lembrados. Porém, o intelectual e governador amazonense que mais destacou a sua terra natal – Arthur Cézar Ferreira Reis – está no limbo.

No próximo dia 05 de setembro completar-se-ão 50 anos da conclusão e inauguração da Rodovia “Antônio Vital de Mendonça”, a via de integração entre Manaus e Itacoatiara. Data importante que, em condições de razoabilidade, deveria movimentar o governo para comemorá-la, e, ao mesmo tempo, enaltecer a figura de Arthur Cézar Ferreira Reis, o governador responsável pela epopeia. Todavia, nenhum movimento há nesse sentido, ao que me consta nada será feito, o assunto cairá no esquecimento. O que é lamentável e extremamente injusto

Arthur Cézar Ferreira Reis é (será sempre!) o maior historiador da Amazônia. Sua obra representa um momento privilegiado e rico do pensamento sobre a região. A seu respeito, escrevi no preâmbulo ao livro “Lobo d’Almada, um estadista colonial”, em 3ª edição (2006), publicada pela Academia Amazonense de Letras, em conjunto com a Livraria Valer e a Prefeitura de Manaus: 

O professor, ensaísta e discípulo de Capistrano de Abreu, Arthur Cézar Ferreira Reis inaugurou os caminhos da moderna pesquisa sobre a Amazônia, além de realizar o mais amplo e completo levantamento das fontes históricas regionais. A verticalidade da sua obra escrita, representada por mais de cem títulos, é toda uma biblioteca para entender-se as prioridades do desenvolvimento da região e um notável contributo de valores ao acervo da erudição nacional.

O celebrado historiador amazonense e visionário mestre regionalista que lutou bravamente para criar uma consciência brasileira em torno da problemática da Amazônia foi um devotado intelectual brasileiro que a tornou mais conhecida universalmente. Exerceu o magistério em Manaus, Belém e no Rio de Janeiro. Organizou e superintendeu a SPVEA [atual SUDAM] e o INPA, governou o Estado do Amazonas e presidiu o Conselho Federal de Cultura.

De sua vasta bibliografia, além dos títulos particularizando o nosso e outros estados vizinhos (História do Amazonas, O processo histórico da economia amazonense, O seringal e o seringueiro, A explosão cívica de 1932, Manaus e outras vilas, As origens históricas de Parintins, A questão do Acre, Síntese da história do Pará, súmulas da história de Óbidos e Santarém, etc.), constam tratados sobre o todo regional (A política de Portugal no vale amazônico, Paulistas na Amazônia e outros ensaios, Dom Romualdo de Souza Coelho, A conquista espiritual da Amazônia, Estadistas portugueses na Amazônia, A Amazônia e a cobiça internacional, A Amazônia que os portugueses revelaram, Casais, soldados e degredados na colonização da Amazônia, Aspectos da experiência portuguesa na Amazônia, Tempo e vida na Amazônia, A Amazônia e a integridade do Brasil, O impacto amazônico na civilização brasileira e outros).

Por fim, sua escrita incorporou às nossas letras livros de interesse nacional e mundial, tais como As instituições do Brasil colonial, Épocas e visões regionais do Brasil, As regiões brasileiras: formação, peculiaridades e integração, História da imigração e da colonização do continente americano e Temas de história sul-americana.

Arthur Cézar Ferreira Reis nasceu nesta capital [Manaus] no dia 8 de janeiro de 1906 e faleceu no Rio de Janeiro em 7 de fevereiro de 1993. Eleito, na década de 1930, para a Cadeira França Júnior da Academia Amazonense de Letras, dela jamais tomou posse. Reeleito, nos anos 1960, desta feita para a Cadeira número 13 (antiga 17), de Estelita Tapajós, assumiu em 27 de janeiro de 1967, sendo saudado pelo acadêmico Djalma Batista.

Eleito pela Assembleia Legislativa do Amazonas, em 1964, para substituir o governador Plínio Ramos Coelho (1920-2001) – cassado pelo regime militar de 1964 – sua chegada ao governo proporcionou uma revolução na geopolítica, na economia e na cultura. Graças ao prestígio que desfrutava junto ao governo central, através da chamada Operação Amazônia, oportunizou um amplo debate sobre os problemas regionais. Além de presidir a instalação da  Zona Franca de Manaus, conseguiu a transferência do Comando Militar e a direção de vários órgãos regionais, sediados em Belém, para Manaus, a conclusão das rodovias Manaus-Itacoatiara e Manaus-Cacau-Pirera e a consolidação da Universidade Federal do Amazonas, mediante a criação e instalação das faculdades de Engenharia, Medicina, Farmácia e Odontologia. Criou o Codeama reunindo economistas e sociólogos incumbidos de estudar/debater a realidade regional (dentre muitos jovens da época, ali estavam Francisco Ferreira Batista, Serafim Corrêa, José Jefferson Peres, Ruy Costa Lins, Saul Benchimol e vários outros). Promoveu verdadeira revolução no campo editorial, lançando, através das Edições Governo do Estado do Amazonas, escritores novos e antigos.

Se Arthur Cézar Reis vivo fosse e estivesse, hoje, à frente do governo, seguramente o interior amazonense não estaria abandonado, o Polo Industrial de Manaus não estaria sucateado e o CBA seria uma realidade, uma obra imune à embusteirice que já dura 13 anos.

Além de obras consistentes, fruto do progresso material, palpável, construídas em pouco tempo de gestão (3 anos!), o governador Ferreira Reis promoveu o resgate da autoestima dos amazonenses fazendo reviver na memória local o modelo de vida, a postura cívica e o espírito empreendedor dos nossos principais vultos históricos – quer através da edição ou reedição das respectivas obras autobiográficas, biográficas ou referenciais, quer através da colocação de seus nomes em prédios públicos, e, assim destacou as figuras de Mello e Póvoas, Torquato Tapajós, Agnello Bittencourt, Marquês de Santa Cruz, Estelita Tapajós, Tenreiro Aranha, Araújo Lima e muitos outros. Em Itacoatiara foi exemplar, pegou bem a homenagem prestada às seguintes saudosas personalidades, com a aposição de seus nomes aos principais estabelecimentos escolares da cidade: Mendonça Furtado, Fernando Ellis Ribeiro, Osório Fonseca e Luisa Vasconcellos Dias.

Em 1989, o escritor e ensaísta paraense Leandro Tocantins, que foi representante de seu governo no Rio de Janeiro, escreveu:

Arthur Cézar Ferreira Reis é um típico representante do brasileiro-amazônico: na sua visão regionalista, sem deixar de ser nacional, na sua compreensão brasileiramente autêntica, sem deixar de ser universal (…). Na chefia do executivo estadual, quebra o tabu do intelectual recolhido aos gabinetes, às pesquisas nos arquivos, aos debates nos institutos culturais. No modo como chegaram a prever alguns críticos que, não lhe negando a inteligência, prognosticavam o fracasso administrativo do homem de estudo, do escritor, despreparado, segundo eles, para a função de governo. Quase ninguém – esta é a verdade – previa que o cordial e bem humorado professor nas Universidades do Rio de Janeiro se tornasse o governante de pendores modernos, unindo autoridade com ativismo, inteligência com administração. Numa fase de hipocrisia e mediocridade, que ainda são trunfos certos na dita carreira política, Arthur Reis lança-se um tanto quixotescamente contra tudo que é arcaico, amoral, obscuro. Contra tudo que represente rotina, atraso, conluio. A favor da saúde administrativa. Boa saúde na inteligência e no propósito dos homens. Na Educação, nas Artes, nas Letras, nas Ciências. No trabalho de cada dia, observado, vigiado, estimulado em pessoa pelo governador, que ora estava numa estrada se abrindo em plena selva, ora ministrava uma aula na Universidade amazonense, ora examinava numa gráfica os livros que o governo mandara editar, ora dava incertas no canteiro de construção de escolas, hospitais, centrais telefônicas, estados esportivos.

Também a seu respeito, depôs em 1989 o poeta amazonense Elson Farias:

Nosso cotidiano em Manaus, naqueles idos [pós-1964], resumia-se nos encontros diários no antigo e hoje restaurado Café do Pina, nas periódicas reuniões do Clube da Madrugada sob o pálio do mulateiro da Praça da Polícia, ou em qualquer bar, no centro da cidade, onde [os intelectuais] nos encontrávamos, semanalmente, para, entre um trago e outro, preparar a tiragem dominical da página literária que editávamos em o Jornal, da Empresa Archer Pinto, àquela altura, veículo de maior circulação do Estado.

Após o impacto do acontecimento que incomodou e prejudicou, logo de saída, uma série de companheiros nossos, correu a boa nova de que para o Governo do Estado viria o professor Arthur Reis, amazonense ilustre, há muito residindo fora do Amazonas, no exercício de funções públicas relevantes, construindo obra monumental de historiador, ou exercendo o magistério, que, mais tarde, vim a saber constituir-se numa das paixões de sua vida.

Poucos são os chamados homens práticos capazes de considerar como útil e válido o trabalho intelectual ao desenvolvimento, porque para eles o poeta é ou um vagabundo ou um subversivo. Ciente desse cacoete da sociedade brasileira, o Governador Arthur Reis convidou logo para trabalhar em seu governo jovens intelectuais como o Márcio Souza, por exemplo, e, sem dúvida, com os ouvidos cansados do som monocórdico das intrigas que lhe chegavam contra a malta de desocupados que se reunia nas praças públicas e nos bares da cidade a discutir o sexo dos anjos, uma noite juntou em sua casa, a residência oficial do Chefe do Executivo, numa cobertura do Palácio Rodoviário no bairro da Cachoeirinha, num jantar descontraído e simpático, todo o mundo do Clube da Madrugada, encontro a que todos comparecemos sem nenhum receio, não obstante o humor negro de alguns dos nossos que na doce galhofa dos anos juvenis, preconizavam que a intenção do representante da Revolução em nossa terra era conhecer os subversivos amazonenses e, a um só golpe de mão, metê-los a todos na cadeia…

A tensão em torno dos sonhadores distendeu-se porque o Governador do Estado passou a comparecer às festas da praça com a turma do Clube, reservando horas de seu precioso tempo para dedicar-se a conversas com poetas, pintores, músicos, romancistas, adquirindo obras daqueles jovens autores para divulgar lá fora e editando-os no seu amazônico programa editorial, que estavam entre suas metas prioritárias de ação administrativa.

A despeito de nomeado pelos militares para “tratar com mão de ferro” os políticos de então (fato compreensível porque estávamos em plena ditadura), o governador Arthur Cézar Ferreira Reis – conforme a elucidativa palavra de Elson Farias – na relação com escritores e artistas agiu com passividade. Estimulou a defesa da Amazônia, causa da qual foi diligente cultor e o maior propagador.

Graças à sua forte personalidade, Mestre Arthur Reis, aqui e ali, demonstrava-se menos chefe de governo e agia mais como mecenas revelando talentos e apoiando idealistas.  Entre muitos, também fui beneficiado pela política cultural então implantada. E eu contava menos de 19 anos! No dia 5 de setembro de 1965 – há exatamente meio século – ao presidir a inauguração da Rodovia Manaus-Itacoatiara, fez incluir na programação o lançamento em minha cidade natal do livro “Itacoatiara. Roteiro de uma cidade”, o primeiro de minha autoria, qual, além de abrir a Série Paulino de Brito das Edições Governo do Estado do Amazonas, mereceu generoso prefácio do grande amazonólogo.

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Uma resposta

  1. Você sabe o nome dos filhos do Arthur, vi em algum lugar que ele teve 05 filhos com Graziela Reis. Gostaria de descobrir se algum dos filhos dele foi seminarista?

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