Manaus, 30 de novembro de 2023

Crônicas do cotidiano: O declínio do bom senso

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Um tiro no pé de Carlos Lacerda, dado por um pistoleiro contratado por um segurança do corpo de guarda da Presidência da República, na Rua Toneleiros, Capital do Brasil, na madrugada de 05 de agosto de 1954, culminou com o tiro no peito que marcou o suicídio de Getúlio Vargas 19 dias depois, e sua Carta Testamento, na qual dizia: “saio da vida para entrar na história”. Embora o alvo fosse Lacerda, dois disparos tiraram a vida do Major Aviador Rubens Florentino Vaz, que havia dado uma carona à Lacerda, na volta de um comício no Pátio do Colégio São José.

É oportuno lembrar que o “Governo Vargas” e a sua Ditadura começaram com o desfile do cadáver de João Pessoa, o Vice de Getúlio, em 1930, assassinado por um desafeto, em Recife. O crime passional virou político, empoderou Getúlio, derrotado nas eleições, e permitiu que ele pusesse fim à República Velha. Portanto, nossas campanhas políticas nem sempre são pacíficas, apenas vão ficando mais violentas, dependendo das crises. E as crises políticas tornam-se mais explosivas com a mistura de paixões exacerbadas com fatos concretos de descontentamento e condições de vida, sejam elas econômicas ou de injustiças sociais acumuladas; e se tornam verdadeiras tempestades ao juntarem-se esses dois fenômenos, sobretudo, quando ocorrem em um vácuo de liderança ou de esperança para os mais atingidos.

“Sempre que, em questões políticas, o são juízo humano fracassa ou renuncia à tentativa de fornecer respostas, nos deparamos com uma crise; pois essa espécie de juízo é, na realidade, aquele senso comum em virtude do qual nós e os nossos cinco sentidos individuais estão adaptados a um único mundo comum a todos nós, e com a ajuda do qual nele nos movemos…Em toda crise, é destruída uma parte do mundo, alguma coisa comum a todos nós. A falência do bom senso aponta, como uma vara mágica, o lugar em que ocorreu esse desmoronamento” (Hannah Arendt. ENTRE O PASSADO E O FUTURO. SP: Perspectiva, p. 227, 1972).

Nessa obra capital, Arendt discorre primeiro sobre esse vácuo entre os mundos – o passado e o futuro, no qual prevalece a perda da obra de um mundo comum, que inclui a história, e no qual resta aos humanos “uma separação desesperadamente solitária ou comprimidos em uma massa” (p.126). O sintoma de declínio da democracia é a troca de sinal sobre a fonte da autoridade: “a origem da autoridade no governo autoritário é sempre uma força externa e superior a seu próprio poder; é sempre dessa fonte, dessa força externa que transcende a esfera política, que as autoridades derivam a sua ‘autoridade’ – isto é, sua legitimidade – em relação à qual o seu poder pode ser confirmado” (p.134). Exemplo dessas forças externas: Religião (nas Teocracias); Nacionalismos exacerbados (garantidos por forças armadas desvirtuadas, que legitimam os usurpadores do poder político legítimo – Ditaduras); Tradicionalismo (que nos remete ao Patriarcado e ao machismo); e Ideologias Supremacistas. Os regimes fascistas inovaram ao juntar elementos dessas várias forças de organização social na perversidade de um regime só, e deu no que deu. Por fim, discorre sobre a liberdade – que só ocorre “quando o quero e o posso coincidem” (p.208), e que, desvirtuada, dá lugar à libertinagem do querer individual sem limites, ignorando o direito do outro e contrariando as conquistas democráticas da sociedade.

Deslegitimada a autoridade, rompidos os elos que garantem a liberdade, construídos historicamente, e perdido esse sentimento de senso comum, que regula a nossa convivência no cotidiano, só resta a barbárie, esse sentimento espúrio e mesquinho, que vê o outro como o outro, que não é parte de mim, do meu mundo, da minha humanidade, simplesmente porque não pensa como eu penso. É esse, portanto, o caldo da crise que devemos evitar enquanto é tempo, pois emana dessas forças externas, que alimentam e garantem o autoritarismo e a “banalidade do mal”.

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